Blog da SBI

Concordar em discordar AGO-2011

Concordar em discordar

Nelson Vaz

25 de agosto de 2011

Companheiro,

Sobre Galileo, lembra? Que a ciência não nasceu quando ele virou seu telescópio para o céu e viu as luas de Júpiter. Nem quando ele publicou estes resultados. Nem quando as pessoas leram estes resultados. Mas, sim, quando seguiram o que Galileo dizia: “Não acreditem em mim: vejam vocês mesmos, olhem vocês mesmos!” E quando gente influente seguiu este conselho, olhou e viu e se convenceu de que havia algo ali e decidiram melhorar os telescópios e as condições de observação astronômica. A ciência nasceu pela coordenação consensual de condutas recursivas, nasceu pelo linguagear humano (Barry McMullin, In “Biology Language, Cognition and Society. International Symposium on Autopoiesis”. UFMG, Belo Horizonte, Novmbro 1997). Quando a gente concorda em discordar, em ouvir o outro, está praticando a melhor parte da prática dita científica, seu lado democrático. Na realidade, praticando o que nos faz humanos. Isto é o avesso da discórdia.

Nossa discordância sobre a atividade imunológica é elementar e, por isto mesmo, profunda. Discordamos sobre a definição de “conhecer”, de “cognição”. E quando achamos que há uma forma de “reconhecimento” nos linfócitos que se assemelha, de algum modo, ao que se passa quando nós, humanos, “conhecemos” alguma coisa ou fenômeno, podemos incorrer em vários enganos. Um deles é a “falácia merológica”; merologia é a parte da filosofia que estuda as relações entre partes e todos. Não deveríamos confundir o que fazem os linfócitos com o que faz o organismo inteiro. Há um livro (grande e complexo, mas muito importante), que discute isto em detalhe: “Bennett, M.R. and Hacker, P.M.S. (2003) Philosophical Foundations of Neuroscience. Blackwell, Oxford.” Outro engano, é a “falácia da univocidade”, supor que as reações imunológicas são unívocas (bi-unívocas) e se dão na base um-a-um: um antígeno (epitopo), um anticorpo (paratopo); ou, como no lema burnetiano: “uma célula, um anticorpo”. Não se passa assim, as relações são “mutlívocas” sempre plurais, sempre muitos a muitos, sempre talvez, sempre mais ou menos; como lembra o Chico: para sempre é sempre por um triz (em Beatriz). Outra ainda, e mais básica, é a falácia das interações “instrutivas”: a idéia de que, em suas mudanças, os sistemas seguem as interações com o meio, obedecem; a suposição de que o sistema é estimulado e responde; a crença de que o que acontece com o sistema determina (especifica) o que acontece no sistema. OS sistemas não obedecem ao meio em que operam. Esta é a falácia, o engano, que guia o neo-Darwnismo, a idéia de “adaptação” (o adaptacinismo: Gould, S.J. and Lewontin, R.C. (1979) The spandrels of San Marco and the Panglossian paradigm: a critique of the adaptationist programme. . Proc. R Soc. Lond. B 21, 581–598.) Esta crença, este engano, remove toda a autonomia do sistema. O sistema imune não é “adaptativo” porque ele está sempre adaptado ao seu meio, isto é, inserido no organismo do qual ele é parte; quando perde esta inserção, ele se desintegra (perde sua integridade, sua inteireza, seu conjunto – se deconjunta; partes (oligoclonais) do sistema se expandem sozinhas e geram o que chamamos doenças -infeciosas, alérgicas e autoimunes).

Há outras falácias mais. Mas, se agente continuar concordando em discordar, vai construindo um acordo, pouco a pouco, não é? Olha o sabiá cantando! É agosto e vai amanhecendo.