Contos

Aqui, Guarulhos

Aqui, Guarulhos

É difícil, ou impossível. Não há inícios, apenas continuações. Mesmo assim, começo hoje, ou mais tarde, ou nunca mais. Começo porque sou meu primeiro leitor. Leio o que escrevi de muitas formas e apenas porque escrevo à mão, não começo a editar o que escrevi. Estou livre da maldição do copy/paste. Quando penso no que é este momento, concentro-me no verbo ser. Muito mais que no pensar, ou no momento. “É” o quê? O que pode ser? Uma vida apressada. O celular de alguém chama. O vazio em volta. A pressa de sair daqui e não ter onde chegar.

Aqui, Guarulhos, o vôo para Lisboa, rever Cláudia, o apt em Oeiras, a sala longa, as casas branquinhas na paisagem da janela parecem um jogo de armar; a floresta de antenas parabólicas a parecer uma cidadela antiga no horizonte. Sintra, ao longe, na poluição. A Gulbenkian.

Estou aqui, em um bar do enorme aeroporto, em Guarulhos, São Paulo, bebendo, a gastar as 4 horas de espera para iniciar o vôo de 10 horas até Lisboa. Lembro do primeiro vôo. Fomos, eu e Cláudia, pela TAP. Na chegada, uma das comissárias portuguesas nos arrebanhava com os braços abertos, evitando que entrássemos no ônibus que nos levaria ao prédio do aeroporto. Nós ali no vento frio. Em desafio, sai da linha e entrei no ônibus. Meu primeiro contacto com a disciplina lusa.

Nunca me esquecerei da hora em que atravessava a Araújo Porto Alegre na direção do consultório de meu pai, já morto, e quando dei por mim imaginava seu corpo sendo cremado, os cabelos brancos desaparecendo em um rápido clarão.

Da mesa do bar, olho o aeroporto, suas escadas rolantes, seus painéis. Olho o futuro, meu futuro. Não sei o que transformou para mim o futuro nesse presente indesejado; sinto, nitidamente, estar vivendo em meu futuro, o único futuro que tenho e terei. Tive esta Gestalt em alguns shopping centers, uma visão esmagadora. Tudo ali e nada ali. O que se passa conosco é tão remotamente relacionado ao que somos como seres vivos. O universo cultural, o aeroporto. Se começasse a falar com uma pessoa na mesa ao lado sobre minha perplexidade, seria o fim. Aguento calado.

Ana Caetano, ironizando, dizia que os catadores-colhedores pré-históricos, que me fascinam, não tinham Macintosh. Trouxe comigo um laptop e DVDs de música brasileira. Entendo o que Ana diz, mas acho que o sonho criador dos Macintosh está mais ligados às caminhadas dos catadores-colhedores que ao vagar dessas pessoas aqui no aeroporto, em Guarulhos.

Uma coisa boa na ampliação de consciência que o envelhecer pode trazer é perceber as pessoas idosas como “envelhecidas”, resgatar os traços de juventude ainda esboçado e tão essenciais em cada uma. Esse mesmo ampliar, explica porque os jovens já não me percebem na paisagem.

O garçom me observa de longe com uma atenção oblíqua, pois já demoro demais a pedir o terceiro uísque. Agora mesmo, lendo uma frase de Cony, em “Pilatos”, sorri e dei de ombros. Imediatamente, o gesto me lembrou muito meu pai. Meus antepassados me habitam, como fantasmas incompletos. Vou sair daqui. Talvez entre na sala de espera do vôo. Quem sabe, ligo o laptop e vejo um filme que trouxe: “Matrix”.