Blog da SBI

Uma nova teoria nos espera

 

Uma nova teoria nos espera
Nelson Vaz
blog da SBI – AGOSTO-2012

                  Certamente é problemático afirmar que a imunologia é eficaz em explicar a atividade imunológica em condições patológicas, mas não a normalidade. Como entender doenças sem entender a fisiologia é uma questão difícil, principalmente para aqueles ligados à medicina. Na imunologia tradicional, assim como na visão leiga da imunidade, (folk-immunology), o reconhecimento de materiais estranhos (antígenos), o papel protetor dos anticorpos e a memória imunológica, são tacitamente aceitos. Eles não são vistos como propriedades cognitivas, ligadas ao “conhecer”, e também se encaixam bem na linguagem existente. Mesmo atualmente, a imunologia tradicional é dominada por um “cripto-Cartesianismo” que é quase um franco animismo, porque atribui propriedades “cognitivas” a células isoladas – por exemplo, fala de células de memória; linfócitos reguladores etc. Na melhor das hipóteses, estas propriedades só se aplicariam ao organismo inteiro e não a seus componentes – um equívoco conhecido em filosofia como a falácia mereológica (Bennet & Hacker, 2003) .

É difícil para os imunologistas aceitar afirmações (e experimentos) contrários ao seu “representacionismo”, porque eles creem que antígenos externos estão “representados” no organismo, teem uma correspondência interna bi-unívoca com clones linfocitários e anticorpos. Isto permanece assim embora a essência do conceito de “especificidade” imunológica tenha sido literalmente destruído pela demonstração de uma enorme degeneração (poliespecificidade) de linfócitos e anticorpos (Wucherpfennig et al., 2007).

É compreensível que os imunologistas insistam em ver aquilo que se passa com linfócitos e anticorpos como um “reconhecimento de materiais estranhos”. O senso comum da ciência atribui funções especializadas às estruturas biológicas e este “reconhecimento” tem sido enacarado como a “razão de ser” dos linfócitos. Mas há experimentos publicados em periódicos de prestígio que certamente não se encaixam nesta maneira de ver.

Em seu famoso livro sobre a “Estrutura das Revoluções Científicas”, Thomas Kuhn afirma que teorias científicas não são refutadas por fatos científicos que as contradigam: para que isto ocorra elas precisam colidir com teorias rivais mais adequadas. (Kuhn, 1965)[1] Embora respeite muito esta ideia, me surpreende que os adeptos da teoria de Seleção Clonal convivam com tantas contradições flagrantes a seus princípios e prossigam em uma conduta que é quase “behaviorista” ao estudar “respostas imunes espeçíficas” a “estímulos antigênicos”, atualmente alegando que estudam sua “regulação”[2]

Uma destas contradições foi sumarizada em uma pequena nota na Immunology Today (Cerny & Garnet, 1984). Nessa nota, se argumenta que após a injeção de um antígeno X, como esperado, surgem anticorpos anti-X, mas também anticorpos (anti-idiotípicos) anti-anti-X. O que não se espera é que a primeira leva de anticorpos anti-anti-X surge antes dos anti-X. Como pode isto ocorrer?

Uma outra evidência difícil de engolir em uma visão “clonal” está descrita em Forni et al., 1980, onde se mostra que a injeção de certas IgM resulta no aparecimento de (centenas de vezes mais) IgM com a mesma especificidade (Forni et al., 1980).

Ou, ainda, nos experimentos de Coutinho e colaboradores que geraram centenas de imunoglobulinas monoclonais do baço de Balb/c acabados de nascer (Dighiero et al., 1985). Nestes experimentos o universo dos imunologistas é virado pelo avesso. Os experimentos podem mostrar quais são os imunoglobulinas formadas pelo organismo antes de nascer – mas como caracteriza-las como anticorpos? Em geral, já se conhece o antígeno e os monoclonais são produzidos com uma direcionalidade, pois se pretende utiliza-los como reagentes bioquímicos específicos. Mas os Balb/c recém nascidos, assim como todos os organismos em todas as idades, não têm esta direcionalidade: ela pertence aos interesses dos imunologistas, não aos organismos vivos.

Enfim, há muita coisa interessante já demonstrada que serviria para a construção de uma teoria que substituísse a teoria clonal. Algo interessante é perguntar por que esta outra teoria não apareceu ainda? A resposta está na simplicidade da teoria clonal, produzida em 1957-1959, quando sequer se reconhecia a existência de linfócitos T (Miller, 1961) baseada na distinção entre self e nonself (uma distinção que é fácil para nós, mas impossível para os linfócitos). Mais de meio século se passou desde então e neste intervalo aprendemos muito mais, não apenas sobre imunologia, mas principalmente sobre a Biologia, em geral. Uma nova teoria precisa incorporar estes novos conhecimentos e esta é uma tarefa gigantesca. Mas o cenário está mais do que maduro. Certamente, trata-se de uma teoria sistêmica que implica um outra maneira de ver que incluirá a nós mesmos, que somos quem vê, como observadores em seu linguagear (Maturana, 2008).

 

Bibliografia

BENNET, M R & HACKER P M (2003) Philosophical Foundations of Neuroscience. London, Blackwell Publishing.

CERNY, J. & KELSOE, G. 1984. Priority of the anti-idiotypic response after antigen administration: artifact or intriguing network mechanism? Immunol.Today, 5, 61-63.

DIGHIERO, G., LYMBERI, P., HOLMBERG, D., LUNDQUIST, I., COUTINHO, A. & AVRAMEAS, S. 1985. High frequency of natural autoantibodies in normal newborn mice. J. Immunol., 134, 765-771.

FORNI, L., COUTINHO, A., KOHLER, G. & JERNE, N. K. 1980. IgM antibodies induce the production of antibodies of the same specificity. Proc.Natl.Acad.Sci.USA, 77, 1125-1128.

KUHN, T. 1965. The structure of Scientific Revolutions, Chicago, University of Chicago Press.

MATURANA, H. R. 2008. Anticipation and Self-consciousness. Are these Functions of the Brain?Constructivist Foundations, 4 18-20.

MILLER, J. F. A. P. 1961. Immunological role of the thymus.Lancet, 278, 748-749.

WUCHERPFENNIG, K. W., ALLEN, P. M., CELADA, F., COHEN, I. R., DE BOER, R. J., CHRISTOPHER GARCIA, K., GOLDSTEIN, B., GREENSPAN, R., HAFLER, D., HODGKIN, P., HUSEBY, E. B., KRAKAUER, D. C., NEMAZEEM, D., PERELSON, A. S., PINILLA, C., STRONG, R. K. & SERCARZ, E. E. 2007. Polyspecificity of T cell and B cell receptor recognition. Semin Immunol, 19, 216-224.

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[1] Em seu prefácio, Khun menciona “Gênese e Desenvolvimento de um fato científico” de Ludwik Fleck, (1935) hoje já disponível em português (Fabrefactum Editora, 2010) e também discutido em textos recentes organizados por Mário Lúcio Leitão Conde (Luwik Fleck: Estilos de Pensamento na Ciiencia; Belo Horizonte, Fino Traço Editora, 2012), entre outros. O próprio título de Fleck sugere que “fatos científicos” nascem, se desenvolvem e, eventualmente, morrem.

[2] Em um arcabouço estímulo/resposta, tal regulação só pode ser uma “resposta regulatória” que demanda outra “resposta regulatória”. A criança é jogada fora com a água do banho.