Humberto Maturana

A mente não está na cabeça

A Mente não está na cabeça
Humberto R. Maturana

Comentários sobre artigo de F. D.Aboitiz,“A critique of the modern concept of localization”.
J.Social Biol.Struct.8: 308-311 (1985)

                 A essência do que Aboitiz diz em seu artigo[1] é que a sintaxe de operação do sistema nervoso e a sintaxe da operação do comportamento são diferentes porque o sistema nervoso é um sistema estruturalmente determinado e, como tal, não pode operar e não opera com representações do mundo exterior onde o comportamento se realiza. Ele também diz que, nessas circunstâncias, uma lesão localizada no sistema nervoso, não importa quão singular sejam suas consequências sobre o comportamento, não pode ser vista como reveladora de uma localização funcional em termos destas consequências sobre o comportamento, mas sim precisa ser vista como indicadora de interferências singulares na produção, pelo sistema nervoso, de alguns dos padrões de atividade neuronal que eram gerados no comportamento original.

Como seria de se esperar, estou de acordo com isto. Mas gostaria de adicionar algumas reflexões, que não posso fundamentar completamente aqui, mas que considero pertinentes à discussão, e que apresentarei fazendo referência a alguns equívocos conceituais em que nós, os neurobiólogos frequentemente incorremos, e algumas das consequências operacionais e conceituais que nós deveríamos admitir para não incorrermos em tais equívocos.

Equívocos em que frequentemente incorremos

(a)           Explícita ou implicitamente, operamos conceitualmente como se em uma explicação científica estivéssemos fazendo uma redução fenomênica, expressando um fenômeno de um domínio em outro domínio, e não percebemos que as explicações científicas são proposições de mecanismos gerativos que unem domínios fenomênicos que não se entrecruzam, ao mostrar como os fenômenos de um domínio surgem pela operação dos fenômenos de outro domínio. Neste equívoco, confundimos domínios fenomênicos que não se cruzam que são interligados por uma relação gerativa, e os tratamos como se eles estivessem incluídos um no outro.

(b)            Como biólogos, embora saibamos que precisamos tratar o organismo, o sistema nervoso e o ambiente como sistemas estruturalmente determinados para podermos explicar cientificamente os fenômenos que lhes são próprios, não procedemos conceitualmente de acordo com todas as consequências que isto necessariamente implica nos domínios de operação do sistema nervoso e do comportamento. Como resultado, não vemos que o sistema nervoso e o organismo, como qualquer sistema estruturalmente determinado, não admitem interações instrutivas, e são tais que tudo o que lhes ocorre é determinado por sua estrutura.

(c)            Usualmente, nas tentativas de explicar a ação do sistema nervoso, negligenciamos o fato de que individualmente, nós, seres humanos, em nosso vivenciar não podemos distinguir entre o que chamamos percepção e o que chamamos ilusão. Como resultado, não vemos que a distinção que fazemos entre percepção e ilusão em relação a qualquer experiência sensorial em particular, surge somente a posteriori , quer por fazermos referência a uma outra experiência sensorial igualmente duvidosa, ou a outro ser humano que, sob este aspecto, é igual a nós, e continuamos tentando explicar a operação do sistema nervoso e do comportamento como se essa distinção fosse possível.

(d)            Usamos noções e conceitos que implicam, explícita ou implicitamente, na aceitação de que os fenômenos biológicos que usualmente chamamos de funções mentais superiores, tais como o pensamento abstrato, a autoconsciência, o estado de alerta e a linguagem ocorressem no sistema nervoso como aspectos da operação de seus centros superiores. Como resultado disto, confundimos domínios fenomênicos, e tentamos compreender as complexidades contextuais de um comportamento particular que, como tais, são próprias do domínio de interações do organismo, como se elas fossem aspectos dos processos neurofisiológicos que geraram aquele comportamento.

 

Consequências que devemos admitir para não incorrermos nestes equívocos

(a)            Que o que vemos, como observadores, como comportamento adequado quando observamos um organismo particular num dado ambiente, é uma consequência da congruência estrutural (ou acoplamento estrutural) em curso, um acoplamento que necessariamente existe entre um organismo (com seu sistema nervoso, se ele o possui) e o meio, como uma condição de existência que precisa ser conservada através de todas as mudanças que o organismo e o meio atravessam juntos em sua história de interações enquanto o organismo estiver vivo (Maturana,1980).

(b)            Que o comportamento consiste em ações e coordenações de ações que um observador distingue como tendo lugar quando os organismos interagem entre si e/ou com o meio abiótico, e descreve com referência ao curso da história dessas mesmas ações e coordenações de ações, e não com referência ao que tem lugar nos organismos em si mesmos.

(c)            Que o sistema nervoso, como um sistema celular, é uma rede internamente fechada de elementos neuronais em interação (sensores, neurônios e efetores) que também se fecha sobre si mesma externamente, através das interações sensoriais que têm lugar através do meio como se o meio-ambiente fosse somente um espaço sináptico (Maturana,1983).

(d)            Que o sistema nervoso, como uma rede fechada de elementos neuronais em interação, opera como uma rede de mudanças recursivas de relações de atividade entre elementos neuronais que somente dá lugar a novas mudanças de relações de atividade consigo mesma, que, portanto, são seus estados como uma rede dinâmica (Maturana,1983).

(e)            Que a estrutura dinâmica do sistema nervoso como um sistema celular (conectividade e estrutura dos elementos neuronais) determina a todo momento os padrões de mudança de relações de atividade que nele têm lugar e constituem sua dinâmica de estados.

(f)              Que a estrutura dinâmica do sistema nervoso como um sistema celular componente do organismo está atravessando mudanças contínuas que seguem um curso contingente à sequência de interações do organismo.

(g)           Que o que um observador vê como a participação do sistema nervoso na geração do comportamento são mudanças de relações de atividade entre superfícies sensoriais e efetoras do organismo em um domínio de existência que o observador especifica para o organismo através de sua observação.

(h)            Que a participação do sistema nervoso na geração do comportamento é, a cada momento, a expressão da congruência da dinâmica estrutural que necessariamente se mantém entre organismo, sistema nervoso e ambiente, no domínio de existência no qual o organismo é distinguido, e não uma expressão da operação do sistema nervoso com uma representação de um ambiente. E, finalmente, nesta lista:

(i)             As complexidades que observamos no comportamento de um organismo a qualquer momento, e que usualmente descrevemos em termos de significados e conteúdos, são aspectos contextuais das circunstâncias históricas particulares que configuram o comportamento e não aspectos da operação do sistema nervoso.

As complexidades do sistema nervoso e as complexidades dos processos neurofisiológicos que as geram são de tipos diferentes e têm lugar em domínios fenomênicos que não se cruzam e, como tais, precisam ser entendidos diferentemente, cada qual de acordo com a sintaxe ou coerência do domínio fenomênico no qual elas têm lugar, independentemente da relação gerativa que possamos ver entre elas. Para alcançar esta compreensão, precisamos aceitar que um sistema pode existir simultaneamente em muitos domínios fenomênicos diferentes, através de diferentes aspectos de sua estrutura. Na verdade, as explicações científicas, por serem não reducionistas, dão validade à existência simultânea de todos os sistemas estruturalmente determinados em muitos domínios fenomênicos que não se cruzam, e nos permitem compreender como nós, como seres humanos, pertencemos operacionalmente a muitos domínios de existência igualmente legítimos e que não se cruzam.

Finalmente, se nós aceitarmos que os sistemas vivos como sistemas estruturalmente determinados só podem existir em correspondência estrutural como um meio, então precisamos também aceitar que um observador verá que a dinâmica de estados do sistema nervoso dá origem no organismo a um comportamento adequado à complexidade de suas circunstâncias somente como resultado da correspondência estrutural dinâmica que existe entre o organismo e o meio em presença da história ontogenética e filogenética de conservação da correspondência estrutural dinâmica entre o organismo e o meio ao qual ele pertence e no qual é distinguido (Maturana,1980). Nestas circunstâncias, qualquer relação entre um estado de atividade do sistema nervoso e o que um observador vê como um aspecto do ambiente do organismo ao qual pertence o sistema nervoso, pode ser uma relação de representação do ambiente na operação de tal sistema nervoso apenas na descrição do observador, e para o observador, não na operação, ou para a operação do sistema nervoso em si mesmo. Também nessas circunstâncias, qualquer lesão em um sistema nervoso necessariamente interferirá com algumas de suas coerências internas, e parecerá a um observador como capaz de alterar alguns dos padrões de correlação senso-efetora do organismo no domínio de existência no qual ele é observado. Ao mesmo tempo, essa mudança nas correlações senso-efetoras do organismo necessariamente parecerá a um observador como uma modificação do comportamento que o observador poderá sempre ver como deficitário em alguns dos seus aspectos usuais de significado e conteúdo. Desde que todos os sistemas envolvidos – organismo, sistema nervoso e meio – são sistemas estruturalmente determinados, lesões similares em sistemas nervosos similares necessariamente resultarão em mudanças similares no comportamento de organismos similares em condições similares, que é o que, de qualquer forma, se observa. É esta regularidade que nos seduz a acreditar que as conseqüências comportamentais de uma lesão no sistema nervoso revela que a parte do sistema nervoso que a lesão destruiu era diretamente responsável pelo conteúdo e significado do comportamento que foi perdido através da lesão.

Aceitar que isto não é assim, e que constitutivamente não existe um mapeamento possível entre a sintaxe de operação do sistema nervoso e a sintaxe do conteúdo e do significado do comportamento que ele gera não é fácil, e requer um salto conceitual. Requer a aceitação de que os fenômenos mentais como fenômenos de significado, intenção, linguagem ou autoconsciência, e, fenômenos fisiológicos como fenômenos de interações e relações moleculares, celulares ou hormonais, têm lugar em domínios fenomênicos que não se cruzam, cada qual definido por suas próprias coerências ou sintaxe, e que os sistemas vivos em geral, e nós seres humanos em particular existimos em cada um desses domínios de maneiras legítimas, porém, diferentes. A mente não está na cabeça, a mente está no comportamento.

Referências

Maturana, H.R. (1980) Autopoiesis: Reproduction, Heredity and Evolution.  In: M.Zeleny (ed.)Autopoiesis, Dissipative Structures and Spontaneous Social Orders.Westview,AAAS Selected Symposium 55, pp.45-79.

Maturana, H.R. (1983) What is it to see? Arch.Biol.Med.Exp. 16 : 255 -269.

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[1] Aboitiz, F.D. (1985)“A critique of the modern concept of localization” J.Social Biol.Struct.8: 307-308.