Gregory Bateson

Alegoria – Gregory Bateson

Alegoria
Gregory Bateson
Co-Evolution Quarterly, Spring 1978, pp 44-46

 

Era uma vez uma linda mulher que tinha o hábito de dormir nos trilhos de ferrovias abandonadas.

Na mesma região vivia também um fiscal selvagem que percorria os trilhos em todas as direções. Em seu íntimo, ele era um explorador e, portanto, se interessava particularmente pelos ramais pouco usados da ferrovia, onde já não havia a memória de que passassem trens.

Esses eram precisamente os ramais onde a senhora adorava cochilar.

Então, várias e várias vezes se passou que ela era acordada de seu sono e compelida a se afastar rapidamente dos trilhos quando a locomotiva poderosa e fedorenta corria sobre o lugar onde ela havia repousado alegremente.

Toda vez que isso ocorria, havia uma briga entre a senhora e o cavalheiro. Ele dizia que ela era uma coisa fora de moda, trivial e supersticiosa. Ela, por sua vez, cuspia insultos de forma pouco feminina dizendo que ele, na verdade, era um troço sub-humano, não mais que um menino interessado em brinquedos tolos e barulhentos.

E assim foi. Por cerca de dois mil anos ela sempre achava partes novas e inexploradas da ferrovia onde dormir, e ele sempre escolhia esses mesmos ramais para exercitar seus veículos monstruosos.

Ele afirmava que era seu direito – e mesmo seu dever – mapear a ferrovia e que o sistema inteiro era seu – especialmente em suas partes inexploradas. E argumentava que o sistema era uma rede única de trilhos, inteiramente lógico-causal.

Ela declarava que os trilhos foram projetados para repouso e paz da alma humana e não dava a mínima importância a sues sonhos de causalidade e lógica.

Ele mapeou cada detalhe dos trilhos que percorreu com suas máquinas. Ela continuou a encontrar outras partes do sistema ainda não mapeadas.

Um dia o engenheiro descuidadamente deixou um de seus mapas ao lado dos trilhos e a senhora o encontrou. Delicadamente, segurando-o com as pontas dos dedos, ela o levantou. Manuseou aquilo como se houvesse sido deixado pelo demônio.

 

Foi a curiosidade que a levou a abrir o mapa, relutante em ver o que ele podia conter e, portanto, não olhando realmente para os detalhes. Olhando para isso de uma certa distância, com os olhos semi-cerrados, ela se surpreendeu em constatar que assim, semi-visto, o documento era em si mesmo lindo.

Na próxima confrontação que teve com o engenheiro ela disse sem pensar: “E você nem sabe que seus próprios mapas são lindos.”

Ao que o engenheiro ficou surpreso. Ele respondeu bruscamente que não estava interessado nisso.

Ela disse para si mesma “Ah, então há algo no universo no que ele não está interessado. E isso pertence a mim.”

“Para sempre”, ela disse a si mesma.

Depois que se separaram, cada um considerou o que havia sido dito. O engenheiro foi forçado a concordar que a beleza de seus mapas e, correspondentemente, a beleza dos trilhos, não eram sua província. Ela, por outro lado, ficou encantada e guardou para si mesma o conhecimento secreto de que ele nunca invadiria o que ela mais prezava – a elegância e a simetria do sistema total. Não seus detalhes, mas seu fundamento.

No próximo encontro ele perguntou a ela se ainda estava interessada na tal beleza dos mapas. Quando ela bem na defensiva respondeu afirmativamente, ele disse de maneira casual que tinha algo a mostrar a ela.

Então confessou que, enquanto ela dormia sobre os trilhos, ele veio silenciosamente e fez um desenho de seu corpo. Era esse desenho que ele queria mostrar a ela.

Ele desdobrou seu desenho e o colocou lado a lado com o mapa que ela possuía dos trilhos da ferrovia. Ele disse que era “cientificamente interessante” que o mapa e o desenho se pareciam em suas características “formais”. Ele queria especialmente que ela visse essa estranha semelhança entre os dois documentos.

Ela rapidamente descartou o assunto. E disse que sempre soube disso. Mas, ao dizê-lo, ela olhou para o lado e sorriu