Blog da SBI

A crença em fantasmas

A crença em fantasmas
Nelson Vaz
150130-blog SBI –janeiro – 2015

         Para o público e também para a maioria dos especialistas: (a) vivemos em um mundo perigoso, repleto de micróbios vírus e parasitas potencialmente patogênicos dos quais precisamos nos defender; (b) parte importante desta defesa consiste na formação de anticorpos; e, ainda (c) a formação de anticorpos específicos e o reforço desta defesa podem ser conseguidos pelo uso de vacinas.

A imunologia é um ramo das ciências biomédicas surgido no século XIX, que investiga estas ideias surgido: (a) junto com a bacteriologia medica e a ideia de doenças infecciosas e a generalização do conceito vacinas, por Pasteur (a teoria do germes) (Pasteur, 1878); (b) a demonstração de que substâncias conhecidas como anticorpos participam deste processo de defesa (Behring e Kitasato, 1890); e (c) a utilização de anticorpos como reagentes bioquímicos específicos no laboratório clínico no diagnóstico de doenças infecto-infecciosas e outras aplicações (os testes sorológicos).

Os “anticorpos” são vistos como antídotos específicos produzidos pelo corpo sob medida contra germes e outros materiais externos que o invadem, quando isto se torna necessário. Supostamente, as vacinas anti-infecciosas ampliam esta proteção natural do organismo por intensificar e acelerar a formação de anticorpos. Neste modo de ver, os anticorpos surgem quando o organismo é invadido por materiais estranhos (antígenos) e não antes disso. A produção de anticorpos para componentes do próprio organismo seria sem sentido. Além disso, os anticorpos ativam mecanismos destrutivos contra seus alvos e isto geraria doenças de auto-agressão (doenças “autoimunes”).

Estas crenças fundamentais são incompletas e equivocadas. Temos hoje outra visão do mundo microbiano, do papel dos vírus nos fenômenos biológicos e da natureza do parasitismo. Esta visão não mostra um mundo perigoso mas sim um mundo repleto de relações simbióticas (Gilbert, Sapp and Tauber, 2012). Há claras demonstrações de que a defesa anti-infecciosa envolve muito mais que a formação de anticorpos e pode ser estabelecida sem que eles se formem. Por outro lado, que não está claro que a proteção conferida pelo uso de vacinas dependa diretamente da formação de anticorpos específicos. Além disso, o reconhecimento da invasão por materiais estranhos coloca no corpo, ou em seu “sistema imune”, uma entidade cognitiva, que toma decisões e mobiliza mecanismos, frequentemente comparada ao sistema nervoso, que já foi chamada de “um segundo cérebro” (Capra, 20xx).

 

Anticorpos são proteínas conhecidas como imunoglobulinas (símbolo Ig), que existem em vários tipos (IgG, IgM, IgA, IgD, IgE). As IgM podem ser formadas por animais isolados do contato com antígenos desde o nascimento (Bos et al., 1987) na mesma quantidade e variedade que as formadas por animais mantidos em biotérios limpos (Haury et al. 1997). Ad imunoglobulinas, portanto, são produzidas naturalmente como parte da construção e manutenção do organismo vertebrado.

A pesquisa básica em imunologia cresceu extraordinariamente a partir da segunda metade do século XX, após a caracterização da chamada “tolerância” imunológica (Billingham , Brent and Medawar, 1953), a proposta das chamadas teorias “seletivas” sobre a formação dos anticorpos (Jerne, 1955; Talmage, 1957; Burnet, 1959) e se identificou o linfócito como a célula central na atividade imunológica (Gowans, 1996).

Os antígenos (materiais imunogênicos) são ou contêm proteínas produzidas por outros organismos, micróbios ou vírus. A grande maioria dos antígenos com os quais o corpo está continuamente em contato são proteínas da dieta e produtos de sua microbiota comensal. Há claras evidências de que o organismo reage imunologicamente a estes materiais, mas o faz de uma maneira dinamicamente estável, ou seja, mantém um baixo nível de reação a estes materiais, embora os encontre repetidamente. Não exibe uma reatividade progressiva, dependente de uma “memória” imunológica, como ocorre na reação a vacinas anti-infecciosas.

Existe também uma atividade imunológica dinamicamente estável que envolve componentes do próprio organismo, que inclui a produção de imunoglobulinas auto-reativas (anticorpos naturais), que inclui inclusive a produção de anti-anticorpos (anticorpos anti-idiotípicos). Esta atividade imunológica pode gerar estados patogênicos (doenças auto-imunes) quando esta estabilidade é quebrada e adquire a reatividade progressiva similar a observada na vacinação anti-infecciosa. Portanto, a visão original de um organismo que se defende de agentes infecciosos através de respostas imunes específicas e de uma “memória” imunológica que condiciona respostas progressivas precisa ser substituída por outra que inclua esta estabilidade dinâmica. A “memória” imunológica, que explica episódios de reatividade progressiva, não explica a atividade imunológica fisiológica, cotidiana, que envolve o convívio harmônico com proteínas antigênicas da dieta e produtos de uma vasta microbiota comensal, além de envolver reações com produtos do próprio organismo.

 

Na realidade, esta atividade que inclui produtos do próprio organismo é altamente organizada e revela uma hierarquia. Há uma alta frequência de clones linfocitários reativos com componentes do organismo ligados a fenômenos inflamatórios, como as Heat-Shock Proteins (HSPs), e também de clones dirigidos a componentes própria atividade imunológica, como produtos do Major Histocompatibility Complex (MHC), dirigios da imunoglobulinas e outros receptores linfocitátrios (Nóbrega et al., 2002; Cohen, 2013). Esta organização dinamicamente estável da atividade imunológica fala contra uma origem aleatória (ao acaso) dos linfócitos, com proposto originalmente pelas teorias ditas “seletivas” para explicar a formação de anticorpos (Jerne, 1955; Talmage, 1957; Burnet, 1959).

Na imunologia, um grande obstáculo ao desenvolvimento de novas teorias biológicas que substituam a noção obsoleta de seleção de variantes gerados ao acaso, é a visão dominante no laboratório clínico, onde os anticorpos são efetivamente utilizados como se fossem reagentes bioquímicos específicos. Na realidade, os anticorpos (as imunoglobulinas) são componentes naturais do organismo vertebrado que são formados espontaneamente (naturalmente) e participam de sua construção e manutenção. Há uma evidente conectividade interna no organismo que liga estas moléculas a outras semelhantes e a diversos outros componentes do corpo. A ideia de que o corpo, ou uma entidade cognitiva dentro do corpo, que atua como um fantasma na máquina imunológica (Vaz, 2010) e dirige a formação de anticorpos especificamente contra materiais estranhos (antígenos) esta fundamentalmente equivocada. O fato de que imunoglobulinas possam ser utilzadas como reagentes bioquímicos (anticorpos) é incapaz de explicar a formação das imunoglobulinas e a ativação de linfócitos.

Há um hiato entre a pesquisa em imunologia e a utilização de fenômenos imunológicos na medicina e na própria pesquisa biológica de base. Violinos podem ser precariamente usados como raquetes de ping-pong, mas este não é seu uso mais inteligente. Imunoglobulinas podem ser usadas como se fossem anticorpos específicos e linfócitos podem ser vistos como se reconhecessem materiais estranhos ao corpo, mas não é isso o que se passa no operar fisiológico do organismo.

Os materiais mais capazes de perturbar intensamente o operar fisiológico de linfócitos não são os materiais mais estranhos ao corpo. Muito ao contrário, os materiais mais perturbadores da atividade de linfócitos de ratos são linfócitos de outro rato; eles são muito menos perturbados, são menos ativados, pelo contato com linfócitos de seres humanos, ou de porquinhos da Índia (Wilson and Fox, 1971). Quando fragmentos ósseos de galinha e de pombo são colocados sobre a mebrana corioalantóide de embriões de galinha, eles não são rejeitados porque o embrião ainda não organizou seus linfócitos. Mas se linfócitos de galinhas adultas são transferidos para o embrião, o fragmento ósse de galinha é rejeitadol se oslinfócitos transferidos são de um ponbio adulto, o fragmento rejeitado é o de ponto (Lafferty and Jones, 1969).

A atividade imunológica não está voltada para o reconhecimento de materiais estranhos ao corpo, embora seja esta a ideia guia na imunologia desde suas origens. Ela está voltada para si mesma. Em 150 anos de pesquisa, a imunologia não consegiu entender como inventar novas vacinas; como currar as doenças alérgicas; como diagnosticar doenças autoimunes; como fazer transplantes seguros de órgãos e tecidos e assegurar uma gravidez normal. Um novo entendimento é urgentemente necessário na pesquisa e no ensino da imunologia. Ele não surgirá enquanto acreditarmos em fantasmas (Vaz, 2010).

Nelson Vaz

Bibliografia

Behring, E.,von & Kitasato, S. (1890). The mechanism of immunity in animals to diphteria and tetanus. In e. T.Brock (Ed.), Milestones in Microbiology (1971 ed., pp. 138-140). Washington,D.C.: Am.Soc.Microbiol.

Billingham, R. E., Brent, L., & Medawar, P. B. (1953). Actively acquired tolerance of foreign cells. Nature, 172, 603-606. doi: http://dx.doi.org/10.1038/172603a0

Bos, N. A., Meeuwsen, C. G., Hooijkaas, H., & al., e. (1987 ). Early development of Ig-secreting cells in young of germ-free BALB/c mice fed a chemically defined ultrafiltered diet. Cell Immunol, 105, 235-.

Burnet, F. M. (1959). The Clonal selection theory of acquired immunity. Cambridge: Cambridge University Press.

Capra, F. (2002) The Santiago Theory of Cognition. The immune system: Our Second Brain < http://combusem.com/CAPRA4.HTM>

Cohen, I. R. (2013). Autoantibody repertoires, natural biomarkers, and system controllers. Trends Immunol, 34(12), 620-625. doi: 10.1016/j.it.2013.05.003

Gilbert, S. F., Sapp, J., & Tauber, A. I. (2012). A Symbiotic View of Life: We Have Never Been Individuals. Quarterly Review of Biology, 87, 326-341. doi: http://dx.doi.org/10.1086/668166

Gowans, J. L. (1996). The lymphocyte–a disgraceful gap in medical knowledge. Immunol Today, 17(6), 288-291.

Haury, M., Sundblad, A., Grandien, A., Barreau, C., Coutinho, A., & Nobrega, A. (1997). The repertoire of serum IgM in normal mice is largely independent of external antigenic contact. Eur J Immunol, 27(6), 1557-1563.

Jerne, N. K. (1955). The natural selection theory of antibody formation. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A., 41, 849-857. doi: http://dx.doi.org/10.1073/pnas.41.11.849

Lafferty, K. J., & Jones, M. A. (1969). Reactions of the graft versus host (GVH) type. Aust J Exp Biol Med Sci, 47(1), 17-54.

Nobrega, A., Stransky, B., Nicolas, N., & Coutinho, A. (2002). Regeneration of natural antibody repertoire after massive ablation of lymphoid system: robust selection mechanisms preserve antigen binding specificities. J Immunol, 169(6), 2971-2978.

Pasteur, L. (1878). The germ theory and its application to medicine and surgery. Comp. Rend. de l”acad. Sci., 86, 1037-1043.

Talmage, D. W. (1957). Allergy and immunology.

An.Rev.Med., 8, 239-256.

Wilson, D. B., & Fox, D. H. (1971). Quantitative studies on the mixed lymphocyte interaction in rats. VI. Reactivity of lymphocytes from conventional and germfree rats to allogeneic and xenogeneic cell surface antigens. J Exp Med, 134, 857-870. doi: http://dx.doi.org/10.1084/jem.134.4.857

Vaz, N. (2010) O fantasma na máquina imunológica (12/10/2010)

< http://www.blogdasbi.blogspot.com.br>