Contos

Chegada ao futuro

Chegada ao futuro

O mais estranho era estar no futuro, acontecer tudo assim nesse lugar e nesse tempo sem que nada ocorresse, senão sua longa vida, estar assim reconhecível, dentro da imensa familiaridade de tudo, os longos cabelos grisalhos, as mãos tão diversas, mas o mesmo olhar. Entrar assim nesse tempo sem haver partido nem chegado, estar ali pertencente, natural. Lembrar de tudo e nessa névoa do lembrar, ser tudo possível. Acordar com gritos quase inaudíveis de festa ao longe, como assovios de vento nas árvores misturados ao latido de cães, e entender. Acordar ali deitado no escuro e no calor sem medo sem dor sem sono e apesar de saber o caminho invisível até a porta contornando a poltrona depois o cabide com as roupas, ser tão mágico entrar no corredor enluarado e caminhar devagarinho até a larga escada. A mão conhecer o corrimão onde deslisa. O mais estranho era estar assim no futuro, seu futuro, sua casa. E terem cessado os ruídos da festa distante quando chegou ao jardim e o jardim ser amplo e a brisa ser fresca, a mesma lua redonda e antiga e seus pés estarem envolvidos nas grossas meias brancas de que não se lembrava de haver calçado. Não um futuro alheio a que alguma máquina de metal polido e redondo o tivesse levado, voando impossível por lugar nenhum, mas um futuro concreto, real, cheio de atos e memórias que não pareciam suas, estar ali inevitável e natural. Um futuro a que ele chegou com seus próprios pés, metidos em meias brancas e desconhecidas, metidos antes em sapatos, em automóveis e aviões e lá atrás, muito antes, o bonde Lins e Vasconcelos, verde e acolhedor, mais largo que os outros bondes, com bancos de ripas envernizadas. A Praça XV, o chafariz. A chegada a Nova York, a tripulação rindo do vento gelado que entrava no avião e que, surpreso, sofreria no rosto pela primeira vez ao descer na neve. O camundongo esmagado pelo soco sobre a mesa. A mãe chorando em desespero mudo e despenteado enquanto ele manobrava o carro para partir, e ter partido apesar disso. Muito tempo depois, o farol retorcido apontando para cima através da chuva fina. A areia de Itaipu queimando os pés na última corrida até as amendoeiras antes de deixar Niterói para trás. O mar azul de Itaipu. Tudo tão natural e tão distante agora que chegava ao futuro e ao silêncio dessa casa nas montanhas de Minas onde ouvira gritos de festa e latidos de cães distantes. Agora um grande silêncio