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Aquilo que se conserva naquilo que muda MAR-2012

Aquilo que se conserva naquilo que muda

12-03-10-

Nelson Vaz

A imunidade anti-infecciosa é o conceito central da imunologia, quase seu sinônimo. Em termos celulares, esta imunidade é hoje entendida como uma tendência a expansões progressivas de clones específicos de linfócitos, conhecida como “memória” imunológica. Esta “memória” supostamente explica a operação de vacinas, anti-infecciosas, o grande triunfo da imunologia na biomedicina. É como se o corpo (ou seu “sistema imune”, ou um “self” imunológico) se “lembrasse” de eventos passados e “mobilizasse” mais agilmente elementos celulares e moleculares específicos em sua “defesa”. Isto que pode parecer uma forma elementar de descrever a atividade linfocitária, na se apóia em pressupostos biológicos e cognitivos (epistemológicos) muito complexos e, a meu ver, enganadores.

Se esta fosse a maneira de operar do “sistema imune”, por que sweria (é) tão dfícil inventar novas vacinas anti-infecciosas? É relativamente simples demonstrar que o corpo forma anticorpos e ativa linfócitos T específicos quando exposto, quer naturalmente, quer no laboratório, a produtos de “agentes infecciosos”. Mas estes linfócitos e anticorpos específicos quase nunca elevam a “imunidade anti-infecciosa” – a resistência a doenças mediadas por estes “agentes”

. As vacinas anti-infecciosas são recursos maravilhosos mas não conhecemos as regras de sua invenção; elas foram inventadas uma-a-uma, por experiência e erro, independentemente uma da outra. Séculos após a invenção de Jenner, expandida por Pasteur, continuamos no escuro. Creio eu.

Nas últimas décadas constatou-se que a diversidade e a multiplicidade da chamada microbiota autóctone, os seres microscópicos que convivem em harmonia com organismos vertebrados é centenas de vezes maior do que suposto anteriormente. Vivemos imersos em uma sopa microbiana. Além disso, há claras evidências de que macromoléculas de alimentos penetram rapidamente (em pequenas quantidades) a circulação de adultos normais após sua ingestão. Em pessoas alérgicas, os sintomas podem surgir segundos após comer um grão de amendoim.

Isto significa:

  1. a) que estamos todos normal e constantemente expostos a uma imensa variedade de materiais “estranhos” potencialmente imunogênicos; e,
  2. b) que não desenvolvemos e/ou não expressamos uma “memória” imunológica de tais contatos, pois normalmente não reagimos progressivamente aos mesmos – mas o fazemos em doenças alérgicas, autoimune ou formas graves de infecções.

Se em seu viver saudável o organismo não desenvolve a forma de reatividade imunológica considerada mais comum, e parece não reagir aos “estímulos imunogênicos” mais cotidianos e abundantes em nosso viver, então, porque considerar esta “reatividade progressiva” – a “memória” imunológica, a “imunidade” enfim – como representativa da atividade imunológica? Creio que há algo muito, muito equivocado aqui. Algo muito central e importante, mas que nos escapa.

Melhor seria entender a forma mais comum e cotidiana de atividade imunológica não como uma re-atividade, uma forma de mudança, mas sim como um mecanismo que estabelece níveis relativamente constantes de ativação linfocitária – ofereço um conceito importante – uma atividade dinamicamente estável. A questão mais interessante, não é entender os mecanismos de “respostas imunes” a encontros eventuais com antígenos, mas sim entender esta estabilidade que é processual. O organismo troca constantemente seus linfócitos e imunoglobulinas mas, ao mesmo tempo, é conservador. Precisamos entender aquilo que permanece constante naquilo que muda.

Esta proposta é polarmente oposta à abordagem tradicional da imunologia. Usualmente, o organismo é tomado como dado e o problema está em entender como ele adoece – como ele de defende de materiais estranhos e se “adapta” a cada novo acidente. Por outro lado, a atividade imunológica mais comum e cotidiana, aquilo que se dá antes que possamos falar de expansões clonais, é negligenciado. Não perguntamos sobre o mais importante. Viver pode ser definido como uma maneira de mudar, mas como se conserva aquilo que se conserva naquilo que muda? Com Gustavo Ramos, Jorge Mpozis e Chico Botelho, discutimos este problema em um pequeno livro editado pela UFSC, Florianópolis.

A meu ver, para entender a estabilidade dinâmica da atividade imunológica não adianta invocar a “tolerância imunológica”, ou mecanismos e células “regulatórias” porque estes conceitos ainda gravitam em torno da noção de respostas imunes específicas; ainda são parte de um modelo estímulo/resposta/regulação, quase idêntico ao que a psicologia experimental abandonou nos anos 1950, conhecido como “behaviorismo”. O estudo da “tolerância” ou da “regulação” ainda é uma preocupação com a mudança, não com a conservação. Precisamos de uma proposta que esclareça uma “fisiologia conservadora” para a atividade imunológica

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Mas, como proceder no estudo de sistemas biológicos sem recorrer a um esquema estímulo/resposta/regulação? Pode-se pensar em uma abordagem dita “sistêmica”, mas o conceito de “sistema”, ou, “systems biology” adquiriu muitos significados diferentes e, em muitos casos, a mudança de termos não se acompanha da mudança conceitual necessária.

Entidades dinamicamente estáveis, que se conservam enquanto mudam, fazem parte de nosso dia a dia. Um rio, por exemplo, é uma maneira de mudar, continua sendo um rio enquanto muda; interrompa esta mudança e o rio desaparece, se transforma em um lago. Nós mesmos, como todos os seres vivos, somos como rios, dinamicamente estáveis; somos formas de mudar que se conservam. E somos compostos de sub-sistemas também dinamicamente estáveis.

O sistema imune (recombinatório, dependente de linfócitos) é um sub-sistema encontrado em organismos vertebrados que, como muitos outros, exibe uma estabilidade dinâmica, mantém padrões estáveis, previsíveis, recursivos de atividade, enquanto se transforma pela reposição contínua de seus componentes e em interações incessantes com componentes da microbiota autóctone e componentes da dieta.

Neste modo de ver, não vemos a atividade imunológica constituída de expansões clonais progressivas em respostas imunes específicas; estas expansões deralmente envolvem poucos clones (são oligoclonais) e, na realidade, são acidentes de percurso, exceções à regra de que os sistema é uma entidade dinamicamente estável. As “memórias” imunológicas de organismos individuais são como cicatrizes deixadas pelas dificuldades encontradas pelo sistema imune; representam a patologia do sistema imune, não sua fisiologia. E, não surpreende que assim seja, pois a imunologia nasceu no estudo de doenças infecciosas; nasceu como o estudo da imunidade anti-infecciosa e as vacinas foram sua primeira e mais formidável invenção.

Entretanto, me parece claro que para entender esta patologia da atividade imunológica em infecções que não se harmonizaram com o organismo, e em problemas com o que comemos e respiramos, deveríamos começar pelo entendimento de sua fisiologia – de algo muito mais cotidiano e harmonioso. Estudar as respostas imunes em si mesmas, como diz Gustavo Ramos, é como estudar as arritimias cardíacas sem conhecer a eletrofisiologia do miocardio; nenhum fisiologista concordaria com isto. Deveríamos atentar para a maneira pela qual o organismo lida imunologicamente com sua microbiota e com os alimentos que ingere. São suas formas comuns e importantes de relação com o mundo. Até aqui estivemos preocupados em definir com mais precisão o que constitui e quando ocorre o “adoecer”, mas antes disso, precisamos entender o viver normal – como convivemos harmonicamente com a microbiota e com os alimentos. E esta não é uma mudança trivial.

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Gregory Bateson considerava Lamarck um dos biólogos mais importantes que já existiram, responsável pela inversão da “Grande Cadeia do Ser”. No topo desta Cadeia estava Logos, a Mente suprema; abaixo dela os santos, os arcanjos, os anjos, então os homens, os macacos, os demais animais, e por aí abaixo até as plantas e as pedras. Nesta Cadeia, que antecedeu o Segundo Princípio da Termodinâmica, já inclui o conceito de entropia, pois o mais simples nunca poderia dar origem ao mais complexo; a “Grande Cadeia do Ser” era uma Cadeia dedutiva, entrópica, sem possibilidade de funcionar ao contrário. Lamarck inverteu tudo isto e propôs que é preciso entender como o mais simples se transforma e dá origem ao mais complexo; criou a ideia de transformismo que deu origem ao que hoje entendemos como evolução. Com a inversão lamarckiana, Logos (a Ordem) se tornou uma invenção humana, a ser explicada pelos homens e não mais a explicação de tudo.

Quando aceitamos a atividade imunológica como um processo fisiológico, não mais como uma sequência desconexa de reações eventuais a contatos acidentais com materiais patogênicos, fazemos uma inversão similar a que fez Lamarck. Abrimos mão de um “self” imunológico que tudo examina e tudo reconhece, que se alarma e reage ao que não lhe pertence; uma forma individual de Logos, uma “mente” atomizada em linfócitos e anticorpos, que separa o estranho do familiar e toma decisões. Ao nos livrarmos deste “self” impossível e aceitarmos que este processo fisiológico existe, podemos partir em busca das regras pelas quais estes elementos (linfócitos e imunoglobulinas) se organizam como componentes de um conjunto maior, um “sistema imune”, que tem uma atividade conservadora, que conserva uma organização, um padrão de relações, embora mudem os componentes que as estabelecem. Partimos em busca daquilo que se conserva naquilo que muda. Isto é o que precisamos explicar, ao abrir mão da “mente” que parece existir nos linfócitos e nos iludirá continuamente