René Dubos

Ambiente e Doença (René Dubos)

IV  Ambiente e Doença[1]
In René Dubos (1959) “The Mirage of Health. Utopias, Progress and Biological Change”
New York, Anchor Books, p.86

O Clima, a Praga das Batatas e o Destino dos Irlandeses
René Dubos

No epílogo de Guerra e Paz, Tolstoi tentou justificar a estrutura de sua novela contrastando as técnicas usadas pelo historiador e pelo artista ao relatar eventos políticos e sociais. Afirma Tolstoi que o historiador trabalha sob a ilusão de que pode lidar com seu material de maneira científica e prover um relato racional de situações passadas. Ele supõe que seu conhecimento das circunstâncias, do cenário da época, e dos participantes permitem a ele explicar o resultado de acontecimentos históricos. Na realidade, no entanto, ele seleciona e enfatiza somente aqueles fatores determinantes que confirmam sua visão preconceituosa da história. O artista não tem tal ilusão. Ele não pretende agir como um cientista e ainda assim apresenta um quadro dos eventos históricos que é mais próximo à realidade. Em vez de explicar a história, ele evoca sua complexidade e sutileza descrevendo a atmosfera na qual os eventos tiveram lugar e as reações emocionais de cada indivíduo participante.

Em Guerra e Paz, Tolstoi elaborou a tese de que os comandantes militares – Napoleão incluído – são instrumentos passivos que registram e exploram situações, mas não determinam o seu curso. As guerras, como tos os procedimentos humanos, são tão complexas em seu determinismo que não podemos dar conta delas pelos processos ordinários da razão. Forças sociais, fatores econômicos, ambições pessoais, ou doutrinas políticas não são os agentes causadores reais da história, e os feitos ou palavras dos heróis militares. estadistas, ou filósofos influenciam seu curso ainda menos. Usualmente, os homens se acham em circunstâncias que eles não podem compreender e sobre as quais não tem nenhum controle. Desde que as causas reais dos fenômenos – escreveu Tolstoi – estão ocultas além do alcance da mente humana, os historiadores podem no máximo descrever o comportamento de indivíduos em certas interrelações limitadas, mas eles precisam abandonar a busca fútil da causalidade específica dos eventos humanos.

Tolstoi escreveu Guerra e Paz entre 1863 e 1869 e seu ceticismo em relação à causalidade histórica foi uma reação contra o materialismo científico. Ironicamente, no entanto, sua novela se tornou imensamente popular precisamente na época em que a doutrina da causalidade específica estava alcançando seus sucessos mais espetaculares e ganhando aceitação quase universal na medicina. Entretanto, Tolstoi tinha sido uma espécie de profeta científico. As dificuldades encontradas em determinar os fatores que levaram Napoleão a invadir a Rússia em 1812, tem sua contrapartida no fracasso em definir a maioria dos fenômenos que têm a ver com a saúde e a felicidade em termos de relações simples e diretas de causa e efeito. De fato, a visão de Tolstoi de que os eventos históricos não podem ser atribuídos a causas únicas se aplica à maioria das situações no mundo natural. A história tortuosa pela qual um fungo microscópico, provavelmente nativo da América Central, destruiu a colheita de batatas da Irlanda exercendo assim uma influência dramática sobre o destino do povo Irlandês, ilustra a complexidade das interrelações entre o meio externo e os negócios humanos.

Tanto quanto se sabe, a batata se originou nos Andes, onde ela ainda cresce silvestre, dando tubérculos tão pequenos que são inúteis para o consumo humano. Em seu habitat nativo, a planta é infectada com o fungo parasita Phytophora infestans, mas não sofre coisa alguma por sua presença. Através da adaptação evolutiva, o fungo e a batata silvestre obviamente alcançaram um estado de equilíbrio ecológico que permite a sobrevivência de ambos. Eventualmente, a batata foi melhorada para consumo humano, e se tornou uma das fontes mais importantes de alimento no mundo ocidental depois do sec XVIII. Enquanto o fungo Phytophora seguia com a batata para onde ela fosse levada, a relação entre os dois mudou, tornando-se as variedades de batata selecionadas para grandes colheita muito mais suscetíveis à infecção que as variedades silvestres. Felizmente, por técnicas próprias de plantio, é possível fazer com que a maioria da colheita de batatas escape ao parasita. Aqui e ali, no entanto, condições climáticas dificultavam o trabalho agrícola e o fungo se multiplicava mais rápida e abundantemente, matando a planta.

A praga das batatas começou em escala desastrosa na Europa e, em particular, na Irlanda, por volta de 1845. Por dois anos em sucessão, a praga não apenas matou a folhagem, mas apodreceu os tubérculos no chão e os em estoque. Porque o impacto do desastre era tão variado e tão grande, é bom lembrar em algum detalhe as circunstâncias em que ele ocorreu e os debates científicos a que ele deu origem.

O clima esteve muito desagradável pouco antes da praga das batatas começar. Por várias semanas, a atmosfera esteve escura, com uma sucessão de chuvas geladas e neblina, o sol pouco visível e a temperatura muitos graus abaixo da média dos últimos 19 anos. O botânico John Lindley apoiava a Teoria de que o mau tempo havia tornado as batatas saturadas com água. Elas haviam crescido rapidamente durante o bom tempo e depois absorvido umidade com avidez quando a neblina e a chuva chegaram. A ausência de sol havia bloqueado a transpiração, dizia o Dr. Lindley, e as plantas foram incapazes de se livrar doe excesso de água e, em conseqüência, adquriram uma espécie de edema. A putrefação seria o resultado dessa disfunção fisiológica. O Reverendo Miles Berkeley, um naturalista com grande conhecimento dos hábitos dos fungos, tinha uma teoria diferente e ligava a doença das batatas à prevalência de uma espécie de bolor que crescia nos tecidos afetados. A isso Lindley respondia que Berkeley estava dando importância demais a um pequeno crescimento de bolor nas plantas doentes. E adicionou que: “assim que os tecidos vivos perdem sua força, assim que uma vitalidade diminuída tomou o lugar do viço costumeiro, toda a sorte de parasitas adquiria poder e contribuía para sua destruição. Assim era com as plantas, com os animais e com o próprio homem. Primeiro vinha a fraqueza, depois uma decadência incipiente, e então surgiam miríades de criaturas cujas vidas só se mantinha pela decomposição dos corpos de seus vizinhos. O frio e a umidade, agindo sobre a batata quando ela estava inervada por um crescimento súbito e excessivo, causaria uma rápida diminuição da vitalidade; pedaços morreriam e apodreceriam, e então preparariam o campo para que os bolores se estabelecessem.”

Assim, os patologistas botânicos profissionais, representados por Lindley, acreditavam que o fungo só poderia se estabelecer na planta depois dela ser debilitada por condições pouco saudáveis, enquanto Berkeley via o fungo como a causa primária da doença, com a neblina e a chuva como circunstâncias favorecedoras de sua difusão e crescimento. Dessa maneira, as controvérsias que haveriam de colocar Pasteur em conflito com a Academia Francesa de Medicina nos anos 1880, foram ensaiadas três décadas antes nas páginas do jornal agrícola inglês Gardener’s Chronicle.

É preciso enfatizar que a destruição da colheita em 1845 não resultou de uma infecção recente pelo Phytophora infestans. O fungo havia estado presente na batata desde sua vinda da América Central, mas foram necessárias condições climáticas severas para tornar a planta altamente suscetível à infecção. Embora o fungo persistisse na Irlanda após a Grande Praga da Batata, somente durante anos ocasionais o clima era propício ao seu crescimento, de forma que o cultivo da batata se recuperou progressivamente.

Os dois anos da Praga, no entanto, forma suficientes para arruinar a economia da Irlanda. Após a introdução da batata no sec XVIII, a população Irlandesa aumentou muito, como é sempre o caso quando uma nova fonte de alimento se torna disponível. De três milhões e meio por volta de 1700, a população alcançou cerca de 8 milhões em 1840. A Praga da Batata causou uma escassez aguda de alimentos, resultando na morte de milhões de pessoas por inanição. Ainda mais, muitos daqueles que escaparam da morte pela fome, se tornaram suscetíveis a uma variedade de doenças infecciosas. Começou então a grande epidemia de tuberculose que apenas depois de um século, começou agora a diminuir. A falta de comida e a miséria econômica também forçaram uma grande parte da população Irlandesa a emigrar , particularmente para os Estados Unidos. Mesmo hoje, a população Irlandesa é somente metade do que era antes da fome da batata.

Nos Estados Unidos, os imigrantes Irlandeses encontraram trabalho nas indústrias que floresciam na costa Atlântica. Mas encontraram também condições aglomeradas e pouco saudáveis de habitação. Vindos de ambientes rurais, eles subitamente enfrentaram os piores aspectos da vida de favelados. A profunda turbulência em seu modo de vida fez com que contraíssem toda a sorte de infecções. O súbito e dramático aumento da mortalidade por tuberculose em Philadelphia, Boston e New York por volta de 1850, pode ser relacionado em grande parte à imigração Irlandesa para essas cidades.

Assim, acidentes de todos os tipos tomaram parte na ligação da tuberculose – a Grande Praga Branca do sec XIX – a um fungo associado às batatas silvestres da América Central. A mudança nas relações ecológicas entre o fungo e batata que ocorreu quando a batata foi removida de seu habitat nativo e “melhorada” para consumo humano; o distúrbio na fisiologia interna da batata causado em um momento crítico por condições pouco usuais do clima; os impulsos biológicos e culturais que criaram o rápido aumento da população Irlandesa na primeira parte do sec XIX – todas essas forças e muitos fatores sociais que não podem ser discutidos aqui desempenharam um papel essencial em transformar Pat, o criador de porcos Irlandês, no policial novaiorquino. Se algum dia um escritor tornar popular a história da Praga da Batata, ele poderá concluir, como Tolstoi concluiu em relação à invasão da Rússia por Napoleão, que seu determinismo está além dos poderes analíticos humanos. De fato, é talvez apenas uma ilusão da ciência, acreditara que as flutuações das relações entre a batata e um fungo microscópico, práticas agrícolas inadequadas e condições climáticas em 1840, foram os fatores reais que levaram o espírito aventuroso do homem a instalar nos Estados Unidos o humor Irlandês, sua fé católica e seu gênio político.

A Doutrina da Etiologia Específica

Até bem dentro do sec XIX a doença era considerada o resultado de uma falta de harmonia entre a pessoa doente e seu ambiente; como uma perturbação do equilíbrio adequado entre o yin e o yang, de acordo com os chineses, ou entre os 4 humores, de acordo com Hipócrates. Louis Pasteur, Roberto Koch e seus seguidores desenvolveram uma visão muito mais simples e direta do problema. Eles mostraram com experiências no laboratório que a doença podia ser produzida à vontade pelo mero artifício de introduzir um único fator específico – um microorgansimo virulento – em um animal sadio.

Do estudo das infecções, a doutrina de uma etiologia específica se espalhou rapidamente para outras áreas da Medicina; uma grande variedade de doenças bem definidas podia ser produzida experimentalmente criando lesões fisiológicas ou bioquímicas específicas. Agentes microbianos, distúrbios em processos metabólicos, deficiências em fatores de crescimento ou hormônios, assim como o stress fisiológico, são hoje considerados causas específicas de doença. O antigo conceito de desarmonia entre a pessoa doente e seu ambiente parece muito primitivo e, na realidade, obscuro, quando comparado com a terminologia precisa e as explicações da ciência médica moderna.

Não há dúvidas de que a doutrina da etiologia específica foi uma força muito construtiva na pesquisa médica por cerca de um século e as realizações a que ela conduziu constituem a massa da medicina moderna. Ainda assim, são poucos os casos nos quais ela fornece uma explicação total da causa das doenças. A despeito de muitos esforços, a causa do câncer, da arteriosclerose, das desordens mentais, e de outros grandes problemas médicos de nosso tempo permanecem não descobertas. Geralmente se admite que esses fracassos são devidos a dificuldades técnicas e que as causas de todas as doenças podem ser e serão encontradas em tempo devido apontando as grandes armas da ciência para o problema. Na realidade, no entanto, a busca da causa pode ser uma busca frustada porque a maioria das doenças é o resultado indireto de uma constelação de circunstâncias, mais que o resultado direto de um único fator determinante.

É verdade que em uns poucos casos, mais raros do que geralmente se acredita, a pesquisa da causa levou a medidas eficazes de controle. Não se segue, porém, que essas medidas fornecem informações adequadas sobre o problema que elas corrigiram. Embora o embebimento com água possa ajudar a apagar incêndios, poucos são os casos em que o incêndio se inicia pela falta de água. A história da insulina e da diabete ilustra bem que a descoberta de um agente terapêutico não resolve necessariamente o problema da causa da doença.

A diabete foi primeiro produzida em animais experimentais por interferência com a secreção do pâncreas e essa descoberta levou à preparação, a partir do pâncreas, de uma substância, a insulina, que desempenha um papel importante no metabolismo do açúcar. Mostrou-se então que a insulina era altamente efetiva no tratamento da diabete humana. Esse triunfo terapêutico é talvez o mais elegante e espetacular sucesso da ciência médica, mas sua relação com a etiologia da diabete está longe de ser clara. Enquanto a diabete pode ser produzida em animais experimentais através de lesões no pâncreas, interferindo com a produção de insulina, a doença que ocorre no homem é um desarranjo metabólico geral, que interfere com o metabolismo de proteínas, gorduras e minerais, assim como de açúcares. O distúrbio primário pode estar em uma parte do corpo muito distante do pâncreas e a deficiência de insulina pode ser secundária a esse defeito. O tratamento com insulina corrige as manifestações da diabete mas não tem efeito na lesão primária da doença, que permanece desconhecida em muitos casos. Da mesma forma, a cortisona é efetiva contra muitos estados inflamatórios que não se originam de uma falta desse hormônio no paciente, assim como a aspirina, que é uma droga sintética estranha ao corpo, pode aliviar a febre e dores.

Então, tratamentos eficazes não constituem evidência da doutrina da etiologia específica, e há muitos casos em que uma doença pode ser controlada por uma variedade de medidas não relacionadas. A incidência de malária em uma comunidade pode ser reduzida pelo uso de drogas que atacam o parasita, por procedimentos que evitam que o mosquito pique o homem, por inseticidas que envenenam os mosquitos, ou por práticas agrícolas que interferem com sua reprodução.

As dificuldades inerentes ao conceito de causa das doenças são agora evidentes mesmo em relação à tuberculose, que há muito temos considerado a mais espetacular demonstração da doutrina da etiologia específica. Todos os livros-texto ao lidar com doenças infecciosas consideram a descoberta do bacilo da tuberculose como marco mais importante da Microbiologia médica. As circunstâncias eram mesmo dramáticas. Naquele tempo, a tuberculose era de longe a doença mais importante do mundo ocidental. O bacilo da tuberculose era difícil de visualizar ao microscópio e ainda mais difícil de cultivar in vitro. Ainda assim, Robert Koch conseguiu demonstrar sua presença em todas os tecidos tuberculosos que estudou e em produzir tuberculose à sua vontade por injeção de pequenas quantidades de culturas do bacilo tuerculoso em cobaias, coelhos e camundongos. Como pode alguém duvidar, depois desses sucesso espetaculares, que o bacilo isolado por Koch era a causa da tuberculose?

Havia, no entanto, um outro aspecto do problema que permaneceu oculto de Koch. Pode ser dito com grande segurança que a maioria das pessoas presentes na mesma sala em que ele leu o seu famoso trabalho em 1882, tinham sido em alguma época infectadas pelo bacilo da tuberculose e, provavelmente, ainda carregavam a infecção virulenta em seus organismos. Naquele tempo, na Europa, praticamente todos os habitantes das cidades estavam infectados, embora apenas uma porcentagem relativamente pequena desenvolvesse tuberculose e sofresse de alguma maneira por essa infecção. Koch, ele próprio, estava infectado. Quando ele injetou tuberculina em seu próprio braço em 1890, ele sofreu uma das reações alérgicas mais fortes de que se tem registro, evidência do fato de que o bacilo tuberculoso havia se multiplicado em seu corpo no passado. Mas Koch não tinha tuberculose clínica e permaneceu um homem vigoroso até morrer de hemorragia cerebral.

Muitos outros exemplos bem documentados poderiam ser citados para demonstrar que a multiplicação de microroganismos virulentos no corpo raramente se expressa como uma manifestação de doença. Por volta de 1900, Pettenkoffer, na Alemanha, e Metchinikoff, na França, com vários de seus associados, ingeriram aos copos culturas isoladas de casos fatais de cólera. Enormes números de vibriões do cólera podiam ser isolados de suas fezes; alguns dos infectados desenvolveram uma diarreia branda, mas a infecção não resultou no cólera verdadeiro. Mais recentemente, voluntários humanos ingeriram bilhões de bacilos da disenteria sob condições consideradas ótimas para o estabelecimento da infeção. Cápsulas endémicas cheias com fezes obtidas diretamente de casos de disenteria bacilar aguda foram usadas como refinamentos experimentais para aumentar as chances de estabelecer a doença. Mesmo assim, apenas uns poucos voluntários desenvolveram sintomas da disenteria; a maioria deles permaneceu não infectados pela infecção experimental.

A facilidade e previsibilidade com as quais Pasteur, Koch e seus seguidores produziram doenças em animais experimentais parece milagrosa em vista das dificuldades subseqüentemente encontradas em produzir doenças em seres humanos. Seu sucesso parece incompatível com o curso dos eventos naturais. Na realidade, o importante é que Pasteur e Koch não lidavam com eventos naturais mas com artefatos experimentais. O experimentador não reproduz a natureza no laboratório. Ele não poderia se tentasse, pois o experimento impõe condições limitantes à natureza; sues objetivos são forçar a natureza a dar respostas a perguntas criadas pelo homem. Toda resposta da natureza é mais ou menos influenciada pela tipo de perguntas formuladas.

A arte do experimentador é criar modelos nos quais ele pode observar algumas propriedades e atividades de um fator no qual ele acontece estar interessado. Koch e Pasteur queriam mostrar que os microrganismos podiam causar certas manifestações de doença. Seu gênio foi criar as condições experimentais que os levou a uma demonstração inequívoca de sua hipótese – situações nas quais era suficiente colocar o hospedeiro e o parasita juntos para reproduzir a doença. Por tentativa e erro eles selecionaram a espécie de animal, a dose do agente infectante e a via de inoculação que permitiram que a infecção evoluisse sem falhas para a doença progressiva. Cobaias (“porquinhos da India”) sempre desenvolvem tuberculose se o bacilo tuberculoso lhes é injetado em condições adequadas; a introdução de uma dose suficiente de vírus rábico sob a dura mater de cães sempre leva a sintomas de paralisia. Então, pela escolha competente de sistema experimentais, Pasteur, Koch e seus seguidores conseguiram minimizar, em seus testes, a influência de fatores que poderiam ter obscurecido a atividade dos agentes infecciosos que eles queiram estudar. Essa abordagem experimental tem sido extremamente eficaz para a descoberta de agentes de doença e para o estudo de algumas de suas propriedades. Mas também tem levado, necessariamente, a negligenciar e, na verdade, tem muitas vezes retardado o reconhecimento, dos muitos outros fatores que desempenham um papel no desencadeamento de doenças sob as condições prevalente no mundo natural – por exemplo, o estado fisiológico do indivíduo infectado e o impacto do ambiente no qual ele vive.

Desde que vários determinantes diferentes usualmente têm um papel na causa das doenças, é usual considerar que existem diversas categorias de causas com diferentes níveis de importância. Livros-texto contrastam causas “iniciantes” , “desencadeadoras” ou “imediatas”, com “contribuintes” que desempenham seu papel meramente por colocar o paciente sob a influência da causa inicial. Mais simples e útil, talvez, é o reconhecimento de causas que predispõem, precipitam ou perpetuam doenças. No entanto, o adjetivo ligado à causa é em grande parte um reflexo do estado atual do conhecimento e do interesse que prevalece. Enquanto essas diferenças são úteis ao ensino, elas muitas vezes paralisam o pensamento e raramente constituem guias úteis para a ação.

Considere , por exemplo, a evolução do conhecimento sobre o cólera durante os últimos cem anos. John Snow ficou famoso por reconhecer que um surto de cólera em Londres afetava somente pessoas que usavam a água de uma fonte loalizada na Broad Street. Ele concluiu que o cólera vinha coma água e controlou o surto pelo mero artifício de remover a manivela que acionava a bomba. Água ruim, impura, foi para John Snow, a causa precipitadora, iniciadora do cólera. Hoje sabemos que aqueles que uitlizava a bomba da Broad Street contraíram cólera porque a água continha vibriões do cólera. Como resultado, os vibriões coléricos são hoje considerados a causa da doença. Mas essa afirmação não é tão significativa quanto parece à primeira vista pois, como já mencionado, os vibriões podem ser ingeridos em quantidades enormes e persistir nas feses sem inconvenientes sérios para as pessoas infectadas.

O máximo que pode ser dito, então, é que, uma vez que os vibriões se estabeleceram no trato intestinal, algum outro fator pode converte a infecção em doença. São ainda misteriosas as circunstâncias que transformam o cólera de um pequeno distúrbio intestinal em uma peste feroz ou as circunstâncias que resultam no término de surtos catastróficos.

 

Efeitos diretos e indiretos do ambiente externo

O viver, como um processo, envolve a interação e a integração entre dois sistemas ecológicos. Por um lado, o organismo individual constitui uma comunidade de diferentes partes – células, fluidos e estruturas teciduais – cada um dos quais se relaciona aos outros através de uma rede complexa de mecanismos de equilíbrio. Essa comunidade intra-individual opera melhor quando seu próprio ambiente interno permanece estável dentro de um limite bastante estreito característico de cada espécie. Por outro lado, cada organismo continuamente reage e compete com todas as coisas vivas e inanimadas com as quais ele entra em contacto. Em condições normais, o ambiente externo muda constantemente e de uma maneira imprevisível. Muitas das modificações que ocorrem no mundo exterior podem ter efeitos lesivos. No sentido de sobreviver e continuar a operar eficazmente o organismo precisa fazer respostas adaptativas a essas modificações. Ele precisa, tão bem quanto possível, recuperar tecidos lesados e restaurar seu próprio ambiente interno a um estado normal. Então, qualquer fator que perturbe o equilíbrio de qualquer um desses dois sistemas ecológicos – os ambientes interno e externo – pode se tornar um determinante de doença. Como todos os componentes de ambos os sistemas estão interrelacionados, qualquer distúrbio em um deles – mesmo pequeno e não causador de danos por si só – pode desencadear efeitos secundários que se tornarão destrutivos para o organismo. Porque o processo de viver envolve necessariamente todas essas interrelações complexas, um processo patológico é resultante de uma multiplicidade de influências diversas, e todas as suas fases são afetadas pelas respostas adaptativas a qualquer coisa que impinja sobre o organismo.

Os médicos antigos sabiam que a severidade e a prevalência de várias doenças diferiam muito de acordo com a área geográfica , o tempo, os costumes sociais, o estado econômico, a ocupação. Mo passado , essa dependência era enfatizada principalmente em relação às “febres”, simplesmente porque infecções como a malária eram tão comuns. Está se tornando claro que o ambiente desempenha uma grande parte também na determinação da prevalência das doenças mais discutidas de nosso tempo – defeitos do sistema cardiovascular, diversos tipos de câncer. úlcera péptica, desordens mentais, etc. Isso é evidente no fato de que, como era o caso das febres no passado, a freqüência das doenças modernas varia de um lugar para outro e varia com o estado econômico e as ocupações profissionais.

Há umas poucas situações nas quais as lesões causadas pelo ambiente externo resulta de uma injúria direta. Mais freqüentemente, a lesão é o resultado indireto de uma cadeia de reações interligadas, através das quais o impacto primário – que pode ser inócuo por si mesmo – desencadeia respostas teciduais lesivas. Assim, o calor ou o frio excessivos podem lesar diretamente por destruição dos tecidos ou pelo abaixamento ou elevação da temperatura do corpo a níveis incompatíveis com a vida. Mas eles podem também desencadear contrações reflexas de contração ou dilatação de vasos sanguíneos, perturbando o sistema circulatório, com muitas conseqüências indiretas e possivelmente fatais. Embora ainda haja muito a ser aprendido dos complexos processos fisiológicos responsáveis pelos acidentes associados com a prostração pelo calor e pela exposição ao frio, eles são suficientemente compreendidos para permitir algumas medidas restauradoras. Uma das aplicações mais intrigantes desse conhecimento foi a demonstração recente de que é possível manter animais experimentais a temperaturas de congelamento, e então descongelar de tal maneira que eles sobrevivem e voltam a um estado normal.

Como o calor e o frio, as radiações podem causar lesões diretas aos tecidos expostos e causar sua morte. Mas as radiações também têm efeitos indiretos, provavelmente mais importantes sob as condições normais de vida. Nos animais e, provavelmente também no homem, as radiações facilitam a passagem de microorganismos do intestino para a circulação geral, causando doença indiretamente pela toxicidade da infecção. Os efeitos das radiações ionizantes no homem têm sido frisados recentemente nos relatórios de comissões designadas para estudá-las nos Estados Unidos e na Inglaterra. Há muito se sabe que certos tipos de câncer de pele ocorrem com mais freqüência em pessoas mais exposta à luz solar. Acumularam-se evidências de que a incidência de leucemias aumenta em pacientes que recebem radioterapia e que o radiologistas têm uma expectativa de vida menor que outros médicos do mesmo grupo etário não expostos à radiações. No Japão, aumentos na senilidade prematura e morte em idade jovem foram notados em pessoas que estiveram próximas a explosões atômicas. Na verdade, há evidencias de que a exposição a radiações constitui um risco potencial mesmo em situações menos dramáticas – por exemplo, durante a fabricação do mostrador luminoso de relógios ou no curso de exames médicos com raios- X para diagnóstico.

Menos compreendida, mas talvez mais importante para a humanidade, é a influência que as radiações podem exercer sobre as gerações futuras por seus efeitos genéticos de longo prazo. Através da vida e da evolução, o homem tem sido exposto a um fundo de radiação de fontes naturais. Esse fundo natural, que parece ter permanecido constante, pelo menos geologicamente em tempos recentes, precisa ser um fator tolerável no ambiente humano. Mas qualquer aumento na dose de radiação provavelmente aumentará o número de mutações – com conseqüências imprevisíveis. E é pouco provável que processo adaptativos possam ocorrer suficientemente rápidos para dar conta dos perigos potenciais a longo prazo, se a radiação produzida pelo homem continuar a se elevar nas taxas atuais. A era atômica provavelmente trará com ela muitas desordens patológicas desconhecidas mesmo se medidas efetivas forem tomas para evitar queimaduras óbvias pela radiação.

Entre outros fatores do ambiente que podem ter um efeito direto na produção de doença estão certas substancias tóxicas ingeridas com o alimento. Por exemplo, na India e outros países onde é comum a ingestão de lentilhas (chick peas) constitui uma grande parcela da dieta, o latirismo é uma afecção muito comum quando quer que ocorra uma falta de outros produtos alimentares. O latirismo é causado por um componente de certos legumes que é tóxico para o sistema nervoso. Muitas doenças do gado foram identificadas como causadas por componentes da forragem – o agente hemorrágico cumarina no trevo fermentado, esteróides produzidos por trevos subterrâneos, que causam abortos no gado. Deficiências nutricionais, principalmente de vitaminas, proteínas ou minerais, são tão bem conhecidas no homem e em animais que não precisam mais ser enfatizadas, Mas além desses efeitos diretos de defeitos na nutrição há outros que são determinados mais indiretamente – por exemplo, o encurtamento da vida relacionado a uma alimentação muito rica e abundante. A deficiência de vitamina B12 em ovelhas alimentadas em pastos que não contêm quantidade adequada de cobalto para suas bactérias intestinais é outro exemplo dos efeitos nocivos do ambiente (ver Cap. III).

O papel do ambiente externo em doenças microbianas foi considerado principalmente em relação à transmissão dos agentes infecciosos. Muitos exemplos que relacionam a ocorrência de “febres” com certos locais, como mencionado freqüentemente no tratado clássico de Hipócrates “Ar, Agua e Lugares”, tem sua origem relacionada à presença de mosquitos transmissores da malária. Claramente, muito dos efeitos do ambiente na frequência de infecções microbianas é uma expressão direta da maneira como vírus, bactérias fungos ou parasitas superiores são transmitidos através do ar, da água, da comida ou de insetos vetores. Mas, importante como é, esses mecanismos não dão conta der todos os efeitos do ambiente externo nas doenças microbianas.

O curso da psitacose em periquitos, por exemplo, é influenciado profundamente por fatores do ambiente que não agem diretamente no vírus nem afetam sua transmissão. Em geral, as aves jovens são infectadas com o vírus da psitacose quando ainda no ninho. A infecção permanece inaparente na maioria das aves, manfestando-se apenas pela liberação intermitente de vírus nas feses. A aglomeração excessiva, condições sanitárias precárias, viagens para mercados distantes, cruzamento intensivo – todas essas e outras circunstâncias menos definidas podem levar à multiplicação irrestrita do vírus, como doença manifesta e morte das aves. Em um grande aviário de dois mil periquitos no qual o cruzamento foi interrompido pela separação dos sexos, as mortes por psitacose desapareceram inteiramente em dois meses. No entanto, a infecção não foi eliminada. Tornou-se apenas silenciosa e voltou a se manifestar em forma ativa cinco semanas após a retomada dos acasalamentos.

A causa de muitos processos patológicos humanos tem uma analogia estreita com a psitacose em aves – por exemplo, as vesículas produzidas pelo vírus do Herpes simplex. O vírus do herpes é geralmente adquirido durante a infância. Durante a maior parte da vida dos indivíduos afetados ele permanece latente no corpo sem causar nenhum sintoma ou patologia óbvia, até ser “provocado” por algum distúrbio fisiológico. Como é bem conhecido, as vesículas de herpes podem surgir associadas a uma variedade de estímulos não relacionados, como durante febres, durante a menstruação, radiações ultravioleta ou pela ingestão de queijo. As vesículas de herpes, então, fornecem um exemplo marcante de uma doença infecciosa humana que, ao contrário dos postulados da Teoria dos Germes, o agente da doença pode estar presente todo o tempo mo organismo – ser intrínseco, por assim dizer – enquanto que o evento desencadeador da patologia é algum distúrbio fisiológico ou algum fator extrínseco do ambiente.

Similarmente, os problemas infecciosos mais importantes dos prisioneiros nos campos de concentração alemães durante a segunda Grande Guerra não foram doenças agudas episódicas de natureza exótica como o cólera ou o tifo. Foram resfriados comuns, broncopneumonias, infecções cutâneas, tuberculose pulmonar, etc, todas condições causadas por organismos endêmicos nas comunidades européias. Enquanto a vida em condições normais na maioria dos indivíduos possibilita um modus vivendi  satisfatório com esses patógenos ubíquos, a má-nutrição e outras formas de miséria fisiológica fazem a infacção se manifestar como doença em muitos prisioneiros. É de especial interesse nesse aspecto que depois de retornar a seu ambiente normal no fim da guerra, a maioria dos prisioneiros rapidamente se recuperou das doenças microbianas sem o auxilio de uma terapia específica.

Psitacose, herpes, todo o tipo de doenças respiratórias mal definidas, são típicos de uma coleção de situações ecológicas responsáveis pela maior massa de doenças microbianas na natureza. Nessas situações o agente microbiano é ubíquo na comunidade e pode persistir nos tecidos do indivíduo sem causar lesão detectável, mas a infecção pode se transformar em doença manifesta por qualquer tipo de distúrbio resultante de aflições fisiológicas ou mentais.

Um caso recentemente levado a uma corte de justiça inglesa ilustra como podem ser complexo o carácter de situações ecológicas ordinárias muitas vezes criando dificuldades inesperadas em estabelecer as causas legais de uma doença banal. De acordo com uma nota publicada no Lancet de novembro de 1954, um vaporizador de verniz processou seus empregadores com base na afirmação de que havia contraído pneumonia e pleuriz porque a sala em que trabalhava era fria e ventosa. Sua Senhoria, o juiz, achou que o lugar em que o queixoso trabalhava era, na verdade, frio e ventoso, e úmido durante amanhã. De acordo com isso, ele sentenciou que danos totalizando 401 Libras, sentindo-se confiante de que a doença do queixoso fora causada pela ausência de aquecimento. Há pouca dúvida de que a pneumonia e a pleuriz de que o queixoso se queixava eram manifestações de algum agente microbiano – vírus ou bactéria, provavelmente ambos. Ainda mais, é provável que o trabalhador tenha contraído infecção na loja onde trabalhava, mas que havia alojado os germes responsáveis em seus órgãos por semanas, meses ou mesmo, anos. Ao decidir que a ausência de aquecimento havia causado a pneumonia, o juiz admitiu – sabiamente, me parece – que o ambiente é muitas vezes tão importante quanto o micróbio no determinismo da doença microbiana.

O ambiente interno

A despeito de sua simplicidade conceitual, quase pedestre em sua obviedade, a doutrina da etiologia específica desempenhou um papel pequeno no desenvolvimento do pensamento médico antes da era Pasteur-Koch. Até tarde no sec XIX, a saúde era considerada como a harmonia do indivíduo e seu ambiente e entre as diversas partes em operação no corpo. A doença ocorria quando o equilíbrio era perturbado, por qualquer causa. Essa filosofia médica foi expressa em muitas formas diferentes através da história. Entre os povos primitivos ela ecoa o desejo Navajo de viver “de acordo com o solo da montanha, o pólen de todas as plantas e outras coisas sagradas.” Manter um equilíbrio adequado entre o yin e o yang era o objetivo dos médicos chineses, assim como o equilíbrio adequado entre os 4 humores do corpo era o aspecto mais importante da doutrina de Hipócrates. Rudolf Virchow considerava a doença como “vida sob condições alteradas” e concluiu daí que o médico deveria se preocupar com o ambiente total dos seres humanos e, então, não podia evitar tomar parte em ações políticas. Ainda outra forma da mesma doutrina surgiu nas vigorosas controvérsias estimuladas por Pasteur em suas intervenções na Academia Francesa de Medicina nos anos de 1880. “A doença”, afirmava seu oponente Pidoux, “é o resultado comum de uma variedade de causas internas e externas… que traz a destruição de um órgão por diversas vias que o médico deve procurar fechar.”

Equacionando a doença com a o efeito de uma causa precisa – invasor microbiano, lesão bioquímica ou stress mental – a doutrina da etiologia específica aparecia para negar a visão filosófica da saúde como equilíbrio e para tornar obsoleta a antiga arte da medicina. Por estranho que seja, no entanto, os conceitos vagos e abstratos simbolizados na doutrina Hipocrática, estão agora retornando à arena científica. A medicina Hipocrática adquiriu um significado mais profundo a partir das implicações das Teorias que Darwin e Claude Bernard estavam propondo ao redor de 1850 – mesmo antes de Pasteur e Koch fazerem suas contribuições sobre a etiologia das doenças. O Darwinismo implica em que o indivíduo e a espécie que sobrevivem e se multiplicam seletivamente são aquelas melhor adaptadas ao ambiente externo. Claude Bernard suplementou a doutrina da adaptação evolutiva com sua opinião visionária de que a adaptação dependia de uma contínua interação entre os ambientes interno e externo do indivíduo. Ele enfatizou que em todos os níveis da organização biológica, em plantas assim como em animais, a sobrevivência e a adaptação são condicionadas pela capacidade do organismo de resistir ao impacto do mundo exterior e manter constantes dentro de limites estritos as características fisicoquímicas de seu ambiente interno. Em outras palavras, a vida depende não somente de reações através das quais o indivíduo consegue crescer e se reproduzir, mas também da operação de mecanismos de controle que permitem a manutenção da individualidade. “:a fixité du millieu interieur”, escreveu Claude Bernard, ” est la condition essentielle de la vie libre.”. Na verdade é a condição essencial parta a vida consciente.

O duplo conceito de adequação ao ambiente externo e fixação do ambiente interno é a expressão moderna do dito Hipocrático de que a saúde é a simpatia universal. Como todos os conceitos fecundos, as visões formuladas por Darwin e Claude Bernard continuaram a evoluir, tornando-se mais precisas em detalhe e mais amplas em visão. A ciência da Bioquímica forneceu evidências de carácter especial do fato de que a composição dos fluidos do corpo e dos tecidos permanece constante dentro de limites estreitos e tem demonstrado as reações químicas através das quais essa constância dinâmica é alcançada. A ciência da Fisiologia revelou que a sabedoria do corpo, sua capacidade de responder adptativamente a todos os tipos de situação, depende da mobilização e da interação complexa de muitos hormônios que governam mecanismos homeostáticos. A homeostase é também evidente em situações patológicas, o corpo tentando – usualmente com algum grau de sucesso – proteger-se contra a injúria através da inflamação e de processos de reparo. A Teoria da síndrome de adaptação geral é o esquema conceitual mais recente projetado para abarcar todos os vários mecanismos através dos quais o corpos responde ao “stress da vida”. Seguindo-se a Freud, a psquiatria está formulando seus problemas ~a mesma luz. Como as respostas fisiológicas, as reações emocionais muitas vezes constituem mecanismos inconscientes – instintivos ou adquiridos – através dos quais o organismo tenta se defender contra ameaças reais ou simbólicas.

Durante os últimos anos se tornou evidente que todos os mecanismos homeostáticos estão ligados e operam juntos no organismo normal para enfrentar a imensa variedade de estímulos e ameaças que fazem parte do viver cotidiano. Esses mecanismos de defesa, porém, não são meramente passivos. Sua operação, da parte do corpo, envolve reações poderosas que tendem a repelir a ameaça ou reparar o dano causado. Nesse respeito, o conceito de homeostase é análogo ao conceito Hipocrático de que a doença envolve não somente sofrimento (pathos) mas também trabalho (ponos). Ponos é o trabalho dispendido pelo corpo em sua tentativa de alcançar a homeostase e manter sua individualidade em um mundo de constantes mudanças. É verdade, claro, que há um número limitado de maneiras pelas quais o organismo pode responder a estímulos e também que a resposta nem sempre é benéfica. Ela pode ser fraca demais, forte demais, ou mal dirigida . Como as manifestações dessa resposta inadequada são limitadas em número e carácter, a doença, que é feita de sua soma e suas conseqüências, pode apenas tomar as formas das quais o organismo é capaz, e não pode possivelmente refletir as peculiaridades de cada estímulo do qual ela se origina.

Em vista desses fatos, é mais fácil entender porque relações diretas de causa-efeito muitas vezes não conseguem explicar os fenômenos naturais da doença. Cada tipo de insulto – invasão microbiana, lesão química, estímulo fisiológico ou evento psíquico – pode ter muitos efeitos diferentes na dependência do estado do indivíduo receptor. Por outro lado, qualquer efeito patológico dado pode ser o resultado de muitas formas diferentes de insulto. Sob conduções bem definidas, cada tipo de insulto resultará, é claro, predominantemente, em um tipo de efeito patológico. A abordagem do experimentador é tirar proveito desse fato projetando modelos laboratoriais que produzirão os efeitos desejados. Isso lhe permite estudar em detalhe os mecanismos através dos quais os vários fatores exercem seus efeitos e a maneira pela qual eles podem ser modificados à vontade por intervenção racional.

Em constraste com o experimentador, o epidemiologista tem que lidar com fenômenos biológicos em toda sua complexidade natural. Precisa tentar reconhecer as relações mais comuns em certas situações ecológicas específicas e derivar desses conhecimentos os métodos de controle que tenham as melhores probabilidades estatísticas de serem úteis em cada situação particular. Enquanto experimentador determina por escolha o fenômeno que estuda e o epidemiologista formula estatisticamente aqueles mais significativos nas condições que ele observa, é da responsabilidade do medico decifrar a importância relativa dos vários fatores envolvidos na resposta de cada paciente individual e decidir quais aspectos dos meios externo e interno podem ser manipulados com segurança para o propósito do tratamento. É porque cada decisão clínica envolve tantos julgamentos de fatos e valores que a medicina em sua forma mais alta permanecerá como uma arte.

Interações entre o Ambiente Externo e o Interno

Qualquer evento do mundo exterior que impinge em um indivíduo modifica, seja lá indireta e discretamente, o equilíbrio entre seus diversos órgãos e funções. Na realidade, então, o ambiente interno não deveria ser considerado separadamente do ambiente externo. Um tremor de frio ou a palidez, quer trazidos pelo frio ou pelo um temor súbito, não são mais que as manifestações externas de distúrbios fisiológicos que podem alterar indiretamente o desempenho de muitos mecanismos essenciais do corpo. A contração transitória dos vasos sanguíneos manifesta pela palidez pode aumentar a resistência ao fluxo sanguíneo , e essa mudança da rede vascular pode ser uma sobrecarga para o coração. A palidez também pode ocorrer na face interior do estômago em certos estados emocionais, tornando claro que o trato digestivo inteiro responde às emoções de uma forma não diferente do resto do corpo. Por outro lado, a contração dos vasos sanguíneos necessariamente interfere com a nutrição da parte afetada do corpo, tanto por limitar a quantidade de sangue disponível, como por interferência com a remoção das escórias, produtos do metabolismo. Há poucas dúvidas de que essas mudanças fisiológicas muitas vezes causam lesões por modificações das células e fluidos dos tecidos, ou da atividade de microorganismos que de outra forma estariam controlados pela operação normal dos tecidos.

Todas as desordens patológicas importantes são a soma de um multiplicidade de relações entre o meio externo e o meio interno. Os fatores envolvidos na gênese do câncer mamário do camundongo, e certos tumores de plantas, fornecem exemplos esclarecedores dessas complexas relações.

O carcinoma de mama ocorre como que espontaneamente em uma grande porcentagem de fêmeas férteis de certas linhagens isogênicas de camundongos. No entanto, a produção do tumor depende da presença de um agente viral que é transmitido a través da amamentação, o que é mostrado pelo fato de que camundongos amamentados por fêmeas de uma linhagem com baixa incidência do tumor de mama, torna os recém-natos livres do tendência aos tumores. Então, poderia se concluir que o “vírus do leite” é a causa do tumor de mama. Na realidade, a situação é muito mais complexa do que isso sugere. Em linhagens de camundongo com uma alta incidência de tumor de mama o “vírus do leite” está presente em todos os animais da colônia, machos e fêmeas, embora eles possam não desenvolver tumores nem qualquer outro sinal de doença. Os machos não desenvolvem o tumor, e nem as fêmeas o fazem até que começam se reproduzir e a amamentar repetidamente. Por outro lado, a injetando hormônios injeção de fará aparecer o tumor em machos de linhagens com um a lata incidência do tumor, mas não em fêmeas de linhagens com um baixa incidência do tumor. Em suma, três fatores, pelo menos, estão envolvidos na gênese do tumor de mama em camundongos isogênicos: o “vírus do leite”, uma influência hormonal e uma suscetibilidade genética a ação desses dois fatores. Mais ainda, a incidência de câncer de mama é drasticamente reduzida quando camundongos com todos esses fatores são submetidos a uma dieta com baixas calorias, Está claro, portanto, que vários fatores fisiológicos desempenham um papel tão importante quanto o do vírus na causa do câncer de mama do camundongo.

Uma situação de complexidade análoga se observa com os tumores (galhas) comumente vistas em girassóis e outras plantas.[2] Sob condições adequadas, os tumores podem ser produzidos à vontade injetando a planta com um certo tipo de cultura bacteriana (Agroibacterium tumefaciens). Sob outras conduções, porém, a infecção com essas bactérias resulta, não na produção do tumor, mas sim em uma invasão disseminada da planta. Somente tecidos vegetais que foram condicionados por certos estímulos associados com a cicatrização de feridas podem produzir tumores sob o estímulo da infecção. O estudo intensivo desse problema revelou muitos outros problemas – que não discutiremos aqui – que implicam determinantes complexos de natureza genética, bioquímica e nutricional na geração das galhas. Está claro, portanto, que e, plantas assim como em animais, vários fatores independentes podem operar simultaneamente no sentido de produzir um crescimento desorganizado. Como outras formas de doença, a maioria dos cânceres são provavelmente resultantes de uma constelação de circunstâncias. Tal complexidade parece desanimadora para o investigador, mas é também uma fonte de esperança, desde que a multiplicidade de ligações na cadeia da causa, aumenta a probabilidade de encontrar uma parte fraca nessa cadeia e, então, uma forma de controlá-la.

O Passado com um Fator do Ambiente

 Na maioria dos casos, o efeito produzido por qualquer estímulo é condicionado pela história biológica e social do grupo e pela experiência passada de cada indivíduo. Em outras palavras, a forma da resposta é predeterminada não apenas pelo efeito de moldagem de forças seletivas da evolução, mas também por acidentes da vida pessoal – de idiosincrasias alérgicas a padrões de comportamento. No homem, um odor particular pode ser agradável ou repelente, criar uma atmosfera de esperança ou de infelicidade, na dependência do humor do dia no qual ele foi experienciado pela primeira vez e do dia que ele evoca na memória biológica. A carne de que um homem se alimenta pode ser veneno para outro homem, não apenas por diferenças genéticas mas também porque certas reações fisiológicas e psicológicas à comida são determinadas por experiências individuais no passado, a maioria delas não notadas quando de sua ocorrência e há muito esquecidas. É porque o efeito de influências anteriores persiste nos tecidos em tais estados reativos que o passado está sempre conosco. Os efeitos do ambiente físico e social não pode ser conseguido sem o conhecimento da história individual.

Pouco se sabe das formas pelas quais a memória biológica persiste nos tecidos ou sobre os mecanismos que fazem o passado exercer efeitos peculiares a cada indivíduo. De fato, somente no caso dos fenômenos imunológicos e alérgicos e também no caso de algumas reações psíquicas, técnicas foram desenvolvidas para suscitar experimentalmente as manifestações do passado no organismo vivo.

A palavra “alergia”, tão usada hoje em dia, é de origem recente. Ela foi cunhada do idioma grego cerca de 50 anos atrás para denotar uma mudança na resposta do corpo a uma dada substância. O indivíduo que exibe alergia a uma dada substância deve ter sido exposto a ela, em circunstâncias adequadas, no passado. Assim, como um grupo, os europeus não exibem sensibilidade ao “poison ivy”[3], simplesmente porque essa planta não existe na Europa, mas se tornam alérgico a ela, da mesma forma que os americanos, depois de repetidas exposições.

A alergia é somente uma de múltiplas maneiras pelas quais experiências passadas condicionam a resposta do indivíduo e o condicionamento pode ocorrer não apenas no homem e em organismos altamente desenvolvidos, mas também nos seres vivos mais primitivos. No início do sec XX, era um exercício popular entre os biólogos, planejar experiências ilustrando que a exposição a um dado estímulo ou substância, modificava a resposta mesmo de organismos primitivos – bactérias, algas, protozoários – ao contacto subseqüente com o mesmo estímulo ou substância. Essas mudanças marcantes de resposta não são mais assuntos populares de pesquisa provavelmente porque não podem ser analisadas por métodos fisicoquímicos. Ainda assim, tais reações permanecem interessantes para mostrar que manifestações da conduta em nível primitivo apresentam analogias às encontradas na vida humana – como transparece nas seguintes observações sobre ouriços do mar.

Porque a luz lhe é de certa forma lesiva, o ouriço tende naturalmente a permanecer em lugares mais escuros. Mesmo assim, ele responde a uma sobra que caia subitamente sobre ele apontando seus espinhos na direção da sombra, Essa resposta é defensiva, servindo para proteger o animal de inimigos que poderiam projetar a sombra ao se aproximar. A reação é desencadeada pela sombra, mas ela se refere a alguma coisa simbolizada pela sombra. Como é bem conhecido, reações simbólicas similares alcançam um desenvolvimento complexo em animais superiores. No homem, na realidade, praticamente todas as respostas a coisas vistas ouvidas são meramente reações a estímulos representativos. Assim como estudos comparativos do metabolismo revelaram uma unidade notável em todos os fenômenos bioquímicos dos seres vivos. assim também estudos do comportamento mostraram certos padrões que, ao menos formalmente, são comuns a todas as coisas vivas.

A resposta a estímulos simbólicos trás à mente, é claro, os reflexos condicionados popularizados pelo fisiologista russo Pavlov. Esses reflexos têm uma relação com as influências duradouras que quase todos os eventos do passado exercem sobre o comportamento dos seres humanos normais. Em todos os indivíduos, certas situações da vida ou sensações suscitam respostas quase compulsivas, que surgem de associações com eventos usualmente esquecidos. Desde as publicações de Marcel Proust, o público leitor se tornou quase patologicamente consciente da enorme parte desempenhada na vida emocional pelo “Tempo Perdido” biológico. Uma “brevidade” mergulhada em uma xícara de chá[4] , ou o calçamento irregular de um pátio em Paris, podem reativar a serenidade ou as dores melancólicas do coração da juventude com toda a intensidade e pureza originais. Menos reconhecido é o fato que as Coisas Passadas afetam profundamente a vida biológica. Há algumas décadas atrás, behavioristas americanos conseguiram condicionar a resposta de uma criança a um coelho branco. Mais recentemente, fisiologistas russos demonstraram que o uso de certos algarismos durante um exercício normal de aritmética desencadeava uma salivação excessiva em crianças que haviam sido condicionadas a aquele algarismo algum tempo antes do exercício.

Se por um lado a salivação é uma resposta que pode ser vista, há outras respostas, bem mais significativas, que não são tão facilmente detectáveis. Podemos estar atentos para um sentido de tensão, o aumento do pulso, a palidez ou o enrubescimento, um momento de suor, mas esses são apenas expressões externas de distúrbios mais fundamentais. O que não podemos avaliar é o efeito cumulativo desses efeitos na rede vascular, assim como em outras estruturas e funções essenciais. Claramente, a salivação da criança em resposta a um certo algarismo e a tensão provocada pelo som de uma voz são não mais que sinais representativos de todas as reações inferiores que produzem cicatrizes duradouras em nossa vida física e emocional.

Assim, o ambiente interno está continuamente respondendo ao ambiente externo, e a história – racial, social, assim como individual – condiciona as formas de resposta tanto quanto o faz a natureza intrínseca do estímulo. Mais ainda, experiências passadas tornam o indivíduo suscetível mesmo a símbolos do estímulo. O homem, como o ouriço do mar, responde de forma compulsiva não apenas a ameaças reais ou à presença de inimigos, mas também e de forma mais forte as vezes, às muitas sombras que, por associação, passaram a representar perigo. O ambiente não pode ser definido meramente em termos de características intrínsecas de micróbios, venenos, radiações, traumas e stress aos quais o indivíduo é exposto em um dado momento. Ele precisa incluir todos os fenômenos que o afetaram no passado. O homem pode, verdadeiramente, dizer como o velho guerreiro grego no poema de Tennyson: “Eu sou uma parte de tudo o que encontrei.”

…………………

Tradução: N. Vaz

[1] In René Dubos (1959) “The Mirage of Health. Utopias , Progress and Biological Change” New York, Anchor Books, p.86

[2] nas folhas da mandioca, por exemplo.

[3] planta sensibilisante, do gênero Rhus, que causa dermatites de contacto nos Estados Unidos.

[4] O autor se refere, com entusiasmo, à novela “Em busca do tempo perdido” e outros trabalhos do escritor Marcel Proust, seu compatriota. Traduzo livremente “madeleine”.por “brevidade”.