Humberto Maturana

Linguagem e realidade: a origem do humano

Linguagem e realidade: a origem do humano

Humberto Maturana

Arch. Bio. Med. Exp.22:77-81(1989).

Tradução de Cristina Magro e Nelson Vaz.

Sumário

Neste texto, o autor propõe que:

  1. Uma linhagem de sistemas vivos é constituída pela conservação reprodutiva de uma maneira de viver sob a forma de um fenótipo ontogênico.
  2. O linguajear é uma maneira de viver recorrentemente em coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações.
  3. A maneira humana de viver implica, entre outras coisas, em um entrelaçamento do linguajear e do emocionar-se, a que chamamos conversar.
  4. Os seres humanos surgem na história de primatas bípedes com a origem da linguagem, e com a constituição de uma linhagem definida pela conservação de um fenótipo ontogênico que inclui a conversa como parte indispensável.
  5. A magnitude do envolvimento do cérebro, da anatomia da laringe e da face na fala como nossa maneira de linguajear indica que a linguagem não pode ter surgido mais recentemente que dois ou três milhões de anos atrás.
  6. A racionalidade pertence às coerências operacionais do linguajear, e, que domínios racionais diferentes são constituídos por noções básicas diferentes que são aceitas a priori. Isto é, que a racionalidade se baseia em preferências.
  7. A responsabilidade e a liberdade são funções de estarmos atentos à participação de nossas emoções (preferências) na constituição dos domínios racionais em que operamos.

O humano surge, na história evolutiva da linhagem dos hominídeos à qual pertencemos, ao surgir a linguagem.

No âmbito biológico, uma espécie é uma linhagem, ou sistema de linhagens, constituída como tal ao conservar-se transgeracionalmente um modo de viver particular na história reprodutiva de uma série de organismos.

Desde que todo ser vivo existe como um sistema dinâmico em contínua mudança estrutural, o modo de viver que define uma espécie, uma linhagem ou um sistema de linhagens se dá como uma configuração dinâmica de relações entre o ser vivo e o meio, que se estende, em sua ontogenia, desde sua concepção até sua morte. A tal modo de viver ou configuração dinâmica de relações ontogênicas entre o ser vivo e o meio, que ao conservar-se transgeracionalmente em uma sucessão reprodutiva de organismos constitui e define a identidade de um sistema de linhagens, Jorge Mpodozis e eu chamamos fenótipo ontogênico (1). O fenótipo ontogênico não está determinado geneticamente, pois, como modo de viver que se desenvolve na ontogenia ou história individual de cada organismo é um fenótipo, e como tal se dá nessa história individual necessariamente como um presente gerado a cada instante num processo epigenético. O que a constituição genética de um organismo determina no momento de sua concepção é um âmbito de ontogenias possíveis do qual sua história de interações com o meio realizará uma em um processo de epigênese. Devido a isto, ao constituir-se um sistema de linhagens, o genótipo, ou constituição genética dos organismos que constituem tal sistema, fica livre e pode variar enquanto tais variações não interferirem na conservação do fenótipo ontogênico que define o sistema de linhagens. Por isto mesmo, se num momento da história reprodutiva que constitui uma linhagem mudar o fenótipo ontogênico que se conserva, daí em diante muda a identidade da linhagem ou surge uma nova linhagem como uma nova forma ou espécie de organismos paralela à anterior. Nestas circunstâncias, para se compreender o que acontece na história de mudanças evolutivas de qualquer classe de organismos, é necessário encontrar o fenótipo ontogênico que nela se conserva e em torno do qual se produzem tais mudanças. Assim, para compreender a história evolutiva que dá origem ao humano, é necessário primeiro olhar o modo de vida que, ao conservar-se no sistema de linhagens hominídeas, torna possível a origem da linguagem, e logo olhar o novo modo de vida que surge com a linguagem, e que ao conservar-se estabelece a linhagem particular a que nós, os seres humanos modernos, pertencemos. Consideremos isto por um momento:

  1. a) A origem da linguagem, como um domínio de coordenações de conduta consensuais, exige uma história de encontros recorrentes de aceitação mútua suficientemente intensos e prolongados (ver Maturana, 1978, 1988).
  2. b) O que sabemos de nossos ancestrais que viveram na Africa há três e meio milhões de anos, indica que tinham um modo de viver centrado na colheita e no compartilhamento de alimentos, na colaboração de machos e fêmeas na criação das crianças, numa convivência sensual e numa sexualidade de encontro frontal, no âmbito de grupos pequenos formados por uns poucos adultos, jovens e crianças.
  3. c) O modo de vida indicado em (b), e que ainda conservamos no que há de fundamental, oferece tudo o que é necessário: primeiro, para a origem da linguagem; segundo, para que o surgimento desta constitua a conversação como o entrecruzamento do linguajear(2) e do emocionar-se (ver Maturana, 1988); e, terceiro, para que com a inclusão da conversação como mais um elemento a ser conservado no modo de viver hominídeo se constitua o fenótipo ontogênico particular que define o sistema de linhagens a que nós, seres humanos modernos, pertencemos.
  4. d) O fato de os chimpanzés e os gorilas atuais, cujo cérebro é de um tamanho comparável ao de nossos ancestrais, poderem ser incorporados à linguagem mediante a convivência em Ameslan (American Sign Language), sugere que o cérebro de nossos ancestrais de há três milhões de anos já devia ser adequado para a linguagem. O que diferencia a linhagem hominídea de outras linhagens de primatas é um modo de vida no qual o compartilhamento de alimentos, com tudo o que isto implica em termos de aproximação, de aceitação mútua e coordenações de ações na transferência de coisas de uns para os outros, desempenha um papel central. O modo de vida hominídeo é o que torna possível a linguagem, e o amor, como a emoção que constitui o espaço de ações em que se dá o modo de viver hominídeo, é a emoção central na história evolutiva que nos dá origem. Isto é aparente no fato de que a maior parte das enfermidades humanas, somáticas e psíquicas, pertencem ao âmbito de interferências com o amor. O modo de viver propriamente humano, sem dúvida, se constitui, como já se disse, quando se agrega a conversação ao modo de viver hominídeo e começa a conservar-se o entrecruzamento do linguajear com o emocionar-se como parte do fenótipo ontogênico que nos define. Ao surgir o modo de vida propriamente humano, a conversação como ação pertence ao âmbito emocional em que surge a linguagem como modo de estar nas coordenações de ações na intimidade da convivência sensual e sexual. Que isto é assim, é aparente de várias maneiras:
  1. a) nas imagens táteis que usamos para nos referimos ao que transmitem as vozes da fala; assim dizemos que uma voz pode ser suave, acariciante ou dura;
  2. b) nas mudanças fisiológicas, hormonais, por exemplo, que nós desencadeamos mutuamente com a fala, e
  3. c) no prazer que temos na conversação e em nos movermos no linguajar.

Quando começaram o linguajear e o conversar em nossa   história   evolutiva? O   enorme compromisso estrutural atual de nosso sistema nervoso, de nossa laringe, de nosso rosto, assim como de outros aspectos de nosso corpo com a fala como nosso modo mais fundamental de estar na linguagem, indica que o linguajear sonoro tem que ter tido início há vários milhões de anos; na minha opinião, entre dois e três.

  

As realidades

A existência humana na linguagem configura muitos domínios de realidade, cada um constituído como um domínio de coerências operacionais explicativas. Estes domínios distintos de realidade são também domínios de tarefas que geramos na convivência com o outro e que, como redes de conversações (redes de coordenações de ações e emoções), constituem todos nossos âmbitos, modos e sistemas (instituições) de existência humana. Nestas circunstâncias, a realidade em qualquer domínio é uma proposição explicativa da experiência humana.

 

As emoções

O que distinguimos quando falamos de emoções é o domínio de ações em que o organismo observado se move. Daí eu dizer que as emoções correspondem a disposições corporais que especificam o domínio de ações em que se move um organismo. Também digo que as distintas ações humanas ficam definidas pela emoção que as sustenta, e que tudo o que fazemos nós fazemos a partir de uma emoção. Por isto, ainda que o humano surja na história evolutiva a que pertencemos ao surgir a linguagem, ele se constitui, de fato, como tal na conservação de um modo de viver particular em que o compartilhamento de alimentos, a colaboração de machos e fêmeas na criação das crianças e no encontro sensual individualizado recorrente se dão no entrelaçamento do linguajear e do emocionar que é a conversação. Em outras palavras, toda ocupação humana se dá na conversação, e tudo o que não se dá na conversação na vida dos seres humanos não é tarefa humana. Assim, ao mesmo tempo, como toda tarefa humana se dá a partir de uma emoção, nada humano ocorre fora do entrelaçamento do linguajear com o emocionar-se, e, portanto, o humano é vivido sempre a partir de uma emoção, e também de um mais excelso e puro raciocinar. Finalmente, o emocionar-se, em cuja conservação o humano se constitui ao surgir a linguagem, se centra no prazer da convivência, na aceitação do outro junto de nós, ou seja, no amor, que é a emoção que constitui o espaço de ações em que aceitamos o outro na proximidade de nossa convivência. Que o amor seja a emoção que alicerça na origem do humano o gozo do conversar que nos caracteriza faz que tanto nosso bem estar como nosso sofrimento dependam de nosso conversar, e se originem e terminem nele.

 

O racional

Na experiência cotidiana a razão ou a racionalidade nos aparece como uma propriedade constitutiva da consciência humana.

Na história evolutiva humana, sem dúvida, o raciocinar surge com a linguagem nas regularidades de sua operação. Por isto o racional ou a racionalidade humana é uma distinção que um observador faz do fluir nas coerências do discurso na linguagem, quando pode dizer que este ocorre sem confusão de domínios. Disto resulta que todo domínio ou sistema racional é um sistema de coerências na linguagem que se constitui a partir de um conjunto de premissas básicas aceitas como válidas a priori. Disto resulta também:

a) que um argumento é racionalmente válido somente no domínio racional constituído pelas premissas básicas que o sustentam;

  1. b) que quem aceita um argumento como racionalmente válido aceita implícita ou explicitamente as premissas básicas que constituem o domínio racional em que tal argumento tem validade;
  2. c) que na medida em que as premissas básicas que definem um domínio ou sistema racional são aceitas a priori, o são a partir das preferências do que as aceita, e
  3. d) que o domínio racional em que opera um observador depende de sua emoção ao mover-se da aceitação de umas premissas básicas a outras, segundo suas preferências do momento. Na vida cotidiana nos movemos de um domínio racional a outro no curso de nossa emoção, muitas vezes sem nos darmos conta disto. Por isto, o fluir dos discursos racionais nas interações humanas depende do fluir emocional das conversações em que estas se dão.

Isto correntemente não vemos, porque correntemente somos cegos às nossas emoções. Em suma, a validade de nossos argumentos racionais não depende de nossas emoções, mas o domínio racional em que nos encontramos em cada instante ao conversar, sim.

 

Conclusões

Darmo-nos conta de que nós, seres humanos, existimos como tais no entrecruzamento de muitas conversações em muitos domínios operacionais distintos que configuram muitos domínios de realidades diferentes, é particularmente significativo porque nos permite recuperar o emocional como um âmbito fundamental do ser humano. Na história evolutiva configura-se o humano com o conversar ao surgir a linguagem como uma operação recursiva nas coordenações consensuais de conduta que se dão no âmbito de um modo particular de viver no fluir do co-emocionar dos membros do grupo particular de primatas bípedes a que pertencemos. Por isto, ao surgir a conversação com o surgimento da linguagem no âmbito operacional de aceitação mútua (amor) nestes primatas, o humano fica fundado constitutivamente com a participação básica do emocionar-se e em particular do amor. Na fantasia da cultura patriarcal a que pertencemos no Ocidente, e que agora parece expandir-se por todos os âmbitos da Terra, as emoções têm sido desvalorizadas em favor da razão, como se esta pudesse existir com independência ou em contraposição a elas. Reconhecer que o humano se realiza na conversação como entrecruzamento do linguajear e o emocionar-se que surge com a linguagem, nos entrega a possibilidade de nos reintegrarmos nestas duas dimensões com uma compreensão maior dos processos que nos constituem em nosso ser cotidiano, assim como a possibilidade de respeitar em sua legitimidade estes dois aspectos de nosso ser. Desde pequenos nos é dito que devemos controlar ou negar nossas emoções porque estas dão origem à arbitrariedade do não-racional. Agora sabemos que isto não deve ser assim. Na conversação surge também o racional como o modo de estar no fluir das coerências operacionais das coordenações consensuais de conduta do linguajar. Sem dúvida, a efetividade do raciocínio em guiar as coordenações de ações nas tarefas técnicas nos torna cegos para o fundamento não racional de todo domínio racional, e transforma tanto sua pretensão de não arbitrariedade quanto qualquer afirmação racional em uma petição de obediência ao outro que limita nossas possibilidades de reflexão, porque nos impede de nos vermos na dinâmica emocional da conversação. Isto é importante para a compreensão do humano e do racional porque, ainda que pareça estranho, ao nos aceitarmos que as emoções participam como fundamento de qualquer sistema racional no fluir da conversação, obtemos o verdadeiro valor da razão na compreensão do humano. E isto é assim, porque agora sabemos que devemos nos dar conta de nossas emoções e conhecê-las em seu fluir, se queremos que nossa conduta seja efetivamente racional a partir da compreensão do racional.

Finalmente, darmo-nos conta do entrelaçamento do emocionar e do linguajear que toda conversação, e portanto que todo fazer humano é, dá fundamento à compreensão de duas dimensões adicionais do ser humano, isto é, a responsabilidade e a liberdade:

  1. a) somos responsáveis no momento em que, em nossa reflexão, nos damos conta de se queremos ou não queremos as conseqüências de nossas ações, e
  2. b) somos livres no momento em que, em nossas reflexões sobre nosso fazer, nos damos conta de se queremos ou não queremos nosso querer ou não querer as conseqüências de nossas ações.

Ao sermos responsáveis e livres, o   curso de nossas ações passa espontaneamente a depender de nossos desejos e de nos darmos conta deles e disto. Nestas circunstâncias, talvez o mais iluminador destas reflexões sobre a realidade e a razão esteja no darmo-nos conta de que a compreensão racional do mais fundamental da vida humana, que está na responsabilidade e na liberdade, surge da reflexão sobre a emoção, que nos mostra o fundamento não racional do racional.

Referências Bibliográficas

Maturana, H. R. (1978). Biology of language: epistemology of reality. In: G.A. Miller & E. Lenneberg (eds.) Psychology and Biology of Language and Thought. Academic Press, New York. p.27-63.

Maturana, H. R. (1988). Reality: the quest for objectivity or the quest for a compelling argument. Irish J.Psychology 9: 25-82.