Inéditos

Crer em Fantasmas

Crer em fantasmas

Fantasmas existem, evidentemente, nos contos de fada e histórias de terror. Mas existem fantasmas mais próximos de nós, que afetam nossas vidas e nos quais quase todos acreditamos. Refiro-me, principalmente, ao fantasma da imunidade anti-infecciosa, à crença de que nosso corpo “se defende” ativamente de um mundo perigoso repleto de vírus, micróbios e parasitas agressivos. Na mente do público, de não especialistas e dos próprios imunologistas, esta crença é indiscutível e é claramente comprovada pela ação de vacinas anti-infecciosas e soros terapêuticos contendo anticorpos específicos. A imunologia é o estudo deste estranhamento

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Na mente dos imunologistas a crença em “fantasmas” é indiscutível – um fantasma benfazejo interior defende nosso corpo de um mundo perigoso.

O fantasma se chama: sistema immune. Ele só existe na mente de imunologistas. A imunologia experimental é  bem-sucedida, uma gigantesca empreitada de dimensões comparáveis à genética molecular e a neurobiologia, apoiada por uma também gigantesca e poderosa indústria médico-farmacêutica. Em todos os sentidos, a crença no estranhamento representa o que Thomas Kuhn chamou de “paradigma”, ou seja, um modo de ver geral, apoiado em fortes convicções, que deixa de ser uma opção e passa a ser a única verdade, o mundo real para o qual não há alternativas. Esta é a visão compartilhada por todos os livros de imunologia, todos os cursos, todos aos textos de outras áreas que mencionam a imunologia, e praticamente toda a pesquisa avançada em imunologia.

Em nosso modo de ver,  a imunidade específica baseada na ativação de células especiais (linfócitos) e na produção de moléculas especiais (anticorpos), enfim, a defesa imunológica é claramente um fantasma, um faz-de-conta baseado em um erro elementar e muito comum. Como diz Jorge Mpodozis, a ideia de imunidade confunde mecanismos com resultados da operação destes mesmos mecanismos. A imunidade é um resultado (possível, frequente) da operação de vários mecanismos entrelaçados – mas não é um mecanismo que explique o que se passa. O que se passa é o viver. E sem entender um pouco mais claramente o que dizemos sobre o viver, não entenderemos a imunidade e seus distúrbios – como as doenças infecciosas, alérgicas e autoimunes; não entenderemos os transplantes de órgãos nem as complicações de gravidez. E o fantasma sobreviverá.

Antes de defender esta afirmação que – eu concordo –  parece escandalosamente equivocada, vou descrever duas situações nas quais é mais fácil compreender a confusão entre mecanismos e os resultados que estes próprios mecanismo produzem. Em seguida, vou mencionar duas características da atividade imunológica que são incompatíveis com a ideia de mecanismos defensivos.

Confundir mecanismos e resultados – exemplos

Podemos facilmente confundir resultados da operação de um mecanismo com o próprio mecanismo. O aparente giro do Sol em volta da Terra, tem como mecanismo o giro da própria Terra; o resultado, é que o Sol parece girar em torno da Terra; como disse Darcy Ribeiro: é uma treta de Deus. O mecanismo gerador pode contradizer o que o senso comum nos sugere.

Plantas se inclinam para a luz
É comum mostrar a crianças na escola que uma plantinha em crescimento se para a luz. Isto acontece porque a luz retarda a divisão celular no caule da planta e as células se dividem mais rapidamente no lado mais escuro do caule e, como resultado, a planta se inclina para a luz. A inclinação da planta para a luz é um resultado de diferenças no ritmo de divisão celular, e não de uma decisão da planta, como o senso comum parece indicar.[1]

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Plantas se inclinam p ara a luz

Amebas não escolhem o que fazem
Quando amebas de vida livre (Acantoamoebas) são expostas a uma mistura de hemácias de carneiro e de cavalo, elas engolem (fagocitam) preferencialmente as hemácias de carneiro [2]. Esta diferença, mais tarde se constatou, depende da presença de certos açúcares (resíduos de galactose) em sua membrana, que estão ausentes nas hemácias de cavalo. As amebas têm “receptores” para esses açucares. Elas são cegas às hemácias de cavalo. A fagocitose preferencial das hemácias de carneiro é um resultado desta diferença bioquímica. As amebas não “escolhem” o que fazem. Esta “escolha” é um comentário nosso e, como tal. é parte de nossa observação, não do que se passa.

Pre-existência e multiplicidade dos anticorpos
As duas ideias mais importantes da imunologia foram propostas por Niels Jerne, em 1955:
(a) os anticorpos já estão formados antes do aparecimento dos antígenos com os quais eles eventualmente reagem; e
(b) há centenas, milhares de moléculas diferentes de anticorpos para cada detalhe antigênico; a relação antígeno-anticorpo não é unívoca (um-a-um).

Os antígenos, os materiais estranhos invadem o corpo, não servem de “moldes” para a produção dos anticorpos; anticorpos são formados, aos milhares, em processos independentes da presença de antígenos. Estes processo permanecem ativos mesmos em animais mantidos desde o nascimento em ambientes livres de antígenos (em bolhas de plástico estéreis).

Em sua teoria, Jerne propôs que a  atividade imunológica é uma atividade “natural” (espontânea) do organismo, que consistia na produção desta imensa multiplicidade de “anticorpos naturais”. Mais tarde, um discípulo importante de Jerne – Antonio Coutinho – chamou seu campo de investigação de “atividade imunológica natural”, ou, de maneira enigmática para os não iniciados”: uma “imunologia sem antígenos”. Na imunologia de Coutinho e colaboradores, entre os quais esteve Francisco Varela, a atividade imunológica não deveria ser descrita em termos de “respostas imunes” a “estímulos antigênicos”, como usualmente se faz.

A produção de anticorpos, assim como a geração e a ativação de linfócitos (as células que produzem os anticorpos) fazem parte da construção do organismo vertebrado, têm a ver com o viver destes organismos. A defesa anti-infecciosa é um resultado destes mecanismos e de vários outros mecanismos que se entrelaçam com eles. Assim como o giro do Sol em volta da Terra, a inclinação das plantas para a luz e a preferência das amebas por hemácias de carneiro, a defesa imunológica não é um mecanismo em si mesmo. Acreditar que eles são mecanismos em si mesmos, é como acreditar em fantasmas. A imunontologia é um convite a um exercício de exorcismo

[1] O girassol que segue o sol durante o dia, gira de volta para o nascente durante a noite: <http://www.thenakedscientists.com/articles/questions/how-do-sunflowers-follow-sun>

[2] Rabinovitch, M. (1970). Phagocytic recogniiton. In R. v. Furth: (Ed.), Mononuclear Phagocytes (pp. 299-315.). Oxford: Blackwell Scientific Publ