Contos

Escapar de morrer

Escapar de morrer

“A primeira vez eu tinha cinco anos, minha mãe pediu que chamasse o pai algumas casas ao lado. Entrei no barracão onde homens conversavam em roda e me aproximei sem ser notado. Hoje sei que olhavam um revólver, um Parabelum na mão de um deles, daqueles antigos que se podia virar uma alça para trás ficando como o cabo de uma sub-metralhadora. Sem me ver, o homem virou a arma para baixo e para trás, puxou o pente e, ainda sem olhar, soltou. O revólver disparou a um palmo da minha cara, a bala furou minha calça curta e tirou” – ele fez dois dedos em pinça – “um pedacinho do meu saco. Isso é escapar de morrer?” Eu fiz que sim com a cabeça mas ele ia me contar o resto de qualquer maneira. Dessa vez era rapaz no tiro de guerra, a memória de outra arma, outro disparo. Estava sentado com os soldados no chão do galpão de madeira, cabeça apoiada na parede, quando a bala entrou tirando uma lasca a menos de quatro dedos da orelha direita, espoucou levantando poeira na parede em frente.

Ainda não se falara em morte, era noite de festa, bem verdade estivéssemos sentados longe de todos, na penumbra da varanda, ele sempre de branco, da cor dos cabelos, olhando o aquário, falou sem desvio que já havia escapado de morrer quinze vezes e sem um comentário meu, começou.

Dos tiros passou às facas, quando se fechou com um ajudante desaforado dentro da geladeira do açougue que dirigia em Copacabana, depois de ser insultado na frente de todos. Ficaram os dois no frio, o mulato bêbado com a faca na mão, ele com o machado pesado de cabo curto, iluminados por uma luz amarela entre as carcaças sangrentas, tremendo de frio e nervosos, aventais manchados de sangue, olhos nos olhos, dentes trincados. O outro se acovardou, começou a soluçar alto, e ele o despediu aos gritos e empurrões, compostura recuperada, coração aos saltos. Isso é escapar de morrer?

Outra vez foi um amigo, na praia de Icaraí, que quase o matou. Um dia muito azul e claro, todos nadando alegres, começaram a se dar caldos, a afundar uns aos outros. Não sabe de quem levou um caldo e , pra se livrar, havia mergulhado mais fundo, vinha voltando à tona já sem fôlego quando o amigo, sem o ver, bateu-lhe com força o calcanhar na cabeça. “Ficou tudo estranho, gostoso, soltei o ar e sentí que estava bebendo água, mas sem aflição, tudo muito claro. Verde. Uma preguiça enorme de pensar”. Alguém viu e o salvou, acordou na praia, boca suja de areia, amigos assustados, estranhos em volta. “Isso é escapar de morrer?”

Houve a queda na Santa, no Colégio Salesianos, em Niterói. Havia bebido e, em vez de descer com os outros a longa fila de pequenos degraus, descera o morro correndo pelo gramado central sem atender ao alerta dos que desciam pelas laterais, quando de repente o gramado acabou em um vão sobre um capinzal quatro ou cinco metros abaixo. Voou seu mais longo vôo em silêncio, olhos e braços bem abertos, amigos apressados em socorro descendo pelas escadinhas estreitas. Sumiu no capim alto, lá de cima se via onde caíra, apontavam. Estava quieto, a cabeça metida no mato, morto talvez, mas levantou de um salto e com um berro, assustado, encabulado, ileso.

Escapou de doenças graves, foi guiando até o hospital durante um infarto, dando socos no peito peludo, xingando. Uma noite, com febre alta, resmungava sem parar, “…espera aí, escuta…não é assim.. olha.. não faz isso” , em meio a calafrios e sons secretos, entendia, trapaceava a doença, ganhava tempo. Na gravidez tubária da mulher, em Mato Grosso, perderam-se de noite no avião teco-teco e com o ponteiro do combustível no zero viram o campo da cidadezinha iluminado pelos faróis dos automóveis.

Eu ali solidário, cúmplice. Olhou de novo para o aquário, e disse “mês que vem faço sessenta anos”- parecia ainda pensar na morte.

Dez anos depois, matou-se. Consta que estava   apaixonado por uma vizinha quarenta anos mais jovem, mas não creio que isto fosse bastante.   Uns dias antes, mandou a mulher para a casa do filho, com o pretexto de uma briga. Na noite escolhida abriu todas as janelas, acendeu as luzes, ligou a música bem alto, pôs o velho carro ao contrário na varanda – deve ter bebido muito – fez seu leito embaixo do parachoque traseiro, deu partida no motor e foi escapar do tempo.