Contos

Catavento

Catavento

 

Catavento, assim o conheciam. A origem do apelido se perdera no tempo. Uns diziam que se chamava assim pelo hábito de caminhar praia afora noite adentro e subir nos rochedos batidos pelo vento. Olhava o que ninguém via. Outros apostavam que era por semelhança a Don Quixote, alto e ossudo, veemente em assuntos que ninguém entendia, perseguia moinhos. Outros diziam que era por causa das borboletas que o haviam feito voar.

Dele se contavam histórias estranhas, mas a mais estranha, sem dúvida, era a de que voara, uma noite, levado por borboletas. Todo mundo da praia ouvira falar nisso e nem lembrava mais. Mas gente de fora, quando alguém mencionava a ideia, estranhava e desandava a perguntar. Às vezes Catavento estava por perto e lhe perguntavam. Ele não respondia.

Um dia, pediu no bar um maço de cigarros e uma caixa de fósforos.

– Qual é o cigarro, Catavento?

– Cigarro qualquer um, fósforos Beija Flor, cabeça azul.

– Fósforos Beija Flor não tem.

– Então não quero nada.

Deu as costas, atravessou a rua e foi andando pela areia.

Catavento era esquisito. Eu acho esta história de voar muito maluca, mas se alguém neste mundo voasse carregado por borboletas, havia de ser ele.

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O Cristo gigantesco foi iluminado de repente por sessenta holofotes potentes e sua nova pintura fluorescente arrancou uma exclamação e palmas de todos os presentes à inauguração. Era lindo. Vista assim de perto, a imagem imensa, o semblante forte a olhar a cidade e a paisagem mais além, era majestosa. Um brilho verde claro, lindo, a envolvê-la como uma aura, parecia mesmo algo divino.

Bem mais tarde e bem de longe, se via uma aura diferente ao redor da cabeça e do corpo do Redentor. Nas noites claras, podia-se ver, até de Niterói, um halo embaçado em volta do Cristo. De mais perto, do Flamengo, este halo era uma nuvem móvel, mudava de forma à sua volta. Eram insetos, muitos milhares de mariposas e borboletas na maioria, que voavam das matas da Tijuca para o Corcovado, atraídas pela luz verde do Cristo. Revoavam fascinados ao redor da imagem, formavam coroas de vertigem em sua cabeça, envolviam seus braços abertos, desciam afinal destroçados rolando pelas pregas de sua túnica de pedra, agonizavam aos montes sobre seus pés descalços. Poluição luminosa. O brilho da lua substituído pela atração irresistível de um Cristo brilhando em verde claro. Lá embaixo, os ruídos e o brilho multicolorido da cidade.

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Foram essas mariposas e borboletas moribundas que Catavento juntou em sacos velhos amarrados com barbante, jogou todos sobre os ombros e desceu descalço ladeira abaixo, primeiro andando depressa, depois correndo, depois desequilibrado. Apoiado nos sacos borbulhantes de asas,foi que, pela única vez na vida, voou.