Andrew Pickering

A robustez da ciência e a dança de agências

A robustez da ciência e a dança de agências
Andrew Pickering
University of Exeter
a.r.pickering@exeter.ac.uk

https://www.researchgate.net/publication/303639085
The Robustness of Science and the Dance of Agency

In L. Soler, E. Trizio, T. Nickles and W. Wimsatt (eds.), Characterizing the Robustness of Science: After the Practice Turn In Philosophy of Science (Dordrecht: Springer, 2012), pp 317-327. DOI: 10.1007/978-94-007-2759-5_13

 

“Robustez” pode significar muitas coisas. A discussão clássica de Wimsatt (1981)sobre a robustez na ciência tem um viés; um resultado científico é robusto na medida em que ele pode ser encontrado de muitas maneiras e independentes umas das outras. Neste texto, eu abordo a problemática por um ângulo ontológico (embora a epistemologia vá entrar na história também) que enfatiza uma certa robustez que podemos associar com a materialidade da cultura científica.

Para organizar a problemática deste ensaio vou trazer duas imagens da ciência: uma deriva do senso comum: o conhecimento científico é o conhecimento verdadeiro de como o mundo é. Neste modo de ver, a ciência não é apenas robusta; ela é sólida como uma rocha e é dada pelo próprio mundo. E de forma importante ela é absolutamente outra, destacada de seus produtores e usuários. Neste caso, nós humanos não temos escolha : a aceleração da gravidade na Terra é de aproximadamente 9,80665 m/s². A segunda ideia sobre a ciência é o oposto desta: a ideia de que a ciência é “uma mera construção social” – uma coisa organizada por seres humanos para servir seus interesses, ou encaixar em sua estrutura social, ou uma outra coisa deste gênero. Neste modo de ver, a ciência não se parece com uma rocha, mas sim é toda molenga, e como qualquer forma de conhecimento, pode se projetada em um mundo indiferente e que não oferece resistências. Como afirma Barry Barnes (1994), o mundo não se importa com o que dizemos sobre ele, de modo que podemos dizer o que quisermos. Neste modo de ver, a alteridade da ciência desaparece. Toda a responsabilidade das afirmações científicas recai sobre seus produtores humanos, e não cabe nenhuma responsabilidade ao mundo em si mesmo.

A tensão criada por estas duas imagens simétricas da ciência cria a necessidade de um conceito como o de robustez. É muito difícil colocar todo o peso das crenças científicas nos ombros do mundo. Estudos empíricos parecem chegar repetidamente à conclusão de que a ciência é realmente uma construção social. A única questão restante é decidir se ela é meramente uma construção social (Pickering, 1990). E imagino que falar de robustez, então, é uma maneira de tentar articular um sentido no qual este “mero” desaparece, ou tentar chegar à ideia de que podemos dar algum crédito à ideia de que o mundo é responsável por algumas crenças científicas, mesmo reconhecendo que elas são socialmente construídas.

Esta é a linha que quero seguir aqui. Lidando primariamente com os estudos que desenvolvi em meu livro The Mangle of Practice (1995a) ( A Transfiguração da Prática), vou procurar esclarecer minha própria maneira ontológica de lidar com a robustez da ciência e então como isto se relaciona com alguns problemas filosóficos clássicos.

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O estudo da prática nos “estudos da ciência” (Science Studies) (Pickering, 1992) desestabilizou a filosofia da ciência, começando por um deslizamento desde a epistemologia para a ontologia. Se a preocupação tradicional é com aquilo que os cientistas sabem, o estudo da prática nos encoraja a atentar para o que os cientistas fazem, e sucede que o que os cientistas fazem é atentar cuidadosamente para o que o mundo faz. Então nós nos movemos do interesse sobre aquilo que os cientistas fazem, para um interesse sobre aquilo que a própria natureza faz e para o acoplamento entre estas duas coisas. Este interesse no desempenho (performance) material e na agência não é de forma alguma central na filosofia da ciência nos países de língua inglesa, mas estou convencido que este é o lugar para começar a pensar sobre a robustez da ciência. Se existe uma certa dureza não-humana no conhecimento científico, ela está fundamentada nas relações performáticas (de desempenho) com o mundo material, e não em relações cognitivas. Isto é o que quero discutir primeiro.

Exatamente como os cientistas intersectam (se encontram com) o mundo material? Muitas vezes não diretamente sobre seus objetos de estudo; muito mais frequentemente através de máquinas e instrumentos que geram dados para processamento subsequente. Então, como se parecem estas interações com as máquinas e instrumentos?

Em meu livro The Mangle of Practice (1995a)( A Transfiguração da Prática), argumentei que isto tem a forma de uma dança de agências entre o humano e o não-humano. Em suas pesquisas, os cientistas oscilam entre períodos que Ludwik Fleck (1979) chama de fases de atividade e de passividade. Na fasede atividade, os cientistas são agentes genuínos, e montam seus aparelhos  de um modo ou de outro. Na fase passiva, eles dão um passo atrás e apreciam o que aconteceu. E podemos tornar isto simétrico dizendo que na fase de passividade humana, a natureza em si mesma está ativa, é um agente genuíno, fazendo seja lá o que for, bem independentemente dos objetivos e desejos humanos. E então os humanos reassumem a fase ativa, reconfiguram os aparelhos à luz do que aprenderam sobre seu desempenho. E, novamente, dão um passo para trás e a natureza reassume seu papel ativo, e assim por diante – um vai e vem, que eu chamo de dança de agências. No capítulo 2 de meu livro eu dissequei este processo tão bem quanto pude na história da câmara de bolhas como um instrumento para detectar partículas atômicas.

Em seu trajeto para o prêmio Nobel, Donald Glaser experimentou com todos os tipos de sistemas materiais, fazia montagens e depois se afastava, literalmente, com uma filmadora nas mãos para registrar o desempenho; ele então redesenhava, e reconceitualizava a câmara de bolhas à luz daquilo, e tentava de novo para ver o que a nova versão faria, e assim por diante. No curso de muitas iterações deste vai-vem, a forma material e o desempenho material de suas câmaras de bolhas mudaram radicalmente – elas se transfiguraram (“mangled”) – e, eventualmente, Glaser chegou a um novo instrumento, a câmara de bolhas, que na verdade foi imensamente útil na Física experimental.

Então, na verdade, tudo isso é muito simples, mas ainda penso que essa dança de agências é o que precisamos observar se queremos apreciar a robustez da ciência. Então, vou prosseguir com esta análise.

O primeiro ponto é que a câmara de bolhas era inegavelmente uma construção humana, A agência ativa de Glaser foi constitutiva em sua produção: ele imaginou a possibilidade de construir um novo tipo de detector de partículas e ele conectou e reconfigurou todas as partes do aparelho. Mas podemos ver imediatamente que a câmara de bolhas não era meramente uma construção social. O mundo pode não se importar com o que dizemos a seu respeito, mas ele certamente se importa com o que fazemos e vice-versa. Não é que Glaser tenha simplesmente desejado a existência da câmara; sua agência se entrelaçou com a agência material de uma maneira construtiva em uma dança que ele não podia controlar. Ele tinha que descobrir o que a matéria faria quando arrumada de uma maneira ou de outra, e isto, penso eu, é o sentido primário pelo qual o mundo entra constitutivamente na ciência – é o sentido primário pelo qual a ciência é uma empreitada robusta e não uma mera construção social.

E posso colocar este ponto talvez de uma maneira mais forte. Não havia nada robusto nesta dança de agências em si mesma. Ela era fluida e evoluiu de maneira aberta (open-ended) no tempo. Ainda assim penso que faz sentido falar da robustez do produto desta dança: a câmara de bolhas. O que é importante a respeito da câmara é que ela se destacou de Glaser e passou a operar confiavelmente por si mesma. Ela era, como eu diria, uma máquina autônoma (free-standing) que exibia um tipo de dualidade prática do humano e do não-humano (Pickering, 2009) – era um objeto material que agia no mundo material de forma bastante independente de Glaser ou qualquer outro. Embora  eu tenha que qualificar imediatamente esta ideia, vale a pena apreciar como ela aponta para um tipo de dureza absoluta e de não-humanidade da ciência, um sentido no qual a ciência produz e incorpora em si mesma uma agência material não-humana. Se o termo robustez nos conecta com algo admirável, fantástico, maravilhoso sobre a ciência, eu pessoalmente localizaria este sentimento nas realizações destas máquinas autônomas (free-standing machines).

Então, pensar sobre a dança de agências e seus produtos nos dá rápida e facilmente um sentido ontológico da robustez da ciência, e de como o mundo em si mesmo entra constitutivamente na ciência e porque a ciência não é uma mera construção social. E, portanto, quero fazer um par de comentários sobre o que vimos até aqui antes de prosseguir.

O primeiro é simplesmente notar que ao desenvolver uma apreciação da robustez da ciência eu ainda não disse nada sobre o conhecimento científico. A dança de agências que descrevi foi uma dança performática e não uma dança cognitiva. A câmara de bolhas, ela própria, tinha um desempenho; ela fazia alguma coisa no mundo. Penso que a filosofia da ciência, com sua obsessão epistemológica, passou um longo tempo procurando a robustez na direção errada.

Em segundo lugar, tenho que dizer algo sobre a alteridade (otherness) da câmara de bolhas como um instrumento material. Por um lado, a câmara era uma máquina autônoma (free-standing) que agia no mundo independentemente de seus usuários humanos. Neste sentido, ela era realmente “outra” para a humanidade. Por outro lado, precisamos lembrar que a câmara só era válida como uma captura bem sucedida de uma agência material – como eu a chamava – em um certo campo social. Em qualquer outro momento da história, ela teria parecido um pilha de lixo sem utilidade; somente com uma certa configuração da cultura científica ela passou a contar como um novo instrumento para a detecção de partículas atômicas. É neste ponto que os pensamentos sobre a ciência como uma mera construção social retornam, como se o estado da cultura científica de alguma maneira conspirasse para trazer a câmara à existência (que é como Emile Durkheim entendeu a relação entre o social e o tecnológico).Para nos esquivarmos da tentação de pensar assim, entretanto, precisamos apenas lembrar de que nesta instância a cultura científica foi também reconfigurada. Em sua dança de agências, Glaser desenvolveu tanto um novo instrumento quanto uma forma de vida que podia acomoda-lo – na Física baseada nos aceleradores de partículas (em vez da Física de raios cósmicos, que foi onde Glaser começou), criada e operada por grandes equipes de físicos e engenheiros, e não por um pesquisador solitário (como Glaser era quando começou sua pesquisa). Então, não foi o social que ditou as regras aqui – por assim dizer – e podemos nos concentrar na alteridade da câmara, com o algo constitutivo nas transformações da cultura científicas, como algo que transmite uma certa alteridade à cultura científica, mas não devemos pensar nesta alteridade como absoluta – a câmara não se impôs a um mundo humano passivo como um alienígena que descesse de Marte. Podemos admirar as máquinas e respeitar sua robustez sem tem que excluir o fator humano da dança de agências.

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Agora quero ampliar esta discussão. Eu disse que para entender a robustez da ciência devemos começar com a prática material, mas isso não significa que o conhecimento científico não é importante e interessante e que não devemos pensar sobre ele. No passado, trabalhei em um par de estudos detalhados da produção de fatos experimentais na ciência, um dos experimentos de Giacomo Mapurgo sobre a pesquisa de quarks, no Capítulo 3 de meu livro The Mangle of Practice (Pickering, 1995);(A Transfiguração da Prática) cito um outro exemplo que foi a descoberta das correntes fracas neutras (Pickering, 1984e ver Soler, neste volume). Ambos os exemplos manifestam os aspectos que gostaria de ressaltar aqui, mas desde que os experimentos sobre a pesquisa de quarks sempre foram meus preferidos em pensar sobre a prática científica, deixem-me falar sobre eles.

As fases iniciais dos experimentos de Mopurgo foram isomórficas com as de Glaser. Mopurgo queria desenvolver um instrumento que faria confiavelmente algo – uma máquina autônoma (free standing)- neste caso um aparelho que faria levitar partículas de grafite em um campo elétrico. Mas a fase seguinte acrescentou algo novo: agora ele tentava usar o aparelho para medir as cargas das partículas de grafite, buscando cargas terceiras integrais (third-integral charges) que indicariam a presença de quarks isolados. E acho notável como era difícil fazer esta simples medição.

Novamente, encontramos uma sequência de movimentos ativos e passivos em danças de agências, testanto esta e depois aquela configuração do aparelho e vendo que leituras eram obtidas com ele, reconfigurando o aparelho e tentando de novo, e assim por diante. Com uma das configurações iniciais Mopurgo encontrou evidências de quarks livres. Então ele aumentou a distância entre as placas e a evidência desapareceu. Então ele refez os cálculos em eletrostática simples que sugeriam que as placas deveriam estar mais próximas e concluiu, em vez disso, que elas deveriam ser bem afastadas. Este foi sua primeira realização bem sucedida de estabilização interativa, um ponto no qual a dança de agências se extinguiu in termos do que era agora um conjunto de recursos perfeitamente calibrado, um lugar no qual a prática poderia repousar, ele poderia publicar alguns resultados, um fato articulado – literalmente, a ausência de quarks livres em uma quantidade especificada de matéria.

Como devemos pensar sobre este episódio que creio ser típico da produçãoo de conhecimento empírico em ciência?  O primeiro ponto poderia ser que qualquer sentido de robustez desaparece aqui. Certamente, Mopurgo, como Glaser, construiu uma máquina autônoma que funcionava por si mesma na geração de fatos. A matéria entrou na história desta maneira. Mas o desempenho desta máquina e as interpretações conceituais que Mopurgo teceu a seu redor parecem estar ligadas de uma maneira circular e danosa. Que esta configuração da máquina em vez daquela outra era a configuração certa, só poderia ser argumentado com base em um modelo interpretativo da máquina, mas a correção deste modelo não era auto-evidente e só era garantido pelo fato de que os resultados obtidos se encaixavam em ainda outro modelo teórico, ligado à presença ou ausência de quarks livres. É importante ver a força deste argumento, penso eu, e ele parece apontar de volta para uma compreensão do conhecimento científico como um mera construção social.

Como escapar desta linha de pensamento? Creio que da seguinte maneira. Uma vez usei o conceito de “plasticidade” para avaliar a prática de Mopurgo (Pickering, 1989), um conceitoi utilizado também por Ian Hacking (1992). A ideia era de que a forma material do aparelho e a forma conceitual da compreensão que Mopurgo tinha do mesmo não eram fixas – que elas podiam ser flexionadas e mudadas de uma maneira ilimitada (open-ended) até que de alguma forma convergissem uma sobre a outra e se reforçassem. O problema com este conceito é que ele encaixa muito bem com ideias de circularidade na produção de conhecimento. Neste modo de ver, tudo o que os cientistas têm a fazer é moldar os diversos elementos da cultura científica para que eles se encaixem. O que esta maneira de ver não permite entender é porque a produção de fatos científicos é uma empreitada difícil e incerta que muitas vezes dá errado. A questão então se torna: onde falha a metáfora da plasticidade?

O ponto a notar aqui é que embora os cientistas possam certamente articular recursos culturais como quer que lhes agrade, eles não podem prever como eles funcionarão. Isto nos trás de volta a dança de agências em um sentido ampliado. Assim como Mopurgo, da mesma forma que Glaser, não poderia saber de antemão como seu aparelho material funcionaria quando configurado desta ou daquela maneira, ele não poderia saber de antemão onde certas suposições teóricas o levariam. Ocorre que quando ele partia de certo conjunto de suposições plausíveis em eletrostática, ele era levado a concluir que as placas metálicas em seu aparelho deveriam ser colocadas tão próximas quanto possível; e que quando ele mudava algumas suposições ele era levado a concluir o oposto. Então, tanto a nível conceitual quanto a nível material a metáfora da plasticidade falha, precisamente em que, embora os cientistas possam mudar à vontade seus recursos, eles tem genuinamente que testar o que acontecerá.

Então o que temos aqui não é uma mera construção social mas um conjunto de achados acoplados – testar onde alguns cálculos teóricos levarão, e testar como um aparelho funcionará. Novamente, temos que notar que Mopurgo não estava no controle de nenhum destes dois processos, nem se os produtos destes processos se acoplariam e estabilizariam um ao outro, como costumo dizer. Este é um processo probabilístico que poderia ter falhado. Não é um fato histórico trivial que o desempenho do instrumento material eventualmente encaixou em uma das estimativas teóricas de Mopurgo; as coisas não tinham que ter funcionado assim; elas poderiam não ter funcionado e o experimento podia ter resultado em coisas muito diferentes, tanto material quanto conceitualmente.

Aqui, novamente, podemos recuperar um sentido de robustez da ciência, agora no que se refere ao conhecimento científico. O conhecimento científico não é uma mera construção projetada pelos cientistas em uma natureza passiva. O desempenho material dos instrumentos na verdade é constitutivo do conhecimento que eles produzem, embora conceituações científicas anteriores sobre o mundo sejam constitutivas também, e estas duas coisas estão irrevogavelmente entrelaçadas. Ao mesmo tempo, como disse antes, este sentimento de robustez não é de uma alteridade não-situada. Nosso conhecimento é nosso conhecimento, condicionado pela cultura da qual ele é feito, como podemos ver nestes exemplos, não é algo imposto pela natureza sobre nós.

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Provavelmente já disse demais sobre o quadro geral da robustez da ciência e sobre como ela surge em danças de agências, mas quero apenas acrescentar que o quadro que esbocei até aqui pode ser prontamente estendido em todas as direções. Penso, por exemplo, que podemos encontrar danças de agências e estabilizações interativas e práticas puramente conceituais e também nas camadas mais materiais da ciência. Isto foi o que sugeri em relação aos modelos interpretativos que Mopurgo fez de seus instrumentos e, no capítulo 4 do The Mangle of Practice discuti longamente esta ideia tomando como exemplo a construção matemática do sistema de quartenions por William Rowan Hamilton, no século dezenove. Ali, eu introduzi o conceito de agência disciplinar como uma maneira de falar dobre o que levou Hamilton a lugares imprevisíveis em seu desenvolvimento de várias fórmulas algébricas e geométricas, e então como uma maneira de chegar à não-trivialidade, à robustez de estabilizações interativas em sistemas puramente conceituais. No The Mangleof Practice eu também argumentei que a forma geral de minha análise era escala-invariante, e que danças de agências pontuadas por momentos de estabilização interativas podem ser encontradas na escala macro-histórica, assim como na micro-histórica – uma afirmação que tentei exemplificar pelo estudo de dois casos: um na história da química orgânica e na indústria de corantes sintéticos no século dezenove; o outro nas transformações acopladas da ciência, tecnologia, sociedade e indústria bélica durante e após a segunda guerra mundial (Pickering 1995b, 2005). Meu argumento reafirma, portanto, que o “mangle” é uma espécie de “teoria de tudo” – embora não do tipo reducionista preferido na teoria de partículas atômicas.

Agora quero examinar a “transfiguração” (the “mangle”) e seus conceitos associados de robustez através de outros ângulos e em relação a vários problemas filosóficos.

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Podemos começar com a problemática do realismo. Como disse no começo, o realismo de correspondência é, penso eu, o ponto de partida para toda esta conversa sobre robustez. A verdade da natureza, se os cientistas a tivessem, seria a forma última de robustez. Deve valer a pena, portanto, examinar adiante onde minha análise se afasta do realismo.

O afastamento mais óbvio é que minha história de robustez, como disse antes, em primeira instância, não é absolutamente sobre o conhecimento (o conhecer). Ela é sobre o desempenho (performance, desempenho performático) no mundo material, é sobre aquilo que já chamei de o aperto maquínico (machinic grip) sobre o mundo (Pickering, 1995a). Acho muito impressionante a proliferação ilimitada de máquinas e instrumentos autônomos na ciência – é onde procuro enxergar uma explicação para o sentimento de robustez que a ciência inspira; é onde a alteridade do mundo entra na ciência. Como acabei de indicar, podemos traçar um conhecimento articulado no mesmo quadro, ao reconhecer que a produção de conhecimento depende de se conseguir alinhamentos probabilísticos e altamente não-triviais e interações estabilizadoras de estruturas conceituais e desempenhos materiais. Podemos, então tentar o argumento de que tais alinhamentos apontam para uma correspondência entre o conhecimento produzido e seus objetos no mundo, mas não consigo pensar por que eles deveriam (fazer isso), e o que me interessa mais é que meu relato de certa maneira neutraliza (defangs) o realismo e faz com que ele se torne um tópico menos urgente. Se não dispusermos de outro relato sobre a robustez da ciência, então o realismo parece muito importante, a única maneira de sublinhar nossas intuições sobre a alteridade da ciência. Mas se dispusermos de um relato como o que ofereço aqui, então talvez pudéssemos esquecer todo este tópico de correspondência: quem precisa dele? Podemos ver e falar sobre o fato de que a ciência é um edifício imensamente formidável, de forma alguma uma mera construção social, sem esta manobra implausível de tomar um aspecto da cultura científica – o conhecimento – e tentarmos nos persuadir de que ele corresponde à ordem oculta do mundo.

E poderíamos ir adiante nesta linha de pensamento. O realismo depende de uma intuição de unicidade: o mundo é desta maneira, ou de outra; a ciência percebe o mundo corretamente ou equivocadamente; seria loucura dizer que a ciência está simplesmente errada; então, temos que ser realistas. Ian Hacking, em seu livro The Social Construction of What? (1999) chegou à esta ideia com a concepção de “ponto grudentos” (sticking points)_ – os pontos nos quais os cientistas resistem a qualquer argumento construtivista. Como exemplo de um “ponto grudento” Hacking cita as leis do eletromagnetismo de Maxwell. Ele próprio parece admitir se alguma coisa como a Física em algum lugar do universo, eventualmente ela teria que articular alguma coisa como as leis do eletromagnetismo de Maxwell; estas leis simplesmente se imporiam aos cientistas; elas são de uma alteridade absoluta para nós.

Como posso responder a isso? Sou inclinado simplesmente a discordar de Hacking e dos físicos dos quais ele é o porta-voz, mas não consigo enxergar um meio de resolver esta questão. O que posso fazer, é discutir as visões ontológicas que nos dividem. Os “pontos grudentos” de Hacking fazem sentido em um mundo que realmente e é estruturado da maneira que os físicos agora o descrevem. E se o lugar é mesmo deste tipo, então estamos destinados a chegar às leis de Maxwell queiramos ou não. Mas tudo o que aprendi olhando para a história da ciência me fala de um mundo que não é assim de forma alguma; me fala de um mundo que é infinitamente rico de maneiras também infinitas, que pode sempre nos surpreender com seu desempenho. Na verdade,  um fato não trivial é que a ciência pode se acoplar no mundo através da construção de máquinas autônomas mas, como tentei argumentar, o que conta como uma máquina autônoma depende de quem somos nós e de que tipo de coisas queremos fazer. Dentro da cultura da física de partículas atômicas dos anos 1950 o mundo se revelou para nós na forma de uma câmara de bolhas. Na cultura dos anos 1960, no entanto, ele se mostrou para Mopurgo sem quarks livres. Mas acho fácil imaginar que culturas diferentes poderiam ter criados máquinas e instrumentos diferentes, e desempenhos materiais diferentes do mundo; e não concebo razões para imaginar o contrário. Desta perspectiva, os “pontos grudentos” de Hacking, não são fatos do mundo, mas sim da imaginação científica, e sua incapacidade de reconhecer a riqueza do mundo que a própria história da ciência nos revela.

Outra maneira de afirmar o mesmo ponto é notar que a análise da prática que descrevi no The Mangle, é uma prática evolutiva, precisamente análoga à evolução das espécies em um meio que interage com as mesmas. É uma história de buscas sem fim através de espaços de agências materiais, disciplinares e sociais e de desempenhos, na qual trajetórias históricas específicas são marcadas pela produção de alinhamentos contingentes e emergentes entre estes elementos. Isto significa que as transformações da cultura científica no tempo são dependentes de seu trajeto (path-dependent); os pontos de partida são importantes e também o são as contingências que surgem ao longo do caminho. Diferentes pontos e de partida e contingências diferentes deveriam nos levar a futuros diferentes. A visão de Stephen J Gould da evolução biológica era de que se pudéssemos enrolar a fita para trás e recomeçar o processo, o curso da evolução seria diferente e levaria a um mundo biológico muito diferente do que temos agora. Penso que o mesmo pode ser dito em relação à historia da ciência. E assim como não há “pontos grudentos” na história da evolução biológica, eles também não existem na história e no futuro da ciência.

Claro, isto é superpor duas visões de como o mundo é, como eu disse,não resolve a questão. Mas eu poderia colocar um pouco mais de peso do meu lado da balança, o que pelo menos ampliarâ o espaço de discussão. Não sei muito sobre a teoria de eletromagnetismo de Maxwell, então não posso discuti-la, mas eu conheço a história de experimentos sobre quarks, e o que eu sei sobre isto aumenta minha aversão por intuições de unicidade que subjazem a filosofia realista. Aqui, eu penso o seguinte:

Discuti minha análise dos experimentos de Mopurgo sobre quarks como uma explicação da robustez do conhecimento científico em seu alinhamento difícil e probabilístico com o desempenho de máquinas e instrumentos. Mas neste caso pelo menos a robustez não implica em unicidade. No mesmo período em que Mopurgo relatava sua incapacidade de encontrar qualquer evidência sobre a existência de quarks livres em quantidades crescentes de matéria, William Fairbanks, na Stanford relatava que ele poderia efetivamente encontrar esta evidência. Usando instrumentos que diferiam dos de Mopurgo apenas em detalhes, Fairbank relatou vários achados de cargas fracionadas que apontavam para quarks livres, e surgiu um debate que englobava cada vez mais pessoas.

O que podemos entender disso? Dois pontos me impressionam. Primeiro, Fairbanks estabeleceu um “aperto maquínico” no mundo como Mopurgo. Tudo que eu disse sobre os experimentos de Mopurgo eu poderia ter dito sobre os experimentos de Fairbank. Neste sentido, o conhecimento de Fairbank era tão robusto quanto o de Mopurgo. E a conclusão que tiro disso é que não deveríamos exagerar na discussão da robustez. Há algo duro e admirável sobre o conhecimento científico articulado – ele não é uma mera construção – mas esta nos controvérsia nos lembra de que é um conhecimento que permanece situado, relativo a configurações particulares de recursos materiais e conceituais (Pickering 1995a, capítulo 6).

Em segundo lugar, podemos notar que, na prática, esta controvérsia acabou se acalmando: os resultados de Mopurgo foram considerados verdadeiros e os de Fairbank falsos. Mas a questão permanece sobre como chegamos a este acordo. Com todas as controvérsias que examinei na história da ciência, não houve nada marcante, de fato, com este final. Podemos falar aqui de um “mangling” (transfiguração) adicional do material, do conceitual e do social, mas não emergiu nada novo qualitativamente. Talvez o melhor que podemos dizer é que a robustez dos resultados de Mopurgo foi socialmente amplificada aqui, quando um numero crescente de físicos se envolveu e não conseguiu quer evidências adicionais para quark livres ou qualquer maneira de reconciliar os achados de Mopurgo e de Fairbank. Mas ninguém, penso eu, afirmou que este episódio colocou um término nas afirmações de Fairbank. No nível mais empírico, boa parte do escrutínio sobre as bases materiais e conceituais das afirmações de Mopurgo e Fairbank acabou não conduzinfo a nada mais sólido, e ficou limitado a detalhes no comportamento elétrico das placas metálicas que eles usaram, algo que ninguém conhecia muito bem. Estou inclinado a dizer que os dois conjuntos de experimentos eram incomensuráveis nos termos de Kuhn (1970) e Feyerabend (1975): mostrou-se impossível encontrar uma medida comum sobre as quais tomar uma decisão. [1].

E, para concluir, quero mencionar outro exemplo de incomensurabilidade, agora no nível macro em vez no nível micro. Em meu livro Constructing Quarks (1984b), afirmei que podemos encontrar dois regimes incomensuráveis na história da Física de partículas atômicas que eu chamei de velha e nova Física. Sem entrar em detalhes, estas ciências entendiam o mundo das partículas elementares de maneiras muito diferentes, em termos de modelos teóricos com muito pouca superposição. A velha Física falava em termos de constituintes como quarks e polos Regge; a nova Física ainda falava de quarks, mas agora como entidades teóricas de campo, acompanhadas por um conjunto de outras entidades, tais como gluons e vetores bósons intermediários. E o sentido de chamar estas formações teóricas de incomensuráveis, no que me diz respeito, é que elas se conectavam ao mundo material de maneiras diferentes. Elas falavam de diferentes campos de dados que eram gerados por diferentes campos e máquinas e instrumentos (de colisões de partículas em vez de aceleradores, detectores calibrados para “hard scattering” em vez de “soft scattering”, algoritmos de computação que filtravam os dados de uma maneira ou de outra.

Esta macro-incomensurabilidade, portanto, consistia de “apertos maquínicos” (machinic grips) diferentes do mundo: os dados gerados pelas máquinas e instrumentos da velha Física não tinham quase relação alguma com a preocupações teóricas da nova Física e vice-versa. Nas palavras de Kuhn (1970), a velha e a nova Física viviam em mundos diferentes, aqui em um sentido bem concreto. Aliás, eu diria, eram admiravelmente robustas nos termos esboçados aqui. Não há sugestão alguma de que uma ou outra fossem meras construções. E ambas, neste macro exemplo, eram capazes de apoiar a prática de um grande número de físicos – então a simples multiplicação social claramente não é decisiva no que diz respeito à robustez. O caso é que a nova Física, é claro, em grande parte deslocou a velha Física durante os anos 1970, mas, novamente, não pude encontrar nada decisivo neste processo. Ao final, a velha Física permaneceu viável mas foi privada de dados quando as comissões de programação e os políticos alocaram seus recursos cada vez mais no hardware e no software da nova Física, levando à super ciência que temos hoje em dia.

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Em resumo, acho que podemos na verdade especificar a fonte da robustez da ciência nas danças de agências, especialmente com o mundo material, e na produção de máquinas e instrumentos autônomos, mas não devemos superestimar esta robustez. Máquinas, instrumentos e conhecimento são máquinas, instrumentos e conhecimento somente em relação a nós, situados de maneira dependente de seu trajeto (path dependente) em relação aos campos culturais nos quais eles são construídos, campos que, eles mesmos, co-evolvem de maneiras probabilísticas com estas máquinas, instrumentos e campos de conhecimento. Para colocar a robustez em seu lugar, e para desafiar a intuição de unicidade que vai junto com nosso realismo tomado como certo (taken for granted) sobre a ciência, eu tentei sugerir que a incomensurabilidade está sempre borbulhando na ciência, em todas as escalas do micro ao macro, e que a ciência não tem uma receita mágica para contornar este problema – somente mais “manglings” (transfigurações) e danças de agência.

Tradicionalmente, a filosofia da ciência fez tudo o que pode para rejeitar, ou simplesmente ignorar, a própria ideia de incomensurabilidade. Pessoalmente, sinto que ela torna o pensamento filosófico muito mais interessante. Temos que imaginar um mundo indefinidamente rico ao qual podemos nos conectar de uma variedade indefinida de maneiras. Eu penso que podemos fazer isso, e ainda apreciar a robustez da ciência ao mesmo tempo.

Franklin (1986) nota que em um estágio tardio desta controvérsia, Luiz Alvarez em Berkeley propôs que Fairbank realizou uma versão cega (blind version) de seu experimento, que foi dita gerar resultados ao acaso. Com exceção de uma única menção em uma tese de doutorado esta história não apareceu na literatura científica e não foi sujeita a nenhuma discussão técnica, então eu não insisti sobre a mesma. Claramente, Fairbank ele mesmo não a considerou como decisiva do problema; como o New York Times noticiou em um obituário de 3 de outubro de 1989: “Embora p Dr. Fairbank tenha se aposentado como professor de Física da Universidade de Stanford há dois anos, ele permaneceu trabalhando ali até a noite da véspera de seu falecimento, tentando ratificar seu comunicado de 11 anos atrás com relação à existência de partículas subatômica individuais chamadas quarks “ (Sullivan 1989). Para um relato de uma tentativa bastante pública por membros do grupo de Alvarez para encerrar outra controvérsia científica da mesma época, para desacreditar um colega de Berkeley, ver Pickering (1981). O líder desta iniciativa deixou-se levar de tal forma que ele acidentalmente destruiu uma emulsão nuclear que era a evidência-chave em uma reinvidicação de descoberta de um monopolo magnético.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi apoiado pela National Research Foundation of Korea com um auxéilo finaceiro do  Governp coreano (NRF-2010-330-B00169)

[1] Franklin (1986) observa que, numa fase tardia da controvérsia, Luis Alvarez, em Berkeley, propôs que Fairbank levou a cabo uma versão cega de sua experiência, que se diz ter produzido resultados aleatórios. Com a exceção de uma menção em uma dissertação de doutorado esta história não apareceu nenhuma vez na literatura científica  e não foi objecto de qualquer discussão técnica, por isso não a segui. Claramente, o próprio Fairbank não a considerava uma questão definitiva: como consta do New York Times, em um obituário em 3 de outubro de 1989: “Embora o Dr. Fairbank tenha se aposentado há dois anos como professor de Física em Universidade de Stanford, ele trabalhava lá à noite antes de sua morte, tentando verificar seu relatório de 11 ano atrás, sobre a existência de partículas subatômicas individuais chamadas quarks ‘(Sullivan 1989). Para uma explicação de uma tentativa muito pública feita por membros do grupo de Alvarez de Controvérsia quase ao mesmo tempo, desacreditando um colega de Berkeley, ver Pickering (1981). O líder desta tentativa ficou tão empolgado que ele acidentalmente destruiu a emulsão nuclear que era a peça chave de evidência em uma alegação de ter descoberto um monopolo magnético.

REFERENCES

Barnes, B. (1994) ‘How Not To Do the Sociology of Knowledge,’ in A. Megill (ed.),

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