TEXTOS DE NELSON VAZ

Imunologia – Uma outra história

Imunologia: uma outra história  Curso no ICB UFMG

Nelson Vaz – ICB-UFMG 2º semestre 2016

O curso “Imunologia: uma outra história” pretende ser um pequeno curso que substitui e modifica outro pequeno curso denominado “Imunologia e Autopoiese” que orientei por alguns anos para cerca de 10 alunos de graduação em Biologia no ICB-UFMG. O termo “autopoiese”, foi introduzido na Biologia pelo neurobiólogo chileno Humberto Maturana nos anos 1960-1970 em uma teoria sobre “o conhecer” e sobre o “viver na linguagem” que é característico dos seres humanos.

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Figura 1. Humberto Maturana, em Santiago

Embora central na teoria de Maturana, a “autopoiese” , que significa auto-criação/manutenção, por si só, não   adiciona muito ao que já sabemos: os seres vivos estão entregues a si próprios, são entidades autônomas. O termo só adquire um significado importante quando inserido na teoria cuja denominação mais adequada é    “Biologia do Conhecer e da Linguagem”, que tem como ícone a figura a Figura 2, que representa a ser vivo em seu meio segundo Maturana.

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Figura 2: O ser vivo em seu meio

O curso “Imunologia e Autopoiese” consistia em uma série de conversas sobre a associação que vejo entre a “Biologia do Conhecer e da Linguagem” e a Imunologia. Ocorre que “imunologia” também é um termo que, por si só, não adiciona muito às intenções que eu queria desenvolver durante o curso. A imunologia experimental e teórica que pratico desde o final dos anos 1970 tem muito pouco a ver  com a “imunidade anti-infecciosa”, que é maneira usual, universal de entender o significado do termo “imunologia”. Ao final dos anos 1970, constatamos que os animais restringem muito a quantidade de anticorpos que formam quando são imunizados (injetados) com antígenos (proteínas) que ingeriram antes como alimentos. Esta pode ser uma redução muito significativa, dependendo da quantidade de proteína ingerida e da frequência da ingestão. Este fenômeno foi muito estudado dos anos 1970 para cá e é conhecido como “tolerância oral”.

Assim como o termo “autopoiese”, o termo “tolerância oral” não representa bem o modo pelo qual vejo este fenômeno, que me parece mais como um “assimilar” de coisas do meio. Em nosso laboratório, este “assimilar” tem como ícone um desenho criado por meu amigo Hélio Rola em um cartão postal que me enviou nos anos 1980 (Figura 3); na Figura 4, o autor em seu atelier, em Fortaleza.

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Figura 3: “O assimilar”

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Figura 4: Hélio Rola

 

Então, este novo curso “Imunologia: uma outra história” pretende ser uma série de conversas sobre a associação que vejo entre a “Biologia do Conhecer e da Linguagem” e “O assimilar”. Mas, ocorre ainda uma  adição importante de um terceiro conceito: “O inesperável”. Falo do que é inesperável e não simplesmente inesperado, como Maturana discute em um de seus livros em português (anexo). Fui despertado para a importância do “inesperável” pela leitura de textos de Andrew Pickering, um sociólogo-filósofo da ciência do núcleo de Filosofia da Biologia da Universidade de Exeter, na Inglaterra (Pickering 2002; 2010). Certa vez, Maturana disse que “Nada é mais difícil de respeitar do que aquilo que, depois de ouvido, nos parece óbvio”. Ele estava certo. Pickering nos alerta para o inesperável, para o fato óbvio (depois de aceito) de que em nosso viver, e o viver de todas as criaturas, no viver em si mesmo, podemos ser surpreendidos a qualquer momento por eventos com os quais não contávamos.

Para nos explicar a importância deste fato, Pikering toma como exemplo a história da cibernétca britânica dos anos 1950. Esta história seguiu um trajeto diferente, quase oposto à cibernética mais conhecida, criada nos Estados Unidos, a ciência que conduziu à invenção dos computadores digitais, à robótica e à pesquisa sobre a inteligência artificial. Para os cientistas britânicos que Pickering descreve (Grey Walter, Ross Ashby, e depois Gordon Pask e Stafford Beer), melhor que ver o cérebro como um órgão “para pensar”, é vê-lo como um órgão que nos permite agir para nos mantermos adaptados a (em congruência com) um meio que não cessa de mudar e que não podemos controlar inteiramente. Ou melhor: como lidar com o inesperável. Pickering fala de uma “ontologia não-moderna” e de um “idioma performático”, que valoriza mais aquilo que fazemos do que aquilo que pensamos; valoriza mais a prática da ciência nos laboratórios que aquilo que os cientistas dizem que fazem.

Ao me familiarizar com estas e outras ideias de Pickering notei uma grande semelhança entre esta definição do papel do cérebro e a definição da atividade imunológica, como nós a concebíamos. Para nós, é exatamente isto: a atividade imunológica mantém o organismo adaptado a um meio molecular continuamente cambiante. Ela é, portanto, um dos meios pelo qual o organismo lida com o inesperável em termos moleculares. Não se trata de uma série de episódios de adaptação. A imunidade – como a vemos – não é “adaptativa” mas, sim, é parte de uma fisiologia conservadora, a adaptação é conservada a despeito dos nossos encontros com o inesperável. Em conversas com Adriano Ávila, designer que projeta um site para nós, me dei conta de que se invertesse o símbolo da autopoiese, eu criaria algo na direção do inesperável. Pareceu-me que, ao contrário do símbolo original, no qual o ser vivo parece apoiado no meio em que vive, no símbolo invertido o ser vivo (para mim) parece “pendurado” no meio, numa relação mais precária, ameaçada pelo inesperável.

Acrescentei, então, com o “N” virtual criado por Adriano Ávila,  que nos lembra as setas do ícone da autopoiese e reforça ainda mais a relação entre os dois conceitos, criei, o termo “imuNontologia” para representar o trajeto da imunologia na direção ao inesperável.

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Figura 5: O inesperável

Em resumo, portanto, o curso “Imunologia: uma outra história” tem este ícone trifurcado que alinha:  (a) a “Biologia do Conhecer e da Linguagem” de Maturana; (b) “O assimilar” a atividade imunológica, como a vemos; e  (c) o tratamento dado a “O inesperável” segundo Pickering.

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Figura 6: O conhecer, o assimilar e o inesperável

Ludwig Wittgenstein dizia que não se orgulhava do que sabia, mas que se orgulhava do trabalho que teve para obter este conhecimento. As ideias que discutiremos no curso são “óbvias depois de aceitas” – uma característica curiosa que encontrei pela primeira vez nas palavras de Francisco Varela e Humberto Maturana. Antes de aceitas, porém, elas parecem complicadas e sem sentido.

O material de leitura disponível é muito extenso, constando de muitos artigos e livros e contém também muitos vídeos, grande parte dos quais traduzi para o português. O aproveitamento no curso será proporcional ao trabalho investido na leitura e na atenção a estes textos e vídeos.

O “Enigma Jompoma

Faço uma última referência neste texto que está ficando muito denso. Viu chamar de “Enigma Jompoma[1]” uma afirmação que consta como epígrafe em um pequeno livro que escrevemos em 2011, que diz: “

“Há plasticidade nos modos de desenvolver. Os caminhos do desenvolvimento têm plasticidade em todos os momentos, e isso é o que permite essa maravilhosa diversidade de linhagens de seres vivos. Mas o problema não é o que é plástico, e sim o que se conserva. Se a mudança é uma condição constitutiva do viver, então, como se conserva aquilo que se conserva?” (Mpodozis, 2011). “Jompoma” é o apelido de Jorge Mpodozis Marin, neurobiólogo chileno coautor de ideias importantes na Biologia do Conhecer e da Linguagem (Figura 7).

Jompoma pergunta: “Como se conserva aquilo que se conserva naquilo que muda” e não conheço maneira melhor de expressar este enigma de podermos lidar com o inesperável. Então, de certa forma, o curso “Imunologia: uma outra história” é uma série de conversas sobre o “Enigma Jompoma”.

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 No texto que escreveram sobre o processo evolutivo, que eles chamam de “deriva natural”, Maturana e Mpodozis dizem: “Então, a epigênese é um processo no qual a estrutura total inicial de um sistema vivo  não predetermina as mudanças estruturais que ele atravessará em sua deriva   estrutural ontogênica, porque essas surgirão momento a momento nas interações da estrutura do sistema vivo e do meio no qual ele vive.” (Maturana and Mpodozis, 2000)

O estudo do sistema imune demonstra de forma exemplar a criação de um sistema (um sub-sistema do organismo vertebrado) que existe em interseção com vários outros sistemas e órgãos que compõem o organismo e, no entanto, não está predeterminado (pré-estabelecido) no DNA e, portanto, não é determinado geneticamente, mas sim epigeneticamente,

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“Os seres vivos são simultaneamente protagonistas de duas histórias, duas seqüências de mudanças estruturais, que são: o decorrer de seu viver individual (a ontogênese) e o decorrer de sua vida como um prolongamento da vida de seus ancestrais (a filogênese), que se estende até a origem dos primeiros seres vivos. Ambos esses processos se dão como derivas naturais, ou seja, a estrutura dos sistema vivos muda durante o seu viver, de tal forma que suas modificações não têm nenhuma direcionalidade, exceto aquela que é determinada pela sua própria dinâmica estrutural. O estudo dos seres vivos, portanto, implica o entendimento de uma deriva natural ontogênica e uma deriva natural filogênica” (Maturana and Mpodozis, 2000).

Bibliografia

Maturana, H. and J. Mpodozis (2000). “The origin of species by means of natural drift (269).”  Revista Chilena de Historia Natural 73: 261-310.

Pickering, A. (2010). The Cybernetic Brain: Sketches of Another Furure. London, The University of Chicago press.

Pickering, A. (2002). “Cybernetics and the Mangle: Ashby, Beer and Pask.”This paper was written for a colloquium held at the Centre Koyré in Paris in May 2000. Este texto é um prelúdio do livro acima, que Pickering escreveria em 2010 e estas são as   primeiras palavras:

A historiografia das ciências desde a segunda guerra mundial compreensivelmente devotou mais atençãoo às disciplinas principais como a Física e a Biologia. De forma crescente, porém, historiadores têm sido atraídos para um campo estranho que só recebeu seu nome após a segunda guerra, conhecido como cibernética. Por motivos o óbvios, os heróis do período fundador da cibernética —Norbert Wiener, John von Neumann, Warren McCulloch, Walter Pitts, Claude Shannon—foram os mais estudados. No entanto, aqui quero adicionar alguns nomes a esta lista. Espero mostrar que uma das partes mais interessantes – e divertida e ocasionalmente inpiradora – do trabalho em cibernética, do final dos anos 1940 – início dos 1950, foi realizado por um grupo menos conhecido de ciberneticistas britânicos, entre os quis estavam W. Ross Ashby, Stafford Beer and Gordon Pask. A maior parte deste ensaio é histórica, mas entrelaçada na mesma estão reflexões teóricas e eu devo começar explicando porque. (texto completo traduzido disponível por demanda)