Humberto Maturana

Autopoiese, Acoplamento estrutural e Cognição: Uma história destas e de outras noções

 

Autopoiese, Acoplamento estrutural e Cognição: Uma história destas e de outras noções

na biologia da cognição.

Humberto Maturana

MATURANA, H. 2002. Autopoiesis, structural coupling and cognition: a history of these and other notions in the biology of cognition. Cybernetics & Human Knowing, 9, 5-34.

 

Sumário

Minha intenção nesse ensaio é refletir sobre a história de algumas noções biológicas, tais como autopoiese, acoplamento estrutural e cognição, que desenvolvi desde o início dos anos 1960, como resultado de meu trabalho sobre a percepção visual e a organização do vivo. Sem dúvida, eu repetirei coisas que já disse em outras publicações (Maturana and Varela, 1980; 1988) e apresentarei noções que já foram consideradas como truismos óbvios. Ao mesmo tempo, vou refinar ou expandir o significado dessas noções, ou mesmo modifica-lo. De qualquer forma, o leitor não é convidado a atentar para tais truismos, ou para o que lhe parece óbvio, mas sim ele ou ela é convidado a atentar para as consequências que a aplicação dessas noções acarretam para a compreensão da cognição como um processo biológico. Afinal, explicações e demonstrações sempre se tornam evidentes depois de aceitas e compreendidas, e o propósito desse ensaio é a expansão da compreensão em todas as dimensões da existência humana.

Palavras-chave: Autopoiese, acoplamento estrutural, cognição, explicações, auto-consciência

 

  1. Mudanças conceituais.

           Em 1960, me perguntei o que deveria acontecer na maneira de constituição de um sistema de tal forma que eu pudesse ver um sistema vivo como resultado de sua operação. Essa era uma pergunta curiosa numa época em que todo cientista sabia que, para conhecer qualquer coisa sobre alguma coisa, se deveria (simplesmente) olhar o que já estava lá, sem interferir com aquilo. Eu não estava fazendo uma hipótese sobre como o sistema era. Estava propondo que a relação entre a dinâmica interna do sistema e o resultado daquela dinâmica interna no domínio no qual eu observava, me diria o que o sistema era. Eu tinha que criar o sistema para conhecê-lo.

Em 1965, quando eu estudava o mecanismo da visão de cores em pombos, compreendi que não poderia mais imaginar que vemos as cores como aspectos de um mundo exterior, e que eu tinha que abandonar a pergunta: “Como posso ver aquela cor?” e, em vez disso, perguntar: “O que se passa comigo quando eu digo que vejo aquela cor?”. Fazer essa mudança significava abandonar a noção de que existe um mundo exterior independente a ser conhecido pelo observador. E que eu teria que aceitar que “conhecer” tem a ver com as interações congruentes entre entidades que eram sistemas determinados por sua estrutura, nos quais tudo o que acontecia era determinado a cada momento pela maneira como eles estavam feitos – sua estrutura naquele momento.

Adotar o embasamento epistemológico embutido nessas mudanças significava que, dali em diante, eu não mais perguntaria “O que é?”, mas sim, me perguntaria “Que critérios de validação eu uso para validar minha afirmação de que alguma coisa é o que eu afirmo que ela é?” Ainda mais, fazer isso envolvia uma mudança ontológica fundamental, qual seja: a pergunta fundamental não era mais “O que é?” – qual é a essência do que eu observo, mas sim: “Como faço o que faço como um observador no observar?”

Tudo o que se segue deriva dessa mudança epistemológica e ontológica básica em meu pensar.

 

  1. Autopoiese

1.1 A origem da noção de autopoiese

           Em novembro de 1960, um estudante de medicina de primeiro ano me perguntou: “O que começou há três mil e oitocentos milhões de anos atrás, de tal forma que podemos dizer agora que os sistemas vivos começaram ali?” Como compreendia que, no momento, eu não podia responder adequadamente a essa pergunta, disse que: “Não posso responder a essa pergunta agora mas, se você voltar no ano que vem, eu proporei uma resposta.” Assim, eu aceitei a pergunta do estudante para respondê-la depois e, ao mesmo tempo, aceitei a pergunta para mim mesmo. Ao fazer isso, me dei conta de que, eu não sabia a resposta porque eu não sabia como eram constituídos os seres vivos, portanto, eu teria que criar um sistema vivo, quer conceitualmente ou praticamente, no laboratório. E isso era assim porque eu precisava ser capaz de dizer que tipo de sistemas são os sistemas vivos hoje em dia, para poder dizer o que teve início quando eles surgiram há cerca de quatro bilhões de anos atrás.

Na tentativa de responder a essas perguntas, se tornou óbvio para mim que eu teria de satisfazer duas condições: uma, eu teria que propor uma caracterização da rede de processos que constituem os sistemas vivos como entidades singulares, redes de processos que eu não conhecia; segundo, eu teria que propor algum aspecto dos sistemas vivos que eu conhecia agora como uma referência para decidir que a rede de processos que eu proporia era, na verdade, necessária e suficiente para constituir e realizar um sistema particular e separado como um sistema vivo.

Cerca de 10 anos antes, em 1949, quando eu era estudante de medicina, mas estava doente com tuberculose pulmonar em um sanatório nos Andes, compreendi que o que era peculiar aos sistemas vivos é que eles eram entidades separadas (singulares, distintas), autônomas, de tal forma que todos os processos que eles vivem, são vividos em referência a eles mesmos. Assim, pensei então, se um cachorro me morde, ele não morde a mim: ele faz algo que tem a ver com ele mesmo. Então, pensei, no sentido de compreender os sistemas vivos e explicar o que ocorre neles e o que ocorre com eles em seu viver, eu tinha que tomar como condição fundamental de sua existência como sistemas vivos que eles existiam como entidades autônomas, como entidades dinâmicas de auto-produção contidas em si mesmas, abertas ao fluxo de moléculas através delas. E compreendi que, segundo esse entendimento, se pode dizer que os seres vivos surgiram na história da Terra no momento em que alguma rede de produções moleculares se tornou fechada sobre si mesma e constituiu um entidade separada na qual as moléculas produzidas realizavam a mesma rede de produções moleculares que as produziu, enquanto realizava ao mesmo tempo suas fronteiras como uma totalidade autônoma em um meio molecular com o qual essa entidade mantinha um intercâmbio molecular.

Através desse entendimento minha afirmação passou a ser que: Um sistema vivo é uma entidade molecular dinâmica, que se realiza como tal entidade como uma rede fechada de produções moleculares na qual as moléculas produzidas, através de suas interações: a) constituem recursivamente a mesma rede de produções moleculares que as produziu; e b) especificam a extensão da rede e constituem limites operacionais que a separam como uma entidade distinta em um espaço molecular. Disse tudo isso no entendimento adicional de que como um sistema molecular distinto fechado como uma rede de produções moleculares, um sistema vivo era um sistema molecular aberto ao fluxo de moléculas através dele, desde que moléculas podem entrar e se tornar participantes de sua dinâmica fechada, e moléculas podem também deixar de participar dessa dinâmica molecular e se tornar parte do meio molecular no qual o sistema existe.

Meu primeiro entendimento de como os sistema vivos são redes moleculares auto-produzidas fechadas na dinâmica de suas produções moleculares, mas abertas ao fluxo de moléculas através delas, surgiu subitamente ao final de 1963, em uma conversa com meu amigo Dr. Guillermo Contreras. Eu estava enfatizando um fato que ambos conhecíamos bem, qual seja, que ácidos nucleicos participam com proteínas na síntese de proteínas, e que as proteínas participam, como enzimas, juntamente com ácidos nucleicos na síntese de ácidos nucleicos, tudo isso constituindo uma dinâmica molecular circular apoiada pelo fluxo contínuo de moléculas que usualmente designamos como metabolitos. Estava desenhando um diagrama dessa circularidade, quando exclamei: “É isto! Esta é a expressando mínima da dinâmica circular fechada de produções moleculares que torna os sistemas vivos sistemas moleculares autônomos distintos.”

Depois desse evento, comecei a ver que os mapas metabólicos pendurados nas paredes dos laboratórios de bioquímica, mostrando exemplos de dinâmicas moleculares fechadas, não mostram as moléculas como envolvidas nos processos metabólicos cíclicos que participam na realização das fronteiras que fariam que essas redes moleculares circulares se tornassem entidades distintas no espaço molecular. Penso que esses mapas metabólicos não revelavam a noção de autopoiese, ou a possibilidade de conceber a autopoiese porque não existia o entendimento conceitual de sistemas vivos como sistemas fechados de produção molecular, em virtude da crença de que os sistemas vivos tinham que ser caracterizados como sistemas abertos em termos do fluxo de energia através deles.

Na época, eu não dispunha ainda do termo autopoiese. Assim, no começo de 1964, comecei a dizer que os sistemas vivos eram constituídos como unidades ou entidades discretas como dinâmicas circulares fechadas de produções moleculares abertas ao fluxo de moléculas através delas, nas quais tudo poderia mudar, exceto sua dinâmica circular fechada de produções moleculares. Assim, eu falava de sistemas vivos como entidades discretas autônomas organizadas como redes fechadas de produções moleculares abertas ao fluxo de matéria através delas, enfatizando sua condição de serem entidades singulares discretas fechadas em seus estados dinâmicos. Apenas em 1970 escolhi a palavra autopoiese para designar a organização dos sistemas vivos como entidades discretas autônomas que existiam como redes fechadas de produção molecular, afirmando que a autopoiese era uma condição necessária e suficiente para a constituição dos sistemas vivos, e que os sistemas vivos existiam apenas enquanto a organização autopoiética era conservada. Não concebi em um vácuo, em 1963, meu entendimento dos sistemas vivos como redes autômonas fechadas discretas de produções moleculares, porque concebi isto como uma abstração de meu entendimento do conhecimento biológico disponível na época.

 

1.2 Sistemas moleculares

           Nós, sistemas vivos, somos sistemas moleculares que existimos espontaneamente no domínio molecular sem que processo externos nos dirijam. Ao dizer isso, afirmo também que a autopoiese ocorre apenas no domínio molecular.

Uma rede fechada de produções moleculares que recursivamente produz a mesma rede de produções moleculares que a produziu e especifica a suas fronteiras, enquanto permanece aberta ao fluxo de moléculas através dela, é um sistema autopoiético, e um sistema autopoiético molecular é um sistema vivo. Como tal, um sistema autopoiético (um sistema vivo) existe somente no meio molecular no qual ele pode operar como uma totalidade na conservação de sua dinâmica autopoiética através de contínuas mudanças de sua arquitetura molecular, através da dinâmica térmica espontânea das moléculas. Assim, um sistema vivo surgirá e será conservado em qualquer lugar do cosmos onde as condições moleculares que o realizam se tornem possíveis: como um sistema molecular, um sistema vivo ocorre com uma arquitetura dinâmica fechada que, em suas contínuas transformações, através da dinâmica térmica, continuamente dá origem a si mesma.

Há algo mais, no entanto. O domínio molecular é o único domínio de entidades que, através de suas interações, dá origem a uma diversidade ilimitada (open-ended) de entidades do mesmo tipo (com diferentes arquiteturas dinâmicas) em uma dinâmica que pode dar origem a uma diversidade ilimitada (open-endend) de processos recursivos que, por sua vez, dão origem à composição de uma diversidade ilimitada (open-endend) de entidades dinâmicas distintas. Ou seja, através de suas interações, moléculas dão origem a moléculas e a sistemas dinâmicos de produções moleculares, em processos difusos e localizados que constituem entidades distintas. Penso que, devido a essa peculiaridade do domínio molecular, esse é o único domínio no qual podem existir sistemas autopoiéticos como sistemas discretos singulares que operam através da agitação térmica e de sua arquitetura dinâmica.

Sistemas moleculares existem somente onde podem ser satisfeitas as condições de existência molecular; portanto, a satisfação de tudo que é requerido para a ocorrência dos processos moleculares, está implícita no entendimento de que os sistemas vivos são sistemas auopoiéticos moleculares. O que acontece de fundamental na constituição de um sistema vivo como um sistema autopoiético molecular, é sua contínua realização como uma entidade autônoma que tem uma existência discreta singular que é conservada pelo fluxo de moléculas através dele. Os fenômenos biológicos ocorrem na realização e conservação efetiva (actual) dos sistemas vivos como entidades singulares, não na natureza particular de qualquer dos processos moleculares que os realizam. Qualquer fenômeno que ocorre através da realização efetiva de pelo menos um sistema vivo, é um fenômeno biológico.

Os fenômenos biológicos se passam em uma dinâmica que ocorre no presente, sem nenhuma relação operacional com o que chamamos passado ou futuro. O passado e o futuro são noções explicativas introduzidas pelo observador. O reconhecimento de que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares tem sido minimizado por alguns biólogos sob a alegação de que a noção de autopoiese já teria sido usada por Kant, quando ele descrevia organismos como totalidades nas quais cada parte existia tanto para, como por meio do todo, enquanto o todo existia para e por meio das partes (Kant reprinted 1952, Kauffman 1995). No entanto, o que digo tem uma precisão acima do que Kant poderia ter dito ou imaginado. Falo de como um sistema vivo é construído operacionalmente como sistemas moleculares discretos singulares que surgem como arquiteturas dinâmicas como resultado não-intencional da interação das moléculas que operam em relação a seu local imediato, sem nenhuma referência à totalidade que elas compõem. Não estou dizendo, como Kant e outros disseram, que as partes existem para o todo e o todo existe para as partes. Isso é um comentário de um observador em relação ao que ele ou ela pensa, que não revela o que acontece na dinâmica molecular de uma célula ou um organismo. Moléculas interagem com outras moléculas de uma maneira na qual o resultado de suas interações não participa em momento algum da gênese de suas interações. A noção de autopoiese como caracterização da organização que torna um sistema molecular um sistema vivo, é uma abstração do que o observador vê como uma resultado espontâneo contínuo da arquitetura dinâmica molecular que constitui o sistema vivo através de processos que são estruturalmente congruentes, mas são cegos às conseqüências a que eles dão lugar. Os componentes de qualquer sistema existem como entidades locais somente em relações de contiguidade com outros componentes, e qualquer relação das partes com o todo proposta por um observador, só pode ser uma metáfora de seu desentendimento, e não tem presença operacional alguma. É somente pelo colapso (indevido) de domínios que nós, seres humanos, fazemos em nossas reflexões, que o resultado de um processo pode ser visto (indevidamente) como participante de sua gênese. Não há nada em um sistema molecular que possa ser propriamente pensado como um princípio organizador ou orientador.

A autopoiese não é algo que possa ser chamado de uma propriedade de sistemas vivos, porque ela é sua maneira efetiva de ser como a organização que os constitui como entidades singulares no espaço molecular. Como sistemas autopoiéticos moleculares, os sistemas vivos existem no fluir contínuo de moléculas através deles em sua realização como redes fechadas de processos moleculares que especificam dinamicamente seus limites como entidades singulares moveis flutuantes e deslizantes em um espaço molecular. De acordo com isso, repito, os seres vivos não são as moléculas que os constituem e os realizam momento a momento; eles são redes fechadas de produções moleculares que existem como singularidades em um fluxo contínuo de moléculas através deles. Na verdade, é sua condição de serem dinâmicas moleculares fechadas, o que os constitui como entidades destacadas que flutuam no domínio molecular em que existem. É essa maneira de constituição dos sistemas vivos como sistemas moleculares que denoto, quando digo que não são as moléculas que compõem o sistema vivo (quaisquer que elas sejam) o que o torna um sistema vivo.

Claro está que os sistemas vivos não são os únicos sistemas que diferem dos componentes que os realizam a cada instante. Mencionarei dois casos nos quais está claro que o que constitui um sistema dinâmico, é sua forma de composição dinâmica, não os elementos que os compõem. Um é um tornado, que é um sistema (uma entidade) que existe de uma maneira na qual as moléculas do ar que o realizam como uma entidade singular, fluem através dela continuamente, e não as moléculas particulares que o compõem em um dado momento. Um tornado congelado não seria um tornado. Outro exemplo é um clube, que existe como uma rede discreta de conversações realizada por pessoas que variam no curso dos anos, mas que permanece sendo mesmo clube, enquanto a rede de conversações que o define é conservada através das interações de pessoas que são seus membros a qualquer momento. Os elementos que compõem um sistema não são seus componentes, em si mesmos; eles são seus componentes somente enquanto participam de sua composição, e somente enquanto o fazem. Então, uma molécula particular é um componente de um sistema autopoiético somente enquanto participa da dinâmica molecular autopoiética que o constitui, e deixa de ser um componente do sistema quando deixa de participar dessa dinâmica.

 

1.3 Conservação e processos históricos

           A noção de conservação é uma noção fundamental da qual me apercebi desde que era estudante de medicina, no início dos anos 1950, mas que não comecei a usar com uma compreensão plena até o início dos anos 1960. Na verdade, foi quando comecei a pensar em como explicar a origem dos seres vivos que se tornou óbvio para mim que o que usualmente chamamos relações de conservação, não são aspectos dos processos nos quais as vemos, mas abstrações da coerências estruturais sob as quais o processo histórico se realiza. Como tal, a noção de conservação tinha um valor heurístico porque revelava as coerências operacionais da matriz estrutural (relacional) da arquitetura dinâmica do domínio no qual o processo histórico se realiza. Assim, em 1978, comecei a falar de duas relações (ou leis) de conservação no domínio biológico que definiam o curso que diferentes processos biológicos necessariamente têm que seguir no sentido de poder se dar. Essas são: a lei da conservação da organização (a organização autopoiética no caso dos sistemas vivos) e a lei da conservação da adaptação, ou da congruência operacional com o meio no qual um sistema existe (em nosso caso, um sistema vivo). Essas duas leis de conservação são ambas condições relacionais de conservação dos sistemas vivos no meio, que precisam ser satisfeitas para que eles, de todo, ocorram. Ou seja, a conservação da autopoiese e a conservação da adaptação são condições constitutivas para a realização de sistemas vivos como tais sistemas.

Processos históricos ocorrem momento a momento seguindo um trajeto constituído a cada instante na conservação de algo que conecta os momentos sucessivos, e à volta do qual, todo o resto pode mudar. Então, dizer que sistemas vivos são sistemas históricos, é dizer precisamente que eles existem como entidades singulares em um fluxo contínuo de mudanças estruturais em torno da conservação da autopoiese e da adaptação.

De acordo com isso, não é a mudança que torna a evolução biológica um processo histórico: é a conservação ontogenética e filogenética contínuas da autopoiese e da adaptação, como aquilo em torno do que, todo o resto pode variar. Nessas circunstâncias, o que é primariamente conservado na história dos sistemas vivos é o viver (autopoiese e adaptação). E o que é secundariamente conservado, são formas diferentes de realização do viver através da conservação reprodutiva de diferentes maneiras de realização da autopoiese na conservação da adaptação. Compreender a participação dos processos de conservação torna possível compreender tanto o tipo de sistemas que os sistemas vivos são, quanto compreender a biosfera como o resultado espontâneo da história de conservação da relação organismo/meio na qual os organismos e seus domínios de existência mudaram juntos, congruentemente, como simples resultados da conservação reprodutiva da realização do viver que começou bilhões de anos atrás. Nesse sentido, (a evolução biológica) como comecei a descrevê-la em 1990, é uma frente de onda histórica de sistemas vivos co-evoluindo na conservação reprodutiva sistêmica tanto da autopoiese quanto da adaptação (Maturana and Mpodozis, 1992; 2000).

 

1.4 O viver

Minha afirmação de que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares não é nem uma definição nem uma proposta explicativa: é uma abstração das coerências operacionais demonstradas no viver efetivo dos sistemas como sistemas moleculares. Portanto, minha afirmação de que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares (e que só podem existir sistemas autopoiéticos no espaço molecular) é uma afirmação sobre o que constitui sistemas vivos, uma proposta de como eles surgiram, e sobre como eles operam na praxis de seu viver. Ainda, mais, como já disse, como afirmo que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares, não faço afirmações sobre alguma estrutura molecular particular nos mesmos, mas afirmo algo sobre o tipo de rede molecular que os constitui, e sobre o domínio no qual eles existem sem nenhum processo ou centro de controle dos processos que os constituem. Nesse modo de ver, os ácidos nucleicos (moléculas de DNA) não são controladores do que ocorre nas células, mas sim elementos que participam da arquitetura dinâmica que os constitui. Nessas circunstâncias, a afirmação de que os seres vivos existem como unidades autopoiéticas moleculares autônomas singulares através de interações com um meio no qual eles estão em contínuo intercâmbio molecular, é uma afirmação sobre como eles existem em sua composição interna, e também sobre como eles existem como totalidades.

Como unidades compostas, sistemas (em geral) têm uma existência dupla: existem como singularidades que operam como unidades simples no domínio no qual eles surgem como totalidades e, ao mesmo tempo, existem como unidades compostas no domínio de operação de seus componentes. A relação entre esses dois domínios não é causal. Esses dois domínios não se intersectam e os fenômenos que ocorrem em um domínio, não ocorrem no outro. A relação gerativa que um observador pode ver entre esses dois domínios é uma relação histórica feita pelo observador quando ele ou ela correlaciona a dinâmica do domínio de composição do sistema com o que acontece com o sistema como uma totalidade resultante no domínio onde isso existe.

 

Vamos agora considerar algumas das implicações e conseqüências do fato de que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares.

1) Sistemas vivos existem como entidades singulares que operam como totalidades no meio no qual eles se conservam sua identidade individual sob a forma de organismos uni- ou multi-celulares. Ou seja, sistemas vivos existem como organismos na realização de seu viver.

2) Como um sistema molecular, um sistema vivo é um sistema determinado por sua estrutura, e tudo o que ocorre nele ou com ele, ocorre a cada momento determinado por sua estrutura nesse momento. Ou seja, nada externo a um sistema vivo pode especificar o que ocorre nele; tudo o que um observador vê como externo a um sistema vivo, pode apenas desencadear mudanças estruturais que são determinadas pelo próprio sistema.

3) Cada sistema vivo é um sistema autopoiético molecular constituído como uma rede fechada de produções moleculares na qual as moléculas produzidas, através de suas interações recursivas, constituem a mesma rede fechada de produções moleculares que as produziu. construindo dinamicamente suas fronteiras operacionais como uma entidade singular que opera como uma totalidade em interações em um domínio molecular. Ou seja, as fronteiras de um sistema vivo não são fixadas pelas moléculas que as constituem, mas surgem na dinâmica molecular de participação na autopoiese do organismo.

4) Os sistema vivos são sistemas moleculares constitutivamente abertos ao fluxo de moléculas na realização contínua da dinâmica recursiva fechada auto-produtora que os constitui como entidades singulares. Ou seja, como sistemas moleculares, os sistemas vivos necessariamente existem no fluxo de matéria e energia.

5) Tudo o que sucede na história de sistemas vivos sucede através de sua realização como entidades singulares que existem como organismos enquanto interagem com o meio no qual operam como totalidades. ou seja os fenômenos biológicos ocorrem na realização dos sistemas vivos como sistemas e através dessa realização.

6) Os sistema vivos existem em dois domínios: um é o domínio no qual eles existem como totalidades ou organismos e no qual eles realizam e conservam sua identidade como seres singulares uni- ou multi-celulares; outro, é o domínio onde eles operam como sistemas autopoiéticos moleculares, que é o domínio de sua realização como entidades moleculares compostas. Essa condição implica em que a dinâmica molecular interna de um sistema vivo (sua autopoiese) ocorre subordinada à conservação da autopoiese

 

Frequentemente, essa existência dupla dos sistemas vivos, em particular, e de sistemas, em geral, é obscurecida pela noção de propriedades emergentes. Ao tratar os aspectos que um obervador distingue em um sistema como se eles fossem intrínsecos ao sistema, a noção de “propriedades” obscurece a natureza relacional desses aspectos. Todas as características que nós como observadores distinguimos em um sistema pertencem ao espaço relacional no qual ele surge quando o distinguimos, e são dimensões de sua existência nesse espaço. Assim, falar de “propriedades emergentes” na constituição de um sistema é tanto um erro quanto um engano. Quando um sistema é constituído como uma totalidade, surge um novo domínio: um domínio no qual esse sistema existe como tal totalidade. Assim sendo, dizer que a autopoiese é uma “propriedade emergente” seria um erro. Dizer que a constituição de um organismo dá lugar a uma conduta emergente seria também um erro; a conduta que o observador vê aparecer no espaço relacional no qual ele ou ela a distingue, não é um aspecto do organismo, mas sim uma dinâmica relacional que surge com a participação do meio quando o organismo interage com ele como uma totalidade; a conduta, como uma dinâmica relacional, envolve tanto o organismo quanto o meio onde ele existe como uma totalidade.

 

1.5 Não um princípio explicativo

           Uma das dificuldades básicas na compreensão de sistemas vivos com sistemas autônomos autopoiéticos, brota da atitude cultural que nos leva a pensar em termos de causas externas para explicar a ocorrência de qualquer fenômeno. Essa atitude nos cega para a natureza espontânea de todos os processos no domínio molecular no qual existimos. Todos os processos moleculares ocorrem espontaneamente seguindo um trajeto que surge momento a momento de acordo com a dinâmica estrutural das diferentes moléculas envolvidas, e suas relações particulares na vizinhança a qualquer momento. Ou seja, nada ocorre no domínio molecular através da ação de um agente (causa) externo às coerências estruturais das circunstâncias nas quais isso ocorre. Assim, em nossa cultura, ficamos surpresos quando vemos o que chamamos de ordem surgir espontaneamente onde não esperávamos, sem uma causa externa. Quando isso acontece, surge uma dificuldade conceitual que frequentemente procuramos evitar ou negar recorrendo a um princípio explicativo que usamos sem nos apercebermos plenamente como se ele fosse a causa externa dessa ordem inesperada.

Penso que isso é o que ocorre com o uso da noção de autopoiese, que frequentemente é tratada como um princípio explicativo. Mas a noção de autopoiese, como indiquei acima, não é um princípio explicativo: é um mecanismo gerativo que, quando opera, resulta no que distinguimos como um sistema vivo. A autopoiese ocorre espontaneamente quando as condições moleculares dinâmicas que lhe dão origem ocorrem como um processo sem causa ou orientação externa. Ainda mais, como disse acima, sistemas autopoiéticos os só existem no domínio molecular, porque esse domínio é o único domínio no qual as interações entre os elementos que o compõem, produzem elementos do mesmo tipo como resultado espontâneo de sua dinâmica estrutural. Ainda mais, tenho afirmado, desde 1971 em minhas aulas, que a autopoiese é tanto necessária quanto suficiente para a constituição e realização dos sistemas vivos. Mas tarde, ao responder a perguntas sobre a existência de sistemas autopoiéticos em outros domínios, e se esses sistemas eram sistemas vivos ou não, pensei que talvez fosse possível a existência de sistemas autopoiéticos nesses outros domínios. Mas, ao passo que me tornei mais atento para as características únicas do domínio molecular, conclui que é somente nesse domínio molecular que a autopoiese pode se dar. Deixem-me ser explícito sobre isso.

 

O espaço molecular tem várias peculiaridades:

  1. a) É constituído por entidades dinâmicas compostas (as moléculas) que, como resultado de suas interações, produzem elementos do mesmo tipo (novas moléculas) através (de processos) de composição e decomposição.
  2. b) A composição e decomposição dos elementos desse espaço (as moléculas) ocorrem enquanto esses elementos existem como unidades compostas sob agitação térmica que constitui operacionalmente a energia para sua composição e decomposição.
  3. c) O curso das composições e decomposições às quais os elementos desse espaço dão origem em suas interações, é determinado a cada instante pela arquitetura dinâmica (a estrutura) dos elementos em interação (as moléculas).).

Nessas circunstâncias, o espaço molecular é um espaço no qual todas as estruturas compostas ou sistemas que surgem através de interações entre moléculas surge em uma arquitetura molecular dinâmica espontânea sem a orientação de nenhuma força organizadora, princípio, plano ou informação. Não há nenhum outro domínio como esse no qual as interações dos elementos que o constituem geram através de sua composição outros elementos do mesmo tipo através da agitação térmica e sem apoio externo. Então, afirmo que nem os elementos do espaço sub-molecular, nem os elementos dos domínios supra-moleculares, podem por eles mesmos dar origem a sistemas autopoiéticos como entidades singulares constituídas como redes fechadas de produção de componentes que não requerem apoio externo para funcionarem dessa maneira.

De acordo com isso, um sistema vivo existe como um sistema autopoiético no espaço molecular. Mas, ao mesmo tempo, o sistema vivo existe também como um organismo em um espaço supra-molecular no qual ele surge como uma totalidade através de suas interações como um todo, enquanto é constituído e conservado como um sistema autopoiético molecular. Um organismo multicelular existe como uma singularidade dinâmica supra-molecular através da autopoiese de seus componentes celulares. Ou seja, um organismo é um sistema autopoiético através de sua composição molecular, não através de sua existência supra-molecular. A autopoiese descreve a constituição de sistemas vivos como sistemas moleculares discretos.

 

1.6           Domínios de existência

           A autopoiese descreve a dinâmica interna que constitui um sistema vivo no domínio molecular, mas um sistema vivo existe também como uma totalidade em um espaço relacional onde ele opera como um organismo. A constituição de sistemas vivos como sistemas auopoiéticos implica sua constituição como organismos como um resultado da constituição das fronteiras operacionais que o separam as moléculas que dinamicamente participam da autopoiese, das moléculas que não participam. Então, os sistemas vivos existem em dois domínios não-intersectantes: o domínio de seus componentes como sistemas autopoiéticos moleculares, e o domínio no qual eles operam como organismos (totalidades) no meio que os torna possíveis. Esses dois domínios não se intersectam, os processos que se passam em um, não podem ser reduzidos a processos que se passam no outro. Mas, esses dois domínios modulam um ao outro através das mudanças estruturais que se passam no sistema autopoiético através da dinâmica interna dos sistema vivo, e através das mudanças estruturais desencadeadas nele através de sua operação como um organismo no meio que torna isso possível.

Um sistema vivo opera a cada momento de uma maneira determinada por sua estrutura nesse momento, mas, desde que a estrutura do sistema vivo está mudando continuamente, a operação do sistema vivo em seus dois domínios de existência também está mudando continuamente em torno da conservação simultânea de sua autopoiese e de seu acoplamento estrutural ao seu meio cambiante. Nessa mudança contínua, entrelaçada, da maneira de realização da autopoiese molecular dos sistemas vivos e da maneira do organismo se relacionar como uma totalidade, a conservação da congruência operacional do organismo e do meio no qual ele existe, é o que guia o trajeto de mudanças do sistema vivo como uma totalidade.

A compreensão da existência de um sistema vivo simultaneamente nesses dois domínios somente é possível se compreendermos que os sistemas autopoiéticos moleculares não têm inputs nem outputs no sentido informacional (não recebem estímulos, nem respondem a nada), e que esses dois domínios se interrelacionam somente através de diferentes mudanças estruturais desencadeadas na corporalidade singular do sistema vivo por suas correspondentes dinâmicas não-intersectantes através de um dos resultados fundamentais de entender os seres vivos como sistemas autopoiéticos moleculares. Como resultado, a evolução e a ontogênese seguem o caminho da conservação de diferentes maneiras de viver que surgem no espaço relacional no qual os sistemas vivos vivem como organismos.

  1. Acoplamento estrutural

2.1 Estrutura e organização

           Um sistema estruturalmente determinado é um sistema no qual tudo o que ocorre nele ou com ele a qualquer momento, é determinado pela estrutura do sistema naquele momento. A noção de determinismo estrutural não é um princípio explicativo, nem uma admissão ontológica: é uma abstração que fazemos como observadores das coerências operacionais nas quais existimos como sistemas vivos. Nós, sistemas vivos, como sistemas moleculares, somos sistemas estruturalmente determinados. Há dois aspectos da constituição de sistemas estruturalmente determinados que destaco com as palavras organização e estrutura. Essas duas palavras correspondem a distinções que fazemos na vida cotidiana quando manipulamos qualquer sistema ou unidade composta, embora frequentemente, não sejamos consistentes na utilização desses termos. Agora, vou usar de forma consistente a palavra organização para conotar a configuração de relações entre componentes que define a identidade de classe de uma unidade composta, ou sistema, como uma totalidade, ou como uma entidade singular. Também, no que se segue, vou utilizar de forma consistente a palavra estrutura para me referir aos componentes e às relações entre componentes que realizam um sistema ou unidade composta como um caso particular de uma dada classe de sistemas.

A organização de um sistema é apenas um aspecto das relações realizadas em sua estrutura, e não existe independentemente da estrutura na qual é realizada. Nessas circunstâncias, um sistema conserva sua identidade de classe, e permanece o mesmo enquanto sua estrutura muda somente enquanto sua organização for conservada ao longo dessas mudanças estruturais. A conservação do organismo como um sistema é uma condição para sua existência; se a organização de um sistema muda, o sistema se desintegra e surge algo diferente em seu lugar. Isso não ocorre assim com a estrutura de um sistema. A estrutura do sistema está aberta e pode mudar de duas formas:

 

 

1) A estrutura de um sistema pode sofrer mudanças ao longo das quais a organização (a identidade de classe) do sistema cambiante é conservada. Chamo essas variações de mudanças de estado.

2) A estrutura de um sistema pode sofrer mudanças ao longo das quais a organização (a identidade de classe) do sistema cambiante não é conservada. Chamo essas variações de mudanças desintegradoras.

Nas mudanças de estado, as características operacionais particulares do sistema mudam, mas o sistema conserva sua identidade de classe. Nas mudanças desintegradoras, o sistema original desaparece e aparece outra coisa em seu lugar.

 

2.2 Organismo e meio

           A estrutura de um sistema estruturalmente determinado muda tanto em resultado de sua dinâmica estrutural interna quanto em resultado de suas interações. As mudanças estruturais que surgem como parte da dinâmica interna de um sistema estruturalmente determinado segue um curso que surge determinado a cada momento pela estrutura do sistema naquele momento. As mudanças estruturais desencadeadas nas interações de um sistema estruturalmente determinado surgem momento a momento determinadas também por sua estrutura, mas seguem um curso que é gerado momento a momento pela sucessão de encontros com o meio do qual o sistema participa. O mesmo se aplica ao meio como um sistema estruturalmente determinado que muda segundo um curso que surge do entrelaçamento de sua própria dinâmica interna e das mudanças estruturais desencadeadas pelo sistemas com os quais o meio interage. Como conseqüência, nesse processo a estrutura do meio e a estrutura do sistema vivo mudam juntas e congruentemente, e o resultado geral é que a história de interações entre dois ou mais sistemas estruturalmente determinados, se torna a história de mudanças estruturais recursivas espontâneas na qual todos os sistemas participantes mudam juntos e congruentemente, até que se separem ou se desintegrem. Chamei essa dinâmica de mudanças estruturais congruentes que se dá espontaneamente entre sistemas em interações recorrentes (na verdade, recursivas), assim como a dinâmica estrutural coerente que resulta disso, de acoplamento estrutural.

Os sistemas vivos, assim como o meio não-vivo com o qual eles interagem recursivamente, são sistemas estruturalmente determinados, com estruturas plásticas que variam seguindo um curso de mudanças que surge modulado pelo fluxo de suas interações. Como resultado, os sistemas vivos, e o meio não-vivo mudam juntos e congruentemente, formando um biosfera como uma rede multidimensional de acoplamentos estruturais recíprocos, que surge espontaneamente como resultado da conservação da autopoiese dos sistemas vivos. Nessas circunstâncias, um sistema vivo vive apenas enquanto suas mudanças estruturais geradas internamente ocorrem com conservação da autopoiese, e seus encontros com o meio não desencadeiam sua desintegração. Ou seja, a desintegração de um sistema vivo não ocorre enquanto ele permanece em contínua congruência operacional dinâmica com o meio (vivo e não-vivo) através do qual seu viver é conservado. Chamo a essa coerência operacional entre o sistema vivo e o meio no qual ele existe de adaptação. Em outras palavras, a história de vida de um sistema vivo cursa um fluxo espontâneo e contínuo de mudanças estruturais que segue o trajeto ou curso no qual o sistema vivo conserva a autopoiese e a adaptação em seu domínio de existência. Um sistema vivo vive apenas enquanto conserva sua autopoiese e sua relação de adaptação ao meio são conservadas. Chamo esse processo de deriva ontogênica estrutural. Nós, biólogos, não vemos facilmente que a conservação da adaptação é uma relação invariante que constitui uma condição de existência para sistemas vivos (de fato, para todos os sistemas). Usualmente, a adaptação é tratada como uma variável no discurso sobre a evolução.

O resultado mais fundamental da dinâmica de acoplamento estrutural é que o sistema vivo jamais está fora de lugar enquanto vive. Chamo de nicho o lugar que um sistema vivo ocupa na realização de seu viver. Como consequência do viver na conservação da adaptação em seu nicho, um sistema vivo parecerá sempre saber como viver nas circunstâncias nas quais vive, até que morra; os sistemas vivos nunca estão desalojados, menos ou mais adaptados, enquanto vivem. Enquanto o sistema vivo vive em seu nicho na conservação espontânea da adaptação e da autopoiese, o nicho é também seu domínio cognitivo, no domínio do viver, enquanto sua vida existe. Mais ainda, é precisamente porque os sistemas vivos existem como totalidades e com uma arquitetura dinâmica molecular que é realizada momento a momento de acordo com a operação das coerências estruturais locais de seus componentes moleculares, que não há um princípio ou força organizadora geral da operação das moléculas que o compõem em sua integração como uma totalidade. O sistema vivo como uma totalidade é o resultado da operação local das moléculas que o compõem, não a realização de um plano. Mais ainda, um organismo particular não é, em si mesmo, um tipo especial de totalidade, mas sim ele resulta como uma totalidade particular no espaço relacional no qual ele é conservado como um sistema autopoiético através de suas interações em seu nicho. E é precisamente porque os sistemas vivos existem dessa maneira que sua identidade como um organismo particular é a maneira de viver que nele se conserva através da conservação da autopoiese e da adaptação em acoplamento estrutural.

 

2.3 Conservação da organização

           Um sistema surge no momento em que a organização que o define, assim como a relação de adaptação ao meio que torna possível tal realização e sua conservação, começam a ser conservados. Sistemas surgem, existem e são conservados espontaneamente quando uma organização particular começa a ser conservada nas circunstâncias relacionais que a tornam possível. Mais ainda, o meio no qual o sistema existe, também surge espontaneamente quando o sistema surge, tornando-se nesse momento o domínio fenomênico definido pelo sistema que o constitui por existir nele. De fato, todos os sistemas surgem dessa maneira, a partir de um background que parece caótico ou desordenado, da perspectiva das coerências de seu existir. Ou seja, um sistema surge e existe na constituição de uma dinâmica de interações entre os sistema e o meio que realiza e conserva tanto o sistema quanto seu domínio de existência através de suas interações recursivas.

Atualmente, há uma grande preocupação com o desenvolvimento de noções tais como complexidade e caos – noções que são frequentemente usadas como princípios explicativos. Penso que noções tais como complexidade e caos são evocativas de metáforas para a reflexão de um observador, que não revelam os processos envolvidos na constituição de um sistema. Penso também que os formalismos associados a tais noções, permitem computações em domínios que são operacionalmente isomórficos com esses formalismos. Um formalismo matemático é um sistema conceitual e operacional que revela as coerências relacionais do espaço que ele define. É por isso que podemos utilizar formalismos matemáticos para computar mudanças de estado em sistemas cujas coerências operacionais parecem isomórficas com as coerências relacionais que especificam. Mas, em si mesmos, formalismos matemáticos não fornecem ou criam uma compreensão do fenômeno que um observador explica através deles. Nesse mesmo contexto, podemos dizer que fenômenos biológicos ocorrem na fronteira do caos, porque podemos usar alguns formalismos matemáticos como metáforas explicativas. Porém, afirmar isso não nos diz que tipo de sistemas são os sistemas vivos, nem nos mostra como eles existem nos novos domínios que surgem de sua operação como totalidade, e começam a ser conservados no fluxo do acoplamento estrutural como o meio (o nicho) que surge com eles. Sistemas vivos, como sistemas em geral, ocorrem em seu acontecer efetivo como entidades singulares discretas, não nos formalismos que um observador pode usar para pensar sobre eles.

 

           2.4 A constituição de linhagens

Sistemas vivos surgem espontaneamente com o surgimento espontâneo da autopoiese, quando condições relacionais (apropriadas) se dão no espaço molecular. Depois, a história dos sistemas vivos se inicia quando a reprodução quando se dão condições relacionais no espaço molecular e no sistema autopoiético de forma que esse sistema sofre uma divisão espontânea, que resulta na conservação da autopoiese nos fragmentos resultantes, e também conserva relações com o meio que permitem a continuidade da autopoiese. Chamo a esse processo de reprodução sistêmica – um processo no qual a divisão de um sistema autopoiético resulta na conservação simultânea tanto da autopoiese quanto das condições do meio que fazem possível esse processo (ver Maturana and Mpodozis, 1992; 2000).

Se a reprodução sistêmica começa a ser repetida em uma sucessão de gerações, surge uma linhagem como uma sucessão reprodutiva de sistemas vivos definida pela conservação da autopoiese e das condições do meio no qual a autopoiese pode ser realizada, enquanto a forma de realização da autopoiese e as condições do meio estão abertas a mudanças. Uma linhagem dura enquanto essas condições são preservadas, e muitos tipos diferentes de sistemas vivos surgirão espontaneamente como linhagens diferentes definidas pela reprodução sistêmica de diferentes maneiras de viver. O resultado dessa constituição dinâmica de linhagens tem sido a diversificação espontânea de maneiras de viver, em um processo no qual os sistemas vivos e o meio mudaram juntos e congruentemente, dando origem à biosfera como um sistema coerente de entidades vivas e não-vivas em um presente continuamente cambiante.

A diversidade dos sistemas vivos, portanto, não surge em uma história de competição, mas sim em uma história de diversificação, que surge na conservação do que vive em um domínio aberto a variações m torno da conservação da autopoiese e da adaptação (acoplamento estrutural) (ver Maturana and Mpodozis, 2000)

 

2.4 Percepção

           A compreensão de que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares fechados em sua dinâmica de estados e estruturalmente determinados em sua constituição molecular, abriu para mim a possibilidade de mudar a pergunta pela percepção. Em 1965, eu mudei da pergunta: “Como vejo o que está ali?” por “O que ocorre comigo, como um sistema estruturalmente determinado, para que eu diga que há algo ali?” Essa mudança da maneira de perguntar estava apoiada em minhas reflexões e em meu trabalho experimental sobre a visão cromática (visão de cores) durante os anos 1963 a 1967 (Maturana, Uribe and Frenk, 1968). Naquele trabalho e naquela reflexão conclui que o sistema nervoso era constituído como uma rede neuronal fechada que operava gerando uma dinâmica contínua de relações cambiantes de atividade entre seus componentes neuronais.

Embora o sistema nervoso esteja em interseção estrutural com superfícies sensoriais e efetoras do organismo, como um sistema estruturalmente determinado ele não pode operar como um sistema que faz uma representação do meio para computar a conduta adequada do organismo. O que nós como observadores vemos como conduta adequada de um organismo em um meio que varia continuamente é a operação do organismo em seu domínio de acoplamento estrutural. De acordo com isso, o que nós fazemos como observadores, é chamar de percepção o que vemos como a conduta adequada de um organismo em uma circunstância particular, quando comparamos a conduta do organismo como a nossa própria conduta, pois tanto o organismo quanto nós mesmos operamos em nossos respectivos domínios de acoplamento estrutural.

 

2.4 Explicações

           Desenvolver o apercebimento que levou à minha abstração sobre a noção de autopoiese a partir da dinâmica molecular dos sistemas biológicos que eu conhecia nos anos 1960-1966, me obrigou a desenvolver um arcabouço conceitual que me permitisse dizer o que eu queria dizer.

A noção de determinismo estrutural é uma abstração que o observador faz das coerências de suas experiências. A noção de determinismo estrutural, portanto, não surge como uma admissão ontológica sobre um domínio de realidades transcendentes: ela surge como uma abstração que capta as coerências operacionais de nosso viver como seres humanos quando usamos nossas experiências para explicar nossas experiências. Como tal, a noção de determinismo estrutural é, ao mesmo tempo, o fundamento conceitual e operacional de todas as explicações. De acordo com isso, vivemos em muitos domínios distintos de determinismo estrutural quando vivemos diferentes domínios de coerências operacionais como seres humanos. Mais ainda, vivemos tanto domínios diferentes de explicações quanto domínios de coerências operacionais, que usamos para explicar nossas experiências. Na verdade, explicamos nossas experiências (aquilo que distinguimos como acontecendo conosco) com a coerência de nossas experiências.

Uma explicação envolve duas condições que precisam se satisfeitas juntas:

1) A proposição de um mecanismo que, se operar no domínio estrutural em que foi proposto, o resultado seria que o observador viveria a experiência que ele ou ela quer explicar. Chamo essa condição de mecanismo gerativo.

2) A aceitação por um observador de que tal proposta faz o que ela afirma fazer, (se dá) porque satisfaz algumas outras condições que ele ou ela coloca em seu ouvir. Chamo essa condição do ouvir (esse condicionamento do ouvir) de critério de validação.

Chamo a primeira condição de condição formal, e a segunda de condição informal. A condição formal tem uma forma fixa, ou seja, a proposta de um mecanismo gerativo, que é o que formalmente define uma explicação como tal. A condição informal pode ser de qualquer natureza, o que quer que seja que o observador coloque em seu ouvir de maneira implícita ou explícita, consciente ou inconsciente de que o faz, como uma condição que tem que ser satisfeita pelo mecanismo gerativo para que ele ou ela o aceite como explicação. A condição informal é arbitrária, mas é sua aceitação o que faz um dado mecanismo gerativo ser aceito como explicação. A condição informal em uma explicação é o que lhe confere o carácter de um tipo particular de explicação. Sempre colocamos alguma condições informal em nosso ouvir para aceitar ou rejeitar o que alguém nos diz, de forma que não é o que é dito que determina a validade do que aceitamos, mas o que aceitamos desde a perspectiva de nosso ouvir. É a isso que chamo critério de validação da condição informal que o ouvinte coloca em seu ouvir para aceitar ou rejeitar uma explicação.

De qualquer maneira, a condição formal em uma explicação tem um carácter totalmente diferente. na verdade, que a condição formal envolva a proposta de um mecanismo gerativo tem duas consequências:

  1. a) O fenômeno explicado e o mecanismo que lhe dá origem se dão em domínios operacionais (fenomênicos) diferentes que não se intersectam.
  2. b) Que, como consequência direta disso, explicações não constituem e não podem constituir reduções fenomênicas.

Além disso, que a condição informal de uma explicação seja arbitrária, no sentido de aceitar ou rejeitá-la com base em preferências pessoais, tem também duas consequências principais:

  1. a) Que há tantos tipos diferentes de explicações quantas diferentes condições informais um observador pode colocar em seu escutar.
  2. b) Que as condições informais que um observador coloca em seu escutar não é explicitada e, portanto, não se sabe o que um observador aceita quando aceita um dado mecanismo gerativo como explicação.

Ademais, tudo o que acabei de dizer é válido para as explicações científicas. No entanto, o que é peculiar às explicações científicas como um domínio explicativo é a condições informal particular que os cientistas colocam em seu ouvir, como uma condição que deve ser satisfeita para que um mecanismo gerativo particular seja aceito como uma explicação científica. Chamarei, portanto, essa condição informal que, de fato, é o que define a ciência como um domínio explicativo, de critério de validação das explicações científicas. Esse critério de validação pode ser plenamente explicitado como um conjunto de quatro operações que um observador deve realizar em seu viver para afirmar que está propondo uma explicação científica. O que é notável é que essas quatro operações são feitas sem nenhuma admissão sobre a existência de uma realidade independente. E isso é assim porque o que é explicado é sempre uma experiência que o observador vive com elementos de suas coerências experienciais. As quatro operações são:

1) A descrição do que o observador deve fazer para experienciar a experiência a ser explicada.

2) A proposta de um mecanismo gerativo tal que, se permitido operar, resultará em que o observador experienciará o que deseja explicar, e foi descrito no ponto 1 (acima).

3) A dedução de todas as coerências operacionais implícitas no ponto 2 de outras experiências possíveis para o observador, assim como a descrição do que é preciso fazer ara experienciá-las.

4) A realização do que foi deduzido no ponto 3, e se ocorre o que foi deduzido no ponto 2, a explicação se torna uma explicação científica.

O critério de validação das explicações científicas apresentado acima não é uma reformulação idiossincrática do que cientistas e filósofos usualmente chamam de método científico, como foi sugerido por alguns cientistas e filósofos. Os fundamentos epistemológicos implícitos no critério de validação das explicações científicas e o que é chamado método experimental científico, são coisas muito diferentes, embora pareçam conduzir aparentemente aos mesmos resultados, ou seja, a algo que é aceito como uma explicação. Assim, na aplicação do critério de validação das explicações científicas, o observador está perfeitamente consciente de que uma explicação científica é a proposição de um mecanismo gerativo, enquanto no uso do método científico fala como se estivesse criando um modelo ou uma hipótese da realidade como algo independente de suas ações. Essas diferenças podem ser apresentadas da seguinte maneira: O critério de validação das explicações científicas não envolve a admissão implícita ou explícita da existência da realidade como algo independente do que o observador faz, desde que envolve apenas as coerências experienciais do observador em seu viver. Como resultado, para ele ou ela uma explicação científica revela e dá origem a uma expansão apenas daquelas coerências experienciais. Ao contrário, no uso do método científico, o observador opera na admissão implícita ou explícita de que há uma realidade independente do que ele ou ela faz, e espera que suas explicações revelem essa realidade, mesmo que indiretamente. Afirmo que nós, cientistas, dizemos que aplicamos o método científico experimental, mas o que fazemos de fato é aplicar o critério de validação das explicações científicas sem saber que o fazemos.

Afirmo que as explicações científicas não explicam os fenômenos de um domínio da realidade independentemente do que o observador (em nosso caso, um cientista) faz. Um observador se torna um cientista quando ele ou ela utiliza o critério de validação das explicações científicas no sentido de explicar suas experiências. Afirma também que o observador, em si mesmo, não existe como uma entidade transcendental, mas sim que surge como uma distinção de outro observador, e é explicado como um processo biológico por um observador que usa suas distinções de processos biológicos no curso de seu viver para propor processos biológicos que dão origem ao observar (Maturana, in Maturana and Varela, 1980).

 

2.7 Bases para o argumento

           A principal dificuldade que encontramos na tentativa de responder a qualquer pergunta, é saber quando efetivamente a respondemos. O poder das explicações científicas reside no fato de que elas constituem, ao mesmo tempo, tanto o procedimento que gera a explicação e o critério que nos diz quando a explicação foi completada. Alguns autores criticaram a noção de que sistemas vivos são sistemas moleculares autopoiéticos como uma noção não-científica argumentando que eu afirmo que a condição da autopoiese não pode ser observada diretamente como um aspecto do sistema vivo, porque ela ocorre no fluir de seu presente cambiante como um processo histórico. Eles dizem que uma teoria científica precisa ter uma base empírica. Sim, é verdade! Mas o que constitui uma base empírica de uma explicação científica é a observação efetiva (actual) de que o critério de validação das explicações científicas foi completado no domínio em que a explicação é proposta. No argumento de que a autopoiese no espaço molecular é a organização dos sistemas vivos, afirmo duas coisas:

1) que quando surge um sistema autopoiético molecular no espaço molecular, surge um sistema   vivo; e,

2) que quando surge um sistema autopoiético molecular, surgem todos os fenômenos biológicos, ou eles se tornam possíveis como conseqüências diretas ou indiretas de sua operação como sistemas autopoiéticos moleculares.

 

De acordo com isso, a demonstração científica do argumento segundo o qual sistemas vivos são de fato sistemas autopoiéticos moleculares, seria demonstrar duas coisas:

  1. a) mostrar que todos os processos moleculares nos sistemas vivos fluem de forma a constituir uma rede fechada de produções moleculares que realiza a organização autopoiética; e,
  2. b) mostrar que todos os fenômenos biológicos necessariamente ocorreriam como consequências diretas ou indiretas da operação de sistemas autopoiéticos moleculares, mas não ocorreriam se a autopoiese molecular fosse interrompida.

Francisco Varela e eu mostramos que esse é o caso em um livro intitulado “De máquinas y seres vivos”, publicado em espanhol em 1973, e depois em inglês, em 1980, como parte de um livro intitulado “Autopoiesis and Cognition” (Reidel, Dordrecht).

Afirmo, portanto que sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares, e que tal afirmação é uma afirmação científica, quando afirmo que a autopoiese é a explicação científica do que constitui o viver.

 

2.8 Implicações do argumento: a autopoiese molecular constitui o viver

           O que nós cientistas distinguimos no mundo como fenômenos naturais, ocorre espontaneamente. Com tal, o mundo natural em sua presença espontânea é a prova de sua própria existência. Ou seja, os fenômenos naturais ocorrem quando ocorrem, e nós, seres humanos, como observadores, os distinguimos como distinguimos o que ocorre conosco ou em nós. Um observador tenta explicar somente aquelas experiências (fenômenos) que não lhes parecem óbvios. E, para fazer isso, ele ou ela recorre, como disse acima, a suas coerências experienciais e as utiliza para propor mecanismos gerativos que, ao operar, gerariam espontaneamente, aquilo que se quer explicar.

De acordo com isso, a teoria da autopoiese diz que quando quer que as condições estruturais dinâmicas que ocorrem no domínio molecular sejam apropriadas ao surgimento de sistemas autopoiéticos moleculares, esses sistemas surgirão como se surgissem do nada. Se, além disso, surgirem as condições para a reprodução sistêmica (divisão de um sistema com conservação da organização nos fragmentos resultantes, junto com a manutenção das condições do meio que tornam possível essa organização) do sistema autopoiético, o resultado será o início espontâneo de uma linhagem de sistemas autopoiéticos moleculares. Nessas circunstâncias, qual seria a prova de que os sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares? Afirmo que a prova é a presença efetiva (actual) da dinâmica fechada de redes de produções moleculares e transformações que se tornam evidentes quando observamos os processos metabólicos celulares como constituintes de uma dinâmica fechada de produções moleculares que constitui suas próprias fronteiras, enquanto permanece aberta ao fluxo de moléculas através dela. Muitos cientistas e filósofos não estão atentos a que explicações são propostas de mecanismos ou processos gerativos que dão origem no viver do observador à experiência (fenômeno) a ser explicado, e consideram as explicações como propostas reducionistas, nas quais o que é explicado é apresentado em termos mais fundamentais. Mas, as explicações como propostas de processos gerativos são, constitutivamente, propostas não-reducionistas, porque os mecanismos gerativos e os resultados de sua operação se dão em domínios fenomênicos que não se intersectam (Maturana, 1990).

Mas há ainda outras dificuldades para o entendimento pleno de todas as implicações do argumento segundo o qual sistemas vivos são sistemas autopoiéticos moleculares, e que eles podem ser vistos assim quando se observa o metabolismo celular como uma totalidade sistêmica. Penso que essas dificuldades têm a ver com dois outros argumentos que fiz, ou seja:

  1. a) que sistemas vivos não têm inputs (estímulos) nem outputs (respostas); e,
  2. b) que um observador não pode ver a organização de um sistema diretamente porque a organização de um sistema é uma totalidade singular através de sua conservação no fluir histórico de sua dinâmica estrutural.

Consideremos primeiro a ausência de inputs/outputs (estímulos/respostas). Como sistemas vivos são sistemas determinados por sua estrutura, tudo o que ocorre neles ou com eles, ocorre determinado por sua estrutura. O mesmo se passa com o meio que os contém, na medida em que o meio é também um sistema determinado estruturalmente. De acordo com isso, um agente externo que atue sobre um sistema vivo não pode especificar e não especifica o que ocorre como resultado dessa atuação. Tal agente externo pode apenas desencadear no sistema vivo uma mudança estrutural que é determinada pelo próprio sistema. Um agente externo, portanto, não pode ser visto como um input (estímulo) para o sistema vivo, porque ele não “diz” nada ao sistema vivo sobre si próprio ou sobre o meio do qual ele provém. O mesmo se passa quando o sistema vivo atua sobre o meio: o sistema vivo só pode desencadear no meio uma mudança estrutural que é determinada na dinâmica estrutural do meio, e isso não pode ser chamado propriamente de um output (resposta) do organismo porque não “diz” nada a respeito do organismo para o meio. É nesse sentido que afirmo que os sistemas vivos não têm inputs (estímulos) nem outputs (respostas), e que sua relação com o meio não pode ser descrita em termos informacionais. A relação entre um sistema vivo e o meio no qual ele existe é uma relação estrutural na qual sistema vivo e meio mudam juntos e congruentemente, enquanto permanecem em interações recorrentes. Chamei essa relação de acoplamento estrutural, e mostrei que um sistema vivo flui em seu viver no trajeto da conservação do acoplamento estrutural com o meio que o torna possível, até que morre. O viver ocorre no trajeto de mudanças estruturais que continuamente resultam na conservação da autopoiese e da adaptação – ou seja, do acoplamento estrutural (Maturana, 1998).

Se não vemos que os sistemas vivos não têm inputs ou outputs, não é possível entender a cognição como um fenômeno natural, e não vemos que o que designamos como cognição em um sistema vivo e aquilo que vemos ou consideramos como uma conduta ou operação adequada no domínio no qual a observamos. Além disso, se não vemos como é que os sistemas vivos não têm inputs ou outputs, não podemos ver que a operação efetiva de um sistema vivo em seu viver nos leva a dizer que o sistema vivo sabe o que fazer em seu domínio de existência, (não vemos que) isso resulta de sua operação enquanto vive em um domínio de acoplamento estrutural que surgiu como ele (com o sistema vivo) no curso de sua epigênese. Além disso, se não compreendemos que os sistemas vivos não têm inputs ou outputs, não podemos entender como o domínio de acoplamento estrutural de um sistema vivo, como o domínio no qual ele realiza seu viver (sua autopoiese) é, na verdade, seu domínio de cognição (Maturana 1980, and Maturana and Varela 1988).

A segunda afirmação, ou seja, a de que um observador não pode ver a organização de um sistema diretamente, está relacionado ao fato de que a organização de um sistema é a configuração de relações que define sua identidade de classe como aquilo que é conservado e permanece invariante através das mudanças estruturais do sistema ao longo de sua história individual. No caso dos sistemas vivos, a autopoiese molecular é a organização que realiza seu viver em um processo histórico que não pode ser interrompido, é que é evidente somente no resultado de sua operação, e não nos componentes que o realizam. Então, a organização dos sistemas vivos assim como a organização de qualquer sistema não pode ser diretamente observada, pode ser apenas inferida: tudo o que pode ser diretamente observado em um sistema são componentes e relações entre componentes,

Que o observador não possa ver diretamente a organização de um sistema, portanto, não invalida a noção de organização, ou o fato de que a organização precisa ser inferida na história de interações do sistema e de sua dinâmica estrutural. Assim, somente os resultados da operação de um sistema autopoiético como tal pode dizer a um observador que se trata de um sistema autopoiético. Além disso, o que diz a um observador se um elemento é um componente do sistema, é somente a participação desse elemento nas relações de composição que constituem o sistema. É por isso que nem tudo que um observador vê como “parte” de um sistema, que ele ou ela pensa que é um sistema autopoiético, é um componente desse sistema como sistema autopoiético. Como disse acima, algo é um componente de um sistema apenas se participa de sua composição.

A situação inteira é circular no sentido de que, embora um sistema defina a si próprio através de sua presença e operação, um observador pode apenas conhecê-lo através de sua operação quando ela se define.

 

  1. Cognição – O que é “conhecer”?

           O entendimento que o determinismo estrutural trouxe para mim, trouxe a questão do conhecer (a questão da cognição), porque eu perguntava: “Se há o determinismo estrutural, então, o que é conhecer?” Se os sistemas vivos são sistemas estruturalmente determinados, e tudo o que ocorre neles surge a cada instante determinado por sua estrutura nesse instante, e se tudo o que os agentes externos que incidem sobre ele desencadeiam nele são mudanças estruturais determinadas neles mesmos por sua estrutura naquele instante, então, o que é conhecer? Aquilo que nós, seres humanos, chamamos de cognição é a capacidade que um sistema vivo exibe de operar em congruência estrutural com o meio no qual ele existe. Não importa se o ser vivo observado é um inseto ou um ser humano. Podemos perguntar se o conhecimento que o ser vivo exibe é aprendido ou instintivo, mas nossa avaliação é a mesma: se vemos um sistema vivo se comportando de acordo com o que consideramos uma conduta adequada nas circunstâncias nas quais observamos, afirmamos que esse sistema vivo conhece (sabe o que faz). Nessas circunstâncias, o que vemos formar a base da conduta adequada do ser vivo é:

  1. a) que o ser vivo que observamos mostra ou exibe uma dinâmica estrutural que flui em congruência com a dinâmica estrutural do meio no qual o vemos; e,
  2. b) que é através desta congruência dinâmica estrutural que o sistema vivo conserva seu viver.

Podemos perguntar como esse sistema vivo chegou a ter a estrutura dinâmica que permite que ele opere em congruência estrutural dinâmica com o meio ou circunstâncias nas quais ele acontece viver. Se chegarmos à conclusão de que o sistema vivo conseguiu sua congruência estrutural dinâmica com o meio ou circunstância no qual o vemos viver como resultado de seu desenvolvimento como o tipo de sistema vivo que ele é independentemente de sua história individual de vida, afirmamos que o conhecimento que vemos é instintivo. Se, ao contrário, depois de nossa pesquisa chegarmos à conclusão de que a estrutura dinâmica com o qual vemos o sistema vivo operar em congruência com o meio ou circunstância, surgiu em sua história individual de vida, como resultado de suas interações com o meio, afirmamos que a conduta que vemos em congruência operacional, foi aprendida. O conhecimento instintivo e o aprendido, portanto, diferem apenas no que afirmamos sobre sua origem histórica. A origem do conhecimento instintivo é filogênica, um aspecto da história evolutiva ao qual o sistema vivo pertence. A origem do conhecimento aprendido é ontogênica, um aspecto da epigênese individual do sistema vivo. Nos outros aspectos, o conhecimento instintivo e o aprendido são indistinguíveis.

O que quer que ocorra a um sistema vivo a qualquer momento ocorre determinado por sua estrutura naquele momento; nada externo a um sistema vivo pode determinar o que acontece com ele ou nele. Assim, devido ao determinismo estrutural dos seres vivos, a noção de recepção de informação, ou a noção de cognição através da computação da informação obtida pelos sentidos, não pode ser usada para explicar a cognição como conduta adequada dos sistemas vivos. Nessas circunstâncias, afirmo que o processo que dá origem à congruência operacional entre o organismo e seu nicho, o processo que distinguimos na vida diária como conhecimento, quer instintivo quer aprendido, é o acoplamento estrutural. Em outras palavras, afirmo que qualquer tentativa de explicar a conduta adequada dos seres humanos, e de outros sistemas vivos, naquilo que na vida diária chamamos cognição, como se fosse resultado de alguma computação feita pelo sistema nervoso sobre dados ou informação que o sensores obtêm de um mundo exterior objetivo, está fadada ao fracasso. O conhecimento é algo que um observador atribui a um ser humano ou a um sistema vivo quando ele ou ela vê que tal organismo se comporta adequadamente (em coerência operacional) com um meio que varia. Usualmente, não atentamos para o fato de atribuirmos (conferirmos) conhecimento a qualquer ser vivo, humano ou não, quando o vemos operando de uma maneira que consideramos adequada para o domínio no qual o apreciamos, embora façamos isso diariamente quando operamos como professores, ou quando examinamos provas. Na verdade, isto é o que você está fazendo agora, ao ler o que escrevi, e você aceitará ou rejeitará o que eu disse, revelando conhecer se o que eu digo concorda ou discorda do que você considera conduta adequada no domínio no qual você atenta para o que está lendo do que eu escrevi. O professor confere ou não confere (atribui) conhecimento ao estudante de acordo com o que o estudante faz ou não faz aquilo que ele ou ela considera conduta adequada no domínio especificado por seu ouvir. Similarmente, você atribui ou não atribui conhecimento a mim de acordo com (sua avaliação) do que escrevi, se satisfaz ou não satisfaz o que você considera adequado no domínio em que você ouve o que eu escrevo.

 

3.2 Linguagem

           Na medida em que me encontrei encarando a questão da cognição, atentei para que eu tinha que considerar a linguagem como um fenômeno biológico que se dá no viver e através do viver, e que qualquer tentativa de compreender a linguagem através de reflexões filosóficas seria inadequada, porque essa tentativa não tem meios de levar em consideração o modo de viver dos sistemas vivos como sistemas estruturalmente determinados.

Nós, seres humanos, existimos como observadores na linguagem no domínio de acoplamento estrutural ao qual pertencemos. Ou seja, nós seres humanos existimos em acoplamento estrutural com outras entidades vivas e não-vivas que compõem a biosfera nas dimensões nas quais somos componentes da biosfera. E operamos na linguagem como nossa maneira de ser, enquanto vivemos no presente e no fluir de nossas interações em nossos domínios de acoplamento estrutural. Viver na linguagem fazendo todas as coisas que fazemos na linguagem. não importa o quão abstratas essas coisas pareçam, não violam nosso determinismo estrutural em geral, nem nossa condição de sistemas determinados estruturalmente. Quando observei nosso comportamento linguístico e o de outros animais, compreendi que o aspecto central do linguajear, era o fluir do viver juntos em coordenações recursivas de condutas e ações, e que as noções de comunicação e simbolização são secundárias na linguagem. Digo isso de uma forma sintética: A linguagem é nossa maneira de viver juntos em um fluir de coordenações de coordenações de condutas ou ações consensuais que surge na história do viver em colaboração ao fazermos as coisas juntos (Maturana 1988).

 

Nós, seres humanos, existimos e operamos como seres humans enquanto operamos na linguagem. Linguajear é nossa maneira de existir como seres humanos. A linguagem ocorre no fluir efetivo de coordenações de coordenações de condutas, não em gestos, sons ou atitudes particulares, tomados por esse fluir. É como o movimento que se vê em um filme que existe somente enquanto o filme corre. Nós, seres humanos, linguajeamos enquanto operamos no domínio de acoplamento estrutural no qual co-existimos como seres que linguajeiam com outros seres que linguajeiam. Quando linguajeamos, surgem objetos como aspectos de no linguajear com outros. Os objetos não existem por si mesmoss. Ou seja, objetos surgem na linguagem como operações de coordenação de coordenações de ações que se destacam como coordenação de ações sobre as quais nós coordenamos recursivamente nossas ações como seres que linguajeiam. Chamo esse domínio de objetos que surgem em nossas coordenações de coordenações de condutas um domínio de entidades ou objetos compartilhados. Em outras palavras, objetos e quaisquer outras entidades que surgem no domínio do linguajear pertencem ao domínio da inter-objetividade no qual vivemos com outros seres que linguajeiam com os quais nós geramos os objetos e outras entidades (nós os linguajeamos) que constituem esse domínio. Segue-se que nós, como seres humanos, podemos gerar e então existir como seres que linguajeiam em muitos diferentes domínios de objetos (ou domínios de diferentes tipos de entidades) como domínios de coordenações de coordenações de condutas que geramos em nosso viver em acoplamento estrutural com a biosfera e, através dela, com o cosmos. Assim, nós, seres humanos, podemos viver uns com os outros em tantos domínios de entidades compartihadas, ou domínios de inter-objetividade, quantas forem as dimensões de acoplamento estrutural nas quais podemos viver em coordenações de coordenações de ações com outros seres. Viver na linguagem é viver em um domínio de objetos compartilhados na inter-objetividade.

 

3.3 Conversações

           No curso da expansão de nossa compreensão de nossa operação como sistemas autopoiéticos estruturalmente determinados, se tornou também evidente que quando nós, seres humanos, existimos na linguagem, existimos também nas emoções. Quando distinguimos emoções, distnguimos diferentes domínios de condutas relacionais que a todo momento constituem o fundamento relacional no qual nós fazemos tudo o que fazemos como seres que linguajeiam. De fato, nós, seres humanos, existimos no contínuo entrelaçamento de coordenações de ações e emoções, que eu chamo de conversações, e também tudo o que fazemos em redes de conversações. Diferentes redes de conversações constituem diferentes domínios de existência, ou diferentes domínios de realidade, nos quais diferentes tipos de entidades existem suscitados pelas coordenações de coordenações de ações recursivas que se constituem. Assim, o entendimento da linguagem, suscita o entendimento da existência. A existência é uma palavra que conota aquilo sobre o que um observador pode falar, portanto, aquilo sobre o que um observador não pode falar não existe. Mas o observador pode falar somente sobre aquilo que surge na rede de conversações na qual ele ou ela distingue aquilo.

 

           3.3 Auto-consciência

O outro problema central que mudou seu carácter através das noções que eu estava desenvolvendo ao seguir as implicaçãoe de permanecer atento ao fato de que nós, seres vivos, somos sistemas autopoiéticos mleculares, foi o problema da auto-consciência. A dificuldade de compreender a auto-consciência reside e encontrar o processoatravés do qual distinguimos a nós mesmos, como se fôssemos entidades independentes de nossa operação, de forma que podemos nos ver como tais, e, também, de achar o domínio no qual existimos como eus (selves). Achei essa resposta através da compreensão da linguagem, do surgimento de objetos na linguagemm e de nosso viver na inter-objetividade.

Como mostrei acima, os objetos surgem na linguagem no fluir de coordenações recursivas de ações no fluir do viver juntos. O surgimento de objetos é vivido como se eles fossem entidades independentes que podem ser distinguidas como tal e manipuladas na coordenaçãoi de ações. Então, quando um observador vê duas pessoas em um fluir de coordenações de coordenações de ações através da coordenação de ações de seus corpos, ele ou ela pode afirmar que aquelas pessoas estão operando em um domínio de atenção para aspectos de seu fazer, que são vistos como partes de seus próprios corpos. Além diiso, o observador pode ver que aquelas pessoas que tratam o seu corpo e as partes que surgem de seu corpo como se eles fossem entidades independentes , ao mesmo tempo que, através de suas sensações, eles são essas partes e ações. O corpo e suas partes, e o self como distinção da distinção deles, surgem da linguagem da mesma maneira que qualquer outra entidade surge no fluir do linguajear, como uma maneira de fazer coisas juntos. O observador vê que a operação de auto-consciência é a distinção reflexiva de um self na linguagem que se dá como uma operação que constitui nosso corpo e nosso ser como um objeto na inter-objetividade, mas a pessoa no fluir de seu viver na linguagem, vive a distinção do self como o paradoxo de distinguir uma identidade independente que parece ser quem fez a distinção. A Dra. Gerda Verden-Zöller mostrou que a autoconsciência surge em bebês humanos em suas relações de bincadeira com suas mães (ver Verden-Zöller in Maturana & Verden-Zöller, 1993). Eu próprio, em um estudo sobre o surgimento da linguagem em bebês, com Nolfa Ibanez (Maturana and Ibanez, 2002) mostrei que o auto-apercebimento do corpo no bebê surge nas brincadeiras com a mãe, por exemplo, quando ela diz “nariz” e toca o nariz do bbebê, ou diz “pézinho” e toca o pé do bebê, da mesma forma que ela usa quando diz “bola” enquanto oferece um bola ao bebê. Assim, a auto-consciência surge como uma operação de coordenação de ações no linguajear, e, como tal ocorre como um processo interpessoal no espaço relacional. Na verdade, podemos observar como a auto-consciência começa a surgir na criança em crescimento na bricadeira criança/mãe de tocar o nariz quando o nariz surge como um objeto em inter-objetividade nas coordenações recursivas de conduta do bebê com a mãe em uma brincadeira que chama a atenção do bebê para o nariz. Não é facil ver a natureza da auto-consciência como uma operação do viver na linguagem quando se imagina que a linguagem se realiza como uma operação simbólica que se refere a entidades que podem ser distinguidas por causa de sua existência independente. Se ser consciente significa estar atento para alguma coisa que existe independentemente do ser que atenta para essa coisa, como poderia um ser humano atentar para si mesmo? É por causa dessa dificuldade que, quando nos referimos a nós mesmos, falamos como se se tratasse de uma existência dupla (e.g., quando dizemos, “estou falando de mim mesmo” ou “…no meu verdadeiro eu…”). O problema conceitual gerado por essa aparente dualidade existencial se dissolve quando entendemos que a linguagem consiste de vivermos juntos em um fluir de coordenações de coordenações de condutas consensuais que surge no prazer do fluir do fazer coisas juntos em interações recursivas.

Não há dúvida de que em uma ação de auto-distinção sentimos o mesmo que sentimos ao distinguir algo que para um observador externo tem a qualidade de ser uma entidade independente de nós como distinguidores. Sentimos como sentimos com qualquer objeto no domínio de objetos compattilhados que nós vivemos com outros. E isso é assim precisamente porque o self surge como qualquer outra entidade na inter-objetividade. Sentimentos se dão como aspectos de nossa auto- distinção na linguagem como na coordenação recursiva de ações a distinção de relações entre as distinções do corpo expande o domínio da inter-objetividade em um meta-domínio de auto-distinções: os sentimentos, como todas as entidades na inter-objetividade são secundários à linguagem.

Na origem da humanidade, o self deve ter surgido da mesma maneira que surge em bebês humanos modernos, ou seja, no fluir de coordenações de coordenações de condutas que suscitam (bring about) o corpo e suas parte como objetos compartilhados na inter-objetividade através das brincadeiras da mãe com a criança que chama a atenção para as sensações proprioceptivas que surgem ao fazer coisas juntos em coordenações de coordenações de ações. É por causa disso que digo que a auto-consciência é uma operação recursiva no linguajear que constitui uma possibilidade ilimitada (open-ended) para o surgimento de novos mundos que podemos viver como seres auto-conscientes que linguajeiam.

Estamos vivendo em uma cultura que age como se devêssemos fazer tudo que imaginamos como possível. Não vemos que ao fazer isso não estamos apenas deixando que as coisas ocorram: estamos fazendo uma escolha. E não vemos que deveríamos ser responsáveis por ela. Na verdade, como o linguajear ocorre como uma maneira de fluir no viver juntos em coordenações de coordenações de condutas consensuais, podemos gerar qualquer mundo novo do qual possamos linguajear a existência. Mas não precisamos fazer isso. Não importa em que domínio operacional possamos estar, existe sempre um outro domínio de existência que podemos suscitar nas recursões de nosso linguajear conservando a configuração de relações dinâmicas que definem esse domínio. Podemos realizar tudo o que imaginamos se respeitarmos as coerências estruturais do domínio no qual imaginamos isso. Mas não temos que fazer tudo o que podemos fazer, ou que podemos conceber como possível. Não precisamos nos engajar em todas as reflexões, ou desenvolver todos os conceitos, ou construir todas as tecnologias que podemos imaginar. É precisamente por causa disso que temos que escolher. É em nosso viver como seres humanos reflexivos auto-conscientes que podemos estar atentos para as possíveis conseqüências do que fazemos, ou da natureza dos domínios de existência que suscitamos, e das implicações do que fazemos nos diferentes mundos que podemos viver em nossas vidas. E é porque estamos atentos para o que podemos fazer como seres auto-conscientes que linguajeiam que podemos escoilher e devemos escolher o que fazer.

Estamos vivendo em uma cultura que nos força a fazer tudo que imaginamos sob o argumento da criatividade. Mas, temos que fazer isso? O fato de que, como uma consequência de sermos seres auto-conscientes podemos sempre atentar para as possíveis implicações do que quer que façamos, torna todo ato humano uma escolha explícita ou implícita em um domínio de existência. Dessa maneira, podemos conservar ou destruir nossa própria existência como o tipo de seres vivos que somos.

Podemos viver na conservação ou na destruição de nós mesmos como Homo sapiens amans, ou na conservação ou destruição do Homo sapiens arrogans. Nós, seres humanos modernos, somos o presente de uma história de expansão neotênica nossa infância cheia de amor em nossa vida adulta. A auto-consciência surgiu como resultado da expansão neotênica das relações mãe/criança de carinho mútuo e brincadeira. A auto-consciência, como a possibilidade de vermos a nós mesmos em nossas reflexões e ações, é um presente da biologia do amor que permite que escapemos de qualquer armadilha em que possamos cair; a auto-consciência é a abertura para a autonomia reflexiva e a liberdade. Mas, se na verdade compreendermos nossa existência como seres auto-conscientes que linguajeiam, que continuamente suscitam (bring forth) o mundo e os mundos que vivemos, porque é da natureza do linguajear como um viver em coordenções de coordenações de ações consensuais, então, se queremos gerar o bem-estar no mundo humano e animal no qual vivemos, precismaos criar continuamente tal mundo com a rede do linguajear e do emocionar que vivemos como adultos, de maneira que nossas crianças cresçam gerando a mesma rede de linguajear e do emocionar na qual cresceram em bem-estar.

A linguagem não pode ser entendida como um fenômeno biológico se não levamos em conta seriamente nossa operação como sistemas determinados estruturalmente. Se não fazemos isso, permanecemos presos na crença de que a linguagem é um sistema de comunicação e pensamentos com representações (simbolizações) de uma realidade independente que nos contém como sua característica primária. E se não entendermos a linguagem como um fenômeno biológico, permaneceremos no mistério da auto-consciência, acreditando que ela revela, de alguma forma, uma dualidade cósmica intrinsica, e não seremos capazes de enetender a nós mesmos como os seres auto-conscientes transitórios que somos.

 

  1. Epistemologia e conclusões

           Quando, como resultado de minha pesquisa sobre a percepção em 1965, comecei a me perguntar sobre o que fazemos como observadores, fiz uma mudança epistemológica fundamental que constituiu uma mudança ontológica. Ou seja, mudei da pergunta que indaga sobre o ser, para a pergunta que indaga sobre o fazer. Afastei-me de uma pergunta que não tem resposta no domínio do ser, e me aproximei de uma questão que pode ser respondida no domínio do fazer. Em outras palavras, fiz uma mudança conceitual fundamental no domínio filosófico. Afastei-me de uma questão básica que nos nega a possibilidade de entender a percepção como um processo biológico para uma questão que nos leva a entender e a explicar a percepção como uma operação do organismo em um meio no qual ele está em acoplamento estrutural como resultado de uma história de mudanças estruturais, na qual o organismo e o meio (nicho) mudam juntos e congruentemente de forma espontânea. Como resultado dessa mudança conceitual fundamental, meu tema central como biólogo (e como filósofo) se tornou o tema da explicação da experiência da cognição – não a realidade, porque a realidade é uma noçnao explicativa inventada para explicar a experiência da cognição (ver Maturana, in Maturana and Varela, 1980)

No processo de explicar a cognição, fiz uma mudança epistemológica fundamental no domínio de entender as explicações e as explicações científicas. Compreendi que quando operamos como observadores explicamos nossas experiências com as coerências de experiências, e que isso não poderia ser de outra forma porque, como seres que linguajeiam, existimos em um domínio de oordenações de coordenações de ações que é, de fato, operar imerso nas coerências de nossas experiências. Ou seja, dizer que qualquer entidade particular somente tem existência quando surge quando o observador a suscita em sua distinção no linguajear ao especificar suas condições de constituição, é dizer que tal entidade particular ocorre no mesmo domínio de existência no qual o observador opera como um sistema vivo.

Afirmar isso é afirmar que as entidades que um observador distingue em sua operação no linguajear têm a concretude das operações pelas quais o observador as distingue em suas operações em coordenações de coordenaçao de ações, quando ele ou ela opera como um ser humano em seu viver. É nesse sentido que sistemas vivos são sistemas vivos, e moléculas são moléculas, como entidades reais ou objetivas em seus respctivos domínios de existência, quando observador as suscita através da rede de coordenações de ações na qual ele ou ela as distingue.

É nesse sentido que nós, como observadores, podemos afirmar que moléculas surgem quando se dão suas condições de constituição, e é nesse sentido que digo que moléculas existem em um domínio de observação que o observador suscita com suas operações de distinção no domínio de conversações que constituem seu domínio de realidade. Parte da dificuldade de entender a relação entre a linguagem e a existência, se apoia na linguagem como um domínio de representações e abstrações de entidades que pertence a um outro domínio concreto. Mas a linguagem não é isso, o linguajear ocorre na concretude das ações do observador em seu viver efetivo, na praxis de vivê-lo. A realização da autopoiese, o viver do organismo, assim como os observadores, surgem nas conversações de observadores, de forma que tudo o que existe é o linguajear como coordenações de coordenações de ações consensuais de observadores que operam na linguagem. Não há dúvida de que, por motivos epsitemológicos, parecemos necessitar de um susbtrato onde tudo isso ocorre para explicá-lo, mas assim que suscitamos esse substrato, ele não é aquilo a que queríamos nos referir, mas sim passa a ser mais da mesma coisa, algo na inter-objetividade que não pode operar como um substrato em si mesmo. Nada existe fora das redes de conversações através das quais suscitamos (bring forth) tudo o que existe, de nós mesmos ao cosmos que nos torna possíveis, não em uma operação criativa arbitrária, mas como resultado de nossas coordenações de coordenações de ações em nosso viver, incluindo nosso viver. E essa afirmação não é arbitrária ou vazia, porque ela diz que quando quer que as condições de constituição de um sistema, entidade ou processo surjam, o resultado será o surgimento do sistema, entidade ou processo no domínio operacional especificado pelas condições que os tornam possíveis.

Seguir as implicações conceitais, operacionais e epistemológicas da noção de autopoiese nos leva, não ao conhecimento de tudo, porque nos encontramos em um viver continuamente cambiante que surge de lugar algum apoiado em nada, mas sim a ver que como seres que linguajeiam, operamos no domínio mais básico possível de entendimento: ou seja, o domínio no qual entendemos nosso viver.

O que se segue, é dito sob a compreensão de tudo o que foi dito até agora.

Parece-me que a principal dificuldade que os biólogos têm em aceitar a noção de que a autopoiese descreve a organização do vivo, é nossa recusa cultural a aceitar que as coisas, sistemas, relações e entidades em geral, surjam na existência no momento em que surgem as condições para sua constituição. Como observadores, podemos afirmar que um sistema vivo surge no instante em que sua autopoiese se inicia, e dura enquanto essa autopoiese é conservada. E essa é uma afirmação cognitiva que tem validade operacional no domínio (o domínio molecular) no qual ocorre o que ela afirma. Em nossa cultura, gostamos de explicar usando causa e princípios (explicativos) que são externos ao explicado. É por isso que dizer que um sistema vivo existe por si mesmo, e explicar que explicar o viver consiste em propor o mecanismo gerativo que dá origem ao sistema vivo como consequência de sua operação em um domínio diferente do domínio da operação de seus componentes, parece epistemologicamente inaceitável. Mas tal afirmaçnao é válida e epistemologicamente sadia no domínio no qual aceitamos que as explicações são propostas de mecanismos gerativos. Nessas circunstâncias, afirmar que os sistemas vivos são sistemas autpoiéticos moleculares só pode ser descartada mostrando que há fenômenos biológicos que não implicam direta ou indiretamente a autopoiese molecular. A afirmação de que os sistemas vivos são sistemas autpoiéticos moleculares não pode ser descartada epistemologicamente. Biólogos têm, frequentemente, afirmado que ignoram a noção de autopoiese e a teoria sobre a cognição que ela fundamenta (Maturana, 1970; 1980), porque ela não parece suficientemente pragmática. Alguns filósofos têm objetado que essa teoria relaciona abstrações e pragmática (Scheper and Scheper 1998). Penso que algumas vezes cientistas e filósofos não enxergam que as explicações não substituem aquilo que explicam. Eles esquecem ou ignoram que o que as explicações efetivamente fazem é propor mecanismos gerativos tais que, se postos a operar, geram como conseqüêmcia de sua operação, aquilo que eles pretendem explicar, e não vêm que fazendo isso eles relacionam abstrações e pragmática. Finalmente, penso que o que é comumente apresentado como uma dificuldade epistemológica é o erro frequente de usar a autopoiese como um princípio explicativo.    Para concluir, quero insistir em que a mudança epistemológica que fiz como a noção de autopoiese e a biologia da cognição, que desenvolvi junto com ela, reside em abandonar a noção de (a pergunta pela) realidade e adotar a a noção de (a pergunta pela) cognição, ao mesmo tempo explicando a experiência do observador com a experiência do observador. Esse é um movimento fundamental para fora do domínio de ontologias transcendentais para um domínio de ontologias constitutivas.

Se podemos substituir a pergunta sobre a realidade que nos leva a um beco sem saída epsitemológico e conceitual, pela pergunta sobre como fazemos o que fazemos como sistemas vivos quando afirmamos a cognição, tudo o que dissemos se torna evidente sem esforço algum.

A noção de autopoiese nega a necessidade de termos qualquer noção transcendental para explicar ou compreender qualquer fenômeno biológico, qualquer que ele seja em qualquer tipo de sistema vivo. O que a noção de autopoiese não nega é qualquer experiência humana, qualquer que ela seja, nem nos diz o que devemos fazer ou não fazer com nossas experiências. Nosso viver humano é um viver biológico, mas como o vivemos como seres humanos é uma empreitada humana no domínio biológico.

 

Revisado por Humberto Maturana Romesin, 19 de agosto de 2002

Traduzido para o português por Nelson Vaz, 10 de abril de 2003

 

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