Humberto Maturana

O que é ver?

O que é ver?
Humberto Maturana
What is it to see? In Arch.Biol.Med.Exp.16:255-269 (1983)

                  Como neurobiólogos estudando a visão, usualmente não fazemos a pergunta “O que é ver?” porque a consideramos uma pergunta filosófica e não biológica, e não notamos que a respondemos implicitamente ao fazer o que fazemos em nossas pesquisas. Esta resposta implícita envolve a admissão básica de que existimos em um mundo objetivo independente de nossos atos cognitivos e accessível ao nosso conhecimento. Minha alegação é que: a) ao responder à pergunta “O que é ver?” pode-se mostrar que essa admissão é insustentável porque o fenômeno da percepção não pode consistir em um processo de captação de aspectos de um mundo de objetos independente de nós; e b) que refletindo sobre a natureza de uma explicação científica pode-se mostrar que essa admissão é desnecessária porque uma explicação científica é um tipo particular de coordenação de ações em uma comunidade de observadores que não implica em mundo assim. Neste contexto, a) colocando a objetividade entre parêntesis, isto é, usando a geração operacional das explicações científicas e não o objeto como critério de validação de minhas afirmações e, b) reconhecendo que o sistema nervoso opera como uma rede neuronal fechada na geração de seus estados de atividade, eu mostro que o fenômeno da percepção surge na descrição de um obser-vador como uma maneira de se referir à operação de um organismo em congruência com o ambiente particular no qual ele é observado. Nessas circunstâncias, minha resposta à pergunta inicial é: ver é uma maneira particular de operar como um sistema neuronal fechado que é componente de um organismo em um domínio de acoplamento estrutural.

Finalmente, eu proponho que ao lidar com a linguagem como um sistema peculiar de coordenação de ações, nós seres humanos suscitamos um mundo objetivo através de nossas próprias mudanças de estado como descritores que especificam os objetos que o constituem.

  1. Introdução

Quando convidado a abrir este simpósio, decidi considerar a pergunta “O que é ver?” Embora esta pergunta esteja no fundo de todas as nossas pesquisas sobre a visão, ela raramente é feita pelos neurobiólogos de maneira explícita. Isto é assim porque perguntas deste tipo são usualmente consideradas filosóficas, e os biólogos, em geral, não gostam de perguntas filosóficas porque eles temem ser levados para especulações abstratas, distantes dos fatos. Esta apreensão, no entanto, é injustificada e se origina de um equívoco. A pergunta “O que é ver?”, como uma pergunta que reflete sobre o que fazemos como neurobiólogos estudando a visão, é realmente uma pergunta filosófica. Mas, desde que esta pergunta se dirige aos fundamentos do que fazemos como neurobiólogos, sua resposta tem a ver com a maneira pela qual usamos nossas pesquisas para entender o que chamamos o fenômeno da visão, e determina quais perguntas específicasr fazemos e que respostas aceitamos para as mesmas no campo da percepção visual. Assim, a apreensão de que a pergunta seja filosófica é injustificada, porque é precisamente a resposta explícita ou implícita a esta pergunta – uma pergunta necessariamente envolvida no que fazemos ao pesquisar a visão – que determina o que constitui um fato na pesquisa sobre a visão. Além disso, a crença de que, por não ser feita explicitamente, tal pergunta não concerne ao que fazemos como biólogos, provém de um equívoco. Pelo próprio ato de aceitarmos um dado fenômeno como o fenômeno da visão, nós implicitamente aceitamos uma resposta a esta pergunta que permeia tudo o que fazemos, mesmo na vida cotidiana. O que nós raramente fazemos, no entanto, quer como neurobiólogos, quer como pessoas comuns, é indagar sobre os fundamentos das respostas que aceitamos no campo da pesquisa visual, talvez porque tais indagações necessariamente nos levariam a questionar as bases ontológicas e epistemológicas de nossas certezas sobre a percepção e a cognição. Na verdade, a resposta à pergunta “O que é ver?” implica em respostas às perguntas “O que é a realidade?”e “O que é conhecer?”, e o presente ensaio, fazendo tais perguntas, é tanto uma pesquisa sobre a visão quanto uma indagação sobre as bases epistemológicas e ontológicas de nossas certezas perceptivas.

 

  1. O problema da percepção

Há muitos anos, Roger Sperry mostrou que quando ele apresentava uma presa a uma rã ou uma salamandra cujos olhos haviam sido experimentalmente girados em suas órbitas, e haviam recuperado a visão, estes animais se orientavam, ou lançavam suas línguas em uma direção que parecia desviada do alvo por um ângulo igual ao ângulo de rotação do olho que focalizava a presa. As perguntas usuais que tal experiência suscitam se referem a se os animais aprendem, ou não aprendem, se corrigem sua capacidade de lidar com o ambiente, se deixam de cometer o engano de tentar alcançar a presa onde ela não está. Eu nunca ouvi ninguém, exceto eu, dizer que tal experiência gira o mundo do observador em relação aos animais operados, e que estes animais não cometem enganos – mesmo que morram de fome por nunca mais conseguirem capturar uma presa.

Isto, no entanto, não é estranho. Usualmente falamos e fornecemos explicações para os fenômenos biológicos que consideramos como se os organismos que observamos operassem perceptualmente no ambiente no qual os vemos existirem. Em outras palavras, nós usualmente falamos e damos explicações para os fenômenos perceptivos como se nós, como observadores, e os animais existíssemos em um mundo de objetos, e como se o fenômeno da percepção consistisse na captação de aspectos destes objetos do mundo, porque nós e os animais parecemos ter meios que permitem ou especificam esta captação. Isto, na verdade, aparece na etmologia da palavra percepção que,vinda do latim per capiere , que significa literalmente obtido “por captação”, por alcançar algo. No entanto, existe este fenômeno, a captação de aspectos de objetos do mundo, implícita na palavra percepção? Pode o ambiente no qual vemos um organismo exibindo uma percepção especificar o que acontece com o organismo de tal forma que possamos falar da percepção pelo organismo como um fenômeno de captação?

Meu argumento é que isto não se passa assim, e que o fenômeno conotado pela expressão perceber não é a captação de aspectos de um mundo exterior de objetos. Mais ainda, meu argumento também assegura que, quando um observador afirma que um organismo exibe percepção, o que este observador considera é um organismo que suscita um mundo de ações através de correlações senso-motoras congruentes com o ambiente no qual o observador o vê conservar sua adaptação. Finalmente, afirmo que um organismo tem tanto espaços perceptivos (como domínios de correlações senso-motoras) quantos o observador for capaz de vê-lo implementar, enquanto conservar sua adaptação, em diferentes domínios de interação no qual o observador o distingue ao especificar para ele diferentes domínios de perturbações.

Afirmo isto, é claro, com a suposição de que estas afirmações se aplicam também a nós como animais que percebem. No que se segue, darei apoio a estas afirmações, mostrando primeiro que o fenômeno conotado pela palavra percepção não pode ser a captação de aspectos de um mundo independente de objetos, e, em seguida, mostrando que o fenômeno a que chamamos percepção consiste no suscitar de um mundo de ações.

 

  1. Objetividade

Nossa experiência diária é a de existir em um mundo objetivo, isto é, num mundo de objetos cuja existência não depende de nós. Assim, usualmente desprezamos as situações em que a presença de objetos que experenciamos parece dependente de nossa experiência, e chamamos tais objetos e situações de ilusões ou alucinações. De acordo com isso, nossa linguagem é uma linguagem de objetos. Mais ainda, como cientistas, geralmente vemos a ciência como um domínio de conhecimentos objetivos, e afirmamos que a existência de um mundo objetivo accessível a nossas percepções e cognições é uma condição necessária para a existência da ciência, e consideramos o sucesso operacional das explicações científicas como uma prova de tal objetividade.

Tal atitude sobre a objetividade do mundo não cria dificuldades, até que queiramos dar uma explicação científica para o fenômeno da percepção como um fenômeno de captação de um mundo exterior objetivo. Na verdade, quando tentamos fazer isso, encontramos várias dificuldades, das quais quero examinar duas:

  1. a) a não-objetividade das explicações científicas, e,
  2.  b) o determinismo estrutural dos sistemas que podem ser manipulados nas explicações científicas.

Vamos examinar estas dificuldades.

 

Explicações científicas

As explicações científicas são explicações gerativas. Isto é, as explicações científicas são propostas de mecanismos (sistemas) que:

  1. a) como resultado de sua operação, geram os fenômenos a serem explicados; e
  2. b) são aceitos como válidos pela comunidade de cientistas porque eles satisfazem as condições que        constituem o critério de validação das afirmações científicas estabelecido por essa mesma comunidade.

 

Essas condições, usualmente vistas como o método científico, são as seguintes:

  1. i) Uma descrição do fenômeno a ser explicado. Isto implica uma especificação do fenômeno a ser explicado pela especificação das condições que o observador deve satisfazer em seu domínio de experiências para observá-lo (testemunhá-lo);
  2. ii) A proposição de uma hipótese explicativa como um mecanismo (ou sistema) ad hoc que, por sua operação, gera o fenômeno a ser explicado no domínio de experiências do observador.

iii) A dedução através do mecanismo proposto em (ii), de outro fenômeno não considerado em sua proposição, e a descrição das condições sob as quais ele será observado.

  1. iv) A observação do fenômeno deduzido em (iii) por um observador que satisfaça as condições requeridas em seu domínio de experiências.

 

Um exame sério destes critérios de validação das afirmações científicas revela um sistema de coerências operacionais que não requer a objetividade para operar. Em outras palavras, não é verdade que precisamos de um mundo de objetos para fazer afirmações científicas. Tudo o que se requer é uma comunidade de observadores padronizados (operacionalmente coerentes) que geram afirmações validadas pelos critérios de coerências operacionais descritos acima. As explicações científicas surgem no domínio de experiências de uma comunidade de observadores, e, portanto, pertence às coordenações operacionais dos membros dessa comunidade.

O sucesso das explicações científicas em prover uma coincidência operacional com o que chamamos de nossa percepção do mundo, nem constitui uma prova da objetividade do mundo que experenciamos, nem pode ser usado como uma prova indireta que o fenômeno da percepção consiste, na verdade, da captação de aspectos de objetos num mundo independente do observador. Por esta razão, o objeto descrito numa coordenação de ações (e distinguido da linguagem) não pode ser usado para validar afirmações feitas sobre ele no domínio da ciência. Também por causa disso, vou prosseguir depois de colocar a objetividade entre parênteses. Isto é, embora eu tenha que usar uma linguagem de objetos (a única de que dispomos) (ver Maturana 1978a,b), não usarei os objetos como argumentos para validar minhas afirmações, que estarão fundamentadas somente em explicações científicas.

 

Determinismo estrutural

Uma explicação científica consiste na proposição de um sistema ou mecanismo que, ao operar, geram os fenômenos a serem explicados, e que, portanto, não têm os aspectos dos fenômenos a serem explicados mas sim resultam dos processos que eles implicam. Por esta razão, as explicações científicas são propostas mecanísticas e, como tal, consistem na proposta de sistemas estruturalmente determinados. Para entender o que isto significa, preciso esclarecer algumas noções básicas que necessariamente usamos em nossa linguagem de objetos.

 

Observador. Um observador é um ser humano qualquer que, ao operar na linguagem com outros seres humanos, participa com eles na criação de um domínio de ações coordenadas como um domínio de distinções, e pode, então, gerar descrições e descrições-de-descrições. Eu e todos os leitores deste artigo, somos exemplos de observadores.

 

Distinções. Um observador faz distinções através de operações que cortam um contínuo e suscitam entidades como unidades ou “todos” distinguíveis, especificando-os e especificando também o background em que eles existem. O observador existe fazendo distinções-de-distinções, e suscita a si mesmo fazendo tais distinções de uma maneira recorrente (ver Maturana 19878 a e b).

 

Unidades. Como observadores distinguimos dois tipos de unidades: simples e compostas. Distinguimos uma unidade simples como uma entidade na qual não distinguimos componentes, a qual, então, é caracterizada somente pelas propriedades com as quais é dotada na operação de distinção que a suscita. Distinguimos uma unidade composta como um contínuo no qual realizamos outras operações de distinção, e suscitamos unidades adicionais que são especificadas como componentes em relação à unidade simples que eles integram como um contínuo antes de sua decomposição. Então, um componente existe como tal apenas em relação à unidade composta que ele contribui para constituir (integra) como uma unidade que pode ser distinguida como uma unidade simples (um contínuo) de um tipo particular. As propriedades de uma unidade composta resultam da maneira como ela está constituída, isto é, de sua organização e estrutura.

 

Organização. As relações entre componentes que definem uma unidade composta como uma unidade de um dado tipo, constituem sua organização. A organização de uma unidade composta, portanto, define sua identidade de classe, e é conservada como um conjunto invariante de relações, enquanto a identidade de classe da unidade for conservada. Se a organização de uma unidade composta muda, sua identidade de classe muda e a unidade original se desintegra.

 

Estrutura. Os componentes efetivos e as relações efetivas que constituem uma unidade composta particular como uma unidade de um dado tipo, constituem sua estrutura. A estrutura de uma unidade composta supre as relações que constituem sua organização, além de outras relações. Por esta razão, enquanto a conservação da unidade de classe de uma unidade composta implica na conservação de sua organização, ela não implica na conservação de sua estrutura. De fato, a estrutura de um unidade composta particular pode variar sem que ela perca sua identidade de classe, quer através de variações nas características de seus componentes (se estes forem eles próprios unidades compostas), quer através de variações nas relações entre eles, e isto pode acontecer de forma recorrente enquanto a organização da unidade for conservada; de outra forma ela se desintegra, e aparecem uma outra unidade ou várias outras unidades.

 

Interações. Uma unidade simples interage através da operação de suas propriedades. Uma unidade composta interage através da operação das propriedades de seus componentes.

 

Existência. Uma unidade simples existe num espaço definido e constituído por suas propriedades como unidade simples. Uma unidade composta existe num espaço definido e constituído pelas propriedades de seus componentes. Não existem espaços vazios, e um espaço é suscitado pelas unidades cujas propriedades o definem. Uma unidade somente interage em seu espaço de existência.

 

Sistemas estruturalmente determinados. Desde que a estrutura de uma unidade composta é determinada a cada instante por seus componentes, qualquer mudança na estrutura de uma unidade composta só pode surgir determinada por sua estrutura através da operação das propriedades de seus componentes. Além disso, desde que uma unidade composta interage através da operação das propriedades de seus componentes, essas interações só podem desencadear na mesma mudanças estruturais determinadas por sua estrutura sem especificar que mudanças ocorrerão. Como resultado dessa última condição, a estrutura de uma unidade composta determina as configurações estruturais do meio com as quais ela pode interagir. Unidades compostas, portanto, são sistemas estruturalmente determinados, e suas características como tais sistemas podem ser sistematizadas dizendo que a estrutura de um sistema estruturalmente determinado especifica a cada instante:

 

  1. a) seu domínio de mudanças estruturais possíveis sem perda da identidade de classe (mudanças com conservação da organização), que denomino domínio das mudanças de estado;

 

  1. b) seu domínio de interações possíveis, que desencadeiam nela uma mudança de estado, que denomino domínio das perturbações possíveis;

 

  1. c) seu domínio de mudanças estruturais com perda da identidade de classe (perda da organização) que denomino domínio das desintegrações possíveis;

 

  1. d) seu domínio de interações possíveis, que desencadeiam nela uma desintegração, que denomino domínio das interações destrutivas possíveis.

 

Num sistema estruturalmente determinado dinâmico, portanto, há mudanças estruturais que surgem tanto de suas interações como de sua própria dinâmica estrutural. mas que são sempre, e a cada instante, determinadas por sua estrutura. Esta característica geral dos sistemas estruturalmente determinados tem uma conseqüência fundamental, que é a de que eles não admitem interações instrutivas. Em outras palavras, não existe um mecanismo operacional através do qual o meio possa determinar as mudanças de estado de um sistema estruturalmente determinado; elas são sempre determinadas pelo próprio sistema. Mais ainda, desde que os sistemas estruturalmente determinados são sistemas mecanísticos, a ciência não pode lidar com sistemas que admitem interações instrutivas.

Depois destas considerações é evidente que, se os sistemas vivos são sistemas estruturalmente determinados, o fenômeno da percepção como um fenômeno de captação de aspectos de um ambiente não pode ocorrer porque não existe um mecanismo através do qual o meio possa determinar o que acontece num sistema sensorial em uma interação. O meio pode somente desencadear uma mudança estrutural determinada na estrutura do sistema sensorial do organismo. Mais ainda, se houvessem interações instrutivas, não poderíamos usá-las para gerar explicações científicas. De fato, se tal fosse o caso, um agente atuante determinaria o que acontece ao sistema sobre o qual ele age. Na verdade, se fôssemos sistemas instrutivos, qualquer coisa que tocássemos, no intuito de analisar, adotaria as características determinadas por nosso toque, e tudo pareceria o mesmo. Não poderíamos fazer distinções.

Daí deriva que o fenômeno ao qual chamamos percepção nos sistemas vivos, e que parece permitir a um organismo a manipulação adequada de seu ambiente, não pode consistir da captação de aspectos de um mundo de objetos externo ao organismo – se é que os sistemas vivos são accessíveis às explicações científicas. Qual é o caso, então?

Para prosseguir, devemos refletir sobre a condição de acoplamento estrutural na qual todos os sistemas cientificamente analisáveis existem, e sobre as características operacionais de nosso principal instrumento analítico, o sistema nervoso.

 

  1. Acoplamento estrutural

Todo sistema estruturalmente determinado existe em um meio. Esta condição de existência é também, necessariamente, uma condição de complementaridade estrutural entre o sistema e o meio no qual as interações entre o sistema e o meio são somente perturbações. Se a complementaridade estrutural se perde, se ocorrer uma única interação destrutiva, o sistema se desintegra e cessa de existir. Esta complementaridade estrutural necessária entre um sistema estruturalmente determinado e seu meio – que eu denomino acoplamento estrutural – é uma condição de existência para todo sistema. A parte do meio no qual um sistema é distinguido, isto é, a parte do meio que é operacionalmente complementar a ele, eu denomino seu nicho. O nicho é sempre especificado e obscurecido pelo sistema que é o único que pode revelá-lo. Mais ainda, eu chamo ambiente a parte do meio que um observador vê em volta de um sistema enquanto ele obscurece seu nicho.

 

A própria existência de um sistema estruturalmente determinado, então, envolve seu acoplamento estrutural e a conservação de seu acoplamento estrutural através de todas as suas mudanças de estado. O que muda na relação sistema/meio através das mudanças de estado de um sistema estruturalmente determinado, é seu nicho. Quando falamos de sistemas vivos, Francisco Varela e eu denominamos a conservação do acoplamento estrutural de conservação da adaptação. Mais ainda, afirmamos que os sistemas vivos (como todos os sistemas) existem somente com conservação de sua adaptação, e que suas ontogenias são necessariamente histórias de mudanças estruturais em congruência com um meio estático ou cambiável que permite neles a realização de seus respectivos nichos, e que, se este não for o caso, eles se desintegram.

Mais ainda, desde que as mudanças na estrutura de um sistema vivo que o meio desencadeia não são determinadas pelo meio, a ontogenia dos sistemas vivos, como ontogenias em contínua mudança estrutural, constitui uma deriva estrutural com conservação da organização e da adaptação contingente às interações do sistema vivo no seu meio. Uma conseqüência dessa deriva estrutural ontogênica com conservação da adaptação nos sistemas vivos, é que eles nunca estão operacionalmente deslocados, nunca estão fora de lugar. Os sistemas vivos existem somente enquanto suas interações desencadeiam neles próprios mudanças estruturais congruentes com as mudanças estruturais do meio. Isto é, os sistemas vivos existem somente enquanto suas interações desencadeiam neles próprios mudanças de estado que resultam em mais interações que novamente desencadeiam neles outras mudanças de estado, e assim por diante, até que uma interação destrutiva ocorra, porque mudanças de estado independentes no meio, ou na dinâmica interna de mudanças estruturais do sistema vivo, não permitiram que a conservação da adaptação continuasse. Viver é deslizar em um nicho.

Mas, enquanto a deriva estrutural ontogênica se realiza com conservação da adaptação, um observador, que vê esta conservação em termos de uma congruência entre um sistema vivo e seu ambiente, pode descrever esta congruência operacional em termos de interações perceptivas, como se o ser vivo estivesse captando aspectos do ambiente e os utilizando para computar suas mudanças de estado seguintes. No entanto, nada disso se passa. Pela regularidade das interações recorrentes pareceria que isto é assim, e é esta aparência que nos seduz a falar como se o fenômeno que conotamos quando falamos da percepção fosse um processo no qual um organismo capta aspectos de um mundo exterior.

Mas se não existe captação de aspectos de um mundo exterior, como pode o sistema nervoso participar na geração de uma conduta adequada? Que fenômeno denotamos pela palavra percepção?

 

  1. O sistema nervoso

Nós, neurobiólogos, usualmente trabalhamos com a perspectiva de que o sistema nervoso é um sistema projetado para obter informação do ambiente no sentido de computar o comportamento de um organismo. De acordo com isto, geralmente estudamos a percepção tentando mostrar como os aspectos do ambiente abstraídos pelos sensores são usados para gerar uma representação do mundo exterior como uma reconstrução deste mundo. De tudo o que eu disse, torna-se evidente que o sistema nervoso não pode operar desta maneira. E, na verdade, não opera. Mais ainda, as experiências de Sperry que mencionei no início mostram isso, porque mostram que o sistema nervoso opera somente pela geração de correlações internas; mas ninguém, que eu conheça, as vê dessa maneira. Nem mesmo eu, porque cheguei à visão que presentemente tenho do sistema nervoso não por refletir sobre estas experiências, mas através de meus próprios estudos sobre a visão de cores. Em 1968, há quatorze anos atrás, publiquei, com Gabriela Uribe e Samy Frenk, um artigo que ninguém levou a sério, no qual mostro que é possível gerar todo o espaço cromático humano tentando associar a atividade das células ganglionares da retina com o ato de dar nome às cores, em um ato que fecha o sistema nervoso. De fato, o que tal artigo faz é mostrar que, enquanto é impossível gerar o espaço cromático humano como um espaço perceptivo tentando correlacionar a atividade da retina com o estímulo visual, esse espaço pode ser gerado correlacionando-se classes de relações de atividade que se estabelecem entre células ganglionares (de diferentes tipos) com o nome dado à cor que se experencia.

Um sistema nervoso é um sistema organizado como uma rede fechada de elementos neuronais em interação (incluindo receptores e efetores), que interagem entre si de tal maneira que qualquer mudança nas relações de atividade que têm lugar entre alguns elementos da rede conduz a mudanças nas relações de atividade que têm lugar em outros elementos da rede. Essa organização pode ser mantida em vigência por muitas estruturas diferentes que podem diferir tanto nas propriedades particulares dos componentes envolvidos (sensores, efetores, e neurônios), assim como em suas conexões particulares, desde que estas diferentes estruturas implementem operacionalmente essa organização fechando a rede de relações cambiantes de atividade que têm lugar entre elas. Como resultado desse fechamento operacional, tudo o que tem lugar na operação do sistema nervoso são mudanças de relações de atividade entre os elementos que o compõem.

As superfícies sensoriais e efetoras do organismo não constituem exceções ao fechamento do sistema nervoso porque todas as mudanças na superfície efetora do organismo conduzem a mudanças na superfície sensorial, como ocorre nas mudanças das superfícies pré e pós-sinápticas de uma sinapse interna. O que é peculiar às superfícies efetoras e sensoriais de um organismo é que nós, como observadores, nos colocamos entre elas como se houvéssemos aberto uma sinapse e definido seu hiato sináptico como o ambiente. Nestas circunstâncias, o ambiente inteiro, com todos os aspectos que podemos distinguir nele, existe somente para nós. Para a operação do sistema nervoso de um organismo, o hiato sináptico onde nos colocamos não é diferente de nenhum outro hiato sináptico, quer dizer, não é um hiato (ver Figuras 1-4).

Maturana-Que é ver-Fig-1

Figura 1: Um observador enxerga o sistema nervoso como uma rede neuronal fechada, e interage com ela interagindo com seus componentes em um domínio estrutural que é ortogonal à sua mudança de estados. A flexa aberta indica uma interação ortogonal às mudanças de estado da rede neuronal fechada, que desencadeia uma mudança estrutural em um componente neuronal sem que constitua um input para o sistema nervoso. A pequena flexa sólida indica uma transmissão sináptica.

Maturana-Que é ver-Fig-2

Figura 2: O observador abre uma sinapse definindo uma superfície sensorial (acima) e uma efetora (abaixo). Setas como na Figura 1.

O ambiente que descrevemos, como parte do meio onde nos colocamos como observadores, não existe para o sistema nervoso do organismo observado na sua operação como uma rede fechada de relações cambiantes entre seus componentes (Figura 2). Mais ainda, na medida em que o organismo e o sistema nervoso dentro dele operam como uma unidade no domínio de existência (no meio) onde o distinguimos nos colocando entre suas superfícies sensorial e efetora, o organismo e seus sistema nervoso permanecem em sua deriva estrutural acoplada, conservando a organização e a adaptação nesse meio. De fato, desde que qualquer sistema conserva a adaptação em seu domínio de existência qualquer que seja este domínio, se nós, como observadores, através de alguma operação de distinção, entramos em um hiato sináptico qualquer do sistema nervoso de um organismo, e nos colocamos ali, nesta sinapse, especificando-a como o meio (como o domínio de existência)de um novo sistema distinguido pela definição das superfícies pré e pós-sinápticas como sendo, respectivamente, suas superfícies sensorial e efetora, então nós encontraremos tal sistema acoplado estruturalmente a esse meio enquanto nós mantivermos esta distinção (Figura 3).

Então, o que é particular ao meio no qual nós usualmente observamos um organismo com seu sistema nervoso não é que o meio preencha o hiato sináptico efetor-sensor, mas sim que nos colocamos neste hiato como observadores.

Maturana-Que é ver-Fig-3

Figura 3: O observador entrando no hiato sináptico define seus domínios de distinções como o ambiente do sistema nervoso. Para o observador, existe uma flor no ambiente; para a dinâmica de estados do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada não existe flor alguma, somente um hiato sináptico que não é um hiato. As estruturas do ambiente que o observador vê constituem perturbações ortogonais para os sensores, nøa um input para a dinâmica de estados do sistema nervoso. Setas como na Figura 1.

Nestas circunstâncias, enquanto o sistema nervoso mantém sua dança fechada de mudanças de relações de atividade ignorando completamente o ambiente que nós descrevemos, nós observamos o organismo no meio atravessando mudanças de estado que nos parecem correlações senso-efetoras cambiantes (correlações motoras) que então descrevemos em relação ao ambiente como uma conduta. Organismos diferentes têm estruturas diferentes em seu sistema nervoso que, portanto, atravessam danças internas diferentes, e têm estruturas diferentes em seus corpos e em suas superfícies sensoriais e efetoras que, a nós, parecem dar origem a diferentes condutas através de diferentes correlações senso-efetoras. Em cada caso particular, no entanto, o sistema nervoso e o organismo, individualmente e juntos, operam como sistemas estruturalmente determinados, com conservação de seus respectivos acoplamentos estruturais e de suas organizações, ou se desintegram. Um organismo está acoplado ao seu nicho no meio no qual o distinguimos, e o sistema nervoso está acoplado ao seu nicho no organismo que ele integra.

Maturana-Que é ver-Fig-4

Figura 4: Dança estrutural de dois organismos em interação com sistemas nervosos fechados que perturbam um ao outro estruturalmente, mas que, embora se posicionem abrindo um ao outro na sinapse sensor-efetor, não constituem inputs para seus respectivos sistemas nervosos fechados. Setas como na Figura 1.

Deixem-me ser mais explícito sobre o comportamento do organismo e os estados internos do sistema nervoso.

  1. i) Comportamento. Um observador que considera um sistema vivo em um ambiente não vê suas mudanças de estado como uma unidade composta. Ele somente vê suas mudanças de posição, ou suas mudanças de forma com respeito ao ambiente como correlações senso-motoras cambiantes, quer desencadeadas por suas interações, quer como resultado de sua dinâmica interna. Essas mudanças de forma ou posição de um sistema vivo com respeito ao ambiente no qual um observador o vê, constituem seu comportamento ou conduta, e precisam se dar sob condições de conservação de organização e de adaptação, ou o organismo se desintegra. Então, embora um comportamento seja, é claro, o resultado de mudanças de estado do organismo que o exibe, e, então, seja dependente da estrutura do organismo, as mudanças estruturais do organismo (incluindo seu sistema nervoso) não constituem seu comportamento. As mudanças de estado de um organismo (incluindo seu sistema nervoso)e seu comportamento pertencem a domínios diferentes que não se intersectam. Isto tem uma conseqüência fundamental que é: embora o comportamento de um organismo não seja um aspecto da operação de seu sistema nervoso, que é uma rede neuronal fechada que somente gera mudanças de relações de atividade, a conservação do acoplamento estrutural do sistema nervoso ao organismo que o integra necessariamente resulta em que sua deriva estrutural ontogênica se realize em congruência com os comportamentos que o organismo gera. Em outras palavras, embora o sistema nervoso não determine o comportamento, o comportamento do organismo estabelece restrições à deriva estrutural ontogênica do sistema nervoso. Isto é assim porque o comportamento do organismo é implementado através das correlações senso-efetoras geradas pelo seu sistema nervoso, e, ou o organismo conserva sua adaptação através do comportamento que o sistema nervoso contribui para gerar, ou se desintegra.
  1. ii) O sistema nervoso. A organização que é conservada em um sistema nervoso durante a deriva estrutural ontogênica do organismo particular que ele integra é a de uma rede neuronal fechada que gera mudanças internas de relações de atividade que, a um observador, parecem padrões cambiantes de correlações senso-efetoras. Para um observador que consiga contemplar simultaneamente o comportamento de um organismo e as mudanças de estado do sistema nervoso, essas últimas parecerão refletir as distinções operacionais do ambiente que as correlações senso-efetoras parecem realizar através do comportamento do organismo.

Para um animal, as correlações senso-efetoras de seu sistema nervoso não existem porque o organismo existe como um animal em seu domínio de comportamentos, não no domínio de estados de seu sistema nervoso. Para a dinâmica de estados do sistema nervoso, o animal que ele integra também não existe, por motivos similares. Ainda assim, um observador vê que as correlações senso-efetoras resultantes da dinâmica de estados do sistema nervoso, especificam um organismo como uma unidade que se comporta em seu meio.

A separação entre esses dois domínios fenomênicos, o domínio do comportamento e o domínio da dinâmica de estados, é constitutiva nos sistemas vivos. Esses domínios se correlacionam apenas como conseqüência das derivas estruturais (ontogênica e filogênica) contingentes à conservação da organização e do acoplamento estrutural (conservação da adaptação) que tem lugar na sucessão de ontogenias que é a evolução do organismo. A congruência operacional entre o comportamento e o nicho que o observador testemunha quando contempla um ser vivo é sempre resultado da conservação destas duas condições, e nunca uma quebra dessa separação constitutiva entre o domínio da conduta e o domínio da mudança de estados. Nessas circunstâncias, o sistema nervoso concretamente opera gerando, através de sua dinâmica interna, mudanças de estado que, a um observador, parecem reações a um ambiente posteriores à captação perceptiva de um de seus aspectos. No entanto, elas não são isso. As ações observadas, pareçam elas adequadas ou inadequadas ao observador, surgem como correlações senso-efetoras na operação do sistema nervoso como resultado da dinâmica de estados produzida no sistema pela estrutura particular que o sistema tinha no momento em que elas se deram. Tudo isto sob circunstâncias nas quais o sistema nervoso, como uma rede neuronal fechada, é o resultado de derivas estruturais (ontogênica e filogênica) que se deram com conservação de adaptação, das quais a única saída é a desintegração. De acordo com isto, uma conduta parece adequada ou inadequada na dependência das expectativas do observador que define o tipo de sistema vivo que ele distingue. Para a operação do sistema vivo como um sistema vivo não existe conduta adequada ou inadequada porque não existe conduta alguma. Nele, enquanto ele permanecer vivo, todas as mudanças de estado são adequadas.

As muitas arquiteturas neuronais diferentes envolvidas nos muitos tipos diferentes de animais constituem maneiras diferentes de gerar correlações senso-motoras próprias aos diferentes nichos a que eles correspondem e que surgiram através de derivas estruturais diferentes em diferentes linhagens de conservação ontogência da adaptação. Isto é evidente, em que,

  1. a) a estrutura geral do sistema nervoso de todos os animais consiste de um sistema recorrente de projeções entrecruzadas internas das superfícies sensoriais e efetoras do organismo, com retenção fina e grosseira de suas relações somatotópicas, e
  2. b) diferentes tipos de animais, que diferem nas correlações senso-motoras possíveis que suas diferentes estruturas corporais permitem, diferem nas arquiteturas particulares de seus sistemas nervosos como sistemas de correlações internas baseadas em diferentes combinatórios das relações somatotópicas retidas das superfícies sensoriais e efetoras. Tudo isto na compreensão de que as superfícies sensoriais e motoras são somente superfícies de interação do organismo no domínio de existência em que ele é observado, e não superfícies de abertura operacional do sistema nervoso.

iii)              Relações de atividade neuronal. A estrutura de uma célula nervosa (sua forma, a distribuição sobre ela das sinapses excitatórias e inibitórias com respeito ao ponto de origem do impulso nervoso, a estrutura de sua membrana em suas diversas partes) determina as relações temporais de atividade no campo de influências aferentes a que ela responde. Tipos diferentes de células nervosas diferem exatamente nisto, e operam, metaforicamente falando, como diferentes filtros que captam diferentes relações de atividade de um campo de influências aferentes através de suas diferentes superfícies coletoras superpostas. Isto tem várias conseqüências para a operação do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada:

  1. a) todas as aferências sinápticas a uma célula neuronal particular, quer estejam ativas ou não no momento, participam a todo instante das relações de atividade aferente às quais ela responde;
  2. b) se a estrutura da célula muda, a relação de atividade aferente à qual ela responde, muda;
  3. c) desde que a estrutura da célula nervosa muda continuamente através de sua atividade, quer através de suas interações sinápticas com outras células nervosas, quer através de suas interações não-sinápticas (tróficas, hormonais,etc) com outras células (nervosas ou não), as relações de atividade no campo de influências sinápticas aferentes que impingem sobre ela e às quais ela responde podem também mudar continuamente;
  4. d) quando as mudanças estruturais de uma célula nervosa são reversíveis, as mudanças nas relações de atividade sináptica eferente às quais ela responde são também reversíveis;
  1. e) quando as mudanças estruturais de uma célula nervosa não são reversíveis, ou a constante de seu tempo de reversão é longo com respeito a outras mudanças, as mudanças nas relações e atividade sináptica aferente às quais ela responde pode também ser irreversível, e derivar seguindo a deriva estrutural da célula nervosa;
  2. f) na medida em que as células nervosas se conectam umas com as outras através de contactos sinápticos, cada célula nervosa participa do campo de influências sinápticas aferentes de todas as outras células com as quais ela se conecta; e,
  3. g) tudo isso se aplica também às células sensoras e efetoras como componentes do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada.

É por causa dessa maneira de operar dos componentes do sistema nervoso que o sistema nervoso, como uma rede neuronal fechada, opera na geração fechada de relações cambiantes de atividade entre seus componentes, independentemente do que desencadeia mudanças de estado nestes componentes. E é por causa disso que os estados de atividade do sistema nervoso são mudanças de relações de atividades entre seus componentes, e não mudanças da estrutura de seus componentes. E, finalmente, e também por causa disso, é que os componentes do sistema nervoso podem participar em interações fora de sua participação na dinâmica de estados do sistema nervoso, e o fazem ao mesmo tempo que participam dessa dinâmica de estados através das mesmas mudanças estruturais.

  1. iv) Interações sensoriais e efetoras. Na medida em que o sistema nervoso opera como uma rede neuronal fechada em sua dinâmica de estados, mudanças nas superfícies sensoriais do organismo não constituem estímulos (inputs) para o sistema nervoso. Similarmente, mudanças nas superfícies e-fetoras do organismo não constituem respostas (outputs) na operação do sistema nervoso. Estas mudanças são somente mudanças pré e pós-sinápticas na sinapse efetor-sensor, que é a sinapse onde o observador se coloca (Figura 3).

As interações sensoriais são perturbações estruturais das células sensoriais que desencadeiam nelas mudanças de estado que resultam mudanças de suas propriedades como componentes do sistema nervoso. Desde que o sistema nervoso como uma rede neuronal fechada opera na contínua geração de relações cambiantes de atividades neuronais, em uma dinâmica determinada por sua estrutura (conectividade e propriedades de seus componentes),as mudanças de estado das células sensoriais, mudando a estrutura do sistema nervoso, mudam sua dinâmica de relações cambiantes de atividade de tal maneira que, a um observador colocado no hiato sináptico efetor-sensor, aparecem como mudanças nas correlações senso-efetoras do organismo. Além disso, mudanças de atividade nas superfícies efetoras, que surgem nas mudanças de relações de atividade que têm lugar na dinâmica fechada do sistema nervoso, resultam em mudanças na forma e na posição do organismo em relação ao meio, e em perturbações em suas superfícies sensoriais que são próprias à operação do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada. Como conseqüência, uma mudança na superfície efetora sempre constitui uma mudança nas correlações senso-efetoras do organismo que um observador colocado no hiato sináptico senso-efetor pode perceber como um comportamento ou como uma ação sobre o ambiente.

Concomitantemente com sua participação na dinâmica fechada de relações cambiantes de atividade no sistema nervoso, as mudanças estruturais que têm lugar nas células sensoriais como resultado de sua perturbação são expressões de interações estruturais do sistema nervoso num domínio diferente do seu domínio de estados. Este domínio é o domínio do aco-plamento estrutural do sistema nervoso no domínio no qual o observador o distingue como uma rede celular aberta no espaço físico, especificando nessa rede uma superfície sensorial e uma superfície efetora. Se o observador, colocado no mesmo domínio de existência (o meio), no mesmo espaço físico que o sistema nervoso então distinguido, trata o sistema como uma rede aberta (de relações cambiantes de atividade), o observador comete seis equívocos:

  1. a) ele não vê as mudanças de estado das células sensoriais, que permanecem como parte da dinâmica fechada de relações cambiantes de atividade do sistema nervoso, quaisquer que sejam as circunstâncias que as desencadeiam;
  2. b) ele não vê as mudanças de estado das células efetoras, que permanecem como parte da dinâmica fechada de relações cambiantes de atividade do sistema nervoso, quaisquer que sejam as partes do ambiente sobre as quais elas aparecem agindo;
  3. c) o observador dá primazia ao ambiente, e trata as perturbações estruturais das células sensoriais como estímulos (inputs) para o sistema nervoso, confundindo as mudanças estruturais do sistema nervoso como um sistema celular com suas mudanças de estado;
  4. d) ele não vê que as mudanças estruturais das células sensoriais que surgem de suas perturbações no domínio no qual ele distingue o sistema nervoso ao abrí-lo, preserva a deriva estrutural do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada continuamente contigente às mudanças estruturais do meio no qual ele o vê interagir;
  5. e) ele encara como um feedback do ambiente as perturbações estruturais das células sensoriais que ele vê surgindo do ambiente como um resultado das mudanças de estado dos efetores do organismo, admitindo neste processo que os aspectos do ambiente que ele vê dar lugar às perturbações constituem estímulos (inputs) à dinâmica de estados do sistema nervoso; e,
  6. f) ele não vê que o ambiente que ele descreve no hiato sináptico efetor-sensor é, operacionalmente, tão invisível quanto qualquer outro hiato sináptico para a dinâmica fechada de estados do sistema nervoso.

Somente quando o observador está atento para o fechamento operacional do sistema nervoso como uma rede neuronal que opera gerando uma dinâmica fechada de relações cambiantes de atividade, ele pode ver que:

  1. a) o domínio de estados do sistema nervoso é um domínio de relações cambiantes de atividade entre seus componentes e que o curso destas relações prossegue como uma rede neuronal fechada que é determinada por sua estrutura (conectividade e propriedades de seus componentes);
  1. b) as mudanças de relação de atividade no sistema nervoso surgem através de mudanças transitórias da estrutura de seus componentes;
  2. c) existe um domínio de mudanças estruturais no sistema nervoso como uma entidade celular (física) que também tem lugar através de mudanças estruturais de seus componentes; e,
  3. d) esses dois domínios são operacionalmente diferentes, e que, na verdade, eles constituem domínios de fenômenos que não se intersectam, muito embora eles sejam domínios interdependentes no nível das mudanças estruturais dos componentes do sistema nervoso.

Tudo isto tem uma consequência fundamental. Enquanto o sistema nervoso opera como uma rede neuronal fechada, sua estrutura está em contínua modificação através de interações de seus componentes, tanto na realização do fechamento operacional do sistema nervoso, como no que um observador vê como interações com um ambiente fora dele. Como resultado geral dessa situação, o sistema nervoso está em uma deriva estrutural contínua na qual ele, ou permanece em acoplamento estrutural com o meio através de uma dinâmica de estados com conservação de organização e de acoplamento estrutural que um obervador vê como um comportamento do organismo adequado às suas circunstâncias, ou o organismo se desintegra, e o sistema nervoso também, porque o acoplamento estrutural é perdido através do que o observador percebe como um comportamento inadequado. É também somente quando um observador está atento para o fechamento operacional do sistema nervoso que ele pode compreender a dependência estrita da dinâmica de estados do sistema nervoso sobre sua estrutura como uma rede neuronal fechada. E também, somente assim, pode se tornar claro que lesões locais no sistema nervoso produzem, necessariamente, interferências discretas com as relações de atividade que ele gera, que aparecerão a um observador como interferências nas correlações senso-motoras que o organismo desempenha.

  1. Objetos

De tudo o que eu disse acima, é evidente que um observador somente vê um organismo em conduta adequada em seu meio se o observa enquanto ele opera em seu domínio de acoplamento estrutural (ou conservação da adaptação). Quando isto acontece, o observador vê o organismo responder com correla-ções senso-efetoras congruentes com as perturbações do ambiente, como se alguns aspectos do agente perturbador houvessem sido captados pelo organismo e usados para gerar as respostas apropriadas. Com base nisto, ele pode afirmar que o fenômeno da percepção está ocorrendo quando, de fato, nenhuma captação ocorreu. Um observador notará uma conduta inadequada em um organismo somente quando ele exigir do organismo um comportamento fora de seu domínio de acoplamento estrutural; ou seja, quando ele distinguir na mesma estrutura um organismo e um sistema diferentes, e esperar, em um, o comportamento adequado ao outro. Então, quando o olho de uma salamandra é girado em sua órbita, o observador considera o comportamento da salamandra inadequado porque ele espera que a salamandra seja um sistema diferente do que ele é depois da operação. De acordo com isso, o observador da “salamandra que se espera” não opera em acoplamento estrutural, e comete um erro porque não percebe o mundo exterior adequadamente, e se desintegra. Ainda assim, “a salamandra que não se espera”, aquela que resultou da intervenção cirúrgica no olho, opera no seu domínio de acoplamento estrutural sem cometer erros enquanto ela conserva sua organização e sua adaptação.

Para a operação do sistema nervoso com uma rede neuronal fechada, é irrelevante como surgem suas mudanças de estado. Por isto o sistema nervoso não pode, na sua operação, fazer uma distinção entre uma percepção e uma alucinação vivenciada por um observador em um meio ao observar as interações de um organismo. O que um observador faz em tais circunstâncias é distinguir diferentes tipos de correlações senso-efetoras no organismo observado, notando se as mudanças estruturais do sistema nervoso que dão origem às mesmas resultam de perturbações do meio, ou da dinâmica interna de mudanças estruturais do próprio organismo. O observador chama de percepções as primeiras, e de alucinações as últimas. As circunstâncias ambientais que o observador associa com as percepções do organismo observado são os objetos (os aspectos ) do mundo. Mais ainda, os objetos que o observador descreve no ambiente de outro organismo não participam de tal operação no sistema nervoso desse outro organismo; ela não existe para ele. A estrutura do meio participa somente através de perturbações estruturais (perturbações paramétricas) ortogonais à dinâmica de estados do sistema nervoso de um organismo. Como uma conseqüência, embora a estrutura do meio não entre na dinâmica de estados do sistema nervoso, sua deriva estrutural é contigente às mudanças estruturais do meio através das interações do organismo, o qual, ou conserva seu acoplamento estrutural através de comportamentos adequados, ou se desintegra. Os objetos que dois observadores em conversação descrevem, surgem como tais somente na linguagem como uma forma de coordenação ontogênica da conduta que, em alguns organismos, resulta de suas derivas ontogênicas em acoplamente estrutural recíproco (Figura 4). Em outras palavras, os objetos surgem somente na história co-ontogênica particular de coordenações ontogênicas recorrentes da conduta que é a linguagem (ver Maturana 1978; Maturana e Varela, 1980).

  1. Espaços perceptivos

Posto que as superfícies sensoriais e efetoras s surgem através da especificação operacional de um domínio de interações para um organismo na abertura de uma sinapse, e desde que o observador faz isto ao distinguir um organismo ao tratar de aspectos do hiato sináptico como um ambiente, um organismo tem tantas superfícies sensoriais quantas forem as sinapses abertas desta maneira. Mas, quando quer que isto ocorra, é suscitado um domínio de acoplamento estrutural no domínio de distinção do observador, domínio no qual o organismo conserva sua organização e sua adaptação, então, é criado também um domínio perceptivo para o organismo observado. Assim, existem tantos espaços perceptivos no organismo quantas sejam as superfícies sensoriais ou combinações de superfícies sensoriais que um observador possa definir neste organismo.

Os diferentes aspectos que o observador descreve nestes espaços perceptivos parecerão a ele aspectos do mundo em que o organismo existe e que ele pode afirmar que sejam aspectos de um mundo objetivo, se ele encara a percepção com a captação de tais aspectos (ver Figura 3). Se este é o caso, o observador afirmará que pressões, tons de cores, bordas, cheiros ou sons refletem aspectos de um mundo objetivo que o sistema nervoso reconstrói através da percepção para computar o comportamento do organismo no mesmo. Ver, para tal observador, seria a captação de um mundo externo visível, e sua tarefa como biólogo que estuda a visão em cores, por exemplo, seria investigar como a informação está contida nos diversos tons das cores, e como ela é retida durante os vários estágios de processamento no sistema nervoso central, de maneira a ser reconhecida e utilizada para fazer distinções cromáticas no ambiente pelo sistema nervoso.

Para um biólogo que pensa como eu proponho que deveríamos pensar, ver seria operar em um domínio de correlações senso-efetoras no qual as células sensoriais envolvidas nas interações estruturais (interações paramétricas, ortogonais ao domínio de estados do sistema nervoso) no meio seriam células foto-sensíveis, um domínio no qual as diferentes dimensões perceptivas (tais como forma, tom ou movimento) seriam maneiras e circunstâncias diferentes de gerar estas correlações senso-efetoras enquanto o organismo permanece em acoplamento estrutural no domínio de existência das células sensoriais envolvidas. A tarefa, na pesquisa de tal biólogo, seria descrever como são geradas as diferentes correlações senso-motoras que ele vê como diferentes distinções perceptivas pelo organismo observado, e descrever como os diferentes domínios de correlações internas na operação do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada constituem os diferentes espaços perceptivos que aparecem expressos em tais distinções perceptivas (ver Maturana, Uribe and Frenk, 1968). Em outras palavras, sua tarefa seria descobrir como as diferentes correlações senso-efetoras do organismo especificam as diferentes dimensões dos espaços perceptivos, e como estes surgem como diferentes bordas operacionais na intersecção das mudanças de atividade que surgem na dinâmica fechada do sistema nervoso como resultado das mudanças de estado (mudanças paramétricas) das células sensoriais, quando elas são perturbadas em um domínio particular de acoplamento estrutural do organismo. Para tal biólogo, a palavra percepção conotaria as circunstâncias que desencadeiam um comportamento adequado num organismo operando em acoplamento estrutural através de uma superfície sensorial particular. Também, para tal biólogo, as correlações senso-efetoras do organismo observado definiriam os objetos e os aspectos de um mundo que ele descreveria, através das coordenações de ações da linguagem, como parte de seu ambiente.

  1. O poder do farmacologista

Todas as considerações que fiz me permitem afirmar que perceber é suscitar correlações senso-efetoras como resultado do operar em um domínio particular de acoplamento estrutural e que, para um observador, essas correlações senso-efetoras aparecem como distinções em um ambiente. Conheço todas as dificuldades que esta abordagem suscita enquanto estivermos iludidos com nossas certezas experienciais quanto à necessidade de um mundo independente de objetos que podem ser percebidos para fazer distinções que permitem as ações efetivas. Ainda assim, talvez nos ajude lembrar do poder descritivo do farmacologista no seu período áureo, quando diferentes substâncias eram descritas por ensaios biológicos, por exemplo, quando estrogênios eram caracterizados pelas mudanças de estado dos ovários e do útero de uma coelha. Naqueles dias, se podia distinguir e descrever (isto é, perceber) a presença de estrogênios na urina de uma fêmea grávida através das mudanças de estado nos ovários da coelha, e se podia caracterizar as propriedades dos ovários do coelho (quer dizer, conhecê-los) com a urina de uma fêmea grávida.

Nosso mundo de cognições através da percepção é assim: trazemos à baila um mundo de distinções através de mudanças de estado que atravessamos enquanto conservamos nosso acoplamento estrutural com os diferentes meios nos quais somos imersos através de nossas vidas, e, então, usando nossas mudanças de estado como distinções recorrentes em um domínio social de ações (linguagem), suscitamos um mundo de objetos como coordenações de ações com as quais descrevemos nossas coordenações de ações. Infelizmente, esquecemos que os objetos que trazemos à baila dessa maneira são coordenações de ações em um domínio social, e, iludidos pela eficácia de nossa experiência em coordenar nossas condutas na linguagem, damos ao objeto uma proeminência externa e os validamos em nossas descrições como se eles tivessem uma existência independente de nós como observadores.

Referências

Maturana, H.R. (1978a) Cognition. In : Heijl, P.M., Köck, W.K. & Roth, G. (eds.). Wahrnehmung und Kommunikation. Frankfurt, Peter Lang. 1978. p. 29-49.

Maturana, H.R. (1978b) Biology of Language: Epistemology of reality. In: G.A.Miller & E. Lenneberg, eds. Psychology and Biology of Language and Thought. New York, Academic Press, p. 27- 64.

Maturana, H.R., Uribe, G. & Frenke, S.(1968) A biological theory of relativistic color coding in the primate retina. Arch. Biol. y Med. Exp., Supplement No. 1. Santiago, Sociedad de Biología de Chile.

Maturana, H.R. and Varela,F.J.(1980) Autopoiesis and Cognition. The Realization of the Living. Reidel, Dordrecht, 1980.

Nota acrescentada às provas

É uma conseqüência necessária da organização do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada que ele admita lesões, cortes e ressecções, que alteram sua estrutura com mudanças consequentes na sua dinâmica de estados, mas que o deixam como uma rede neuronal fechada e não destroem sua unidade operacional. É também uma conseqüência necessária da organização do sistema nervoso como uma rede neuronal fechada, e da regularidade dos processos morfogênicos, que lesões localizadas no sistema nervoso de diferentes membros da mesma espécie animal devam interferir de uma forma delimitada e regular com as relações internas que o sistema nervoso pode gerar. Nessas circunstâncias, cada correlação senso-efetora que surge na operação do sistema nervoso, e que um observador distingue como um comportamento particular, ou como uma percepção em relação ao ambiente, sofrerá interferências de maneiras diferentes e singulares por lesões feitas em diferentes pontos da rede neuronal fechada que gera estas correlações. Afasias e apraxias são exemplos destas situações. Na verdade, afasias e apraxias, de acordo com o que disse, são conseqüências necessárias de lesões localizadas que interferem com a geração de relações de atividade no sistema nervoso que dão origem às correlações senso-motoras particulares envolvidas na coordenação de ações que constituem a operação humana em um domínio lingüístico. Mais ainda, de acordo com o que disse, todos os distúrbios que surgem de lesões do sistema nervoso devem ser descritos como mudanças nas configurações de relações de atividade que surgem em uma rede neuronal fechada sem referência a um mundo exterior. De fato, é a tentativa recorrente de descrever o que acontece no sistema nervoso em termos de um mundo exterior que tem obscurecido a compreensão adequada das conseqüências de lesões no sistema nervoso como expressão de desconexões internas em uma rede neuronal fechada.

Nessas circunstâncias, um paciente com uma agnosia espacial, que negligencia o lado esquerdo de um objeto, não demonstra negligência ao lado esquerdo de uma entidade externa, mas sim revela sua incapacidade de gerar as mudanças de relações de atividade neuronal que dão origem a uma configuração senso-efetora que envolve uma correlação senso-efetora através de uma borda operacional de simetria senso-efetora, enquanto esta borda de simetria é definida por uma correlação senso-efetora particular que, na perspectiva do observador, envolve a especificação postural de um objeto que possui lados, um esquerdo e um direito, que são também definidos em termos de correlações senso-efetoras. As observações clínicas e experimentais de distúrbios funcionais localizados, que resultam de lesões focais no sistema nervoso do homem e de outros animais, não revelam funções localizadas em termos de um mundo exterior, nem revelam a operação do sistema nervoso em termos de representações desse mundo exterior. Esses estudos revelam uma conectividade relacional particular de um tipo particular de sistema nervoso que opera como uma rede neuronal fechada em acoplamento estrutural, através do organismo que essa rede integra, no domínio de existência no qual o observador distingue o organismo.

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Tradução: Nelson Vaz e Cristina Magro.