Blog da SBI

Muitos fazendo pouco

Muitos fazendo pouco
Nelson Vaz
blog da SBI – JUNHO-2012

                  Há vários anos insisto naquilo que considero um aspecto básico da conversão da fisiologia imunológica em patologia: uma perda da diversidade clonal (Vaz & Pordeus, 2005; Pordeus et al., 2009). Creio mesmo que precisamos atentar para a diversidade biológica em muitas áreas além da imunologia. Ameaças à “biodiversidade” são reconhecidas como graves danos ecológicos. No conjunto de estudos recentemente publicados sobre o “microbioma” humano há indicações de que perdas na diversidade microbiana do hospedeiro estão frequentemente associadas com patologias humanas (Grice et al., 2009; Costello et al., 2012). Quando certas populações microbianas se expandem em demasia surge a doença, mas germes potencialmente patogênicos podem co-existir harmonicamente com o organismo, desde que em equilíbrio com outros micróbios. O tratamento com antibióticos pode ser uma faca de dois gumes e gerar estados patológicos por alterar este equilíbrio entre populações microbianas muito diversas (Blaser, 2009). Na própria imunologia, aquilo que já foi chamado “linfopoiese por linfopenia” (ou “proliferação homeoastática”) é um exemplo similar, porque na regeneração linfóide, clones diferentes se expandem em ritmos diferentes (Kruprica et al., 2006).

Um dos trabalhos mais interessantes que li nos últimos anos mudou meu entendimento sobre a natureza das substâncias que chamamos de “antibióticos”, usualmente considerados armas para o combate de micróbios. Na natureza, essas substâncias funcionam como elementos de interação entre populações microbianas diferentes. Cada linhagem bacteriana secreta simultaneamente dezenas destas substâncias em minúsculas quantidades e nunca foram encontradas em condições naturais as concentrações necessárias para seu uso terapêutico como “antibióticos”. Esta diversidade essencial ao viver é o que explica porque só é possível cultivar cerca de 1 % das espécies bacterianas em cultura pura e explica também porque sempre morriam as samambaias silvestres que meu velho pai insisita em trazer para seu jardim. Bactérias e fungos que vivem em “vida livre” no solo são, em seu conjunto, muito diferentes das bactérias e fungos que vivem suas “vidas livres” sobre as superfícies muco-cutâneas dos animais. (Mlot, 2009).

Enfim, pode mesmo ser algo bem mais geral o fato de que “simplificações” de processos biológicos que são naturalmente diversos representem caminhos comuns para a desintegração de sistemas.  Muitos fazendo pouco parece ser a regra para a saúde sistêmica, a regra que é quebrada por poucos fazendo muito. É uma pena que os imunologistas em sua diversidade, não atentem ainda para isso.

 

AYRES, J. S., TRINIDAD, N. J. & VANCE, R. E. 2012. Lethal inflammasome activation by a   multidrug-resistant pathobiont upon antibiotic disruption of the microbiota. Nature Medicine 18,   799–806 (2012) doi:10.1038/nm.2729, 18, 799-806.

BLASER, M. 2011. Stop the killing of beneficial bacteria. Nature, 476, 392-394.

COSTELLO, E. K., STAGAMAN K, DETHLEFSEN L, BOHANNAN BJ & DA., R. 2012. The application of ecological theory toward an understanding of the human microbiome. Science. 2012 Jun 8;336(6086):, 336, 125512-62.

GRICE, E. A., KONG, H. H., CONLAN, S., DEMING, C. B., DAVIS, J., YOUNG, A. C., NISC COMPARATIVE SEQUENCING PROGRAM, BOUFFARD, G. G., BLAKESLEY, R. W., MURRAY, P. R., GREEN, E. D., TURNER, M. L. & SEGRE, J. A. 2009. Topographical and Temporal Diversity of the Human Skin Microbiome. Science, 234, 1190-1192.

KRUPICA, T., JR., FRY, T. J. & MACKALL, C. L. 2006. Autoimmunity during lymphopenia: a two-hit model. Clin Immunol, 120, 121-8.

MLOT, C. 2009. Antibiotics in Nature: Beyond Biological Warfare. Nature, 324, 1637-1639.

PORDEUS, V., RAMOS, G. C., CARVALHO, C. R., BARBOSA DE CASTRO JR., A., CUNHA , A., P. &         VAZ, N. M. 2009. Immunopathology and oligoclonal T cell expansions.Observations in  immunodeficiency, infections, allergy and autoimmune diseases. Current Trends in Immunology,   10, 21-29.

VAZ, N. & PORDEUS, V. 2005. Visiting Immunology (tambem em portugues: Visita Imunologia).Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 85, 350-362.