Donella Meadows

Dançando com sistemas

Dançando com Sistemas
(Whole Earth Winter 2001)
ver <http://www.wholeearthmag.com/ArticleBin/447.html>

Pessoas que são criadas no mundo industrial e que se entusiasmam com o pensamento sistêmico se arriscam a cometer um terrível engano. Elas provavelmente admitem que aqui, na análise de sistemas, na interconectividade e na complicação, no poder do computador, aqui enfim, está a chave para a previsibilidade e o controle. Esse engano é provável porque o estado mental do mundo industrial admite que existe uma chave para a previsibilidade e o controle.

Eu pensava assim também, no início. Todos nós admitimos isso, como estudantes entusiasmados de sistemas na grande instituição chamada MIT. Mais ou menos inocentemente, encantados pelo que podíamos ver através de nossas novas lentes, fizemos o que muitos descobridores fazem. Exageramos nossa própria capacidade de mudar o mundo. Fizemos isso não com a intenção de enganar aos outros, mas como expressão de nossas próprias expectativas e esperanças. Para nós, o pensamento sistêmico era mais que um sutil e complicado jogo mental. Ele ia Fazer os Sistemas Funcionarem.

Mas sistemas auto-organizados, não-lineares, retro-controlados são inerentemente imprevisíveis. Eles não são controláveis. Eles são compreensíveis somente da maneira mais geral. O objetivo de prever um futuro com exatidão e nos prepararmos para esse futuro, é irrealizável. A idéia de fazer um sistema complexo se comportar exatamente da forma que desejamos só pode ser alcançada temporariamente, no melhor dos casos. Nunca podemos entender completamente nosso mundo, não da forma que nossa ciência reducionista nos fez supor. Nossa ciência, em si mesma, da teoria quântica à matemática do caos, nos conduziu a uma incerteza irredutível. Para qualquer objetivo além do trivial, não podemos otimizar; não sabemos sequer o que otimizar. Não podemos dar conta de tudo. Não podemos encontrar uma relação adequada e sustentável com a natureza, nem uns com os outros, ou com as instituições que criamos, se o tentamos fazê-lo no papel do conquistador omnisciente.

Para aqueles que arriscam sua identidade no papel do conquistador omnisciente, a incerteza evidente no pensamento sistêmico é difícil de engolir. Se você não pode compreender, prever e controlar, o que se pode fazer?

O pensamento sistêmico, no entanto, leva a outra conclusão, que fica esperando, brilhante, óbvia tão logo deixemos de ser cegos pela ilusão do controle. Ela diz que há muito a fazer, uma espécie diferente de “fazer”. O futuro não pode ser previsto mas pode ser imaginado e trazido amorosamente a se realizar. Sistemas não podem ser controlados, mas podem ser projetados e reprojetados. Não podemos nos lançar adiante cheios de certezas em um mundo sem surpresas, mas podemos esperar por surpresas e aprender com elas e até mesmo lucrar com elas. Não podemos impor nossa vontade a um sistema. Podemos ouvir o que o sistema nos diz, e descobrir como suas propriedades e nossos valores podem trabalhar juntos para criar alguma coisa muito melhor do que aquela que poderíamos produzir por nossa própria vontade operando sozinha.

Não podemos controlar os sistemas ou decifra-los. Mas podemos dançar com eles! Eu já sabia disso, de certa forma, antes de começar a estudar sistemas. Eu havia aprendido a dançar com grandes poderes através da canoagem em águas revoltas, da jardinagem, do uso um instrumento musical, de esquiar. Todas essas tarefas requerem que estejamos bem atentos, participemos plenamente e respondamos à retro-alimentação. Nunca tinha me ocorrido que esses mesmos requisitos podem se aplicar ao trabalho intelectual, o gerenciamento, ao governo e à arte de lidar com pessoas.

Mas lá estava, a mensagem emergia de todas modelagens que fazíamos nos computadores. O viver bem sucedido em um mundo sistêmico requer mais de nós que a capacidade de calcular. Requer a nossa humanidade plena. Nossa racionalidade, nossa capacidade de separar o falso do verdadeiro, nossa intuição, nossa compaixão, nossa visão, nossa moralidade.

Vou sumarizar no que se segue ([1]) a “sabedoria sistêmica” mais geral que absorvi do projeto de sistemas complexos e da vida com outros projetistas. Esses são os “deveres de casa”, os conceitos e práticas que penetram a disciplina dos sistemas tão profundamente que a gente começa, embora de forma imperfeita, a pratica-los, não somente em nossa profissão, mas em toda a nossa vida.

A lista provavelmente não está completa, porque ainda sou estudante na escola dos sistemas. E ela não pertence apenas ao pensamento sistêmico. Há muitas maneiras de aprender a dançar. Mas aqui, como uma lição inicial, estão as práticas que vejo meus colegas adotando quando eles encontram sistemas.

Pegue o ritmo

Antes de perturbar o sistema de qualquer forma, observe sua conduta. Se é um trecho musical ou uma corredeira em um rio ou uma flutuação de preço na bolsa de valores, estude seu ritmo. Se é um sistema social, observe sua operação. Aprenda sobre sua história. Pergunte o que aconteceu a pessoas que estavam lá há muito tempo. Se possível encontre ou faça um mapa temporal de dados reais sobre o sistema. A memória das pessoas não é sempre confiável no que diz respeito a datas.

Começar com o comportamento do sistema força você a focalizar fatos, não teorias. Evita que você caia muito rapidamente em suas próprias crenças e equívocos, ou naqueles de outros. É espantoso quantos equívocos podem existir. As pessoas jurarão que as chuvas estão diminuindo, digamos, mas quando você olha os dados você vê que o que está acontecendo é que variabilidade está aumentando – as secas são mais graves, mas as enchentes também são. Ouvi dizer com grande autoridade que o preço do leite estava subindo, quando ele estava baixando, que os juros estavam caindo, quando estavam subindo, que o deficit era uma fração maior do NB quando não era.

Começando com o comportamento do sistema dirija seu pensamento para a dinâmica, não para a análise estatística – não apenas para “O que está errado?” mas também para “Como viemos parar aqui?” e “Quais são as condutas possíveis?” e “Se não mudarmos de direção, onde iremos parar?”

E, finalmente, começando com a história desencoraja uma tendência comum que nos distrai que é definir um problema não pela conduta efetiva do sistema, mas pela falta de nossa solução favorita (O problema é, precisamos encontrar mais petróleo. O problema é, precisamos abolir o aborto. O problema é, como podemos atrair mais crescimento para essa cidade?)

Ouça a sabedoria do sistema

Ajude e encoraje as forças que ajudam o sistema a operar. Não seja um interventor alienado que vai destruir as forças auto-mantenedoras do sistema. Antes de se adiantar para melhorar as coisas, preste atenção ao valor do que já está lá.

Um amigo meu, , Nathan Gray, trabalhou uma vez em uma entidade de auxílio na Guatemala. Ele me contou sobre sua frustração com as Agências de auxílio que chegavam com a intenção de   “criar empregos” e “aumentar os talentos empresariais” e “atrair investidores externos”. “Eles passavam sem ver pelos vibrantes mercados locais, onde o peqeno-comércio de todos os tipos , de fazedores de cestas a plantadores de hortas, a açougueiros a vendedores de doces, mostravam seus talentos empresariais em empregos que eles próprios criaram. Nathan passou seu tempo conversando com as pessoas no mercado, perguntando sobre suas vidas e seus negócios, aprendendo o que não deixava que esses negócios crescessem e se expandissem. Ele concluiu que o que era necessário não eram investidores externos, mas investidores internos. Pequenos empréstimos disponíveis com contabilidade e juros razoáveis, aulas para o analfabetismo e contabilidade, a longo prazo produziriam muito mais benefícios para a comunidade que trazer uma fábrica ou uma linha de montagem de fora.

Exponha seus modelos mentais ao ar livre

Lembre-se sempre que tudo o que você sabe e tudo o que todo mundo sabe, é somente um modelo. Ponha seu modelo onde possam atirar nele. Convide as pessoas a desfiar seu modelo e adicionar seus próprios modelos. Em vez de se tornar um campeão de uma hipótese ou explicação ou modelo possível, colete tantos quanto puder. Considere todos eles plausíveis até obter alguma evidência que faça você descarta-lo. Dessa maneira você será emocionalmente capaz de ver a evidência que anula uma suposição com a qual você pode ter confundir sua própria identidade.

Você não tem que adiantar seu modelo mental com equações e diagramas, embora isso seja uma boa disciplina. Você pode fazê-lo com palavras ou listas ou figuras e setas mostrando com que o que você pensa está conectado. Quanto mais você fizer isso, que qualquer forma, mais claras suas idéias se tornarão, e mais rapidamente você admitirá suas incertezas, e mais flexível você aprenderá a ser. A flexibilidade mental, – a concordância em redefinir fronteiras, em notar que um sistema mudou para um novo modo, em ver como redesenhar uma estrutura – é uma necessidade quando você vive em um mundo de sistemas flexíveis.

Permaneça humilde. Permaneça um aprendiz

O pensamento sistêmico me ensinou a confiar mais na minha intuição e a desconfiar mais da minha racionalidade, a me apoiar em ambas tanto quanto possível, mas ainda assim, estar preparado para surpresas. Trabalhando com sistema no computador, na natureza, entre pessoas, em organizações, me recorda constantemente como são incompletos meus modelos mental, como o mundo é complexo, e o quanto eu ignoro.

A coisa a fazer, quando você não sabe, não é blefar, não é congelar, mas sim aprender. A maneira de aprender é por experiência – ou, como diz Buckminster Fuller diz; por experiência e erro, erro, erro. Em um mundo de sistemas complexos, não é apropriado ir em frente com diretivas rígidas e não cambiáveis. “mantenha o rumo” só é uma boa idéia se você estiver certo de que está no rumo certo. Fazer de conta que você está em controle mesmo quando não está, é uma receita não apenas para erros , mas para aprender com esses erros. O que é apropriado quando você está aprendendo, é aprender em pequenos passos, monitoramento constante, e uma disposição de mudar o rumo, se você descobrir mais sobre onde ele conduz.

Isso é duro. Significa errar e, pior, admitir que errou. Significa o que o psicólogo Don Michael chama de “abraçar seus erros”. Exige um monte coragem, abraçar seus erros.

Honre e proteja a informação.

Quem toma decisões não pode responder por informações que ele ou ela não têm, não pode responder por informações inacuradas, não pode responder no prazo adequado por informações que são tardias.

Eu diria que 99 porcento do que dá errado em sistemas, de errado por causa de informações não confiáveis ausentes.

Se eu pudesse, eu adicionaria um décimo primeiro Mandamento: “Não distorcerás, retardarás, ou sequestrarás informações” Você pode enlouquecer um sistema turvando seus canais de informação. Você pode fazer um sistema funcionar melhor com uma facilidade surpreendente se você lhe der informações atuais, acuradas e completas.

Por exemplo, em 1986, uma nova legislação federal obrigou as companhia americanas a relatar todas as suas emissões de produtos químicos de suas fábricas. Através do “Freedom of Information Act” ( a lei mais importante do país do ponto de vista dos sistemas) tal informação se tornou pública. Em julho de 1988, os primeiros dados sobre emissões químicas se tornaram disponíveis. As emissões relatadas não eram ilegais, mas não pareciam muito boas quando foram publicadas nos jornais locais por repórteres interessados, que tinham uma tendência a fazer listas de “Os 10 maiores poluidores”. Foi apenas isso o que ocorreu. Não houve processo legais, nenhuma requisição para redução, nenhuma multa, nenhuma penalidade. Mas em dois anos as emissões de poluentes através do país (pelo menos pelos relatos, e talvez de fato) tinham baixado 40 porcento. Algumas companhias estava fazendo campanhas para reduzir suas emissões em 90 porcento, apenas por causa da liberação de informações antes não acessíveis.

Localize (onde está) a responsabilidade no sistema

Procure as maneiras pelas quais o sistema cria sua própria conduta. Não preste atenção aos eventos desencadeadores, as influências externas que suscitam no sistema um comportamento em vez de outro. Às vezes essas influências externas podem ser controladas (como pela redução de patógenos na água potável para reduzir a incidência de doenças infecciosas). Outras vezes, isso não é possível. E algumas vezes culpar e controlar influências externas nos cega para a tarefa mais fácil de aumentar a responsabilidade dentro do sistema.

“Responsabilidade intrínseca” significa que o sistema é projetado para enviar feedbacks sobre as conseqüências da tomada de decisões e fazê-lo direta, rápida e imperiosamente a quem tomou as decisões. O Dartmouth College reduziu a “responsabilidade intrínseca” ao tirar os termostatos individuais de gabinetes e salas de aula e atribuir as decisões sobre o controle da temperatura ambiente a um computador central. Isso foi feito para economizar energia. Minha observação a partir de um ponto baixo na hierarquia foi de que isso aumentou as oscilações na temperatura das salas. Agora, quando meu gabinete fica aquecido demais, eu tenho que chamar um serviço do outro lado do campus. A providência demora horas ou dias e freqüentemente sobre-corrige, criando a necessidade de outra chamada telefônica. Uma maneira de fazer o sistema mais responsável teria sido deixar que os professores regulassem seus próprios termostatos e cobrar deles a energia utilizada (e com isso, privatizando um bem comum).

Projetar um sistema de “responsabilidade intrínseca”, por exemplo, requerer que todas as cidades e companhias que descarregam esgotos em um rio a colocar seus tubos de coleta de água em um ponto abaixo de suas descargas. Poderia significar que nem companhias de seguro, nem recursos públicos deveria ser gastos em custos médicos resultantes do tabagismo, onde acidentes nos quais um motociclista não usava um capacete, ou um motorista que não usava o cinto de segurança. Poderia significar que o Congresso não poderia legislar sobre regras das quais ele próprio se exclui.

Adote condutas retro-alimentdoras para sistemas retro-alimentadores

O Presidente Jimmy Carter tinha uma capacidade incomum de pensar em termos de retro-alimentações e em instituir regras baseadas na retro-limentação. Infelizmente, ele tinha muitas dificuldades em explicar essas coisas para a imprensa e para um público que não entende de retro-alimentação.

Em uma época em que as importações de petróleo subiam muito, ele sugeriu a criação de um importo sobre a gasolina que era proporcional ao consumo de petróleo importado. Se as importações continuassem a subir, esse imposto subiria, até que ele forçasse o consumo a baixar, criasse substitutos e baixasse as importações. Se as importações caissem a zero, o imposto cairia a zero. O imposto nunca foi aprovado.

Carter também tentou lidar com o fluxo de imigrantes do México. Ele sugeriu que nada poderia ser feito sobre isso enquanto houvesse uma grande diferença de oportunidades e no padrão de vida entre o México e os Estados Unidos. Em vez de gastar dinheiro com guardas e barreiras, disse ele, deveríamos ajudar a construir a economia mexicana, e deveríamos fazer isso até que a imigração cessasse. Isso também não ocorreu.

Você pode imaginar porque um sistema dinâmico, auto-ajustável não pode ser governado por uma diretriz estática e inflexível. É mais fácil, mais eficaz e usualmente muito mais barato projetar diretrizes que mudam de acordo com o estado do sistema. Especialmente, onde há grandes incertezas, as melhores diretrizes não apenas contêm alças de retro-alimentação, mas também alças de meta-retro-alimentação, ou seja, alças que alteram, corrigem e expandem outras alças. Essas são diretrizes que projetam aprendizagem dentro do processo de gerência. 

Preste atenção no que é importante, não apenas no que é quantificável

Nossa cultura, obcecada com números, nos convenceu de que o que podemos medir é mais importante do que o que não podemos medir. Olhe em volta se a quantidade ou a qualidade é a característica marcante do mundo em que você vive.

Se alguma coisa é feia, nós dizemos que ela é feia. Se é grosseira, inapropriada, for a de proporção, moralmente degradante, se empobrece a ecologia, ou degrada o ser humano, não deixe que isso ocorra. Não seja impedido por ” se você não pode medi-lo, ou defini-lo, você não tem que prestar atenção. Ninguém pode medir ou definir (precisamente) justiça, democracia. Segurança, liberdade, verdade ou amor. Ninguém pode medir ou definir (precisamente) valor algum. Mas se não nos levantarmos em sua defesa, se os sistemas não são projetados para produzi-los. Se não falamos por eles e apontamos sua presença, eles deixarão de existir.

Tenha como objetivo o bem do todo.

Não maximize partes de sistemas ou subsistemas ignorando o todo. Como disse Kenneth Boulding não se dê um grande trabalho em otimizar algo que nunca deveria ser feito. Tenha como objetivo reforças as propriedades dos sistemas totais, tas como criatividade, estabilidade, diversidade, robustez e capacidade de auto-sustentação – quer isso seja facilmente mensurável ou não.

Enquanto pensa sobre um sistema, passe parte de seu tempo em uma posição de onde você possa ver o sistema inteiro, não apenas o problema que chamou sua atenção inicialmente. Entenda que, especialmente a curto prazo, mudanças para o bem do todo podem parecer contrariar os interesses de uma parte do sistema. Vale lembrar que as partes do sistema não sobreviverão sem o todo. Os interesses de seu fígado a longo prazo requerem a saúde de seu corpo inteiro a longo prazo, e o interesse das serrarias a longo prazo requer o bem estar das florestas a longo prazo.

Expanda os horizontes temporais

O horizonte temporal da sociedade industrial não se estende além do que irá acontecer depois da próxima eleição ou além do período de ressarcimento dos investimentos atuais. O horizonte temporal da maioria das famílias se estende além desse, – através das vidas de filhos e netos. Muitas culturas nativas dos Estados Unidos comentavam ativamente e consideravam em suas decisões os efeitos sobre a sétima geração futura. Quanto mais longo o horizonte temporal em operação, melhores as chances de sobrevivência.

Em um sentido estrito, não há distinção entre o curto-prazo e o longo-prazo. Fenômenos em diferentes escalas temporais estão embricados uns nos outros. Ações tomadas agora têm alguns efeitos imediatos e alguns que se irradiam por décadas futuras. Experienciamos agora as conseqüências de ações iniciadas ontem e décadas atrás e há séculos passados.

Quando se está andando por um caminho traiçoeira, curvo, desconhecido, surpreendente, cheio de obstáculos, é tolice manter a cabeça baixa e olhar apenas o próximo passo adiante. Seria igualmente tolo contemplar a paisagem distante e nunca notar o que está bem debaixo de seus pés. Precisamos olhar o curto- e o longo-prazo, – o sistema inteiro.

Expanda os horizontes do pensamento

Desafie as disciplinas. A despeito de sua especialização, ou do que dizem os livros-texto,

ou daquilo no que você se considera sabido, siga o sistema onde quer que ele vá. Certamente ele o levará a cruzar linhas das disciplinas tradicionais. Para compreender esse sistema você terá que ser capaz de aprender de economistas, químicos, psicólogos e teólogos – e não se sentir limitado por isso. Você terá que penetrar seus jargões, integrar o que eles lhe dizem, reconhecer o que eles podem honestamente ver através de suas lentes particulares, e descartar as distorções que vem da estreiteza e da incompletude dessas lentes. Isso não será fácil para você.

Ver o sistema inteiro requer mais do que ser “interdisciplinar”, se esse termo significa o que usualmente significa: juntar pessoas de diferentes disciplinas e deixar que elas falem além da compreensão umas das outras. A comunicação interdisciplinar existe apenas se existe um problema real a ser resolvido, e se os representantes das várias disciplinas estão mais interessados em resolver o problema que em serem academicamente corretos. Eles devem adotar uma postura de aprendizes, admitir ignorância e quererem ser ensinados uns pelos outros e pelo sistema.

Pode ser feito. É muito excitante quando acontece.

Expanda as fronteiras da atenção pelos outros (caring).

A vida bem sucedida em um mundo de sistemas complexos envolve não apenas expandir horizontes temporais e de pensamento; sobretudo, ela envolve expandir os cuidados pelos outros. Há razões morais para fazer isso, é claro. E, se argumentos morais não são suficientes, o pensamento sistêmico fornece as razões práticas para apoiar as razões morais. O sistema real é interconectado. Nenhuma parte da raça humana é separada quer de outros seres humanos quer do eco-sistema global. Nesse sistema global, não será possível ao seu coração ser bem sucedido se seus pulmões fracassam; nem será possível à sua Companhia ser bem sucedida se os pobres em Los Angeles fracassam; ou para a Europa ser bem sucedida se a África falhar, ou para a economia global ser bem sucedida se o ambiente global falhar.

Assim como tudo o mais sobre sistemas, a maioria das pessoas já conhece as interconexões que fazem com que regras morais e regras práticas sejam as mesmas regras. Elas apenas tem que se dar conta de que já sabem isso.

Comemore a complexidade.

Encaremos a realidade: o universo é uma bagunça. É não linear, turbulento, caótico. Ele é dinâmico. Parece gastar seu tempo em condutas transitórias mas está a caminho de outro lugar, e não em um equilíbrio limpo, matemático. Ele se auto-organiza enquanto evolui. Cria diversidade, não uniformidade. É isso o que faz o mundo interessante, o que o torna lindo e o que o faz funcionar.

Há algo dentro da mente humana que a atrai para linhas retas e não para curvas, para números inteiros e não para frações, para a uniformidade e não a diversidade, para as certezas e não mistérios. Mas há alguma outra coisa dentro de nós que tem exatamente a coleção oposta de tendências, desde que nós mesmos evoluímos e nos estruturamos como sistemas retro-alimentadores complexos. Somente uma parte de nós que emergiu recentemente, projeta edifícios como caixas de linhas retas e superfícies achatadas. Outras parte de nós reconhece instintivamente que a natureza desenha em fractais, com detalhes intrigantes em cada escala, do microscópico ao macroscópico. Essa parte de nós constrói catedrais Góticas e tapetes Persas, sinfonias e novelas, fantasias de Carnaval e programas de inteligência artificial, todos com u embelezamento quase tão complexo quanto os que achamos no mundo ao redor.

Agrarre-se aos objetivos da bondade

Exemplos de mau comportamento humano são erguidos, magnificados pela mídia, apontados pela cultura como típicos. Exatamente o que você esperaria. Afinal, somos apenas humanos. Exemplos muito mais numerosos de bondade humana, são ignorados. Eles não são notícia. “São exceções. Deve, ter sido um santo. Não se pode esperar que todo mundo aja assim.”

Então os prognósticos são pessimistas. O buraco entre a conduta desejada e a observada

se estreita. Menos ações são tomadas para afirmar e garantir ideais. O discurso público se enche de cinismo. Líderes públicos são visivelmente, descaradamente amorais ou imorais e não são responsabilizados. O idealismo é ridicularizado. Afirmações de crenças morais são vista com suspeição. Em público, é mais fácil falar sobre o ódio que sobre o amor.

Sabemos o que fazer sobre a destruição de objetivos. Não dê mais peso às notícias ruíns que às boas. E mantenha seus padrões absolutos.

Esta é uma lista e tanto. O pensamento sistêmico só pode nos falar sobre essas coisas. Não pode fazê-las para nós. Então chegamos ao buraco entre a compreensão e a implementação. O pensamento sistêmico não pode transpor esse buraco. Mas pode nos levar até a margem do que a análise pode fazer e, então, apontar adiante, – para aquilo que pode e precisa ser feito pelo espírito humano.

 

Donella Meadows morreu na primavera de 2001. Esse artigo foi extraído do manuscrito de seu último livro, não-publicado.

 

[1] Esse é apenas o trecho inicial da introdução do livro de Donella Meadows. Várias de suas sugestões (“deveres de casa”) podem ser obtidas no site da wholeearth.

<http://www.wholeearthmag.com/ArticleBin/447.html>