Humberto Maturana

Comentário sobre a noção de informação – Humberto Maturana

Comentário sobre a noção de informação
Humberto Maturana

J.Social Biol.Struct. 6: 155-158 (1983) – Academic Press, London.
Comentário de Humberto R. Maturana sobre artigo de A.Fedanzo Jr.
“All things are full of gods – or information” In J. Social Biol. Struct. 6 :135-138 (1983)

                  O autor deste artigo critica adequadamente o uso da noção de informação por biólogos, em geral, e por sociobiologistas, em particular. No entanto, ele não chega onde poderia; e isto, possivelmente, porque, a julgar por duas de suas perguntas, ele pensa que existe algum significado fundamental na noção de informação que ainda permanece oculto. As duas perguntas são:

“… como os eventos discerníveis descritos pelo termo informação em sentido estrito (as restrições impostas a um conjunto de possibilidades) interagem com aqueles descritos pelo sentido de significado (sentido metafórico) do termo informação? “

“…permanecerão problemas ainda mais fundamentais, um dos quais é compreender como os dois sentidos do termo informação interagem e, de fato, se transformam um no outro?”

Antes de Shannon, a palavra informação se referia a ação de “dar forma”, ou “instruir com conhecimento”, como se nas interações cada participante especificasse o que acontece ao outro participante com o qual interage. Foi esta conotação que Ashby (1956) rejeitou quando preferiu usar a palavra variabilidade em vez da palavra informação em seus textos sobre cibernética, e foi esta conotação que atraiu os biólogos quando eles tomaram emprestado da teoria da comunicação o termo informação (Shanon e Weaver, 1949) para usá-lo na genética e na neurofisiologia. Os biólogos não compreenderam então que a palavra informação era usada por engenheiros de comunicação para descrever um tipo particular de interação entre sistemas organizados isomórfica e estruturalmente complementares, e a tomaram como referência a um mecanismo de determinismo instrutivo que permitia a formalização e a quantificação de fenômenos nos quais o significado parecia desempenhar um papel central. Eles procederam assim apesar de cada biólogo saber que interações instrutivas não ocorrem, seduzidos, talvez, pela crença de que a teoria da informação possibilitaria tal formalização e quantificação. Apesar de ter grandes dúvidas desde o início, eu também utilizei a noção de informação até que a abandonei completamente ao final dos anos 60. De qualquer forma, muitos biólogos parecem não ter entendido ainda que mesmo na teoria da comunicação a noção de informação é uma noção apenas descritiva e não uma noção explicativa. Deixe-me tornar isto explícito.

Informação, no sentido estrito indicado no artigo que estou comentando, se refere, em engenharia de comunicação, a uma situação projetada e construída de tal forma que uma mensagem possa:

(i) trafegar entre dois sistemas com organização isomórfica e estruturas complementares; e,

(ii) selecionar, entre uma coleção de eventos existente no receptor, idêntica a uma coleção equivalente existente no   emissor, uma sub-coleção de eventos idêntica à sub-coleção correspondente no emissor.

Qualquer discrepância que possa ocorrer entre a sub-coleção de eventos especificada (codificada) no emissor e a sub-coleção de eventos selecionada (decodificada) no receptor, é o resultado de alguma interferência (ruído) na realização de algum dos processos envolvidos na comunicação, e não parte do projeto. Se a seleção de alternativas prevista acontece no receptor, o engenheiro de comunicações diz que a informação total foi transmitida, mesmo que nenhuma interação instrutiva haja ocorrido. Na verdade, nenhuma interação instrutiva pode ocorrer no espaço físico (ver Maturana,1978).

Uma descrição em termos do sentido estrito da palavra informação, só pode ser aplicada a uma situação completamente especificada de interação entre sistemas com organizações isomórficas e estruturas complementares que possam ser assimiladas pela situação comunicacional da engenharia. No entanto, tal descrição não fornece uma explicação para a existência do isomorfismo organizacional ou da complementaridade estrutural entre os sistemas que tornam possível o fenômeno conotado pela descrição, que é o que, em Biologia, requer uma explicação. Em sistemas de comunicação feitos pelo homem tal situação emerge da maneira pela qual estes sistemas são projetados e intencionalmente construídos. Nos sistemas biológicos, esta situação é o resultado de histórias ontogenéticas e filogenéticas de interações nas quais seu mecanismo de origem é o desencadeamento seletivo de mudanças estruturais mútuas com a manutenção do acoplamento estrutural (adaptação mútua) dos organismos (ou sistemas) envolvidos. As descrições informacionais não captam estes aspectos essenciais.

O sentido metafórico da palavra informação (significado) é também descritivo, e se refere a uma relação de correspondência entre domínios fenomenológicos que não se interceptam, vista por um observador. Então, a noção de significado, uma vez que não se refere a um mecanismo capaz de dar origem às relações observadas, também não tem um valor explicativo: ela apenas as conota em um domínio de descrições. O significado é uma relação especificada através de uma reflexão descritiva feita por um observador e, portanto, só pode ter lugar na linguagem. O Prof. Fedanzo está certo em dizer que em meu artigo com G. Guiloff (Maturana e Guiloff, 1980), o consenso pode ser relacionado ao significado se alguém o contempla. Mas nós não falamos em informação naquele artigo, em qualquer de seus sentidos e não o fazemos porque não é pertinente. Na verdade, nós não usamos o consenso como uma noção explicativa: somente apontamos para a consensualidade como uma expressão do fenômeno da inteligência como um caso de acoplamento estrutural. Além disto, deveria estar claro naquele artigo que o consenso e o acoplamento estrutural existem em dois domínios fenomenológicos que não se entrecruzam. A condição para o acoplamento estrutural reside no próprio domínio de operações estruturais dos organismos em interações uns com os outros e com seu meio, onde uma contínua seleção estrutural tem lugar através de suas interações com conservação de adaptação e identidade de classe (Maturana, 1980). Um consenso, ou um domínio consensual, reside no domínio das descrições do observador que vê os organismos em conduta coordenada enquanto eles operam em seu domínio de acoplamento estrutural ontogênico recíproco.

Quando o observador considera os organismos em suas próprias operações como membros de um domínio de acoplamento estrutural recíproco, ele os vê interagindo sob condições de uma complementaridade estrutural preexistente que lhe parece ser comparável a uma situação de comunicação projetada por um engenheiro, e para a qual ele pode aplicar uma descrição em termos de transferência de informação no sentido estrito. Quando o observador considera os organismos operando em um domínio consensual, ele os vê numa coordenação de condutas que ele pode descrever em termos semânticos, isto é, como se os organismos em interação estivessem utilizando informação em seu sentido metafórico (significado) para sua coordenação operacional.

Nenhum destes dois usos da noção de informação, porém, tem um valor explicativo para os fenômenos biológicos envolvidos. Por esta razão, eu acho que a noção de informação deveria ser totalmente evitada no domínio das explicações biológicas; neste domínio, a noção de informação (em qualquer de seus sentidos) é tanto desnecessária como geradora de equívocos. Na verdade, o uso da noção de informação interferiu na compreensão da linguagem e da cognição obscurecendo a separação entre os dois domínios fenomenológicos descritos acima. Isto é particularmente evidente em relação ao problema mente-corpo onde a noção de informação, através de suas conotações instrutivas, parece oferecer a possibilidade de ligar o vazio entre o abstrato (mente) e o concreto (corpo). A informação, porém, como uma noção descritiva, não consegue fazer isto, e seus dois sentidos mantêm a separação entre o abstrato e o concreto.

Se desistirmos de usar a noção de informação, abandonando qualquer noção oculta de determinismo instrutivo, nos encontraremos em um domínio de interações estruturais exclusivamente, e a situação muda completamente. Na verdade, fazer isto implica em se aceitar:

(i) que uma interação só pode ter lugar se existir uma complementaridade entre os interagentes que permita o desencadeamento recíproco de mudanças estruturais em seus encontros;

(ii) que as circunstâncias ou relações que conduzem à ocorrência de uma interação entre dois sistemas selecionam quais as mudanças estruturais que vão ocorrer, selecionando quais das possíveis interações efetivamente ocorrem;

(iii) que relações em um domínio de descrições como relações em um domínio de acoplamento estrutural ontogênico (domínio consensual) podem selecionar recursivamente as mudanças estruturais dos organismos que as produziram através de sua operação na linguagem.

O resultado geral disto é aceitar-se a legitimidade de domínios fenomenológicos que são interdependentes em sua geração, mas não se entrecruzam, como o corpo e a mente, assim como as conseqüências seletivas que a mente pode ter na dinâmica de mudanças estruturais do corpo do observador através de sua operação no domínio da linguagem onde a mente existe. Em outras palavras, metaforicamente, ao abandonar a noção de informação, a mente se torna comparável a um padrão moiré que um observador vê quando ele contempla dois sistemas regulares de pontos em folhas transparentes que estão superpostas e se movem uma em relação à outra. Sem as folhas transparentes e os pontos desenhados sobre elas nenhum padrão moiré pode ser visto. Mas, não se pode dizer que as folhas e os pontos causaram o padrão moiré porque , como relações estabelecidas pelo observador em sua observação, este padrão existe em um domínio fenomenológico que não se entrecruza com o domínio no qual os pontos e as folhas existem como entidades físicas que refletem a luz. Ainda mais, se o observador ao observar um padrão moiré movimenta uma das folhas transparentes de forma que o padrão se modifica, não se pode dizer que o padrão moiré como uma entidade abstrata (isto é, como um sistema de relações no domínio de descrições do observador) causou sua própria mudança ou causou uma mudança na estrutura que o fazia possível. Podemos dizer, no entanto, que certas relações dadas nas interações entre as páginas com os pontos e o observador, que ele descreve dizendo que vê um padrão moiré, constituem uma configuração da interação que desencadeou (e, portanto, selecionou) uma mudança estrutural no observador, que, por sua vez, através de suas interações com as folhas, desencadeou uma mudança estrutural no sistema das folhas que resultou em uma mudança no padrão moiré que ele observava. Esta dinâmica gerativa, na qual domínios fenomenológicos que não se interceptam surgem como meta-domínios quando dois sistemas independentes interagem, assim como a participação seletiva não-causal das relações, que são tão centrais para os fenômenos biológicos, se perdem em uma descrição em termos informacionais através de suas conotações instrutivas.

Finalmente, um comentário sobre questões evolutivas (ver Maturana, 1980) que estão centrais nos argumentos sociobiológicos no domínio dos valores humanos:

A constituição genética de uma população é o resultado da evolução das linhagens às quais pertencem os organismos que integram esta população, e não a causa da evolução dessas linhagens. A constituição genética de um organismo individual é uma parte desse organismo como uma entidade viva até que ele morra, como resultado da conservação da adaptação do organismo (seu acoplamento estrutural ao meio em que vive) através de sua realização fenotípica como um organismo. É o organismo, o ser vivo, a unidade autopoiética que é adaptada e vive, ou perde sua adaptação e se desintegra, não os genes; é a autopoiese e a adaptação que são conservadas durante a evolução biológica, não os genes. Na verdade, a evolução biológica dos seres vivos é a deriva contínua de linhagens de organismos que conservam seu acoplamento estrutural com o meio (adaptação) até a reprodução (ver Maturana 1980; Maturana e Varela, 1985). A evolução, então, ocorre somente na medida em que as variações produzidas em cada geração dão origem a fenótipos que conservam a adaptação dos organismos ao seu meio. Somente se uma característica, uma função, uma conduta existir como uma relação entre o organismo e seu meio, ou seja, somente se uma característica existir como um aspecto fenotípico implicado na conservação da adaptação do organismo, é que pode ter lugar uma evolução da determinação genética/ambiental da característica (função ou conduta) através da conservação da característica em uma linhagem. Somente se uma característica estiver constitutivamente envolvida na conservação da adaptação do organismo que a exibe, ela participará da conservação das linhagens desse organismo. A adaptação não é o resultado da evolução (ou da deriva natural, como eu prefiro dizer); desde que a reprodução exista, a adaptação (a condição de acoplamento estrutural ao meio) é a condição que torna a evolução possível. Na ausência de conservação da adaptação os organismos morrem ou não se reproduzem, e suas linhagens chegam ao fim. Na verdade, sem conservação da adaptação, a deriva natural não se realiza.

A descrição de eventos hereditários em termos próprios à engenharia de comunicação, através do uso da noção de informação em qualquer de seus sentidos tem contribuído para confundir o fenômeno da hereditariedade (que resulta da reprodução) com uma descrição parcial de sua genética (que se refere à genealogia da distribuição de características),particularmente através da noção de que os ácidos nucleicos contêm a informação genética do organismo. Esta confusão conduziu à crença moderna de que os genes são os elementos centrais na deriva natural (evolução) dos seres vivos, e que eles podem ser adaptativos, deletérios ou neutros, em uma discussão falaciosa que perde o organismo como unidade evolutiva reduzindo-o a um mosaico de características subordinado à conservação de seus genes. Um organismo não é um mosaico de características, nem é um conglomerado de genes. Um organismo é uma entidade definida como uma unidade por sua organização como um sistema vivo e suas características são descrições necessariamente parciais desse organismo feitas a partir da perspectiva de um observador que inevitavelmente destrói a unidade do organismo ao fazê-las.

Confusões similares ocorreram na sociobiologia, sociologia e psicologia, onde, freqüentemente, o uso de descrições informacionais reduziram seres humanos a mosaicos de características, idéias ou valores. Mas nosso problema não é a noção de informação como usada pelos engenheiros, mas sim o mal uso que fazemos dessa noção no domínio dos fenômenos biológicos.

Referências

Ashby, R.(1956) An Introduction to Cybernetics. London ansBeccles, William Clowes & Sons, Limited

Maturana,H.R.(1978) Biology of Language: Epistemology of realityIn: G.A.Miller and E.Lenneberg (eds.) Psychology and Biology of Language and Thought. Academic Press, New York, pp.27-64.

Maturana,H.R. (1980) Autopoiesis: Reproduction, Heredity and EvolutionIn: M.Zeleny (ed.) Autopoiesis, Dissipative Structures and Spontaneous Orders. A.A.A.S. Selected Symposium 55, pp.45-79

Maturana, H.R. and Varela, F.J. (1985) El Arbol del Conocimiento. Las bases Biológicas del Entendimiento Humano. Editorial Universitaria, Santiago, Chile.

Shanon, C. and Weaver, W. (1949) The Mathematical Theory of Communication. University of Illinois Pres, Urbana, Illinois.

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Tradução: Nelson Vaz, UFMG, Belo Horizonte