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Compreendendo Bateson e Maturana – Dell (1985)

Compreendendo Bateson e Maturana:
Para um fundamento biológico das Ciências Sociais[1]
Paul F. Dell
Eastern Virginia Medical School
Journal of Marital and Family Therapy 1985, Vol 11 (1): 1-20

 

 

As tentativas de esclarecer (purificar) as fundações conceituais da terapia familiar por meio da ‘epistemologia’ suscitaram entusiasmo, tédio, irritação e confusão. Na crença de que pelo menos a confusão pode ser amenizada, o texto atual é oferecido como um estudo-guia e algo como uma Pedra da Rosetta para traduzir o trabalho de Gregory Bateson e Humberto Maturana. O texto demonstra que o trabalho de Maturana é altamente compatível com o de Bateson. Além disso, vários pontos de contraste são ressaltados: (1) o conceito de Maturana de determinismo estrutural é uma afirmação ontológica explícita, ao passo que Bateson delineou uma epistemologia, mas nunca desenvolveu claramente uma ontologia correspondente; (2) o determinismo estrutural é um conceito mais geral que o conceito de ‘mente’ em Bateson (i.e., epistemologia cibernética); (3) o determinismo estrutural remove os resquícios de objetividade da teoria de Bateson (i.e., “a diferença que faz diferença”); e (4) o conceito de interação instrutiva, de Maturana, é uma versão mais geral, não-sistêmica do que Bateson quer dizer com o termo “erro epistemológico”. Finalmente, afirmo que a ênfase na epistemologia distraiu similarmente os proponentes e oponentes da mensagem essencial de Bateson e Maturana: de que os sistemas sociais e todas as empreitadas humanas precisam ser compreendidas à luz de nossa existência como entidades biológicas que estão acopladas a um meio. A ontologia biológica implícita nos textos de Bateson e explicitamente delineada por Maturana pode (finalmente) fornecer um alicerce sólido para as ciências sociais e do comportamento.

A epistemologia de Gregory Bateson

Gregory Bateson foi o primeiro a chamar atenção para a epistemologia no campo da terapia familiar e é sobre seu trabalho que outros terapeutas familiares construíram seus trabalhos. Bateson insistiu persistentemente (1972, 1979) em que a epistemologia é vital para qualquer ciência coerente do viver. Então, ele aplicou a epistemologia a uma ampla variedade de temas, incluindo biologia, ecologia, psicoterapia, aprendizagem, psicopatologia, cibernética, teoria dos sistemas e planejamento humano. No entanto, os textos de Bateson não são fáceis de entender – em parte porque ele usou o termo “epistemologia” pelo menos de cinco maneiras diferentes.

Cinco significados de “Epistemologia”

  1. Epistemologia como teoria do conhecimento. Os filósofos definem a epistemologia como o estudo da teoria do conhecimento. Para os filósofos, a epistemologia é aquele ramo da Filosofia que investiga as origens, estrutura, métodos (de obter) e (de analisar) a validade do conhecimento. Bateson, no entanto, muitas vezes usou o termo “epistemologia” com um significado diferente deste dado pelos filósofos. Ele parecia usar a palavra de pelo menos mais quatro maneiras: (a) como um sinônimo de paradigma ou Weltanschaung; (b) como uma cosmologia biológica; (c) como uma ciência; e (d) como as premissas fundamentais que subjazem a conduta de um organismo.
  2. Epistemologia como um paradigma. Embora este seja o uso menos importante da palavra epistemologia por Bateson, epistemologia como paradigma (ou Weltanschaung) parece ser o uso que se tornou mais popular da terapia familiar atual. Então, ouvimos falar de:

epistemologia linear ( Auerswald, 1972; Hoffman, 1981; Keeney, 1979a), epistemologia convencional (Bateson, 1976), epistemologia ‘das coisas’ (thingish) (Bateson, 1976), epistemologia dualista (Bateson, 1972; Dell & Goolishian, 1981) epistemologia circular (Hoffman, 1981), epistemologia cibernética ( Bateson, 1972; Keeney, 1982b, 1983), epistemologia sistêmica (Colapinto, 1979; Dell, 1982; Selvini Palazzoli, Cechin & Prata, 1980), epistemologia ecológica (Auerswald, 1972), epistemologia ecosistêmica (Keeney, 1979a, 1982a; Wilder, 1980; Wilder & Wilson, 1976), epistemologia evolutiva (Dell & Goolishian1981), epistemologia Aristotélica (Dell, 1980a; Scheflen, 1978), epistemologia Newtoniana (Dell, 1980b; Keeney, 1982b), epistemologia post-Einsteniana (Scheflen, 1978), epistemologia moderna (Gubtern, 1981), epistemologia do poder (Bateson, 1972i), epistemologia dos padrões (Dell, 1980b; Schedflen, 1978, epistemologia da forma condutual (Scheflen, 1978), epistemologia das emoções (Scheflen, 1978), epistemologia de características (Scheflen, 1978), epistemologia centrada-em eventos (Scheflen, 1978), epistemologia orientada-para-o-indivíduo ((Colapinto, 1979), epistemologia familiar (Dell, 1980b), epistemologia de sistemas abertos (Allman, 1982), epistemologia médica (Colapinto, 1979), epistemologia mente-corpo (Colapinto, 1979) e até epistemologia Britânica (Colapinto, 1979).

                  Bateson não era explícito sobre o que era ou não era “uma epistemologia”. Presumivelmente, “uma epistemologia” (no sentido de um paradigma) fornece uma gramática da realidade; ela especifica como os objetos e eventos do mundo devem ser pontuados. Scheflen (1981) sugeriu que enquanto um paradigma é “um conjunto de teorias, métodos e descobertas sobre um fenômeno particular” (p.124) “uma epistemologia é muito mais ampla que um paradigma, porque é uma maneira de pensar sobre todos os fenômenos, sobre toda a natureza” (p.124). Qualquer que seja a definição adequada de “uma epistemologia”, parece que o termo “epistemologia” muitas vezes foi utilizado por terapeutas de família quando o termo “teoria” seria mais modesto e, talvez, mais apropriado.

  1. Epistemologia como cosmologia biológica.

O terceiro significado que Bateson atribuiu à palavra “epistemologia” é muito audacioso. Ele considerava sua cosmologia biológica como a epistemologia correta para o mundo dos vivos. Bateson iniciou com a pergunta “Qual o padrão que conecta todas as criaturas vivas?” (Bateson 1979, p.8) e concluiu que a resposta é a “epistemologia”. Em seu modo de ver, todas as coisas vivas estão conectadas por um vínculo epistêmico e constituem este vínculo. Ele acreditava que “há uma unidade sagrada na biosfera” (Bateson, 1979, p.19) que possui as propriedade da mente.

Bateson especificou seis critérios de mente: (a) “A mente é um conjunto de partes em interação”; (b) “A interação entre as partes da mente é desencadeada por diferença”; (c) “Os processos mentais requerem energia colateral”; (d) Os processos mentais requerem cadeias circulares (ou mais complexas) de determinação”; (e) “Nos processos mentais, os efeitos da diferença devem ser considerados transformações (i.e., versões codificadas) de eventos que os precederam”; (f)” A descrição e classificação destes processos de transformação revela uma hierarquia de tipos lógicos imanente nos fenômenos” (Bateson, 1979; p.92).

Bateson afirmou que qualquer sistema que possua as propriedades da mente é inerentemente epistêmico. Foi nesse sentido que ele afirmou que a Creatura, o mundo dos vivos, é uma mente organizada coerente que processa informação. A Creatura total (a ecologia ecológica) e cada um de seus componentes (organismos individuais, sistemas interativos, ecosistemas locais, etc.) têm processos mentais. A Creatura, em todas as suas manifestações, é mente. Portanto, Bateson (1979) insistia em que a característica fundamental dos sistemas biológicos é que eles possuem a capacidade de saber, pensar e decidir. Porque ele via o mundo da Creatura como inerentemente epistêmico Bateson forneceu sua própria resposta singular à pergunta filosófica fundamental relativa à natureza do conhecer. Especificamente, ele afirmou que o conhecer individual de qualquer organismo dado “é uma pequena parte de um conhecer integrado mais amplo que costura a biosfera inteira, ou a criação.” (Bateson, 1979, p.88). Então, para Bateson, Biologia e Ecologia são epistemologia. Tudo aquilo que vive é fundamentalmente mental (mind-like) e epistêmico.

  1. Epistemologia como ciência. O quarto significado atribuído por Bateson (1979) à epistemologia é que ela é uma ciência – especificamente, um ramos da história natural. Ele definia esta ciência epistemológica como sendo: “o estudo de como organismos particulares conhecem, pensam e decidem” (Bateson, 1979, p.228). Uma de suas preocupações particulares era que os organismos não obtêm informação objetiva sobre o mundo a seu redor. Os experimentos de Adalbert Ames (ver Bateson, 1979) que demonstram fortemente como os sentidos podem ser enganados, convenceram Bateson de que a objetividade é impossível. Ele estava convencido de que não poderíamos nunca conhecer a ding an sich (a coisa em-si-mesma, kantiana), Bateson 1972e, 1972i, 1979). Portanto, para Bateson, um requisito importante da ciência epistemológica é que ela deve ser capaz de descrever adequadamente e explicar a impossibilidade da objetividade. Bateson foi particularmente influenciado pelo importante trabalho sobre a percepção realizado no laboratório de Warren McCulloch (por ex.: Lettvin, Maturana, Pitts & McCulloch, 1959) e estava interessado no fato de que a estrutura neurofisiológica parecia ser o mecanismo que evitava que a informação objetiva fosse transmitida ao observador. De qualquer forma, Bateson argumentava que a investigação de todos estes processos epistêmicos pertencia à província da ciência. De fato, ele argumentava que a epistemologia é nada menos que a ciência por excelência e o primeiro princípio de todos os fenômenos biológicos. Ele considerava a epistemologia como “uma meta-ciência indivisível, integrada, cujo assunto é o mundo da evolução biológica, do pensamento, da adaptação, da embriologia e da genética.” (Bateson, 1979, p.87).
  2. Epistemologia como estrutura de carácter. A quinta maneira pela qual Bateson usava a palavra “epistemologia” é que a estrutura do carácter é nossa própria epistemologia pessoal. Entre os cinco significados propostos por Bateson, esta ideia não apenas é a mais interessante do ponto de vista clínico, mas também a mais reveladora de todo o seu projeto epistemológico, porque ela indica “a trilha não escolhida” no pensamento de Bateson. Em seu texto clássico “The Cybernetics of ‘Self’: a Theory of Alchoolism” (Bateson, 1972c) ele descreveu a relação entre a epistemologia (i.e., o estudo de como sabemos o que sabemos) e a ontologia (i.e., o estudo da natureza do ser). A ontologia, disse ele, tem a ver com “o problema de como as coisas são, o que é uma pessoa, e que tipo de mundo é este” (p.313). Esta é uma maneira informal, embora adequada de definir a ontologia. Por sua vez, sua definição de epistemologia, é outro assunto. Bateson argumentava que a epistemologia tem a ver com os problemas de “como sabemos que tipo de mundo é este e que tipo de criaturas somos nós que podemos saber alguma coisa (ou talvez nada) deste assunto.” (p.313) A pergunta de “que tipo de criaturas somos nós” é certamente relevante à indagação epistemológica, mas é, apesar disso, uma pergunta ontológica (i.e., um estudo do ser humano), não uma pergunta epistemológica. Portanto, a descrição que Bateson faz da epistemologia é uma descrição que desapropria um território que é mais próprio da ontologia.

Bateson argumentava que a estrutura do carácter deveria ser entendida como “um conjunto de admissões habituais” (Bateson, 1972c, p.314). Especificamente ele afirmou que a estrutura do carácter “é uma rede de premissas epistemológicas e ontológicas” (Bateson, 1972c, p.314) que especifica como a pessoa deve entender e se relacionar com o mundo a seu redor:

“Na história natural do ser humano, a ontologia e a epistemologia não podem ser separadas Suas crenças (usualmente inconscientes) sobre que tipo de mundo é este (i.e., as premissas ontológicas) determinarão como ele o vê (i.e., as premissas epistemológicas). O homem vivo é então ligado a uma rede de premissas epistemológicas e ontológicas… É estranho nos referirmos constantemente à epistemologia e à ontologia e é incorreto sugerir que elas são separáveis na história natural humana.. Neste ensaios, eu usarei, portanto, o único termo “epistemologia” para cobrir ambos os aspectos da rede de premissas que comandam a adaptação (ou má-adaptação) ao humano e ao ambiente físico” (Bateson 1972c, p.314).

Esta citação é significativa porque ela revela os parâmetros do pensamento de Bateson com relação à epistemologia. Ao afirmar que a epistemologia não é separável da ontologia Bateson está novamente apagando os limites entre dois campos de estudo diferentes (ainda que relacionados). Além disso, ao decidir se referir tanto à epistemologia quanto à ontologia pelo único termo “epistemologia”, ele confere prioridade à epistemologia sobre a ontologia. Então, a ontologia representa “a trilha não escolhida” no pensamento de Bateson. Sua decisão de se concentrar somente na epistemologia é diretamente responsável, penso eu, pela qualidade difícil e ao mesmo tempo profunda de muitos de seus textos.

Para Bateson, quase tudo é epistemologia. Para revisar brevemente, primeiro, ele tem uma cosmologia do mundo vivo. Mas assim mesmo, e a denomina de epistemologia. Segundo, Bateson insiste em que as várias ciências biológicas são incluídas em uma meta-ciência – a epistemologia. Terceiro, Bateson argumentava que a estrutura do carácter de um organismo vivo é usualmente sua própria epistemologia pessoal. Então, parece haver pouco espaço para qualquer coisa além da epistemologia na visão de mundo de Bateson. Como um buraco negro, a epistemologia de Bateson parece atrair e devorar tudo em sua vizinhança. Isto teve, penso eu, duas consequências principais para a teoria de Bateson. Primeiro, ele contém uma cosmologia não anunciada que é rotulada como “uma epistemologia”. Segundo, e mais significativamente, a epistemologia de Bateson não tem uma ontologia na qual se fundamentar. A falta desta fundamentação enfraquece gravemente os esforço de descrever aquilo que penso ser o conceito enormemente valioso (embora incendiário) de erro epistemológico.

Enquanto Scheflen (1978) afirmava que as epistemologias não são verdadeiras nem falsas, Bateson insistia claramente em que uma epistemologia poderia realmente ser falsa. Durante os últimos 10-15 anos de sua vida, ele frequentemente falou de erros epistemológicos, equívocos epistemológicos, falácias epistemológicas e epistemologias incorretas (Bateson, 1972; 1979). “Qualquer erro” dizia Bateson, “conduz à patologia” (Bateson , 1977. p.238). Em outras palavras, Bateson acreditava que a psicopatologia humana está fundamentalmente enraizada e erros epistemológicos, tais como: (a) acreditar na objetividade; (b) engajar-se em ações que ignoram os circuitos (circulares ou mais complexos) de um sistema, e (c) tentar controlar qualquer parte do sistema ao qual pertencemos (isto é, a ecologia local, nossa rede de amizades, nossa família, ou mesmo nós mesmos). Bateson era especialmente incomodado pelo uso do poder. Ele insistia em que o uso do poder para exercer controle era uma forma particularmente perigosa e anti-ecológica de “insanidade epistemológica” (Bateson, 1972i,p.487): “Não há área na qual falsas premissas em relação à natureza do self e sua relação com outros possa ser tão claramente destrutiva e geradora de feiura como esta área de ideias sobre o controle” (Bateson, 1972h., p267).

Quando Bateson dizia que tais pensamentos e ações estavam errados, ele não queria dizer que estavam simplesmente em desacordo com sua maneira de ver; ele dizia que eles estavam em desacordo com como o mundo é. Em outras palavras, as afirmações de Bateson sobre erros epistemológicos são afirmações sobre como o mundo é e, portanto, implicam em uma ontologia. Esta, penso eu, é a principal falha no fechamento do pensamento de Bateson. Sua cosmologia mostra um mundo biológico como uma mente ecosistêmica, mas ele nunca desenvolve esta ontologia nem explica como é que o mundo precisa inevitavelmente assumir esta forma sistêmica.

Quais circunstâncias fazem com que o mundo da Creatura se torne mental (mind-like)? Como está organizado o mundo em termos de uma causalidade circular? O que existe na natureza das coisas que torna a objetividade inalcançável? O que torna o controle impossível (a não ser pela cosmologia que Bateson propõe)? Como isto acontece desta forma em nosso mundo? Estas são perguntas que Bateson não faz e não pode responder dentro do arcabouço de sua epistemologia (cosmologia) da mente eco-sistêmica. Todos os seus argumentos permanecem tautológicos e um pouco místicos porque ele justifica sua epistemologia somente em termos de sua epistemologia. Ele carecia de uma ontologia na qual fundamentar seus argumentos. Sem uma ontologia, o projeto epistemológico de Bateson alcança menos do que poderia; é incompleto. Isto é uma pena porque os problemas com os quais Bateson se debateu por tantos anos são da maior relevância para a empreitada da psicoterapia. O campo da terapia familiar reconheceu esta relevância, mas se tornou herdeiro da falta de clareza de Bateson nestes assuntos.

Finalmente, precisa ser enfatizado – porque (supreendentemente) é muitas vezes ignorado – que Bateson falou como um biólogo, não como um filósofo. Seus textos constituem uma tentativa de toda uma vida em explorar as implicações de nossa existência como criaturas vivas que são inseparáveis de nosso eco-sistema. Suas afirmações filosóficas sobre a epistemologia foram sempre contingentes à sua cosmologia da Creatura.

 

A Ontologia de Humberto Maturana

Lá pelo fim de sua vida, perguntaram a Bateson quem mais estava levando adiante estudos da epistemologia da Creatura. Bateson respondeu que “o centro destes estudos agora está em Santiago do Chile com um homem chamado Maturana (Keeney, 1979b, p.23). Minha convicção é de que o trabalho de Maturana contém a ontologia que Bateson nunca desenvolveu (mas que, pode-se argumentar, estava, em algum grau, implícita nos textos de Bateson).

Maturana confrontou duas perguntas principais: (a) O que se passa no fenômeno da percepção? e (b) Qual é a organização do ser vivo? Seu apercebimento iluminador foi ver que os dois fenômenos – a cognição e o processo de viver – são realmente um e o mesmo (Maturana, 1970a, 1970b). Ele afirma:

“A cognição” “é um fenômeno biológico e só pode ser entendida como tal (Maturana, 1970b, p.7). Toda entidade biológica, ao mesmo tempo possui e é um meio de conhecer. Esta afirmação é válida para todos os organismos, com e sem um sistema nervoso (Maturana, 1970b, p.8).

Então, para Maturana, “o conhecer se tornou o viver” (Maturana, 1982a, p.18) e viver se tornou conhecer. A identificação do viver com o conhecer em Maturana é paralelo ao equacionamento feito por Bateson entre a mente e a Creatura (o mundo dos sistemas vivos). Assim, Maturana concordaria com a informação de Bateson de que uma compreensão adequada da epistemologia precisa incluir vários saberes, tais como: como aprender, como crescer com um simetria pentamérica, como contar até sete, como inventar e guiar um automóvel, e, mesmo, como evoluir (Bateson, 1979).

O aspecto central da compreensão de Maturana sobre a organização do vivo é que “é a circularidade de sua organização que torna um sistema vivo uma unidade de interações, e é esta circularidade que ele precisa manter no sentido de continuar sendo um sistema vivo (Maturana, 1970b, p.9). Esta caracterização aparentemente modesta da ontologia dos sistemas vivos contém dentro dela um apercebimento profundo que (a) aproximou Maturana da ontologia e (b) permitiu que ele descrevesse a epistemologia dos sistemas vivos (que está implícita em sua teoria sobre a organização dos seres vivos).

Especificamente, Maturana notou o seguinte: se a organização de um sistema vivo é circular, então esta organização é fechada – não em seu aspecto termodinâmico[2], mas em seu aspecto organizacional. A significância desta clausura da organização é que ela implica imediatamente em autonomia (Maturana & Varela, 1973). Sistemas fechados em sua organização são sistemas autônomos (ver, especialmente, Varela, 1979). Cada sistema vivo tem sua própria individualidade autônoma porque a natureza de sua estrutura especifica plenamente como o sistema se comportará sob toda e qualquer interação. As interações não especificam como o sistema se comportará; o sistema especificará sua própria conduta. Porque as interações com o ambiente não podem especificar como um sistema organizacionalmente fechado se comportará, é necessariamente o caso que tais sistemas não têm inputs (não recebem estímulos) nem outputs (não respondem a nada) (Maturana & Varela, 1973). Em outras palavras, eles não recebem informação alguma. Tais sistemas, como Ashby (1956) notou muito tempo atrás são termodinamicamente abertos mas “fechados para informação” (p.4)- eles são vedados para informação (p.4). Porque todos os sistemas vivos (assim como sistemas construídos por humanos, como computadores) são assim fechados, Maturana foi forçado à conclusão espantosa de que não existe informação.

Agora, virtualmente todos estão convencidos de que a informação existe e que recebemos informação de uma variedade infinita de fontes. Mesmo assim, sabemos também que pessoas diferentes recebem “informações diferentes” do mesmo “input” (estímulo). E a razão pela qual elas recebem “informações” diferentes, é que cada pessoa é diferente, e sendo diferente, cada pessoa “responde” diferentemente à “mesma” coisa. Este é precisamente o ponto em que Maturana insiste. É o sistema que especifica como ele se comportará, não a “informação”. A informação não tem existência ou significado aparte do que lhe confere o sistema com o qual ela interage. O sistema especifica não apenas o que a interação é (para ele), mas também identifica de que tipo de interação se trata. Então, a informação não pode ter existência objetiva. E porque a objetividade está intrínseca em nosso entendimento convencional do termo “informação”, Maturana argumenta que não existe tal coisa como a informação.

Este assunto da informação é um ponto de contraste agudo entre Maturana e Bateson. Enquanto Maturana afirma que a informação não existe, Bateson (1972e) faz da informação a pedra fundamental de sua epistemologia biológica (“informação…é a diferença que faz uma diferença, p.453).

Maturana argumenta que nossas noções de informação e comunicação são fundamentalmente enganosas:

“Interações linguísticas e comunicativas são intrinsicamente não-informativas: o organismo A não determina e não pode determinar a conduta do organismo B porque devido à natureza autopoiética em si mesma todas as mudanças que um organismo atravessa são necessária e inevitavelmente determinadas por sua própria [estrutura que corporifica sua] organização” (Maturana & Varela, 1973, p.121)

Nossas ideias cotidianas sobre informação e comunicação são enganosas porque tendemos a pensar na comunicação e na informação como sendo o toque de ouro do Rei Midas da mitologia (Maturana & Guiloff, 1980). Isto é, assim como o rei Midas podia fazer objetos se comportarem como ele desejava (isto é, eles se transformavam em ouro, da mesma forma, nós, muitas vezes, cremos que a comunicação e a informação podem determinar como um sistema vivo se comportará. Mas não é isto o que se passa. A chamada “informação” não instrui e não pode instruir o comportamento deum sistema vivo. O que nós tipicamente rotulamos como informação é meramente algo que observamos em interação com o sistema. Em qualquer interação dada, o sistema sempre se comporta de acordo com sua estrutura. Em outras palavras, tais sistemas são determinísticos.

 

                   O determinismo estrutural. Porque Maturana rejeita o conceito de causalidade

Embora inicialmente preocupado apenas como o determinismo dos sistemas vivos, Maturana (1978) passou a ver que um tipo especial de determinismo é a condição sine qua non da ciência. Sem este determinismo a ciência não poderia continuar (nós e o o universo que conhecemos não poderíamos existir). Um mundo ordenado depende do determinismo. Sem algum tipo de determinismo ontológico, tudo seria caos e tudo ocorreria sem rima ou razão. Tal mundo não poderia ter existência alguma como o compreendemos e a ciência não poderia investigá-lo.

Embora raramente mencionado, Bateson, também, era determinista. Enquanto Maturana se deslocou do determinismo específico dos seres vivos para um determinismo estrutural mais geral, Bateson fez o trajeto oposto. Ele fugiu do determinismo físico que tudo explica na mecânica Newtoniana para um “determinismo mental” mais circunscrito (Bateson, 1972j, p.465) do mundo da Creatura.

…além do (e sempre em conformidade com) o determinismo físico familiar que caracteriza nosso universo, há um determinismo mental. Este determinismo mental… é especialmente complexo e evidente naquelas seções do universo que estão vivas, ou que incluem coisas vivas (Bateson, 1972j, p.465)

O argumento ontológico de Maturana é de que o mundo é determinado estruturalmente (Maturana, 1975, 1978). O que ele quer dizer com isto é que o comportamento de todas as unidades compostas, quer sejam sistemas vivos ou objetos inanimados, são plenamente determinados por suas estruturas (i.e., pelos componentes da unidade e pelas relações entre estes componentes). Em outras palavras, o conceito de determinismo estrutural de Maturana generalizou seu pensamento anterior sobre a clausura dos sistemas vivos. O comportamento de um sistema vivo em seu meio é um caso específico do geral – de que vivemos em um mundo de entidades determinadas estruturalmente!

A estrutura de um objeto determina seu comportamento por especificar todas as interações das quais ele pode participar. Isto é, a estrutura de um objeto especifica quais eventos e seu meio podem interagir com o mesmo, e como ele se comportará sob qualquer e cada uma destas interações. Finalmente – e isto é importante – no sentido de evitar confundir o conceito de estrutura em Maturana com outras noções de estrutura que o leitor possa ter encontrado anteriormente – é crucialmente importante manter em mente que a estrutura não é algo estático. A estrutura se altera com cada interação da qual ela participa. Isto é especialmente verdade em relação à dinâmica dos seres vivos que estão continuamente atravessando mudanças em seus componentes e nas relações entre estes componentes.[3]

Com este único e audacioso apercebimento (i.e., o determinismo estrutural), Maturana resgatou o grande universo mecanístico vislumbrado por Newton – mas com uma diferença. O determinismo de Maturana difere do de Newton de uma maneira que, elegantemente, é mais adequada ao universo relativístico, Einsteiniano. Newton caracterizou um mundo mecanístico no qual forças e impactos determinavam causalmente o comportamento de objetos. Maturana insiste em que esta visão do determinismo causal é ontologicamente impossível. Forças e impactos não podem especificar e não identificam, ou instruem, o comportamento de um objeto. Ele são apenas uma ocasião histórica na qual o sistema prossegue em seu comportamento estruturalmente determinado.

Bateson (1972b, 1972f, 1979) faz uma distinção similar entre a mecânica Newtoniana e o mundo dos processos mentais, mas tende a focalizar a discussão em termos da energia. Ele diz que:

“quando eu chuto uma pedra, transfiro energia para a pedra e ela se move com aquela energia; quando eu chuto um cachorro, é ´verdade que meu chute tem em parte um efeito Newtoniano…mas esta não é a essência do assunto. Quando eu chuto um cachorro, ele se move com energia de seu próprio metabolismo…Esta energia já está disponível no respondedor, antes do impacto dos eventos” (Bateson, 1979, p.101).

Em certo ponto, Bateson concede que “Eu super-simplifiquei o assunto ao focalizar somente a energética porque há também a generalização…de que somente a diferença pode desencadear uma resposta (Bateson, 1979, p.102).

Esta qualificação aproxima a análise de Bateson da de Maturana, mas a distância entre os dois permanece considerável; Bateson prossegue com sua análise de diferenças (a diferença que faz diferença) em termos de “codificação e a gênese de hierarquias de significado” (Bateson, 1979, p.102), enquanto Maturana explicitamente rejeita a ambos.

Como iremos entender nossa convicção (e nossa experiência) de que uma coisa causa o que acontece a outra? Para Maturana, a palavra causa é sinônimo de interação instrutiva, é acreditar que A, unilateralmente, determina como B responderá; a aula de um professor causa uma compreensão idêntica em todos os alunos na classe, que darão respostas idênticas em seus exames; um terapeuta familiar usa uma intervenção particular que sempre produz exatamente a mesma resposta em todo cliente e toda família; e assim por diante. Então, quando Maturana diz que a causalidade é impossível, ele quer dizer que a aula do professor não determina a resposta de seus estudantes (o que seria uma interação instrutiva). A aula do professor seleciona as respostas dos estudantes, mas foi sua estrutura o que determinou suas respostas. Selecionar é semelhante a apertar um dado botão em uma máquina de vender refrigerantes. Apertar um dado botão, resulta na saída de uma dada marca de refrigerante. Em essência, Maturana afirma que o uso cotidiano da palavra “causa” sempre implica ou ameaça implicar uma determinação no sentido de uma interação instrutiva – embora a “causa” seja sempre uma forma de selecionar. Então, ele afirma que a causalidade é impossível. (Para evidências da preocupação de Maturana com nossa compreensão de “causalidade”, ver Dell, 1984a.)

Uma interação instrutiva fala de uma causalidade linear. Bateson se aproximou, mas nunca chegou a descrever a causalidade linear como um fenômeno que implicaria interações instrutivas. Todos os seus esforços em descrever a causalidade linear estavam inseparavelmente ligados à causalidade circular. Penso que o tempo demonstrará que a dicotomia entre interação instrutiva versus determinismo estrutural será mais útil que a dicotomia entre causalidade linear e causalidade circular.

Maturana afirma que nossas convicções em relação à ocorrência da causalidade é uma consequência epistêmica de nosso estado ontológico; (a) existimos no mundo físico e (b) operamos como observadores neste mundo (Maturana, 1978). Como observadores, pontuamos o que vemos como algo que envolve causalidade, e, portanto, caracterizamos o mundo em que vivemos como um mundo causal:

“A noção de causalidade é uma noção que pertence ao domínio das descrições e, como tal, ela é relevante somente no meta-domínio no qual o observador faz seus comentários e não pode ser considerada como operativa no domínio dos fenômenos, que são o objeto da descrição” ( Maturana, 1980b, p. xviii, ênfase adicionada).

Desde nossa perspectiva como observadores, atribuímos prioridade causal ao agente ativo que “causa” (mas, na realidade, seleciona) outro objeto que sofre uma mudança particular (por exemplo, a bolha de bilhar que se move “causa” o movimento da bola estacionária com a qual colide). Pontuando as interações desta maneira, ignoramos o fato de que é a estrutura do segundo objeto (a bola estacionária) que determina se ela pode ser perturbada, e como ela será perturbada por outros objetos:

Os estados e transições de estado de qualquer sistema são determinados por sua organização (hoje, Maturana diria sua estrutura). Assim, os estado dos órgãos sensoriais e do organismo (sistema nervoso) assim como suas transições, são necessariamente determinados por sua organização (novamente, Maturana diria sua estrutura) e o ambiente como agente perturbador pode apenas agir como uma instância histórica para sua ocorrência, mas não para sua determinação (Maturana, 1974, pp.458-459).[4]

Bateson se referiu a este mesmo fenômeno de conferir prioridade ao agente “causal” (e ignorar a estrutura daquele sobre o qual a ação se dá) como a invocação de “princípios dormitivos” (1979., p.85). Na peça de Moliere “Le Malade Imaginaire” :

“…vemos no palco um exame oral de um candidato a médico. Os examinadores perguntam ao candidato porque o ópio põe as pessoas a dormir. O candidato responde triunfantemente, “Porque, sábios doutores, o ópio contém um princípio dormitivo” (Bateson, 1979, p.85). Assim, ironicamente, Bateson se refere a esta explicação unilateral de explicações causais, como “explicações dormitivas” (Bateson, 1979, p.85)[5]

Quando estamos inadequadamente ligados a algum aspecto de nosso mundo, começamos a ver que A não causa B unilateralmente. Por exemplo, Bateson (1972d, 1972g) apreciava descrever as dificuldades vividas por Alice (na estória de Lewis Carroll, Alice in Wonderland) quando ela tentou jogar croquet usando um flamingo como taco e um porco espinho como bola. O flamingo que estava sendo balançado para colidir o lado de sua cabeça com uma bola que era o porco-espinho, não queria aceitar este destino e movia a cabeça para evitar esta indignidade. Similarmente, o porco espinho, percebendo que seria atingido pela ave pernalta, se esquivava e se contraía ainda mais em uma bola espinhenta (que, é claro, só aumentava a motivação do flamingo de contorcer-se para evitar ser multiplamente empalado). Não é preciso dizer, Alice tinha grande dificuldade em se acoplar ao flamingo e ao porco-espinho de maneira a fazer a “bola” correr por onde deveria. Durante o jogo, obviamente, ela teve muito pouca vivência de que efetivamente estava “causando” o que ocorria.

O que é crucial compreender neste ponto é que não há diferença fundamental entre nossa interação cotidiana com o mundo e a interação de Alice com o flamingo e o porco-espinho. Toda interação envolve acoplamentos determinados estruturalmente entre objetos. Se somos capazes de nos acoplarmos a objetos de tal forma que podemos desencadear um resultado previsto ou desejado, então viveremos a experiência psíquica da causalidade.

A experiência psíquica da “causalidade” nunca envolve nem pode envolver interações instrutivas. As interações consistem (e só podem consistir) de encaixes, combinações, acoplamentos. No sentido de termos experiências psíquicas (e epistemológicas) de causar alguma coisa (fazê-las acontecer), precisamos nos encaixar na situação. Precisamos acoplar nossa estrutura às estruturas com as quais estamos lidando. Por exemplo, um adulto pode andar neste planeta somente porque ele ou ela se encaixa, ou se acoplou, à gravidade. As técnicas de uma mãe para criar um bebê podem funcionar muito bem com sua primeira criança e falar lamentavelmente com a segunda. Por que? Porque é a estrutura da criança o que determina como ela se comportará, e não a técnica materna. Então, se a mãe quer ser efetiva com a segunda criança, ela precisa descobrir e usar somente aqueles métodos que servem, a aquela criança, aquelas que se acoplarão com sua personalidade ou disposição. Em resumo, o conceito de determinismo estrutural de Maturana nos obriga a examinar muito de nosso pensamento indiferenciado sobre a natureza da causalidade.

                  Consequências do determinismo estrutural

Com a introdução acima sobre o determinismo estrutural, podemos agora citar seis (no mínimo) implicações da afirmação ontológica de Maturana de que vivemos em um mundo estruturalmente determinado. Primeiro, a consequência epistemológica é que o conhecimento objetivo é impossível. Não podemos receber informação objetiva sobre o mundo. O que podemos conhecer é sempre função da interação entre nossos corpos estruturalmente determinados e o mundo “lá fora”:

“O conhecer implica interações, e não podemos sair de nosso domínio de interações, que é fechado. Vivemos, portanto, em um domínio de conhecimento dependente-do-sujeito e realidade sujeito-dependente…De fato, qualquer conhecimento sobre uma realidade transcendente absoluta é intrinsicamente impossível; se uma suposta realidade transcendental fosse se tornar acessível à descrição, então ela não seria transcendental porque a descrição sempre implica interações e, portanto, revela somente uma realidade sujeito-dependente (Maturana, 1970, p. 60).

Então só podemos conhecer o mundo através das lentes estruturalmente determinadas de nossos próprios corpos. Por esta razão, Maturana, meio em um gracejo, insiste em que: “Estamos no mundo como que pendurados por uma corda, mergulhando em várias sopas e descrevendo o mundo pelas mudanças de estado de acordo com estas sopas em particular nas quais fomos imersos” (Maturana, 1981).

Tanto Maturana quanto Bateson concordam com a impossibilidade de informação objetiva, mas com uma diferença muito importante. A posição de Bateson implica em uma epistemologia sujeito-dependente, enquanto que Maturana envolve tanto uma epistemologia sujeito-dependente quanto uma ontologia “sujeito”-dependente ou relativista. Isto é, dois sistemas estruturalmente determinados podem interagir porque suas estruturas mutuamente especificam que eles são capazes de representar perturbações um para o outro; eles interagem porque podem interagir. O determinismo estrutural de Maturana não diz nada sobre um mundo “real” ou objetivo. Por sua vez, a posição de Bateson conserva alguns traços notáveis de objetividade. Em particular, ele fala de um conceito de diferença como se ela fosse objetiva. Sua expressão novidades de diferença (Bateson, 1979, p. 29) implica em que há diferenças objetivas “lá fora”. Ele chamou estas diferenças das quais recebemos “novidades” e “diferenças efetivas” (Bateson, 1979, p. 99) ou “diferenças latentes”, isto é, aquelas que por alguma razão não fazem uma diferença.” (Bateson, 1979, p. 97). Ele acreditava que “toda percepção de diferença é limitada pelo limiar”(p.29). “Diferenças que são muito leves ou são apresentadas muito lentamente, não são perceptíveis (p. 29). Em resumo, a discussão de Bateson sobre diferenças parece afirmar que existe um mundo objetivo “lá fora”, mas que não podemos receber informações não filtradas do mesmo. Esta objetividade que está sem dúvida gravada na discussão de Bateson sobre diferenças provavelmente é uma consequência direta do foco que ele manteve na epistemologia, enquanto ignorava a ontologia. Isto é, Bateson insistia em que o conhecimento objetivo (isto é, a epistemologia) era impossível: sua incapacidade total de confrontar a ontologia, no entanto, permitiu que a objetividade continuasse a existir – “lá fora”. Ocorre apenas que não podemos conhecê-la (isto é, não podemos conhecer a ding and sich (kantiana)).

Um corolário ao entendimento de Maturana sobre a impossibilidade do conhecimento objetivo é sua insistência em que um organismo não possui uma representação interna ou codificação do mundo exterior. A posição de Maturana está em nítido contraste com Bateson que colocava tal representação codificada no centro de sua compreensão dos processos mentais: “Nos processos mentais, os efeitos da diferença devem ser considerados transformações (isto é, versões codificadas) dos eventos que os precederam”(Bateson, 1979, p.92). Maturana considera uma posição assim (como a de Bateson) indefensável, por exemplo, quando ele demonstrou que nenhuma correlação podia ser estabelecida entre cores (definidas por energias espectrais, comprimentos de onda) e as relações de atividade elétrica em células ganglionares da retina, quer de pombos, quer de seres humanos (Maturana, Uribe & Frenk, 1968). Em vez disso, ele achou que o sistema nervoso demonstra suas próprias correlações internas: as relação de atividade (elétrica) interna das células ganglionares da retina se correlacionavam com o nome dado às cores (mas não com as cores como definidas por seus comprimentos de onda)! A implicação deste achado é que o sistema nervoso funciona como um sistema fechado, internamente consistente e não contém representações ou transformações codificadas do ambiente:

“…noções de representação e de codificação da informação têm validade apenas para descrever as interações do observador com o organismo observado quando o observador considera o sistema nervoso como um sistema aberto, e não para a caracterização da organização do sistema nervoso como uma rede neuronal. Em outras palavras, o observador que vê o organismo em suas interações com o meio, pode tratar as mudanças que o organismo atravessa como representações das circunstâncias de suas interações, e descrevê-lo nestes termos, mas ao fazer isto ele descreve um sistema diferente daquele que o organismo com seu sistema nervoso efetivamente é.” (Maturana, 1974, p. 469)

Segundo, como já descrito, uma causalidade que envolve interações instrutivas é ontologicamente impossível.

Terceiro, porque tal causalidade é impossível, o controle também é impossível. Sistemas podem ser acoplados uns aos outros (por exemplo, a mãe que usa técnicas eficazes de educação), mas o controle, no sentido de interações instrutivas, é ontologicamente impossível. Como notado acima, Bateson também, por motivos diferentes dos de Maturana, considera tentativas de controle como um erro epistemológico: “Nós não vivemos em um tipo de universo no qual o controle simples linear seja possível. A vida não é assim.” (Bateson, 1972a, p.438).

Muitas vezes se afirma que os sistemas são organizados de forma hierárquica. Esta afirmação é feita porque é conveniente para um observador descrever ou pontuar um sistema em termos da metáfora da hierarquia. Entretanto, precisa ser entendido que todas as noções de controle hierárquico estão sujeitas às mesmas restrições mencionadas acima. A hierarquia aparente que percebemos em famílias e outros sistemas se devem à nossa maneira de focalizar uma sequência discreta, particular de comportamento. Qualquer sequência de comportamento que foi isolada do sistema total, parecerá hierárquica necessariamente. Isto é, um componente da sequência de interações sempre parecerá “controlar” ou desencadear o comportamento e um outro ou mais componentes.

Quarto, sistemas estruturalmente determinados são necessariamente “perfeitos”. Em qual sentido? São perfeitos no sentido de que nunca erram; sempre operam de acordo com sua estrutura. Portanto, onde quer que digamos que um organismo cometeu um erro, estamos usando um objetivo não alcançado como nosso ponto de referência; não estamos usando a estrutura do organismo como nosso referencial. Se a estrutura do organismo fosse nosso ponto de referência veríamos que (a) ele está se comportando “perfeitamente” e (b) que ele está se comportando da única maneira que pode se comportar naquelas circunstâncias: está se comportando de acordo com sua estrutura. É irônico notar, neste aspecto, que o que chamamos de “erros” possam de todo ocorrer! Quer dizer, é somente porque um sistema opera de acordo com os ditames autônomos de sua estrutura que ele pode estar “fora de compasso” com o seu meio.” “Se não fosse o caso de que as perturbações constituem apenas circunstâncias desencadeantes para mudanças de estado internamente determinadas, o comportamento inadequado, isto é, o comportamento que, para um observador, parece estar fora de contexto, nunca ocorreria.” (Maturana, 1975, p.327)

A extensão pela qual o argumento acima, com relação à operação perfeita de sistemas estruturalmente determinados, pode parecer ao leitor difícil, e/ou trivial, e/ou perturbador, na medida que ela ou ele está comprometido com explicações semânticas ou contextuais, em contraste com explicações estruturais. Explicações semânticas e contextuais tomam a seguinte forma: “Ele está fazendo isto por causa de (alguma coisa que se passa ou se passou); ou, “ela está fazendo isto para conseguir alguma coisa no meio; ou, “a função deste comportamento é” (realizar isto, dar conta daquilo, etc.). Estas considerações nos trazem à próxima implicação importante do determinismo estrutural.

Quinto, um sistema estruturalmente determinado funciona apenas de acordo com sua estrutura e não de acordo com propósitos (Maturana, 1974, 1975, 1978, 1980a, 1982a; Maturana & Varela, 1973), Tais explicações “propositais” da operação de sistemas determinados estruturalmente existem apenas no domínio das descrições de um observador:

“…o valor semântico de uma interação … não é uma propriedade da interação, mas sim um aspecto da descrição que o observador faz referindo-se a ela como se as mudanças de estado dos sistemas em interação fossem determinadas por suas perturbações mútuas, e não por suas respectivas estruturas individuais” (Maturana, 1975, p.330).

Em outras palavras, explicações em termos de propósito e função (isto é, aqueles que significativamente relacionam o comportamento de um organismo ao seu contexto) são do mesmo tipo que explicações da adaptação evolutiva que afirmam coisas tais como “o Homo sapiens desenvolveu a oposição do polegar para manipular ferramentas”. De acordo com Maturana, descrições semânticas/contextuais que pretendem ser mais que meras metáforas, são intrinsicamente inadequadas e falaciosas” (Maturana, 1975, p.322).

As opiniões de Bateson neste assunto parecem muito diferentes. Ele considerava o contexto como essencial a todos os processos mentais: “Sem contexto, palavras e ações não têm qualquer significado. Isto é verdade não apenas da comunicação humana em palavras, mas também de toda a comunicação, qualquer que seja ela, de todos os processos mentais, de toda a mente, inclusive aquela que orienta a anêmona marinha sobre como crescer, e a ameba o que ela deve fazer em seguida.” (Bateson, 1979, p.15). Entretanto, na verdade, Maturana concordaria substancialmente com Bateson, mas passaria a argumentar que a posição de Bateson inevitavelmente o levaria à desorientação porque Bateson não inclui o determinismo estrutural em seu entendimento do contexto.

A sexta implicação importante do determinismo estrutural é talvez a mais importante de todas. O determinismo estrutural implica diretamente um fenômeno que Maturana denomina acoplamento estrutural (Maturana, 1975, 1978, 1980a, 1980b, 1982b, Maturana & Guiloff, 1980). O determinismo estrutural é a descrição que Maturana faz da relação entre uma entidade determinada estruturalmente e o meio no qual ela existe. A significância do acoplamento estrutural é que ele é o fenômeno fundamental do determinismo estrutural. O acoplamento estrutural é que nos deu o universo organizado no qual vivemos. Ele organiza e é constitutivo de todo sistema complexo que existe ou tenha existido. Epistemologicamente, o acoplamento estrutural é o fenômeno que nos dá a ciência. Ontologicamente, o acoplamento estrutural é um sinônimo da existência. Fenomenologicamente é o processo nos sistemas vivos que tem sido rotulado equivocadamente como “homeostase”, “hierarquia” ou as “regras” do sistema (Dell, 1982, 1984b).

Comecemos com a ontologia. Aquilo que existe precisa estar estruturalmente acoplado ao mundo no qual existe; aquilo que não esteja estruturalmente acoplado ao mundo, não pode existir (naquele mundo). “O acoplamento estrutural como a relação de complementaridade entre uma unidade e seu meio…é uma condição constitutiva da existência de toda unidade (Maturana, 1982b). Um objeto estruturalmente determinado é acoplado ao mundo (no qual ele existe) enquanto as interações com este mundo não levarem o objeto a se desintegrar. Se as interações levam o objeto a se desintegrar, então o objeto não existe mais e, claro, não está mais estruturalmente acoplado (ao mundo no qual ele costumava existir). À primeira vista , este equacionamento do acoplamento estrutural com a existência parece ser quase trivial. Afinal, o que se ganha por afirmar que uma rocha, porque ela existe, está estruturalmente acoplada ao mundo? Muito.

Para começar, o acoplamento estrutural é o fenômeno que subjaz e, de fato, constitui aquilo a que usualmente nos referimos como “cognição” (Maturana, 1970a, 1970b, 1974), ou “inteligência” (Maturana & Guiloff, 1980) e aquilo que Bateson ( 1972, 1979) denominou “mente”. Estar acoplado estruturalmente é comportar-se de forma inteligente (Maturana & Guiloff, 1980). O comportamento mais fundamental é existir. Uma rocha sabe como existir. De maneira análoga, podemos ver que o conhecimento mais fundamental que um ser vivo precisa possuir, é como sobreviver. Se um organismo é capaz de continuar funcionando como uma unidade autopoiética (isto é, viva), então, este organismo está estruturalmente acoplado ao seu meio. Isto é, suas interações com tal meio não resultam na destruição do organismo. Então, como Maturana tem argumentado, conhecer é viver – e existir como um ser vivente é se comportar inteligentemente. (Maturana & Guiloff, 1980). Tudo que os psicólogos têm rotulado de “inteligência” está baseado e é indistinguível do acoplamento estrutural que permite a um organismo continuar vivendo em seu meio. Bateson (1979) disse que a epistemologia precisa incluir todos os vários saberes de que a Creatura é capaz.

“…entre as coisas que estas criaturas variamente conhecem, eu incluí “como crescer com um simetria pentamérica”, como sobreviver a um fogo na floresta”, “como crescer e ainda assim manter a mesma forma”, “como escrever”. “como redigir uma Constituição”, “como inventar e dirigir um automóvel”, “como contar até sete”, e assim por diante.” Bateson, 1979, p.4)

A implicação do trabalho de Maturana é que a ontologia inclui o conhecimento mais fundamental de todos – “como existir”.

Agora, é óbvio que o comportamento complexo dos mamíferos parece muito diferente da conduta de uma simples rocha ou pelas formas mais primitivas de vida. Há algo sobre a natureza do acoplamento estrutural dos mamíferos ao seu meio que nos faz querer chamar estes animais de “inteligentes”, enquanto resistimos à ideia de que rochas e protozoários são “inteligentes”. Qual é a diferença?

A evidência mais imediata, é claro, é que os mamíferos são mais complexos que as formas mais primitivas de vida e entidades não-vivas. Isto é, os mamíferos têm um domínio mais amplo de estados possíveis que um paramécio ou uma rocha. A complexidade, porém, não é a diferença crucial. A diferença crucial desta complexidade está baseada na plasticidade estrutural. Um sistema estruturalmente plástico é um sistema que atravessa mudanças estruturais como resultado de suas interações consigo mesmo, com o meio e com outros sistemas estruturalmente plásticos. Em outras palavras, embora a estrutura de um sistema determine como ele “reagirá” a uma perturbação particular em um dado instante, esta interação, por sua vez desencadeia mudanças estruturais que alterarão a conduta futura do sistema. Então, um sistema estruturalmente plástico é um sistema que aprende.

É a plasticidade estrutural que cria diferenças no comportamento entre um mamífero e uma rocha e nos faz chamar um de inteligente e o outro não[6]. Isto é, quando quer que um sistema estruturalmente plástico esteja estruturalmente acoplado ao seu meio, este sistema parecerá se comportar inteligentemente porque sua plasticidade resulta em suas contínuas mudanças em suas “respostas” ao meio. E, enquanto o animal vive, seu comportamento será, por definição, adequado ao seu meio. Este seria o requisito mínimo para julgar que um organismo tem inteligência: seu encaixe em seu meio. Além disso, enquanto o animal sobrevive, seu comportamento ao longo do tempo se tornará mais ricamente acoplado às perturbações regulares do seu meio:

“Se o organismo e seu sistema nervoso são estruturalmente plásticos, a realização contínua da autopoiese necessariamente resultará no acoplamento estrutural do organismo e do sistema nervoso um ao outro, e ao meio no qual a autopoiese é realizada.” (Maturana, 1975, p.311).

Este fenômeno é profundamente importante porque o acoplamento estrutural é o elemento construtor de todos os sistemas interacionais humanos e animais. Isto é, enquanto sobrevive, um sistema estruturalmente plástico automaticamente e rapidamente se tornará ricamente acoplado ao seu meio. Então, se o meio consiste de outros sistemas estruturalmente plásticos, segue-se que estes sistemas se tornarão mais ricamente acoplados uns aos outros. Além disso, este acoplamento “é uma consequência necessária de sua interação e é tanto maior quanto maior for a interação que se dá (Maturana, 1975, p. 327). Bateson descreve o mesmo fenômeno em termos da tautologia da auto-cura: “Deixada a si mesma, qualquer grande parte da Creatura tenderá a se acomodar na tautologia, isto é, na consistência interna de ideias e processos. (Bateson, 1979, p.206)

Neste ponto, parte do significado da ontologia de Maturana para as ciências sociais se torna aparente. Sistemas vivos estruturalmente determinados automaticamente se tornam organizados com sistemas interativos. Quando quer que dois ou mais sistemas vivos estruturalmente plásticos interagem, eles começam a coevoluir em um padrão fechado de interações. Eles formarão um sistema. Quando um sistema é entendido em termos do acoplamento estrutural, pode ser visto que não há necessidade de explicar a organização do sistema em termos de homeostase, ou regras sistêmicas, ou hierarquias de controle (Dell, 1982, 1984b). O sistema surge naturalmente da maneira que seus componentes estruturalmente plásticos se encaixam. Tal sistema resulta de, e é o acoplamento estrutural de seus componentes. O sistema é a maneira pela qual seus componentes se encaixam. Consequentemente, não há processos sistêmicos que criam, regulam ou mantêm o sistema: todo o comportamento do sistema deriva diretamente da interação de seus componentes estruturalmente determinados. Ideias tais como homeostase, regulação, regras sistêmicas e assim por diante, são meramente descrições do funcionamento de um sistema feitas por um observador. Tais descrições não têm valor explicativo porque elas não se referem a processo algum que esteja na realidade operativo dentro do sistema. “Controle e regulação não são fenômenos operacionais que se realizem nas interações efetivas dos componentes de uma unidade composta dinâmica: elas são descrições do curso destas interações, feitas por um observador…(Maturana, 1982b).

 

De Bateson a Maturana

Bateson inovou a mente (“um conjunto de partes ou componentes em interação…desencadeadas por diferença”). Bateson , 1979, p.92) tanto como um princípio explicativo quanto como sua unidade fundamental de análise. De acordo com isto, ele explicou o comportamento de qualquer organismo, não em termos do próprio organismo, mas em termos do organismo como uma parte interativa de uma mente maior (ver especialmente Bateson, 1972c, 1972e). Similarmente, Bateson afirmava que a unidade fundamental de sobrevivência evolutiva não é o organismo ou a espécie, mas sim o organismo-mais-meio (isto é, a mente). Ele denominou esta visão de epistemologia cibernética.

“A mente individual é imanente não somente no corpo. Ela é imanente também nos trajetos e mensagens for do corpo; é há uma mente maior da qual a mente individual é somente um subsistema. A mente maior é comparável a Deus e é talvez aquilo que algumas pessoas entendem por “Deus”, mas ainda assim, ela está imanente no sistema social total e na ecologia planetária.” (Bateson, 1972e, p.461)

Nos termos de Maturana, o que Bateson chamou de “mente” seria o acoplamento estrutural dos organismos vivos uns aos outros e os nichos nos quais eles existem. Aqui está o centro da diferença entre suas visões. Bateson vê a mente como fundamental (primário), enquanto para Maturana, o que Bateson chamou de “mente” (isto é o acoplamento estrutural) é derivado (secundário ao) do determinismo estrutural.

                  Bateson afirmou que a visão sistêmica constituía a epistemologia correta do mundo vivo, mas seu pensamento não explica como isto deveria ser assim. A ontologia estruturalmente determinada de Maturana oferece uma resposta a esta questão. O mundo vivo é organizado sistemicamente porque a organização sistêmica (isto é, o acoplamento estrutural, ou a mente) é uma consequência necessária da interação de sistemas vivos estruturalmente determinados. Enquanto eles vivem e interagem entre si, os sistemas vivos automaticamente se tornam acoplados de tal maneira que eles formam um sistema interacional fechado. Em outras palavras, o conceito de determinismo estrutural de Maturana gera e elabora a epistemologia cibernética de Bateson. Além disso, o determinismo estrutural esclarece o trabalho de Bateson por remover os resquícios de objetividade (ver páginas 6 e 7 deste texto).

Com sua visão eco-sistemica do mundo, Bateson elevou a cibernética e a Teoria dos Sistemas ao status de uma “epistemologia” . Além disso, ele parece afirmar que a epistemologia da visão sistêmica é a epistemologia correta do mundo. Em sua visão, a falta do reconhecimento de que vivemos em uma epistemologia cibernética quase sempre resulta em um erro epistemológico. Assim, muitas vezes Bateson pregou contra o perigo dos erros epistemológicos que poderiam, segundo ele, provocar catástrofes inter-pessoais e ecológicas. A primeira orientação que emerge da epistemologia de Bateson é que “nenhuma parte de tal sistema internamente interativo pode ter controle unilateral sobre restante do sistema ou sobre qualquer outra parte.” (Bateson, 1972c, p.315). O erro epistemológico ocorre quando quer que esta orientação seja violada.

O conceito de erro epistemológico de Bateson é realmente uma afirmação sobre a natureza da causalidade. É realmente uma reiteração do persistente desencanto de Bateson com a causalidade linear. Durante os anos 1950, Bateson compreendeu que a organização circular de um sistema impossibilitava a operação de processos lineares-causais dentro do sistema. De acordo com ele, sistemas são organizados por processo circulares ou de mutualidade. Eventualmente, Bateson veio a acreditar que o mundo inteiro das criaturas vivas era um gigantesco sistema, uma “unidade sagrada”. Este apercebimento fez Bateson desacreditar ainda mais da causalidade linear, porque ele passou a crer que A Creatura inteira é regrada por processos circulares-causais. Em consequência, a epistemologia cibernética de Bateson não deixa espaço para a causalidade linear – pelo menos no mundo dos seres vivos. Qualquer tentativa de introduzir a causalidade linear no mundo da Creatura seria um erro epistemológico. Porque? Porque “nenhuma parte de tal sistema internamente interativo pode ter controle unilateral sobre restante do sistema ou sobre qualquer outra parte” (Bateson, 1972c, p.315)

Em um mundo estruturalmente determinado, não é possível a um objeto instruir o comportamento de outro objeto. O ditado de Bateson de que a parte não pode controlar o todo, é provavelmente a maneira pela qual o determinismo estrutural e a impossibilidade das interações instrutivas eram percebidos por ele. A impossibilidade de controle linear dentro de um sistema, no entanto, é somente um caso específico do geral (o fenômeno do determinismo estrutural). Isto é, Bateson argumentou que a parte não pode controlar o todo porque a parte é, na verdade, parte do sistema, e é, portanto, sujeita aos processos circulares-causais dos quais ela participa. No entanto, mesmo que a “parte” (o objeto) fosse externa ao sistema, ela ainda não poderia exercer controle porque o determinismo estrutural torna interações instrutivas ontologicamente impossíveis. Então, agora pode ser visto que aquilo que Bateson denominou “erro epistemológico”, Maturana chamou de Falácia das interações instrutivas (Ver Dell, 1984a).

 

Biologia e as ciências sociais

Os esforços de prover as ciências sociais e do comportamento com uma fundação sólida têm sido notoriamente mal sucedidos. Como Bateson (1972j) assinalou, as ciências sociais são compostas de: (a) um labirinto de conceitos imperfeitamente definidos (p.xviii), (b) que são pobremente relacionados entre si, e (c) não têm uma base comum como aquela que têm os conceitos da Física e da Química. Os teóricos das ciências do comportamento hesitaram, por um lado, entre tentativas (fracassadas) de emular as ciências duras, e, por outro lado, declarações insistentes de que as ciências sociais são radicalmente diferentes da Física e da Química. Através dos anos, muitas metáforas explicativas (por exemplo, a mecânica Newtoniana, a eletricidade, a hidráulica, a termodinâmica, o processamento de informações, etc.) foram usadas para gerar terias dos fenômenos sociais. Cada uma destas metáforas tem um lado interessante, mas, em última análise, insatisfatório. Esta situação crônica de teorias inadequadas deixou os cientistas sociais na defensiva perante seus colegas nas ciências exatas.

As dificuldades intrínsecas às ciências sociais são pelo menos de duas naturezas. Primeiro, qualquer tentativa rigorosa de estudar o âmbito dos seres humanos é rapidamente confrontada com o problema do observador e as questões relativas ao status epistemológico da objetividade. Em contraste, as ciências exatas apenas esporadicamente são afligidas por estes irritantes problemas. Segundo, compreender, uma capacidade com a qual apenas os seres humanos são abençoados, é intrinsicamente a essência de qualquer ciência social (Geisteswissenschaften). O tema das ciências exatas (Naturewissenschaften) não tem necessidade – na realidade, não tem lugar – para o compreender. Elas procedem através das explicações científicas. Muitos teóricos acreditam que a divisão entre ciências sociais e naturais, entre o compreender e o explicar, é tão profunda e tão fundamental que uma verdadeira ciência (ciência no sentido concebido pelos cientistas exatos) do âmbito social é simplesmente impossível. Até o presente, nenhum cientista social ou filósofo de ciência foi bem sucedido em propor uma fundação adequada (isto é, de aceitação geral) para as ciências sociais. É neste aspecto que o trabalho de Maturana pode ser útil.

A biologia ontológica de Maturana (juntamente com a epistemologia cibernética de Bateson, altamente compatível) pode finalmente prover uma fundação sólida para as ciências sociais [7], porque seu trabalho está endereçado, simultaneamente, (a) ao problema do observador; (b) ao status epistemológico da objetividade e (c) à relação entre Geisteswissenschaften e Naturewissenschaften. Em termos simples, a hipótese geradora de Maturana (o funcionamento estruturalmente determinado de unidades autopoiéticas em acoplamento estrutural com seu meio) fornece uma explicação singular e consistente de como surge a linguagem humana e em quê consiste a linguagem, e dos três problemas mencionados acima.

Maturana (1978) mostrou que a linguagem não está localizada no cérebro; muito ao contrário, ela surge e existe somente na elaboração concreta de nosso acoplamento estrutural com outros organismos estruturalmente plásticos e altamente estruturados em nosso meio. Esta forma particular de acoplamento estrutural (isto é, coordenação de coordenações de conduta) é constitutiva de nossa existência como seres humanos e parece ser possível sob certas circunstâncias em chimpanzés, gorilas e talvez golfinhos. É através desta elaboração do acoplamento estrutural que a realização de distinções se torna possível e que surgem, então, os objetos (Maturana afirma que os objetos não existem antes da linguagem.)

Um organismo que faz distinções (porque ele coordena coordenações de conduta com outros organismos) é um observador. Dado ao fechamento do sistema nervoso, pode ser entendido que a observação realizada por um observador não pode ser objetiva. Porque? Observações não podem constituir uma captação de verdades objetivas sobre o mundo porque elas são sempre apenas interações estruturais com o meio. Então, as distinções que surgem através da percepção na linguagem são determinadas pela estrutura do organismo e não pelo meio que ele ou ela observa. Significaria isto que o observador pode fazer qualquer observação (isto é, um observador solipsista)? Não, o observador não pode realizar qualquer observação; pode apenas fazer aquelas distinções que são permitidas em sua operação em acoplamento estrutural com o meio. Meu acoplamento estrutural com o meio é tal que não me permite muitas distinções (como cores no espectro ultravioleta).

O que é importante perceber aqui é que a percepção não é e nunca pode ser objetiva – e, ainda assim, todas as percepções são igualmente válidas, mesmo os elefantes cor de rosa vistos em uma alucinação alcoólica. O Freudiano clássico pode distinguir um complexo de édipo onde (a) um Kleiniano distinguiria identificações projetadas, (b) um terapeuta familiar estruturalista distinguiria fronteiras difusas, (c) um terapeuta estratégico veria mais da mesma solução sendo aplicada, e (d) um bêbado veria ainda mais elefantes cor de rosa. Nenhuma destas observações é objetiva, mas todas são válidas em que são especificadas pela estrutura do observador em conjunção com aquilo que a interação do observador com o meio permite. Por estas razões, Maturana insiste em que todas as realidades que trazemos à baila são legítimas.

A implicação de tudo isto é que nós, como seres humanos que vivemos na linguagem, vivemos em um multiverso, em vez de um universo. Isto é, cada uma das várias distinções que trazemos a baila em nossa interação estrutural com o meio, é singularmente legítima, inerentemente inteira e não intersectante (com outras distinções que são feitas pelo mesmo observador ou outros observadores). Distinções que parecem se sobrepor, ou nas quais uma parece ser colapsável em outra (por exemplo, páginas em um livro) não são exceções a esta regra. As distinções página e livro são basicamente não-intersectantes e parecem se sobrepor apenas quando um observador colapsa o multiverso em um universo porque ele acredita que os objetos têm uma existência objetiva (isto é, independentes de suas distinções). No multiverso, a verdade não é objetiva ou unitária – ela é múltipla. A verdade, então, se manifesta ao observador em cada uma e todas as distinções que ele faz.

Os sistemas sociais (tais como famílias) são distinções feitas pelo observador quando ele distingue um padrão organizado de interações entre organismos vivos. Não existem, entretanto, sistemas sociais objetivos – nenhuma forma, por exemplo, pela qual a família Smith exista. Em vez disto, cada observador (que distingue o que ele chama de “família Smith) fará sua distinção singular. Assim, terapeutas de diferentes escolas de terapia familiar farão distinções diferentes. Todos trarão à baila sistemas diferentes que cada um deles chamaria de “Família Smith”. E, a despeito do fato de que cada um trouxe à baila uma realidade diferente, uma verdade diferente, cada um será á capaz de trabalhar efetivamente com a “Família Smith”.

Isto, então, esclarece abundantemente que as perguntas relativas à unidade apropriada de tratamento (isto é, o casal, a família nuclear, a família estendida, redes, etc.), sobre o diagnóstico e a natureza da patologia, nunca podem ser resolvidas por apelos a um sistema supostamente objetivo que está diante de nós. Não há sistemas objetivos; há somente as várias distinções que diferentes observadores fazem.

 

                  Reprise: Biologia da Cognição e Epistemologia Cibernética

                  O trabalho de Maturana é um conjunto de distinções trazidas à baila por um observador que está operando em acoplamento estrutural com seu meio. Como todas as demais distinções, as distinções de Maturana são singularmente legítimas mas não pretendem o status de serem objetivamente verdadeiras. Ainda assim, elas são um conjunto de distinções enormemente abrangentes e poderosas. Plenamente atento para sua incapacidade como observador de evitar ilusões e de operar fora da linguagem, Maturana apresentou uma hipótese geradora: somos unidades autopoiéticas estruturalmente determinadas que operamos em acoplamento estrutural com nosso meio. Por sua vez, esta hipótese mostrou-se capaz de gerar (e, portanto, de explicar): (a) a relação entre o organismo e seu meio; (b) a natureza do acoplamento estrutural de um organismo a outro organismo; (c) a natureza dos sistemas sociais; (d) o modo pelo qual surge a linguagem; (e) a natureza da linguagem; (f) a natureza do observador; (g) a maneira pela qual nós – como observadores- operamos na linguagem, fazemos distinções, trazemos realidades à baila; e, portanto (h) como Maturana ele próprio, como tal observador, foi capaz de avançar esta mesma hipótese geradora que especifica tudo o que se propõe acima, incluindo seu próprio operar como um ser humano que faz tais distinções e avança tais hipóteses. Em outras palavras, sem escapar de sua condição constitutivamente limitada como um observador humano, ele delineou um mecanismo gerador de enorme poder explicativo e, ainda assim, inteiramente congruente com seu ponto de vista constitutivamente limitado como observador humano.

Finalmente, precisa ser enfatizado que, como Bateson antes dele, Maturana abordou os problemas humanos e sociais como um biólogo (e não como um filósofo). Ao nos devolver às origens biológicas de nossa existência – não da maneira reducionista da psiquiatria biológica ou da sociobiologia, mas em termos da biologia ontológica – Maturana (e Bateson) podem, afinal, estar nos oferecendo uma tão necessária base sólida para as ciências sociais e do comportamento.

 

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[1] Este texto é uma versão expandida e substancialmente revisada de uma palestra convidada intitulada “Da Epistemologia Sistêmica á Clínica” apresentada ao Seventh International Symposium of the Institute fuer Ehe und Familie, Zurich, Swtizerland, September 1981. Uma versão anterior foi publicada em Zeitschrift fue systemische Therapie 6, 1984.

Paul F Dell PhD é Professor Associado de Psychiatry and Behavioral Science, Eastern Virginia Medical School, and Diretor do Eastern Virginia Familiy Therapy Institute, 205 Business Park Drive, Virginia Beach, VA 23462.

[2] de trocas de energia e matéria com o meio; nesse aspecto os sistemas vivos são “abertos”, como propôs Ashby.

[3] Até o delineamento do conceito de determinismo estrutural e suas implicações, Maturana esteve pensando como um biólogo orientado epistemologicamente; desde então, em minha opinião, ele tem pensado como um biólogo orientado ontologicamente. Há uma convergência muito maior entre as ideias de Bateson e as de Maturana durante seu período inicial (Maturana 1970a, 1979b, 1974, 1978; Maturana & Varela, 1973) que durante o pensamento mais recente de Maturana (Maturana, 1975, 1978, 1980a, 1980b, 1982b) que explicitamente focaliza o determinismo estrutural.

[4] O conceito de determinismo estrutural em Maturana é fortemente similar ao conceito de “mônadas” de Leibniz: “ cada mônada é auto-suficiente; seu conceito contém todos os seus predicados, passados presente e futuro, então não pode ser afetada por nada fora de si mesma (McMullin, 1978, p.30) Então, falando estritamente, um corpo que colide com outro é uma ocasião para que as forças ativas internas ao segundo corpo se manifestem, mais que uma causa de seu movimento subsequente” (McMullin, 1978, p.31)

[5] NOTA: Bateson frequentemente usou o termo “explicações dormitivas” para se referir a explicações vazias (por exemplo, explicar a depressão de uma pessoa como se segue; Pergunta: Por que esta pessoa se comporta assim? Resposta: Porque ela está deprimida). Somente em uma de suas últimas publicações (1979) Bateson usa o termo “explicação dormitiva” para se referir a explicações unilaterais.

[6] Interessantemente, Bateson também comparou a sobrevivência continuada de uma rocha a uma estrutura vivente:

“…a maneira da rocha permanecer no jogo é diferente da maneira das coisas vivas. A rocha, podemos dizer,     resiste a mudanças, permanece, imutável. A coisa viva escapa da mudança quer por corrigir a mudança, ou incorporando um mudar contínuo em seu próprio ser. A “estabilidade” pode ser alcançada quer por rigidez, quer pela repetição contínua de algum ciclo de mudanças menores, cujo ciclo retornará a um status quo ante depois de cada perturbação” (Bateson, 1979, p. 103) A diferença entre a “inteligência” ontológica da rocha e a posição de Bateson reside em grande parte na preferência de Bateson por explicações contextuais em vez de explicações estruturais. Ao escolher explicar o comportamento das coisas em termos do contexto, Bateson é levado a descrever objetos e organismos em termos de sobreviver versus mudar. Esta é uma pontuação feita pelo observador sobre a interação. Mais importante, porém, é que Bateson focaliza a estabilidade ou a sobrevivência como processos ativos de oposição à mudança, via resistência, correção, adaptação ou incorporação. Mas pontuar a interação de tal maneira é incorrer na “falácia da resistência” (Dell, 1982) que admite que os eventos do meio deveriam mudar um sistema, e se eles não mudam o sistema, a estabilidade do sistema precisa ser explicada – via noções de resistência, homeostase, correção, adaptação, incorporação e assim por diante (ver Dell, 1984a, 1984b).

[7] De fato – e esta afirmação é de tal modo espantosa que a coloco e no rodapé para não assustar o leitor – a biologia ontológica de Maturana provê até mesmo uma fundação para a Física: a biologia da Física.