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Ohad Parnes, Exú e a teoria imunológica

Parnes, Exú e a teoria imunológica
Nelson Vaz
blog – março – 2013

Há 10 anos, Ohad Parnes publicou uma longa e excelente descrição da história da imunologia na primeira metade do século vinte, segundo a qual: “(A) noção de autoimunidade é um desvio de uma longa história de pesquisas sobre doenças crônicas e a inflamação, como processos auto-reativos que envolvem auto-destruição.” (Parnes, 2003). O texto de Parnes envolve um definição precisa do conceito de “agência” (e “agentes”, como em “agentes infecciosos”) que dominou a imunologia desde seu nascimento. Ele escreve:

Quando se tornou suficiente demonstrar que a inoculação de germes em animais experimentais era suficiente para reproduzir (re-produzir) a doença, esclarecer a natureza do processo patogênico em si mesmo tornou-se supérfluo.”

Isto criou uma separação nítida entre a ciência básica e a aplicada. A vacinação e os testes sorológicos estão entre as maiores contribuições da pesquisa biomédica à saúde pública. As noções de imuno-proteção e de especificidade sorológica, que derivam destas práticas voltaram como boomerangs para a pesquisa básica em imunologia, onde se tornaram os princípios norteadores do ensino e da pesquisa. Esta influência, permanente e nociva, impede que a atividade imunológica seja vista estudada como uma atividade biológica inserida na auto-construção/manutenção do corpo dos vertebrados, mais do que como um mero mecanismo de defesa; a “defesa” pode ser vista como um resultado do que se passa em consequência da auto-construção/manutenção do corpo, um processo mais geral e mais importante.

 

De acordo com Parnes (2003), o grande interesse em “agentes” patogênicos resultou em uma dissociação entre os processos patológicos e os “agentes” que supostamente os desencadeiam. No centro deste argumento, porém, está a noção de reatividade e ele afirma que:

…todo processo patológico é antes de mais nada um processo de auto-destruição. A essência do processo patológico, a causa da detruição dos tecidos, é um processo fisiológico desviado (pag 430) (…) Se o agente patológico é ao mesmo tempo a causa e o determinante da doença específica – onde ficaria a doença em si mesma? Em outras palavras, como entender a doença em um cenário dominado por agentes patogênicos? Isto gerou uma abordagem mais ou menos esquizofrênica ao estudo das doenças. Por um lado, a Bacteriologia floresceu demonstrando a etiologia (bacteriológica ou viral) de uma lista cada vez mais longa de doenças. Por outro lado, a patologia foi forçada a repensar todos os seus princípios fundamentais.” (pag 431)

 

Este conceito precioso não escapou à atenção de Carl Weigert, que, segundo Parnes:

“ foi rápido em entender o problema: as bactérias podem ser a causa das doenças, mas não as explicam.” (pag.432)

 

Weigert era primo de Paul Erlich e o influencioiu na publicação da teoria das Cadeias Laterais sobre a produção de anticorpos (rodapé 32, pag 432). Weigert propôs que cada processo patológico começa como uma “lesão primária”, mas a doença em si mesma é a reação do corpo a esta lesão primária.

A inflamação também era parte dessa reatividade, que era essencialmente reparadora, mas frequentemente se excessiva e causava mais dano que a lesão original, primária” (pag 433).

 

Weigert chamou esta explicação de “teoria de Siva”. No Hinduismo, Siva (se pronuncia Shiva) é uma das três divindades primárias consistindo de Brahma, o criador; Vishnu,o preservador; e Siva, o destruidor. No entanto, a destrutividade de Siva é construtiva, porque ele destrói para criar novas entidades. A destruição visa a regeneração…” (pag 433).

 

Na imunologia moderna, Brahma, o criador provavelmente seria indentificado com o processo de geracão da diversidade linfocitária; Siva, o dstruidor, seria a inflamação destruidora e a apoptose; mas Vishnu, o preservador, seria a dinâmica estabilizadora do sistema, que vai do processamento e apresentação de peptídeos, à organização da rede idiotípica.

 

No Candomblé brasileiro, Exú é o Orixá que opera como um intérprete, um embaixador, um organizador, e tem muitas similaridades com Vishnu. Uma “teoria de Exú” na imunologia brasileira teria aspectos interessantes. Uma imunológia que invocasse Exú seria interessante porque, parafraseando Weigert de acordo com a citação de Parnes (2003), podemos dizer que: “antígenos podem ser a causa dos anticorpos, mas não os explicam”. Mesmo animais mantidos desde o nascmento em isolamento total do contato com antígenos – animais “isentos de antígenos, ou antigen-free – desenvolvem o nível normal (usual) de anticorpos (pelo menos de IgM) (Bos et al., 1986; Haury et al., 1997); portanto, a produção de anticorpos (imunoglobulinas) resulta de processos internos ao organismo e não é instruída (especificada, guiada, determinada) pelo contato com antígenos.

 

Carl Weigert estava principalmente interessado na “regeneração” (re-criação) de processos biológicos. E é mesmo estranho que processos “re-generativos” não estejam (ainda) entre os temas centrais da pesquisa imunológica, porque os lindfócitos são tipos celulares com um ritmo muito rápido de substituição no organismo. O sistema linfocitário, como os demais sistemas orgânicos, está em contínua re-criação no corpo de vertebrados.

 

A “regeneração” (re-gerar, re-criar) se assemelha a uma recapitulação de instantes do desenvolvimento embrionário: no dicionário, “regenerar” é definido como: “ato ou instância de sumarizar e reafirmar os pontos principais de algo.” Quando ocorre uma lesão aos tecidos, o corpo adota trajetos de “regeneração” (re-geração, re-criação) de partes lesadas pela utilização de mecanismos que originalmente lhes deram origem; é um recomeço, uma reconstrução. No entanto, com o desenvolvimento de diferentes formas animais e diferentes trajetos de ontogênese, processos inflamatórios criaram impedimentos a processos regenerativos. A rápida infiltração de regiões lesadas por leucócitos circulantes sabidamente favorrece o desenvolvimento de fibrose e a formação de cicatrizes, em substituição aos tecidos normais. Recentemente, foram caracterizados métodos imunológicos de aliviar esta situação (ver Costa et al., 2011).

Bos, N. A., R. Benner, et al. (1986). “‘Background’ Ig-secreting cells in pregnant germfree mice fed a             chemically defined ultrafiltered diet.” J Reprod Immunol 9(3): 237-246.

Costa, R. A., V. Ruiz-de-Souza, Azevedo-Jr, G.M.,Gava, E., Kitten, G.T., Vaz, N.M. & Carvalho, C.R.               (2011). “Indirect effects of oral tolerance improve wound healing in skin.” Wound Rep Reg 19(4): 487-497.

Haury, M., A. Sundblad, et al. (1997). “The repertoire of serum IgM in normal mice is largely independent     of external antigenic contact.” Eur J Immunol 27(6): 1557-1563.

Parnes, O. (2003). “Trouble from within: allergy, autoimmunity, and pathology in the first half of the                  twentieth century.” Stud. Hist. Phil. Biol. & Biomed. Sci. 34: 425–454.