Contos

Alfa-Centauro

Alfa Centauro

 

Meu pai sempre me disse que iria para Alfa de Centauro, quando morresse. Apontava o céu com seu dedo ossudo me mostrando a direção. Não falava da viagem, nem do meio de transporte, me dava idéia apenas de estar lá, num mundo novo e luminoso, ele mesmo leve como a luz. Sempre achei que isso combinava com ele e com o resto das coisas que ele me disse.

Apontou para Alfa de Centauro em pleno mar, quando me levou para pescar com o Elias e a filha e a baleeira virou na arrebentação, antes mesmo que entrássemos no mar e ficamos todos molhados e com frio. Depois de tudo arrumado de novo, partimos, o Elias na proa, meu pai remando e me olhando com cara de sabido, eu e a filha do Elias agarradinhos embaixo da lona, tremendo de frio e de outras coisas.

Agora, meu pai está muito velho e doente, em uma cama de hospital, cercado de gente que não entende quem ele é, nem quem ele foi, nem para onde ele quer ir quando morrer. Acho que nem mesmo eu entendi direito isso e que, se entendesse, não deixaria que o levassem para o hospital. Queria que ele ficasse aqui com minha mãe, perto dos pratos de canjiquinha que ele armou para as rolinhas. Havia o barulho do colégio em frente à sua janela, mas quando eu me irritava com a gritaria das crianças, ele me dizia, num sussuro e sorrindo, que era o futuro.

Eu queria que ele lembrasse da soltura de sair para matar umas cocorocas na noite quente de Niterói. Nos últimos tempos, meu pai não matava nem mosca, mas acho que umas cocorocas ele ainda gostaria de pescar, a ferrada súbita e vigorosa, a competência concentrada em tirar o anzol do peixe e, se fosse miúdo, devolvê-lo ao mar – isso muito antes que se falasse em ambiente e ecologia.

Com ele aprendi a virar pedras grandes na praia e procurar embaixo as surpresas da vida. Nos passeios em que me levava pela mão depois do almoço na casa de Vovó, onde ele notava que eu não tinha o que fazer e me aborrecia, me falava da formação do mundo e da lava dos vulcões. Aprendi a enxergar nas dobras da paisagem as montanhas ainda moles e vermelhas de tanto calor, enquanto andava em uma calçada simples de Icaraí. Meu pai fez para mim de cada canto a possibilidade de um laboratório, mas fazia isso a seu jeito, como se tudo fosse sagrado, mas não como nas igrejas.

Não sei quando aprendi com ele o encantamento pelo amor das mulheres -“as louras”, como ele dizia, mas eram de todas as cores e tamanhos as mulheres, para ele todas llindas, todas as mulheres. Foi um homem alto e bonito, meu pai – “muito charmoso” , me segredavam algumas, com olhar maroto.

Especial, deveras, a atenção com as mulheres e como parecia entendê-las. Mas era uma parte de seu sentimento do mundo e seu carinho maior foi para as crianças, para o Instituto Padre Severino, fundado sem muros, para os excepcionais da Pestalozzi. Não sei porque meu pai não teve muitos filhos. Talvez porque eu tenha nascido morto, como ele sempre me contou que, como assistente do parteiro, quase coube a ele o dever de me jogar na lata do lixo. Mas eu sou um filho que deve a vida ao pai várias vezes, a segunda sendo essa de insistir em me acordar, havendo eu nascido morto.

Pois é, meu pai, você me acordou para essa vida longa que me trouxe até hoje quando espero sua partida para Alfa de Centauro. Você já escolheu o mes de maio para partir, uma boa escolha, pois o planeta todo está feliz: aqui no sul o verão amaina, lá no norte chega a primavera. Lá em Minas, pai, os dias de maio me fazem parar abobado para olhar o céu. Lá do alto, em sua saída, dê uma olhadinha para trás, deve estar tudo azul como Gagarin falou. Não tenho certeza que você vai mesmo para Alfa de Centauro, pois são tão largos os caminhos. Sei que, em algum lugar, você estará à minha espera.