Inéditos

Consciência (2017)

Consciência

                  Como seres humanos, agimos como entidades que conhecem o meio em que vivem. O que fazemos? Distinguimos entidades, coisas, seres humanos, seres não humanos e coisas não-vivas – e fenômenos, ocorrências. Admitimos que os outros seres humanos e seres vivos que distinguimos neste meio também conhecem o meio em que vivem e agem sobre ele. E aqui podemos perguntar: O que precisamos observar para decidir que estamos diante de um ato cognitivo, que envolve um conhecer? A ciência nos diz que a sede da consciência humana está no cérebro humano. Mas seres vivos não-humanos também se comportam de forma adequada à continuação de seu viver no meio ao qual estão adaptados – peixes na ádua, pássaros em seu vôo, micróbios em seu mundo microscópico.

                  Que dizer em relação à “consciência” destes seres não-humanos? Alguns deles não possuem cérebros; outros – na verdade, os que são muito mais numerosos – não possuem sequer um sistema nervoso. No entanto, vivem suas vidas adequadamente. Uma planta, um microbio “sabem” viver suas vidas. Dificilmente atribuiremos a estes seres vivos uma “mente” similar à nossa, mesmo de maneira muito distante e opaca, mas o “viver” destes seres vivos continua a nos maravilhar como um processo muito antigo, delicado e plenamente integrado no meio em que vivem. Como podem estes seres vivos “saber” viver se, obviamente, não estão dotados de uma consciência como a nossa? Mas o problema é mais amplo: até que ponto nós mesmos, nossos organismos, dependem de nossa “consciência” para viver? Um ser humano em coma, mantido vivo por aparelhos, ainda é um Homo sapiens; seu organismo ainda desempenha suas funções, mas ele não atua mais como um ser humano; não interage como um ser humano.

                  Voltemos ao que dissemos acima. Como seres humanos, distinguimos no meio em que vivemos outros seres humanos e seres vivos não—humanos. Ou seja, nosso ato de distinguir uma entidade, de destaca-la, por assim dizer, do meio em que vive, é uma ação essencial em nosso apercebimento. Fazemos estas distinções enquanto estamos imersos na linguagem humana cm outros seres humanos.

                  Concluo que uma mosca “vê” o mundo porque voa quando aproximo minha mão, mas eu não sei o que uma mosca “vê”. Mas, o que passa comigo,(conosco) distingo e aponto uma mosca a você? Concluo que você “vê” a mosca que aponto na medida em que coordena sua conduta com a minha; então, concluo que você “viu” a mosca que apontei através de uma coordenação de condutas no linguagear humano. O que a mosca “vê” não é algo similar o ao linguagear humano e sim algo que depende de sua deriva natural, de sua própria estrutura biológica. O que se passa comigo quando “vejo” uma mosca em solilóquio é parte de minha própria deriva natural. Outros seres humanos, com outras histórias, verão “moscas” diferentes da que eu vejo – ainda que possam coordenar condutas comigo e me apontar “moscas” que distinguiram. (Isso é diferente de imaginar que temos uma ‘representação” de “moscas” em algum lugar do sistema nervoso.)