Contos

Picotes

Picotes

Espantoso. Aquela mulher enorme, a bunda sem caber na cadeira, à frente da escrivaninha , picotando os cheques com a tesourinha de minha mãe.

– Que é que você está fazendo aí, mulher?

Ela se assustou e com aquela cara branca e redonda, enormes olhos, me disse que foi a Dona Loreta que mandou, que tinha que mostrar a ela os cheques picotados.

– Mas que absurdo. Minha mãe não morreu ainda! Já imaginou o que ela faria vendo você mexer nas coisas dela…E com essa tesourinha, sua idiota! Você não vê que essa é uma tesourinha Vitry, francesa… Ah, você não sabe nem o que é a França! Sai, sai, larga isso, sai…

– Mas a Dona Loretta…

– A Dona Loretta é minha irmã e eu mando tanto nessa casa quanto ela, de forma que quero você fora daqui, agora, Já! Saia – apontando a porta. E me dê aqui essa tesourinha. Que absurdo, meu Deus, a tesourinha da Mamãe bordar. Ela saiu.

Fiquei ali olhando aquele monte de papel picado. Mas, veja isso, que absurdo, só tem os canhotos de cheques velhos. Fechei a escrivaninha e saí para a sala, mas enquanto eu andava para a copa aquela coisa estranha não me saía da cabeça. Porque a Loreta havia de ter esse atrevimento de mandar mexer nas coisas da Mamãe enquanto ela agoniza no CTI? Porque essa precaução de picotar os canhotos dos cheques velhos? Que interesse teria alguém… e a ideia me estourou na cabeça: Você, idiota, você é a única pessoa, além da Loretta, que poderia ter interesse em saber em que a velha andava torrando a grana toda. Idiota. Vá lá pegar aqueles canhotos, imbecil. Tem gente obsessiva capaz de remontar aquilo tudo, colar…você, por exemplo.

Voltei para o quarto com um saco de plástico e enfiei os picotes dentro dele com o cuidado de não mudar muito a posição em que se empilhavam para facilitar o quebra-cabeças que me esperava. Quando fechei a tampa da escrivaninha, foi como se ela tivesse acionado um interruptor: as luzes da casa se apagaram. Claro, me assustei. Mamãe morrendo, Papai já morto há um

ano, eu ali no quarto deles, mexendo naquilo, os móveis escuros. Mas, que bobagem. O Rio de Janeiro está assim mesmo, falta luz toda hora. Mas quando cheguei na copa com o saco de plástico na mão, pensei. Isso ia ser uma declaração aberta de guerra à Loreta. Fiquei parado na copa da casa vazia, o saco de plástico leve, pesando na mão.

No exato momento em que me virei para voltar à escrivaninha, as luzes se acenderam. Me assustei mais do que quando elas se apagaram. Bobagem. Voltei ao quarto, coloquei o saco de plástico dentro da escrivaninha e fechei a tampa. No exato momento em que a tampa tocou amadeira, as luzes se apagaram de novo. Aí eu me assustei de verdade e fiquei procurando entender o que significava aquilo. Será que eu tenho que deixar tudo como estava? Abri de novo a escrivaninha. Na penumbra do quarto, retirei com cuidado os canhotos picotados do saco e repus mesmo onde os achara. Aquilo demorou uns minutos. O coração batendo, porque eu sabia o que me esperava. Dito e feito. Foi só fechar a escrivaninha e, como se ela tivesse clicado um interruptor, as luzes se acenderam. Fui para a sala ver televisão. As luzes ainda piscaram umas duas vezes.

Voltei para casa e, como de hábito, acordei antes das 5 da manhã e fiqueiescrevendo. Quase sempre o dia clareia sem que eu me aperceba e quando volto o rosto para a esquerda, dou de cara com o dia já nascido e é sempre um espanto. Mas hoje foi diferente porque levantei e fui até a janela. O jacarandazinho estava cheio de flores azuis-roxas e elas agora não param de cair e colorir o chão todo de roxo. Ai, meu Deus. E mamãe, como estará?