Blog da SBI

Indeterminação

Indeterminação
Nelson Vaz
160411 – blog da SBI abril – 2016

[Não há contradição alguma entre o determinismo estrutural (Maturana, 2002) [tudo acontece porque pode acontecer, é permitido pela estrutura] e o fato de que o que se passa conosco é inesperado e, em parte, inesperável, [o presente cambiante]mas uma grande tensão entre estas duas ideias.]

Andrew Pickering fala de um “idioma” representacional[1], seguido pela ciência e pelo senso-comum e que, em geral, se considera ser não apenas a melhor maneira de pensar, mas a única realmente válida. Mas há alternativas. Por exemplo, o núcleo de “filosofia da biologia” reunido na Universidade de Exeter, na Iglaterra, conhecidopor “Egenis”, se propõe a repensar problemas centrais dessa área pela construção de uma “ontologia para a Biologia” que assimile plenamente a “natureza processual” dos sistemas vivos[2]. Esta “natureza processual” dos seres vivos se opõe à concepção de organismos como “máquinas” (Nicholson, 2012; Nicholson, 2013; Nicholson, 2014a,b; Dupré, http://thebjps.typepad.com/my-blog/2014/08/a-process-ontology-for-biology-john-dupré.htmlJohn), uma proposta inusitada segundo a maneira moderna de pensar, que está fundamentalmente baseado na ideia de máquinas e mecanismos. (Pickering fala de um modo de pensar “não-moderno” (Pickering, 2002)).

Pickering favorece um “idioma performático” no qual o que importa são as agências (humanas e não humanas, vivas e não- vivas). Fala de uma “dança de agências”. Fala também de “caixas-pretas” e que uma criança aprende abrir uma porta sem entender nada do mecanismo das fechaduras. A criança interage com uma “caixa-preta” na qual a maçaneta é o estímulo e a resposta é a abertura da porta. Ela não precisa “entender” o que se passa para ir abrindo portas. Esta é a ideia central de Pickering inaugurada em seu livro de 1995 (The Mangle of Practice) que ele cria apoiado no que ele interpreta do trabalho de pioneiros da cibernética na Inglaterra, nos anos 1940-1950 (Grey Walter, Ross Ashby, Stafford Beer e Gordon Pask). As “tartarugas” de Grey Walter eram pequenos robots com apenas dois “neurônios” que, ao se orientar para feixes de luz de acordocom um algoritmo simples, ainda assim, geravam condutas imprevisíveis. Elas eram “agências” que procediam de acordo com onde estivessem “situadas” e não artefatos que procediam de acordodo com um “programa” interno preestabelecido. Aqui, há uma aproximação a Maturana e sua passagem “do ser ao fazer”, e em sua afirmação de que “a mente” não está na cabeça; que a mente está na conduta, no agir. [Por outro lado, Maturana afirma que tudo é dito por um observador. Tudo o que é “mental”, portanto, está nas ações dos observadores, no que é dito. De novo uma tensão, não sei se a mesma 1ue mencionei no início deste texto].

Tenho interesse em uma conversa que pule um século inteiro de ciência; que mencione discussões do século dezenove, que criaram a imunologia, e ainda hoje formam a base do que pensamos hoje. Quero pular o século vinte, no qual surgiram os músculos poderosos que movem o esqueleto conceitual criado no século dezenove, e no qual realizei aparte exprimental de meu trabalho; e me concentrar no século vinte um, quando, como aposentado, me dediquei quase exclusivamente ao trabalho teórico.

[Não sou contrário a ideia de vacinas, pelo contrário, gostaria de ver esta ideia esclarecida além das barreiras que ela hoje enfrenta, para que possamos aquilatar os limites de sua utilidade e decidir em que pontos deveríamos optar por outras soluções na conservação da saúde pública. O que gostaria de ver eliminado da noção de vacinas é exatamente o fantasma defensivo que supostamente habita o organismo, ao mesmo tempo sábio e subserviente, e nos protege de doenças. Esta crença dificulta o entendimento do problema essencial que está em debate. Ela é um obstáculo, e não um recurso favorável ao progresso que todos desejamos.]

O fantasma imunológico nasceu no final do século dezenove, mas cresceu no século vinte e foi no século vinte que ele recebeu os músculos poderosos que hoje movem o seu esqueleto conceitual.

Para muitas pessoas, mas não todas, vivenciar e aceitar que temos “pontos cegos” em nossa percepção visual – e que, em última análise -, somos “cegos” aos nossos “pontos cegos” – pode ajudar a conceber possibilidades de entendimento que usualmente permanecem ocultas. Aceitar que nossas certezas podem ocultar equívocos não é um passo trivial, mas as “certezas” que o conhecimento científico propicia são sempre provisórias e boa parte do trabalho científico é constituído de esforços para substituir estas certas por outras mais claras ou abrangentes.

Quando alguém procura um psicoterapeuta o faz em busca de auxílio para resolver problemas que não conseguiu resolver sozinho e que agora são causa de desconforto e sofrimento. Quase sempre, nas fases iniciais do tratamento, em busca de conhecer as “raízes” do problema, o terapeuta não aborda diretamente os problemas que preocupam o paciente e isto pode ser um motivo de profunda insatisfação e mesmo fazer com que o paciente troque de terapeuta. Buscar as “raízes” de um problema pode parecer que nos afastamos do objetivo principal de uma conversa ou discussão e algo similar pode se passar aqui.

Podemos pensar em anticorpos como moléculas que o corpo fabrica quando necessário para acelerar a eliminação de materiais invasores estranhos à sua composição. Esta é a maneira de pensar está grosseiramente equivocada, mas é a maneira usual de pensar da população, de não-especialistas e também de uma parcela considerável de imunologistas. Também podemos lembrar que anticorpos sãovistos como componentes (partes) do organismo.

É mais adequado falar de “imunoglobulinas (naturais, formadas espontaneamente pelo organismo) que servem como anticorpos quando surgem “antígenos” aos quais elas podem se combinar. Esta troca de termos tem duas consequências importantes.

A primeira e mais importante consequência é que, desde que são componentes (partes) do organismo, os anticorpos “não são nem causalmente independentes, nem temporalmente antecedentes à totalidade à qual pertencem. Eles existem em uma relação de interdependência coletiva, na qual os componentes dependem uns dos outros para serem gerados, mantidos e renovados” (Nicholson, 2014a)[3] . Em linguagem mais simples, como partes do corpo, anticorpos só existem como partes do corpo. Mas a utilização de anticorpos como se fossem reagentes bioquímicos específicos em testes sorológicos, utilizados em laboratórios clínicos, ou em diversos projetos de pesquisa, parece contradizer isso frontalmente. Os anticorpos têm cumprido magnificamente esta função (específica) e nos testes sorológicos eles realmente permitem detectar diferenças sutis nos mais variados contextos.

Esta visão não é incompatível com a visão de “imunoglobulinas servindo como se fossem anticorpos”, isto é, anticorpos como componentes (partes) o organismo, mas ela domina totalmente o cenário e nos faz imaginar que os anticorpos são “partes” produzidas por um “fantasma” imunológico, sábio e servil, que reage assim sempre que isto se torna necessário à defesa do corpo. Estas “partes” do corpo seriam produzidas com a finalidade de se ligar a moléculas que não pertencem ao corpo. Esta ideia não faz sentido fora de um contexto “defensivo”,

Na verdade, este é um problema mais geral constituído pela oposição entre as noções de preformacionism e epigênese. Isto é, a ideia de anticorpos preexistentes como antecipação da chegada de seus antígenos específicos, é uma versão do pensamento preformacionista. O exemplo clássico do preformacionismo era a alegação de que um homúnculo (um homenzinho) poderia ser visto no espermatozoide e que o desenvolvimento representava apenas o crescimento (desdobramento, desenrolo) deste homúnculo. O pensamento preformacionista ainda persiste na Biologia embora tenha sido em grande parte substituído por processos epigenéticos – nos quais o presente não contém o futuro e é montado instante a instante.

A segunda consequência (de substituir a ideia de “anticorpos”, pura e simples, pela ideia de immunoglobulins que servem como se fossem anticorpos) é que a ideia de “respostas imunes” nos faz imaginar que a produção dos anticorpos tem início com a chegada do antígeno e isto envolve dois equívocos básicos.

O primeiro é contra-intuitivo, mas talvez seja a ideia mais importante de toda a imunologia: a produção de anticorpos específicos precede o (ocorre antes do) aparecimento do antígeno. O segundo equívoco é a crença em relações unívocas (um-a-um) entre antígenos (epitopos) e anticorpos (paratopos). Em cada organismo há centenas, milhares de imunoglobulinas que “servem como se fossem anticorpos” para cada um dos detalhes estruturais antigênicos (epitopo) de uma substância colocada no organismo. Portanto, não é razoável imaginar que cada organismo produza milhares de imunoglobulinas que servem como se fossem anticorpos para cada uma de uma variedade ilimitada de moléculas antes de seu aparecimento. É mais razoável pensar que estas imunoglobulinas pertencem a um outro contexto e que o antígeno que surge se intromete neste contexto preexistente que diz respeito à diniamica interna do organismo.

A “defesa” imunológica pode (deveria) ser vista como um resultado do que se passa no viver (da história) e não como um mecanismo defensivo, como uma parte do ser vivo dedicada à sua defesa, hoje conhecida como sistema imune. O “mecanismo” da defesa não deve ser separado de outros “mecanismos” do viver como, por exemplo, os mecanismos de regeneração (que poderiam ser chamados de re-criação). Para tornar isso menos difícil, convém afastar os problemas médicos, como as doenças infecciosas, alérgicas e autoimunes, de uma primeira abordagem à imunologia. Considerar, em vez disso, aspectos da atividade imunológica envolvidos na alimentação, nas relações com a microbiota intestinal, com a gravidez vivípara, a lactação. Todos estes aspectos envolvem a atividade linfocitária.

É aconselhável também uma certa precaução quanto ao termo “regulação”, pois na ciência atual “regular” significa “coação”, obediência, submissão; impor a ordem de uma entidade sobre outra. O conceito imposto (a “ordem”) tende a ficar oculto no termo “regulação” (a regra imposta). Entre a regulação e a desordem (entre a alonomia e a anomia) existe a possibilidade de autonomia e esta é uma palavra importante no estudo do seres vivos, que são entidades entregues a si mesmas.

[Seria mesmo razoável comparar o organismo a uma máquina sem considerar o que são máquinas? Ou, comparar o coração a uma máquina que bombeia o sangue? Quando surge, no processo embriológico, ainda não surgiram nem os vasos nem o sangue.]

[Ou falar do coração como uma “parte” do organismo. “As partes de um p organismo sequer existem como “partes” antes da existência do todo que elas constituem. Como resultado, não há uma maneira ‘objetiva”, ou “correta” de decompor (cinzelar) um organismo em suas partes”. (Nicholson, 2014)

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[1] Este é o entendimento “dualista”, “simbólico”, cognitivista, segundo o qual a conduta de um ser vivo (como uma entidade cognitiva) depende de seu “entendimento”(um conhecer) do meio em que opera e este entendimento (este conhecer) consistiria de um “mapeamento” deste meio no interiordo organismo, um mapra que transforma o meio (o mundo) em um domínio articulado de mudanças.

[2] “rethink central issues in the philosophy of biology by elaborating an ontology for biology that takes full account of the processual nature of living systems”

[3] “…the parts of an organism are neither causally independent of, nor temporally antecedent to, the whole they constitute. Instead, they exist in a relation of collective interdependence, relying on one another for their generation, maintenance, and renewal.”