Jorge Mpodozis

A conservação do modo de viver

A conservação do modo de viver

Jorge Mpodozis

Deptº de Biologia – Santiago – Universidad de Chile

FESTIVAL DE VERÃO – UFMG

BELO HORIZONTE MG – MARÇO 2011

 

Não sei se isto é complicado, ou não é. Queria me estender um pouco sobre esta questão de colocar em evidência esta situação da mudança com conservação, cujo entendimento me parece tão central neste momento, no contexto ao qual Nelson se referiu a “estabilidades dinâmicas”.

 

Instrução e informação

Creio que uma forma de nos aproximarmos deste problema é considerar a noção de instrução. Quando dizemos que ocorreu “instrução”?

Digamos isto de outra forma. Ontem fomos a um lugar precioso (“Macacos” nos arredores de Belo Horizonte), onde almoçamos e, como é Carnaval, havia gente dançando; começou o samba e todos dançavam. Eu olhava este samba e era uma coreografia maravilhosa, todos sabiam exatamente o que faziam e o que tinham que fazer. O que se vê de fora é esta dança magnífica que temos tanto prazer em apreciar. Todo mundo estava encantado: os que dançavam, os músicos, os que apenas apreciavam. Eu pergunto: esta gente combinou este acontecimento previamente? Um disse ao outro como deveriam coordenar suas ações? Eles passaram instruções uns aos outros? Ou esta dança simplesmente resulta do que se passa?

A dança é um resultado. Mas esta dança tem uma sintaxe, uma lógica. Tem uma coerência no espaço dos movimentos, no qual todos participam. Mas ninguém está instruindo ninguém. Então, como se chega a este resultado?

Quando falamos de instrução? Quando falamos de informação? A instrução ocorre quando há uma transferência de informação. Então, no caso do samba, haveria uma transferência de informação? Estariam os participantes informando uns aos outros? Porque observamos condutas coerentes de várias entidades aí; coerências que mudam acopladas a outras pessoas. Mas não falamos de informação. Por que não falamos? E por que em outras situações dizemos que ocorre a transferência de informação? Quando dizemos isso?

Falamos de transferência de informação quando observamos dois sistemas quaisquer, podem ser seres vivos ou não, e vemos estes dois sistemas mudarem de forma coerente, em correspondência estrutural um com o outro, e não sabemos qual é o mecanismo desta correspondência. Só então recorremos ao conceito de informação. Mas, quando sabemos como se estabelece a correspondência, já não me referimos à informação.

O problema aqui não é entender a correspondência mas sim entender como se estabelece esta correspondência. Vejo uma correspondência e não sei como ela se estabelece, então suponho que estes dois sistemas estão trocando informações, que um determina o que se passa um ao outro. Mas faço isto sob circunstâncias nas quais os sistemas, que são estruturalmente determinados, não podem instruir um ao outro, porque não há maneira pela qual os sistemas possam instruir um ao outro.

É interessante isso porque podemos estender este exemplo a outras situações esclarecedoras, como a que às vezes menciono: a da chave na fechadura. Tenho esta chave que abre esta fechadura. Ocorre aqui uma transferência de informação? Como se passa isso? Ah, é óbvio como isto se passa: há uma correspondência estrutural entre a chave e a fechadura. Por outro lado, se tomo esta “chave eletrônica” (um cartão magnético) que me deram no hotel e o passo no sensor da porta, há um clique e a porta se abre. Houve aí transferência de informação? Houve transferência de informação do cartão para o sensor na fechadura? Por que eu diria isso? Porque não entendo o que se passou.

Quando entendo o que se passou, não uso o conceito de informação; uso o conceito de informação quando não entendo o que se passa. Neste exemplo que mencionei – o samba – eu não entendo o mecanismo do que se passa, então penso que um está ensinando ao outro o que fazer, como se comportar, como sambar. Isto pode nos parecer tão simples, pois se não houvesse uma transferência de algo, como poderíamos estar aqui conversando?

Mas não há transferência de coisa alguma. Há o estabelecimento histórico de uma correspondência estrutural entre sistemas que são dinâmicos e estão em contínua mudança.

 

Mudanças conservadoras

Mas, como mudam estes sistemas? Vimos ontem que a mudança é inevitável como consequência da história. Mas o que determina a direção que segue esta mudança? Notem que as mudanças são conservadoras.

Imaginem que eu, ou um de vocês, aparecesse com seu telefone celular o momento em que os portugueses acabaram de chegar pela primeira vez à Ilha de Florianópolis, no século XVI. Eles estão encantados de serem recebidos amavelmente pelos nativos depois de tão longa viagem; há esta formosa senhorita desnuda que parece disposta a compreende-los. Neste momento, o que você tem nas mãos é mesmo um telefone celular? Não, um telefone celular neste cenário não tem nenhum sentido.

É perfeitamente possível viver-se sem telefones celulares, mas se retiro o telefone celular de vocês neste momento, se sentiriam perdidos, se desesperariam. Uma vez que temos um telefone celular, já não podemos viver sem ele. Como se passa isso?

Esta é a marca, o selo distintivo do processo histórico. Quando encontro um processo assim, sei que estou diante de um processo histórico. Claro, o que posso eu dizer? Vejo a coordenação de condutas entre duas pessoas, elas conversam. Então se separam, e gritam uma à outra de uma certa distância. Então, se separam mais ainda, já não podem se escutar à distância. Escrevem bilhetes, cartas. Podem agora representar sua conversa de uma maneira simbólica, gráfica, conversam mediante símbolos. E a conversa pode se dar de maneiras muito mais remotas. Movem-se de um oceano a outro, o problema se torna mais difícil; têm que usar o telégrafo, o telefone internacional; chegam ao telefone celular. A técnica, o modo de realizar-se a coordenação de condutas mudou muito através da história. O que permaneceu? Permaneceu a operação de coordenar-se remotamente. Mudou o modo de realizar esta coordenação.

E o modo de realizar esta coordenação mudou de um modo conservador, porque eu não poderia ter instalado o telefone celular a partir do nada, se não tivesse uma situação em que esta coordenação remota já ocorria mediante um meio tecnológico que me permite a realização desta outra coisa. E quando tenho esta outra coisa, vou utiliza-la em toda sua potência.

Claro, há uma enorme mudança na tecnologia mas é uma mudança que tem a ver com a conservação de uma operação de coordenação, neste caso, a coordenação entre dois agentes. As mudanças históricas são conservadoras porque conservam a operação, e a operação conservada se torna uma referência para as mudanças nos modos pelos quais esta operação se realiza.

 

O modo de vida – aquilo que se conserva

E isto não se passa apenas na revolução tecnológica, se passa de forma natural na história dos seres vivos. Vimos ontem esta situação, na qual o ser vivo jovem flui até o momento da reprodução. Vimos que a direção desta história, o curso que segue se estabelece momento a momento. O que se conserva é um modo de relação organismo/mundo. A relação organismo/mundo, o nicho, se estabelece.

O nicho, o modo de vida, é condição de existência do organismo. Claro, porque se o leão não caça, morre de fome. Mas a entidade que caça é o leão inteiro, não seus intestinos, não suas células digestivas. A conservação dinâmica do organismo é condição de existência dos componentes orgânicos deste organismo. Porque se morre o leão, também morrem suas células.

Portanto, a conservação da relação de correspondência organismo/ mundo é condição de existência dos componentes orgânicos. De modo que a conservação da relação organismo/mundo é condição de existência e o mecanismo que determina o curso desta transformação.

Quando uma linhagem se separa da linhagem ancestral, o que tem que separar-se aí? O que precisa ter mudado para dizermos que esta linhagem se separou da linhagem ancestral? O que muda é o modo de vida, porque o modo de vida é a referência para a história. Mas este modo de vida não pode mudar a não ser de uma maneira conservadora, da mesma maneira que se passou com o telefone. O novo modo de vida é uma possibilidade do modo de vida ancestral. O telefone celular é uma possibilidade criada pela comunicação pelo rádio.

Isto se passa assim na cultura e também nos seres vivos, pois ambos são processos históricos; não são processos diferentes. É a conservação e variação dos modos de vida. No outro dia discutia com Gustavo Ramos como são conservadores os animais em sua filogênese; são muito mais conservadores que as plantas. Porque os animais conservam muitas características estruturais em seus saltos na filogênese. E a conservação de uma dada característica estrutural, em muitos casos, permite traçar as transformações da linhagem. Por sua vez, as plantas são muito menos conservadoras; em um mesmo gênero de plantas podemos ter plantas que são ervas, pequenos arbustos, ou grandes árvores. O que possuem em comum estas duas plantas que afirmo pertencer à mesma linhagem? O único que possuem em comum é a estrutura floral. E a estrutura floral é conservada porque faz parte do mecanismo reprodutivo da planta, é a parte “animal” da planta, digamos assim. Ah, os gametas precisam se juntar; há um vetor de pólen, um inseto ou outro, ou vários mecanismos. Este momento da reprodução das plantas que têm flores é a dimensão relevante na conduta da planta, e esta é conservada.

As mudanças nos animais são conservadoras. A referência histórica para que uma mudança se instale e seja conservada, é sempre aquele processo que está sendo conservado e do qual esta mudança faz parte. Quando se separam as linhagens é porque mudou o que se conserva, em alguma dimensão. Vou lhes dar um exemplo.

Não temos que explicar a mudança

Na biologia canônica, darwiniana, se pensa que o que se tem que explicar são as mudanças e que os organismos não mudam a não ser que sejam empurrados para a mudança; e se pensa que a direção que a mudança segue é imposta pela força externa. Porque se pensa assim? Porque se pensa que a mudança é um problema, como na Física. Mas acontece que os seres vivos são sistemas dinâmicos em contínua mudança constitutiva. Não temos que explicar a mudança; a mudança é constitutiva e o que temos que explicar é a direção da mudança.

Cada vez que há um salto reprodutivo há mudanças também. Porque o que surge se parece ao ancestral, e o ovo que o descendente põe se parece com o ovo que põe o ancestral – se parece, mas não é igual. E o processo de desenvolvimento a partir deste ovo se parece ao do ancestral, mas não é igual. Por que então ocorre que se estabelecem claramente mudanças em uma certa direção?

Vou lhes dar um exemplo observado nas Ilhas Galápagos. É meu exemplo favorito e se não compreendem este exemplo, nada do que eu disse faz sentido. Eu me consideraria derrotado se este exemplo não funcionar para vocês.

Nas Ilhas Galápagos se passam muitas coisas porque são ilhas. Então, os bichos que chegam até elas são bichos do continente. E os poucos que conseguem chegar, explodem em novidades. Surgem muitas linhagens distintas, apesar de que no continente o ancestral é único ou tem apenas umas duas formas. Mas nas Ilhas, ocorre uma explosão de variedades. Isso se passa com os passarinhos (tentilhões) que se tornaram famosos pelos estudos de Darwin. Mas há outro exemplo muito interessante que é os das iguanas.

Nas ilhas Galápagos há duas iguanas: uma iguana terrestre e uma marinha. No continente há uma linhagem ancestral e é, claramente, a única iguana que poderia ter chegado até as ilhas, que é uma iguana terrestre. E, de fato, é muito parecida à iguana terrestre de Galápagos – estruturalmente, do ponto de vista molecular e também na conduta são muito parecidas. Mas na ilha existe também esta iguana marinha, que é a única deste tipo no planeta.

E vemos aí as duas iguanas, no mesmo lugar, na praia, perto umas das outras; passam uma pela outra se prestar atenção. Vivem em uma mesma praia, uma vida muito promíscua; mas são muito diferentes: são de cores diferentes, uma é escura, a outra tem cores vivas; a terrestre tem o ventre verde claro. Fazem ninhos nos mesmo lugares, estão na maior parte do tempo expostas ao sol. Em que momento se separam? No momento de comer. Porque as iguanas terrestres se afastam um pouco e começam a mordiscar os cactos e outras pequenas plantas xerófitas da praia. E as iguanas marinas entram no mar, nadam, mergulham e comem as algas que crescem nas rochas submersas. Esta é a diferença: a diferença está na dieta.

Então, perguntamos: a iguana marinha come cactos? Sim, come, mas prefere as algas. E as iguanas terrestres comem algas? Sim, podem comer algas, mas preferem os cactos. E quando vemos as diferenças entre as duas iguanas, a iguana marinha parece projetada para este habitat marinho. Pode fechar as pálpebras, têm a membrana nictante que todos os répteis têm – uma segunda pálpebra transparente que evita o contato do sal marinho com a córnea quando mergulham de olhos abertos; podem excretar o excesso de sal; podem ficar até um hora inteira submersas a 25-30 m de profundidade. A água não é tão fria onde mergulham, senão não poderiam fazer isso; depois se esquentam ao sol, na areia.

Então, apreciamos todas estas diferenças e perguntamos: O que mudou? Mudou a dieta. E se esta iguana marinha conserva o hábito de comer algas, tudo no organismo muda em torno deste novo hábito de comer algas. E se a iguana terrestre conserva o hábito de comer cactos, nada se transforma em relação ao ancestral, porque todas as mudanças que não permitam a realização do viver através da dieta de cactos, vão ser evitadas nesta linhagem.

De modo que a referência para mudança é aquilo que se conserva. Se muda o que se conserva, se manifesta a mudança, muda a linhagem. E isto requer uma força ou pressão externa? Não. Pode ser que ocorram contingências ecológicas que participem desta questão? Sim. Pode ser também que não ocorram estas contingências? Sim, também é possível. Se mantêm comendo algas a despeito de que o meio mude das maneiras mais radicais – há tempestades, muda a temperatura da água, têm que mergulhar mais fundo – nada disso importa; do ponto de vista do que o animal faz, nada mudou.

Outro exemplo, a carapaça do Limulus – o caranguejo aranha; esta linhagem tem 300 milhões de anos, os fósseis que encontramos são idênticos aos animais vivos atualmente. Os continentes se separaram, houve o impacto do meteoro, morreram os dinossauros, houve era glaciais, mudaram as correntes oceânicas, tudo mudou – e aí está o Limulus.

Há doze mil anos atrás, alguns poucos peixes de uma linhagem de ciclídeos. Penetraram em alguns lagos da África (lagos Victoria e Malawi, por exemplo). Atualmente, estes lagos abrigam setenta espécies distintas de ciclídeos. Isto se passou em um lago, e os lagos são ecossistemas muito estáveis. O que se passou em termos de mudanças ambientais nestes lagos? Praticamente nada. Mas, em 10 ou 12 mil anos surgiram 70 espécies novas de ciclídeos.

Há relações necessárias entre o ambiente e as linhagens? Não. Há relações necessárias entre mudanças do modo de vida e a separação de linhagens? Sim. As mudanças são conservadoras? Sim, são, porque as mudanças se instalam em relação ao que se conserva. Quando começa a se conservar uma novidade na relação bicho/mundo, então surgirão mudanças; mudanças estão ocorrendo o tempo todo e elas vão canalizar-se na direção que é conservada. Exatamente o mesmo que se passa com um telefone celular e outras mudanças na tecnologia.

A cultura humana

De modo que, neste sentido, a cultura humana não é mais que a ampliação da possibilidade de estabelecer coordenações remotas de conduta entre os seres humanos. Se vocies levarem isto a sério poderão pensar que o que se passa com a cultura humana ela tem a ver com os seres humanos no sentido de que são extensões de sua a corporalidade, do modo de viver humano.

Ver mais longe, ver além do que nos permite um telescópio; ouvir e falar com um outro que está distante; levantar questões maiores. São coisas que parecem fazer sentido fora de nossos corpos, mas e na realidade não são mais que manifestações do que os humanos fazem e só têm sentido para os seres humanos. Estas coisas não têm sentido para mais ninguém; não têm sentido para as aranhas nem teriam sentido para extraterrestres. Isto é o que quero dizer.

Geralmente, a questão se apresenta nestes termos: há uma necessidade, e esta necessidade de fazer alguma coisa é satisfeita por alguma variação estrutural dos animais. Por exemplo, as asas. É como se um bicho pensasse: “Ah, se eu tivesse asas, como seria fácil meu viver; vou fazer um esforço para desenvolver estas asas.” De forma semelhante, não é que os telefones tenham suprido uma necessidade de comunicação à distância como se a comunicação remota existisse antes do telefone. Seria o telefone o instrumento que satisfaz esta necessidade de comunicação à distância? Mas, claro, uma vez que temos o telefone, tudo se transforma à sua volta e isto é o que se passa com qualquer transformação tecnológica.

Volto a um tema que coloquei no início. Tenho este estado atual da cultura humana e aí estão as transações que se fazem através da internet. Quando houve a ameaça de que a internet poderia entrar em colapso – o “bug do milênio” – houve o terror de que a civilização humana poderia se destruir completamente. E isto poderia mesmo ter acontecido. Imaginem, quando há um desastre natural na Europa e os voos são interrompidos por lá, praticamente o mundo inteiro se detém. Se a internet fosse interrompida seria um colapso social enorme, gigantesco, inimaginável. Mas há vinte anos atrás nada disso existia.

Suponham que chega ao mundo um antropólogo extraterrestre, que chega em Varginha porque foi aí que chegou seu disco voador. E se põe a estudar a cultura humana e encontra esta situação tão maravilhosa de que toda a cultura humana depende deste meio tecnológico. Mas resulta que este meio tecnológico é produzido pelos próprios seres humanos. É como problema de quem chegou primeiro: o ovo ou a galinha. É exatamente o mesmo problema. Foi a internet primeiro, depois a cultura?

“A galinhagem” (risos) (Comentário de Vaz)

Exatamente. É isso o que se passa. Muda tudo em torno do novo. Todos os instantes estruturais desta história podem mudar com referencia à novidade que passou a se conservar; depois de um prazo o que era novo, agora é diferente e único. Porque no momento em que surge, a internet não é necessária. Mas nós a colocamos aí e começamos a utilizá-la e a coordenar nossas ações através da internet, e muda todo o nosso modo de fazer as coisas.

As mudanças são conservadoras

Exatamente igual à situação do ovo e da galinha; porque esta é a marca, o distintivo da situação histórica. Para resolver a questão do ovo e da galinha temos apenas uma resposta histórica, a única possível para entender uma situação assim.

As mudanças são conservadoras. Aí está este macrófago tão particular que persegue esta bactéria. Amebas e outros protozoários de vida livre, parecidos com macrófagos perseguem bactérias há bilhões de anos. Quando colocamos macrófagos em cultura para observar a fagocitose estamos a observar o mesmo que se passa há bilhões de anos. As mudanças são conservadoras.

A operação de comer, que define os animais, está conservada em todos os animais. Todos os animais apresentam uma boca na frente do corpo, todos. Claro, porque levam a boca até a comida. O cérebro está em torno do rostro, porque aí está a boca; nas formigas e nas pessoas.

A conservação da cooperação. Somente a cooperação é conservada, o modo de realizar a cooperação pode variar. E quando há uma mudança, quando muda a operação conservada, então tudo muda ao redor da mesma coisa que está se realizando como uma relação. Os processos históricos são assim – ou eu não sei como eles seriam, se não fossem assim.

Quando se pensa que podemos pensar nas questões históricas desta maneira, na melhor das hipóteses isso lhe permite a abrir esta janela no entendimento – não a saltar para o outro lado, porque é mais perigoso passar ao outro lado da janela. Vamos primeiro abri-la e, quem sabe, depois saltá-la.

 

Pergunta:

Voz- Jorge, há quanto tempo estas duas iguanas de galápagos estão separadas?

 

Isto está na ordem de um milhão de anos.

 

Voz – E ainda não são duas linhagens? Elas cruzam ainda entre si?

 

Não, já não se cruzam. Mas, mostraram que nos bichos que se reproduzem sexualmente, podem surgir modos de reprodução em um período muito posterior à separação entre as linhagens, o que no pensamento clássico se supõe que tenha que se passar primeiro. Mas o fluxo gênico – para falar por um instante nestes termos clássicos – pode interromper-se de infinitas maneiras. Basta conter, por exemplo, o surgimento e a conservação de uma preferência trófica…- não sei se lhes contei esta história, dos patos, no Chile…

Há um par de patos no Chile que são notáveis porque fazem esta coisa raríssima, que nenhum outro pato do planeta faz, que é nadar com as asas, em vez de nadar com as patas. E se impulsionam na água desta maneira e são chamados de patos-motores, ou patos-vapores, porque parecem realmente ter um motor; se chamam patos-quetrus. Há dois patos-quetrus; ninguém sabe ainda se são ou não duas espécies. Há dois modos de realizar-se. Há um que voa e outro que não voa. Mas o que se demonstrou que se um ovinho do pato que não voa for criado por uma pata da espécie que voa, resulta em um patinho que não voa. Ah, mas o patinho deveria fazer o que faz a mamãe-pata. Portanto, se ainda não estão separados, estão no caminho de separar-se.

Com os mergulhões (cormorans, biguás) se dá o mesmo. Nas Ilhas Galápagos há uma espécie de mergulhão que não voa, tem as asas curtas e. Na prática, estas aves fazem o mesmo que os pinguins; nadam todo o tempo e também saltam sobre as rochas e ali fazem seus ninhos. No Chile Austral há também um mergulhão que quase não voa. Este bicho que mergulha pode deixar de voar; se conserva o mergulhar, pode parar de voar. Isto aconteceu várias vezes (na filogênese); se passou com os pinguins e agora está se passando com os mergulhões.

Precisam de alguma coisa que os separe? Não, porque os mergulhões, chamados Imperiais, voam muito pouco e estão aí com os outros mergulhões e não há nada que impeça que se combinem com os outros, que voam. Não há nada no ambiente que force esta diferença. Mas seguramente as coisas estão se passando assim

 

Voz- E o que se passa com humanos?

 

Também se passa nos humanos, porque as culturas são assim, são conservadoras de diversas coisas. São conservadoras de diferentes modos de conservação das relações nos quais as pessoas nos aparecem com características singulares próprias da cultura em que se realizaram. Não é como os patos-quetrus porque se tomarmos um jovem oriental e o criarmos aqui, vai acabar dançando o samba.

A linguagem

Mas há algo interessante com os seres humanos; a humanidade tem a ver com um modo particular de relação que se estabelece como uma dimensão de seu ambiente formada pelos próprios seres humanos. E poderíamos pensar que esta dimensão particular é a dimensão da linguagem.

Se pensarmos que a realização do humano depende deste modo de viver que é a linguagem, e que todos os humanos estão envolvidos nisso, então esta questão da linguagem é tão fundamental para os chineses quanto para os brasileiros. O que se está conservando é a coordenação de condutas na linguagem, e isto é o definitivo no humano. Todos os que façam isso serão humanos.

E na medida em que fazem isso teremos vários sabores do humano, em termos de modos particulares de realizar a linguagem nas diferentes culturas. Há algo de humano na humanidade que tem a ver com um modo de vida – como o “galinhar” tem a ver com a galinha. O “humanizar” seria a coordenação de condutas na linguagem, pois é isso que faz de todos humanos, seres humanos (o linguagear, o viver na linguagem), embora os modos particulares de ser humano, de realizar a linguagem possam variar e criar a impronta (padrão, perfil) de ser brasileiro, chileno, argentino, etc. São padrões históricos criados sabe-se lá como.

 

Voz – Estava lendo um texto de Freud – Além do Princípio do Prazer – onde ele afirma que os sistemas biológicos têm uma tendência à conservação. Claro, há que considerar a época histórica em que Freud está inserido, mas penso que a afirmação é curiosa, se existiria mesmo neste processo histórico uma tendência a este “conforto”, vamos dizer assim, nesta estrutura.

 

Claro, se digo “há uma tendência” busco por um princípio explicativo aí, busco um instinto, alguma propriedade, mas vivemos em circunstâncias nas quais a conservação é uma consequência inevitável deste viver em acoplamento estrutural. Isto vai ser inevitavelmente conservador, queira ou não queira o ser vivo, na melhor das hipóteses, alguns bichos quereriam variar e não podem variar. Poderíamos imaginar a figura deste pobre dinossauro que queria ter asas para voar. Claro, se tomamos a história filogênica, principalmente dos animais, encontramos muitas dimensões de conservação estrutural e de conduta. E que diferentes linhagens se definem por serem conservadoras de certas dimensões estruturais e de conduta, enquanto permanecem plásticos em outras dimensões.

O cérebro manipulativo

Por exemplo, os macacos, todos têm lobos frontais no cérebro; podem ser diurnos ou noturnos, mas a frontalidade dos olhos é conservada em todos eles. Os macacos têm um cérebro maior e há uma tendência à cefalização nesta linhagem. É comum que os macacos mais derivados, mais recentes, tenham cérebros maiores que os dos macacos ancestrais. Ao mesmo tempo surge outra coisa: os macacos têm a capacidade de manipular, coisa que outros quadrúpedes não fazem. Os bichos braqueadores, que se movem nas árvores, têm os ombros para trás. Se existe o hábito de viver nas árvores, ito é necessário. Os camundongos já manipulam; é possível ver camundongos sentados nas patas traseiras a manipular pequenas coisas na frente dos olhos. Mas os macacos conservam esta capacidade e a ampliam. Mas no viver arbóreo, os ombros vão para trás, e a possibilidade de livrar as mãos das tarefas locomotoras aumenta. E o caso extremo disto são os seres humanos, nos quais as mãos não estão mais comprometidas com a locomoção e adquirem um modo ativo de remodelar seu ambiente.

Os papagaios também têm esta habilidade de lidar com objetos que seguram pelas patas e pela língua e têm uma fantástica ferramenta nesta combinação entre as patas e a língua. E curiosamente, entre os pássaros, os papagaios são os que têm o cérebro maior. E não têm qualquer (outra) dimensão de cérebro maior, a não ser que certos aspectos do teleencéfalo são maiores. O mesmo se passa com os macacos e os seres humanos. Não é que o cérebro lhes tenha aumentado como um melancia, mas sim que cresceram algumas dimensões do teleencéfalo, e outras foram conservadas. Crescem as que têm a ver com a capacidade de manipular.

Então, o cérebro manipulativo surge da possibilidade de manipular que, por sua vez, surge da história da mudança do meio – mudanças de animais que estavam no solo e passaram a viver nas árvores. Portanto, há uma tendência para a conservação, mas também há um espaço para a mudança. E aquilo que vai mudar depende do que é conservado.

Quando examinamos um processo histórico tendemos a ver o que mudou, mas para dizer que este processo é o estado atual deste outro processo no passado, temos que ter algo conservado, senão como poderíamos dizer isso? Ocorre às vezes que as linhagens se separam tanto que não posso mais fazer esta relação. É tão diferente, em estrutura, que podemos dizer – é um animal – mas não podemos dizer de onde veio. E isto se aplica a muitos animais. Aqueles que se “comportam bem” e nos permitem propor uma história mais ou menos coerente sobre sua história filogênica, são a minoria. Na cultura humana também ocorre isso: o idioma basco, por exemplo, ninguém sabe de onde saiu. É tão diferente dos outros que podemos dizer que é um idioma, mas qual é sua história, como conectá-lo com outros idiomas em termos antropológicos ou biogeográficos, não é possível.

E, quanto a Freud, o prazer, claro, a conservação do prazer – como poderíamos conservar a dor? O “estar” é um “bem-estar”. Claro, os seres humanos são diferentes. São diferentes em que, na linguagem, mediante a linguagem têm a possibilidade de distinguir seu modo de estar. É uma questão que não existe para os outros bichos. A dor se coloca como um modo de estar possível para os humanos porque os humanos existem socialmente na linguagem. Se não houvesse linguagem, não poderíamos distinguir o prazer da dor. Vocês têm gatos? Quem tem um gato? Vocês não se maravilham com que os gatos estão sempre aí, no presente? Os gatos não fazem nada que nos mostre que se dão conta de algo diferente do presente.

 

Voz – Os animais têm uma certa linguagem porque conseguem coordenar condutas uns com os outros…

 

Por certo que se coordenam.

 

Voz – As abelhas, por exemplo, precisam ter uma linguagem entre elas para conseguir fazer o mel. Contam uma anedota…[1]

 

Sim, mas um gato não se aproxima de você e lhe diz que está infeliz com a comida que recebe de você. A linguagem é a operação que nos permite distinguir o que se passa. Isto é o que nos faz diferentes dos outros animais.

Como surgiu a linguagem na história?

Suponha que temos dois bichos independentes, que não se conhecem; mas se encontram. Pode ser que logo se separem, mas pode ser que um passe a formar parte do nicho do outro. Não se conheciam antes de se encontrarem. Mas se encontraram e acontece que se estabelece uma relação entre os dois que é uma relação trófica, plástica, produtiva. E portanto, o viver de um passa a fazer parte do fluir do viver do outro. Então a conservação da vida relacional de um inclui a conservação da relação com o outro, e isso se passa com os dois, e os dois vão agora se transformar juntos. Com os seres humanos se passa algo parecido.

 

Voz – Poderíamos dizer que, nos humanos, a relação de amor também está neste contexto?

 

Certamente. Toda a emocionalidade está em jogo aí. Toda a emocionalidade que faz parte da história dos mamíferos certamente que faz parte do que se passa neste encontro, desta coordenação de condutas.

 

 

[1] Em “From being to Doing” (Maturana and Poerksen, 2004), Maturana comenta que, com a “dança” com a qual coordena sua conduta com a de outras abelhas, uma abelha não pode dizer a outra:” Deculpe-me, mas acabei de voar em uma direção equivocada…”