Cláudia Cecchi

A Herança Aristotélica no Pensamento Biológico

A Herança Aristotélica no Pensamento Biológico.[1]

Claudia Cecchi & Jorge Mpodozis

Dpto. de Ciencias Ecológicas & Dpto. de Biología

Facultad de Ciencias, Universidad de Chile, Santiago

 

Nelson me convidou a dizer algo sobre a herança de Aristóteles e do pensamento Aristotélicoem Biologia. A herança Aristotélica é muito importante tem sido importante durante muitos séculos. Não sou especialista nesse tema mas temos feito alguns estudos na literatura Aristotélica, que é muito interessante, porque Aristóteles demonstra muito conhecimento sobre a natureza e a Biologia, diferentemente de outros filósofos gregos. Arsitóteles é reconhecido como um filósofo realista e naturalista e cerca de vinte por cento de seus textos se referem à zoologia e à biologia. Para um biólogo moderno, é impressionante ver a quantidade de coisas que Aristóteles sabia sobre biologia e particularmente sobre os animais; não tanto sobre plantas.

Não obstante, reconhecemos que Aristóteles foi um pensador que teve uma influência muito conservadora na Biologia; apesar de ser um tremendo sábio na zoologia e na biologia, há elementos na biologia Aristotélica que o impedem a avançar na direção de idéia biológicas importantes. Por exemplo, por quê Aristóteles não consegue chegar à idéia de que os seres vivos podem transformar-se e evoluir? Ele reuniu um enorme cabedal de conhecimentos que o permitiria dar esse passo, mas não o fez.

Dizemos que há três elementos na Biologia de Aristóteles que são importantes em relação a isso. Um deles é que, para ele: “Os seres vivos são seres finitos, que se geram (nascem) e se corrompem (morrem).” A geração e a corrupção são elementos de um processo circular, que se repete infinitamente graça à reprodução. Assim, a reprodução tem um propósito claro (em suas palavras, a “causa final”) que é: eternizar o finito, assegurando a imutabilidade da forma, ou seja, que não permite a transformação; é um processo que torna infinito um processo que é finito, que tem começo e fim. Por outro lado, na teoria de evolução orgânica é necessário permitir que a reprodução seja um processo que pode gerar transformações. Portanto, esse é um elemento no pensamento Aristotélicoque impede essa conclusão.

Por outro lado, é muito notável no pensamento Aristotélicoo finalismo e o funcionalismo. Isso tem a ver com a doutrina das “causas Aristotélicas”. Aristóteles afirma que todos os fenômenos naturais têm 4 causas distintas:

CAUSA FORMAL: Entidade abstrata que instrui a forma

CAUSA EFICIENTE: A gênese, processo, mecanismo de geração

CAUSA MATERIAL: Os elementos ou unidades particulares

CAUSA FINAL: O propósito, justificação ontológica.

 

Fazendo uma metáfora com uma “casa”, Aristóteles diria que a “casa” admite 4 causas:

  1. a) a causa formal, que é a planta (blueprint), o projeto segundo o qual a casa é construída; um desenho, uma entidade de dá a forma (é formal) da casa;
  2. b) a causa eficiente, que é o que hoje em dia entendemos como o mecanismo, o processo

pelo qual a casa é construída; as coisas que devem ocorrer para gerar uma casa; o processo de colocar os tijolos, o telhado, ou seja, construir a casa;

  1. c) a causa material, que são os elementos que entram na composição da casa: os tijolos, a madeira, etc: e,
  2. d) a causa final, o propósito ou justificação ontológica da casa, para que é essa casa, para que serve.

Aristóteles muitas vezes criticou outros filósofos dizendo que não levavam em conta essas 4 causas dos fenômenos naturais, e somente viam a causa eficiente (o mecanismo) mas que sempre é necessário considerar as 4 causas.

 

Dentro dessa doutrina das 4 causas, na realidade, havia uma certa hierarquia. A “causa eficiente” que, para um pesquisador moderno, deveria ser a causa mais importante, para Aristóteles era a causa menos relevante e, claramente, a causa mais relevante era a “causa final” (o propósito). Como a “causa final” é muito importante nas explicações aristotélicas para os fenômenos biológicos, qualquer tentativa de, por exemplo, classificar os animais, ou classificar qualquer tipo de fenômeno natural, se baseia na referência à “causa final” (ao propósito). Portanto, a Biologia de Aristóteles é uma Biologia finalista. Isso significa que as coisas naturais têm um fim, um propósito e compreender esse propósito é o mais importante em seu entendimento. Isso era, portanto, uma linha de pensamento finalista e funcionalista. A preponderância absoluta da “causa final” sobre as demais “causas” transparece nesse texto de Aristóteles:

 

“… não pelo fato de que um ser se desenvolva de uma certa maneira, por isso é dessa maneira (…), quer dizer, a gênese depende da existência, e não é esta que existe em função da gênese. (…) Pois bem, cada coisa existe para algo, e por esta causa e as restantes se desenvolvem de fato todas as características que estão incluídas na definição de cada ser, e que existem com um fim ou sem um fim…” (Aristóteles, Reprodução dos animais) “

 

É interessante notar que uma das conseqüências importantes que isso tem é a classificação da diversidade dos animais proposta por Aristóteles. Embora os especialistas em Aristóteles afirmem que ele não tinha uma intenção taxonômica, várias vezes nos deparamos com suas classificações dos animais. Essas classificações são muito heterogêneas se apóiam em critérios muito heterogêneos e funcionais (“a existência determina a gênese”). O resultado são classificações com categorias que se sobrepõem e, portanto, de pouca utilidade. Aristóteles termina dizendo que “os organismos bípedes podem às vezes ser sangüíneos”, ou seja, não há uma classificação que diga: esse organismo pertence a esse grupo e não a outro; um mesmo organismo pode pertencer a mais de um grupo.

Isso é diferente da taxonomia proposta dor Linneo, na qual cada organismo pertence a um grupo e esse grupo pode pertencer a outro, mas a identidade taxonômica de cada organismo é única. Essa é uma taxonomia muito mais poderosa que a Aristotélica. O próprio Aristóteles dizia que não havia sentido na taxonomia e que era necessário olhar cada animal em sua particularidade.

 

A taxonomia de Linneo foi uma subversão da doutrina Aristotélica e isso foi um pouco paradoxal porque Linneo e sues sucessores que, por assim dizer, fundaram a taxonomia e a sistemática biológica, são pensadores conservadores, fixistas. Não obstante, eles geraram um método de classificação dos organismos que teve e tem muita importância no desenvolvimento da evolução orgânica posteriormente, mais precisamente, no século XIX.

 

O “Systema Naturae” (Carl Linné 1758), propõe uma ordenação em uma estrutura ramificada, de grupos inclusivos. A maneira de proceder nesta classificação requer um novo critério de comparação, que se sustenta nas semelhanças estruturais de estruturas homólogas e não em características funcionais. Esse é o sistema que utilizamos até hoje para classificar todos os seres vivos. Todos os seres vivos podem ser classificados em um sistema ramificado e, como esses são ramos que se dividem um outros ramos, temos grupos inclusivos, isto é, grupos dentro de grupos.

Essa idéia é uma idéia que sugere fortemente um origem comum e uma origem comum é a idéia central da evolução orgânica. Linneo não enxerga isso; Cuvier, tampouco o enxerga; Darwin, porém. enxerga isso claramente. A maneira de proceder nesta classificação é importante. Como devo proceder para criar uma classificação que é ramificada e inclusiva? Em que tenho que fixar minha atenção? Que caracteres tenho que notar para conseguir uma classificação que seja ramificada e inclusiva?

 

A maneira de proceder requer critérios que não são funcionais: requer um critério de comparação que se apóia em comparações estruturais e não nas semelhanças funcionais, um critério de identificação daquilo que hoje chamamos “estruturas homólogas”. Quer dizer, uma classificação feita com base em critérios funcionais, não gera uma classificação inclusiva e ramificada. Essa é, portanto, uma subversão às idéias aristotélicas de finalismo. Ou seja, a gênese não ocorre em função da existência, mas sim, ao contrário, a existência é o resultado de uma gênese, porque há dois critérios importantes para saber se duas estruturas são homólogas: a disposição estrutural, que revela se o critério se mantém; e o critério da origem embriológica. Isso mostra que a gênese produz a (resulta na) existência, e não ao contrário. O critério para estabelecer a homologia é a constâncias das relações estruturais, ou, a origem embrionária dessas estruturas.

Isso equivale a considerar que, ao menos pra o estudo da taxonomia, a gênese (a geração dos seres vivos) tem primazia sobre o propósito – se é que esse propósito existe, ele não é o critério central. E quase 100 anos após o desenvolvimento da taxonomia Lineana, há um grande marco na teoria da evolução orgânica, que é atribuída a Darwin. Há outros pensadores evolucionistas, anteriores a Darwin, mas Darwin teve o mérito de fazer da teoria da evolução uma teoria que demorou muito pouco tem a ganhar adeptos em toda a comunidade científica européia, pelo menos.

Quando falo da teoria da evolução orgânica de Darwin, me refiro ao aspecto da teoria da evolução e não à teoria da seleção natural. Darwin escreveu um livro chamado ‘Teoria da Evolução das Espécies por meio da Seleção Natural”, mas aí há dois elementos: os elementos da teoria de evolução orgânica e o processo da seleção natural, que, em realidade não tem tanta relevância na origem das espécies, nas primeiras versões desse livro.

Quero, portanto que compreendam que estou falando da teoria da evolução, não da teoria de seleção natural. E a teoria da evolução orgânica, basicamente, propõe: uma origem comum e comunidades de descendência, isto é, que os organismos têm uma origem comum, dois organismos sempre têm um ancestral comum. mas próximo ou mais distante, e os grupos de organismos representam comunidades de descendência. Darwin diz coisas belas ao se referir à classificação Lineana como um ponto de apoio para a evolução orgânica, quase como um evidência de que essa evolução ocorreu. Na “origem das Espécies”, Darwin escreve:

“Expressões tão famosas como as de Linneo, às quais geralmente encontramos em uma forma mais ou menos encoberta, ou seja, que os caracteres não criam o gênero mas sim que o gênero fornece os caracteres, parece implicar que algum vínculo profundo está incluído em nossa classificação, mais que l mera semelhança. Creio que este é o caso, e que a comunidade de descendência – única causa conhecida da semelhança nos seres vivos – é o vínculo, no qual, em que vários graus de modificação observada, é parcialmente revelada por nossa classificação” (Darwin, A Origem das Espécies, 1872)

 

Ou seja, Darwin considera que os grupos mostrados pela classificação Linneana são comunidades de descendência e que portanto essa classificação pode ser tomada como uma evidência de origem comum, de evolução.

Outra coisa importante em Darwin, que deveria ser recordada pelos neo-Darwinistas, ou pelas correntes mais adaptacionistas modernas, é que Darwin enfatiza que os padrões de semelhança só podem ser devidos à comunidade de descendência, e em nenhuma caso a um projeto do criador ou a uma “causa final” (propósito ou função):

 

“…nada pode ser mais inútil que tentar explicar padrões de semelhança entre membros da mesma classe por alusão à utilidade ou a uma doutrina de causas finai” (Darwin, The origin of species, 1872 p. 387)

 

Darwin e os modernos biólogos evolutivos explicitamente renunciaram à causa final como um argumento legítimo na explicação dos fenômenos biológicos. A “causa formal” que ainda aparece no pensamento biológico são resquícios do pensamento aristotélico.

 

Qual é a outra explicação possível? É a explicação religiosa, como a dada por de Cuvier, segundo a qual dois organismos são parecidos porque fazem parte de um mesmo plano, e esse plano é gerado por uma entidade externa, um Criador. Portanto, temos que tomar a decisão sobre o tipo de explicação que vamos aceitar. Se não aceitamos as explicações religiosas, por não estarem no domínio das experiências humanas, então, deveríamos aceitar que, de fato, a semelhança entre organismos revela uma origem comum e que não podemos argumentar que essas semelhanças se devem às funções ou utilidades, ou seja, à doutrina das “causas finais”. Ou seja, o tema da evolução orgânica pareceria dar cabo da idéia de causas finais. Isso fizeram Darwin e os evolucionistas, abandonando as causas finais como argumento legítimo na explicação de fenômenos biológicos.

No entanto, até nossos dias, com certa freqüência escutamos argumentos que são resquícios das causas finais. A idéia de que os organismos estão adaptados para alguma coisa, por exemplo, tem um certo sabor a “finalismo”; os biólogos evolutivos sabem disso e se defendem muito dessa situação e afirmam todo o tempo que não são “finalistas”. Nas teorias de evolução orgânica e de seleção natural não há finalismo, não há propósitos: apenas mecanismos. No entanto, é comum escutar pessoas falando como se os caracteres tivessem uma certa finalidade. Podemos, porém, considerar que a Biologia moderna está livre das causas finais aristotélicas, como propósito legítimo dos fenômenos naturais.                Mas há ainda a considerar um aspecto muito importante do pensamento aristotélicoque permanece e acho mesmo que é a isso que se refere principalmente o título dessa palestra, ou seja, é preciso considerar no que se transformaram as “causas formais” de Aristóteles. Na Biologia moderna, a “causa formal” tem ainda muito do pensamento aristotélico, que se expressam em diferentes aspectos de diferentes disciplinas da Biologia.

 

Há uma observação de Cuvier, que diz que os organismos são conjuntos de partes, mas que estas partes não são independentes umas das outras, e organizadas de uma forma particular que resulta na formação de um todo, que é harmônico e interage de uma certa forma com seu ambiente. Pareceria, portanto, que s partes estão articuladas com uma finalidade, que é gerar um todo. Para Cuvier, esta arrumação particular das partes ao todo representa a condição de existência (ou causa final) dos organismos de um certo grupo. Cuvier, portanto, respeita a idéia de “causa final” aristotélica, apenas lhe muda o nome para “condição de existência” de organismos de um certo grupo. Assim, as “condições de existência” são que fazem com que todas as partes reconhecidas – os órgãos, os tecidos – estejam todas ordenadas para formar um todo e uma certa interação desse todo com o ambiente.

Como surge um organismo e tal forma que as partes se organizam em relação ao todo? Isso é equivalente à pergunta moderna sobre a adaptação: Como é que os organismos estão feitos de maneiras tão apropriadas para ser o que são e para interagir com o mundo da maneira que o fazem? O que se passa no surgimento desse ajuste tão perfeito com o mundo em que vivem?

Essa pergunta é válida e temos que respondê-la de alguma maneira. E há várias maneiras de respondê-la. Cuvier a respondia dizendo que isso se deve a um plano gerado por um Criador. A teoria da evolução orgânica propõe uma explicação para entender as similaridades entre os seres vivos que, explicitamente, não é finalista. No entanto, a Teoria Sintética – e aqui separo a Teoria Sintética, o neo-Darwinismo, da teoria de evolução orgânica original, porque há uma diferença muito fundamental. A teoria neo-Darwinista, ou Teoria Sintética da evolução introduz o conhecimento sobre a genética, que se desenvolve a partir do começo do século XX, que é a genética mendeliana, particulada, e a incorpora como os elementos da herança. E os elementos da herança variam e são selecionados no processo da evolução. A Teoria Sintética afirma que os genes são a base da geração dos caracteres porque os determinam e são a base dos estados desses caracteres. Essa é uma explicação diferente, que diz que os organismos são como são e suas partes estão ordenadas dessa maneira, porque há genes que determinam a forma. Portanto, são estes genes que instruem que as partes devem ser de certa maneira e não de outra. Portanto, o discurso que se impõe é que os genes contêm a informação para determinar as partes.

 

Aqui, portanto, o interessante é que aparece uma palavra – a informação- que tem tudo a ver com a “causa formal” aristotélica. A palavra informação aparece em muitas explicações biológicas, não apenas os genes contêm informação, Os neurônios transmitem informação. O sistema nervoso processa informação. Os animais se comunicam e essa comunicação é a transferência de informação. Assim, a palavra informação tem uma relevância no discurso biológico que não é questionada e que além disso ninguém compreende perfeitamente. A que se refere a informação? Quando se diz que dois neurônios trocam informação, ou que a informação é processada no cérebro, essa é uma descrição que não vai adiante, termina aí; mas a maioria das pessoas aceita essa informação e ademais sabem que em certas parte do cérebro se processam certos tipos de informação. E seguimos falando de informação como uma palavra dada e sobre a qual não indagamos o significado estruturalmente.

Dizemos que o genoma contém a informação que determina a forma: representa uma causa formal de como são os organismos. A informação é uma “causa formal” abstrata, é uma enteléquia que instrui a forma, é um plano que diz como deve ser a forma de algo. Na metáfora da casa, que mencionamos ao começar, a “causa formal” é a planta, o projeto da casa, um desenho em papel que diz como deve ser construída a casa. Em Biologia, portanto, aceitamos que os genes são como um plano, no qual, de uma certa maneira, está dito como devem ser as formas de um organismo. É uma entidade abstrata que instrui a forma que “in-forma”, ou seja,”dá-forma” instruindo a forma das partes e suas relações, ou seja, a maneira pela qual se relaciona com as outras partes. Tudo isso contido em uma estrutura, que são os genes.

É importante entender que a informação não são os genes: os genes contêm informação. Os genes são algo estrutural, a informação não, é algo mais abstract, que se diz estar escrito de alguma maneira nos genes. A “causa formal” atua sobre uma matéria prima informe, transformando-a. No entanto, a “causa formal” não sofre transformação alguma neste processo de instruir como deve ser algo, já que é uma enteléquia sem existência estrutural. A matéria sobre a qual a informação atua, essa sim, se transforma, mas ela, em si, não se transforma. A informação não tem existência estrutural, é uma abstração de algo que aceitamos como um doador de forma.

A “metáfora informativa”na biologia está presente na explicação de vários outros fenômenos: os genes contêm informação; o sistema nervoso, transmite, integra e processa informação; a comunicação animal é um processo de transferência de informação.

 

Informação e comunicação animal

E aqui, perdoem-me, minha formação é na ecologia condutual, trabalho com a conduta animal e particularmente com o que tem a ver com a comunicação animal intra-específica, entre animais da mesma espécie. E a comunicação animal é um elemento central da etologia, na biologia da conduta, a comunicação é um elemento central. É o cimento das sociedades, tem grande relevância em momentos cruciais da vida dos animais, por exemplo, no momento do pareamento sexual, na educação dos filhotes. A comunicação animal é um tema central na ecologia do comportamento e na biologia e é muito interessante porque no estudo da comunicação animal, sempre se se está falando da transferência de informações entre os animais. Por isso, no pouco que me resta desta palestra, queria lhes falar um pouco da informação que está totalmente embebida no tema da comunicação animal e de como isso tem dificultado entender a origem e a evolução da comunicação animal.

 

Há duas definições muito famosas da comunicação animal. Ambas são definições “informativas”. Cada autor tem sua definição de comunicação animal. No entanto, em sua esmagadora maioria, a explicam em termos da transferência de informação.

  1. a) “Processo que envolve a transferência de informação, através de um “sinal” desde um emissor a um receptor, o qual “responde” de alguma forma” (Bradbury & Vehrencamp 1998)

Então há dois elementos na comunicação animal: um emissor e um receptor, e também um sinal que trafega entre os dois. Há outra definição, mais complexa, de Marler:

  1. b) “Transferência de informação não acidental, produzido por que existe um benefício para o emissor em alterar a conduta do receptor e também um benefício para o receptor em alterar sua conduta de acordo com o sinal do emissor ” Comunicación Verdadera (Marler 1977, Dusenburry 1992)

Esta definição inclui um propósito do organismo de produzir um acerta conduta no outro organismo. O importante é que, em ambos os casos, falamos de comunicação em termos da transferência de informação. Essas definições são muito utilizadas e são suficientes para a grande maioria dos ecólogos condutuais. Essas definições geralmente incluem um desenho onde está mostrado um emissor, um receptor e uma flecha indicada como “informação” que indica a transferência como se ocorresse através de um tubo – Maturana e Varela falam da metáfora do tubo, para falar do sistema nervoso – um tubo pelo qual trafega certa coisa, que é a informação. Depois, o receptor responde e decide de uma certa maneira.

Nesse caso, as características da causa formal voltam a se repetir, ou seja, a informação: é produzida pelos emissores; adquirida pelos receptores; é “algo” que viaja com os “sinais”; portanto é “imaterial”, não tem estrutura; e, é independente do receptor, sobre o qual tem a capacidade de instruir uma conduta. Portanto, a informação não é o “sinal”, mas algo que viaja com o sinal. A informação permanece inalterada, como não tem estrutura, não pode sofrer mudança alguma.

 

Há vários tipos de problema que podemos notar em um definição informativa:

Não é uma definição operativa como saber que há transferência de informação?)

Quando vou ao campo e quero ver se dois animais estão se comunicando, essa definição não me diz o que tenho que testemunhar para assegurar-me de que houve comunicação, não é fenomenológica; como saber se dois animais estão transferindo informação? Necessitamos algo mais, não é suficiente dizer que houve transferência de informação. E o que efetivamente vemos, quando vemos que ocorreu a comunicação entre dois animais? Basicamente, o que vemos são condutas, condutas às quais chamamos comunicação. O que vemos é uma coordenação de condutas, mais ou menos previsíveis. E isto não está contido nessa definição que diz que dois organismos se comunicam quando transferem informação um ao outro

Não é sistêmica (a informação é independente, pelo menos, do receptor)

ou seja, a informação não faz parte, é separada do emissor, ou, ao menos é separada do receptor

Ao não possuir estrutura, torna-se difícil imaginar um mecanismo para a transmissão;

é preciso dizer algo mais sobre o mecanismo dessa transmissão

Igualmente, torna-se difícil entender como se origina a comunicação (tanto ontogenética como filogenéticamente)

Como é que dois organismos de uma mesma espécie começam a comunicar-se; trata-se de entender tanto como aparece a comunicação em organismos que não a tinham; como ocorre isso? Como corre isso na origem das espécies, e como ocorre isso no transcurso da vida de um organismo individual? Não nos ajuda nada dizer que a comunicação é uma transferência de informação.

 

O que se requer é uma teoria da comunicação que tenha dois elementos centrais. Primeiro, queremos que seja sistêmica. O que queremos dizer com isso? Por que deveria ser “sistêmica” Porque, na realidade, os sinais não são independentes da estrutura dos organismos que os emitem e tampouco tem relação com a estrutura dos organismos que os recebem. Quer dizer, há uma insistência em colocar a atenção sobre o “sinal”. Mas, na realidade, o que é o “sinal”? É uma coisa que tem estrutura: pode ser uma característica do animal, pode ser uma conduta, pode ser um som, pode ser qualquer elemento da corporalidade de um animal. Esse “sinal” é parte do fenotipo desse organismo, portanto, não pode surgir de maneira independente e tampouco pode surgir de maneira independente daquilo que desencadeia no receptor.

Portanto, temos necessariamente que considerar que emissor, receptor e os “sinais”, são na realidade um sistema que a evolução coordenou sistemicamente, isto é, em conjunto. Essa situação é radicalmente diferente de entender a origem da comunicação como resultado de três coisas distintas: emissor, receptor e informação que flui; é diferente de entender um todo que integra emissor, receptor e “sinais” em uma visão que é sistêmica e também “histórica”.

Porque deveria ser “histórica”? Porque, em algum ponto, há uma história comum dos organismo que participam da relação comunicativa; emissor, receptor e “sinais” não evoluíram independentemente uns dos outros. Essa relação comum permite compreender a origem da comunicação.

 

Portanto a idéia de comunicação animal deveria ser operativa e simples e resgatar, pelo menos, esse dois elementos que deve ter a comunicação, que permitiriam entender melhor qual foi a história evolutiva da comunicação. Uma aproximação mais adequada será um que resgate a natureza sistêmica e histórica, ou seja, passar de um esquema no qual o emissor manda informação a um receptor, e esse receptor dá uma resposta que pode, ou não, ter influência sobre o emissor; a uma situação na qual o emissor e os sinais têm um certa conexão histórica, e os receptores e os sinais têm uma conexão histórica através da conexão histórica entre emissores e receptores. Quer dizer, esses três elementos estiveram sempre juntos, têm uma história comum.

 

Portanto, quando buscamos uma definição que resgate todos os elementos da comunicação, chegamos a uma situação que é muito simples e muito operativa e que, de alguma maneira, também resgata essas duas coisas: frente a uma conduta que é dada por um organismo, outro organismo adota recorrentemente outra conduta, outra resposta. O que existe aí em realidade e é central nessa visão é uma coordenação condutual: a comunicação é uma coordenação condutual entre dois organismos e portanto, há um correspondência estrutural especial entre receptores e emissores.

Na “Árvore do Conhecimento”, Maturana e Varela dizem algo muito similar: “Como observadores, designamos como comunicativas as condutas que se dão no acoplamento social, e como comunicação, a coordenação condutual que observamos como resultado dela (Maturana & Varela, El Arbol del conocimiento, 1984) Que querem dizer eles por “acoplamento social”: a interação de organismos da mesma espécie no âmbito de espectros que isso envolve. E como comunicação, querem dizer a coordenação condutual que observamos em organismos que têm algum nível de acoplamento social, de história social. A comunicação, portanto, não está restrita apenas aos organismos sociais, porque todos os organismos têm algum elemento de coordenação social, alguns não permanentemente, mas sim em alguns momentos da vida.

Portanto o importante na comunicação não é a transferência de informação, mas sim a coordenação condutual e isso imediatamente resgata o fato de emissores e receptores são parte de uma história comum e constituem um sistema. Essa é uma abordagem na qual é muito mais fácil entender a história da comunicação, do que a abordagem que a vê como a transferência de algo imaterial, como a informação.

 

Em resumo, o que quis lhes mostrar foi uma mudança na perspectiva aristotélica que, na Biologia, envolveu uma negação das “causas finais” e a afirmar explicitamente que nós, biólogos modernos não somos finalistas. No entanto, prosseguimos muito apegados às “causas formais” e nisso tem uma preponderância central a idéia de “informação”.    Usamos o conceito de informação na linguagem cotidiana todo o tempo; não obstante, não perguntamos qual é o substrato estrutural da informação nem o que ela significa, ou o que ocorre quando dizemos que duas coisas estão transferindo informação. Inclusive, na vida cotidiana, dizemos que o cartão de crédito contém informação; quando vamos ao terminal bancário sacar dinheiro, dizemos que o cartão transfere informação ao terminal. Na realidade, não temos idéia do que se passa nessas circunstâncias.E realmente, na linguagem cotidiana, recorremos ao termo informação quando não sabemos quais são as alterações estruturais envolvidas.

 

É isso o que lhes queria dizer.

 

J.F. Botelho:

Cláudia, pergunto se seríamos de todo justos a Aristóteles atribuindo a ele a culpa por esse “formacionismo”. Ernst Mayr no livro “O desenvolvimento do pensamento biológico” diz: “Somente quando foi entendida a natureza dual dos organismos vivos é que se percebeu, nos nossos dias, que a matriz do desenvolvimento da atividade, o programa genético, representa o princípio formativo que Aristóteles havia postulado.” Então, ele compara explicitamente o programa genético com as “causas formais” de Aristóteles. Seria justo isso? Porque em Aristóteles. a forma não preexistia na “causa formal”; no programa genético, de certa forma, a forma preexiste representada. Para Aristóteles, a “causa formal” era só penitencial; potência, a possibilidade para a forma, não sua preexistência. Uma rocha, uma pedra, tinha potência para se tornar uma escultura, mas essa escultura precisava ser efetivada pelas outras causas. No programa genético, isso é muito mais forte; a idéia de que a forma preexiste, um preexistencialismo.

 

Claudia Cecchi

Talvez os biólogos modernos sejam “mais reais que o rei”, talvez , no caso do desenvolvimento biológico, Aristóteles tivesse uma noção mais epigenética que a de Mayr e outros biólogos neo-Darwinistas. Pode não ser justo com Aristóteles, mas a “causa formal” é afinal uma invenção dele.

 

Dina Czeresnia

Gostaria de perguntar como a autopoiese, a capacidade do ser vivo se auto-produzir, se relacionaria com essa 4 causas aristotélicas.

 

Claudia Cecchi

Boa pergunta. Não sei. Se fosse pressionada, eu diria que a autopoiese poderia estar relacionada à “causa eficiente”, no sentido de aludir a um mecanismo. Os mecanismos gerativos são o que buscamos hoje em dia, e a autopoiese, de alguma maneira, embora não totalmente, é um mecanismo gerativo.

 

Miriam Graciano

Eu não vejo bem assim porque creio que a idéia de causalidade é totalmente incompatível com a teoria, ou o pensamento de Maturana. A teoria da causalidade implica necessariamente a exterioridade de algo que vai desencadear (o que se passa); Maturana é obviamente dialético e os dialéticos não usam essa exterioridade; se você for lá em Hegel, há a auto-causação ; em Spinoza, está a causa suis; que é esta auto-determinação que existe. Quando você fala em causalidade…Em Aristóteles, você tem a questão do ato e da potência. Você só é em ato o que pode ser em potência, e nessa hierarquia toda das causas, ele coloca o primeiro motor, que é o imóvel, e no final, tudo caminha para lá. São Tomaz de Aquino, quando faz a leitura cristã de Aristóteles, diz que Deus está no começo e tudo retorna a Deus. Spinoza, por sua vez, fecha o ciclo: se o fim é o começo, vocês cortaram o ciclo arbitrariamente e esticaram a linha resultante, mas o ser a si se determina; ele se emana, ele se faz. E a idéia que eu vejo no conceito de autopoiese é essa idéia de um fazer criativo; ele não é auto-praxicus, ele é auto-poiético, é criativo, se inventa, se refaz; encima de quê? de sua história pregressa. Então, ao mesmo tempo que ele é determinado, ele é imanente; essa imanência, essa determinação, é interna e não externa. Então não cabe teoria causal nenhuma. Para mim não tem sentido algum.

 

Claudia Cecchi

Na visão moderna, o “mecanismo” não é uma causa, mas se parece a uma causa. E, em Aristóteles, o mais parecido a um processo, é a “causa eficiente”.

[1] Palestra no IOC-FioCRuz Rio de Janeiro Out-2007