Blog da SBI

A defesa imaginada

A defesa imaginada
Nelson Vaz
blog – fevereiro – 2013

Há muitos anos escfevi um pequeno ensaio intitulado “Claro sim, simples não” que argumentava ser possível explicar claramente como algo é complexo; ou seja, que todas as entidades, todos os fenômenos são complexos, mas é possível descrevê-los claramente. Não sei se meu argumento foi bem sucedido. A simplicidade está no alicerce do hubris, da presunção autoritária, da petição de obediência que muitas vezes acompanha o conhecimento. Descrever algo complexo em termos enganadoramente simples, é muito comum.

Hoje, pensando na atividade imunológica, um hábito que me acompanha há meio século, entendi que deveria escrever um outro ensaio, intitulado “Simples sim, claro não”, que argumentasse sobre o entendimento público daquilo que se chama “imunidade”, ou, mais precisamente, o carácter defensivo da atividade imunológica. O conceito de “imunidade” depende do binômio ataque-defesa. Mas, em geral, não se leva em conta que, para se defender, o corpo precisa “saber” que está sendo atacado. E o conhecer, a atividade cognitiva, é o aspecto mais complexo e encantador da atividade biológica.

Podemos argumentar que a superfície externa visível dos seres vivos, aquilo que em nós é a nossa pele, é um órgão de defesa contra invasores. Na deriva filogênica natural a pele se cobriu de escamas, depois de penas, depois de pelos;e todas estas estruturas podem ser vistas como recursos de defesa. O casco de tartarugas, por exemplo, é evidentemente um recurso defensivo. Mas, desenvolver uma estrutura corporal que resulta defensiva é muito diferente de desenvolver um mecanismo defensivo, como se imagina que seja a imunidade, como um mecanismo que possa ser destacado dos mecanismo do viver.

Já citei repetidas vezes que a fagocitose, considerada um exemplo celular de mecanismos defensivos, na realidade, é um mecanismo indispensável do viver de organismos multicelulares, importante na morfogênese embrionária, nos processos de diferenciação e regeneração. Sem a fagocitose de células apoptóticas, o corpo não sobeviveria,o embrião não chegaria sequer a se formar. Então, a fagocitose, digamos, de bactérias, pode resultar naquilo que podemos descrever como a defesa do corpo, mas é um mecanismo muito mais geral do viver e não está devotado à defesa, apenas serve para ela, resulta defensivo. A defesa é uma parte de nossa descrição do que se passa, não é u a parte do que se passa como mecanismo biológico.

A imunidade, o mecanismo imunitário, é um exemplo de fenômeno “simples sim, claro não”; tão simples que o público o aceita sem titubear; tão obscuro que até hoje não sabemos inventar novas vacinas, nem entendemos ao certo como funcionam aquelas que já inventamos; não sabemos curar alergias e nem sequer diagnosticar doenças autoimunes. O mecanismo imunitário é enganadoramente simples. Mas ele trás graves desvantagens, a maior das quais talvez seja o reforço da crença de que habitamos todos um mundo perigoso e que o viver requer de nós, os seres vivos, um grande esforço.

A crença de que o viver é difícil, que requer de nós um contínuo esforço e sacrifício, pode ser contradito de várias maneiras. Uma das mais encantadoras é assistir a um documentário sobre famílas de lontras amazônicas. Isto não é uma negação da dor e do pânico dos peixes que elas usam como alimento no momento da captura. Pior ainda , nos parece, é a tragédia de peixes engolidos ainda inteiros por tantas aves. Mas concordo com a visão “amorosa” que Matura imprime à sua descrição dos processos naturais, segundo ele baseados no amor e na confiança. Uma borboleta deixa o casulo e levanta seu primeiro vôo na confiança de que encontrará flores; seu vôo, que muda a direção constantemente em rápidos movimentos também pressupõe a presença de predadores. Mas não pressupõe a existência de inseticidas.

Uma criança humana nasce na confiança de encontrar uma mãe carinhosa que a acolha e nutra e depois a eduque. Não pressupõe a indiferença e a agressão. Cada criança que nasce é um demonstração da natureza fundamentalmente amorosa do viver humano. Esta é a tese que Maturana defende um um programa recente da TV chilena (24/10/2012), intitulado “tolerância zero” que discute a atual crise de violência porque passa a humanidade. (<http://www.youtube.com/watch?v=T9LkHoPS3Ns.)