Blog da SBI

Debra Bibel

Debra Bibel
Nelson Vaz
130808- blog da SBI agosto – 2013

                  Encontrei os textos de Debra Jan Bibel pela primeira vez em um xerox de seu livro “Milestones in Immunology” no laboratório de Vivian Rumjanek. Foi uma das abordagens mais interessantes que conheci da história da imunologia, que ressalta apenas trechos de trabalhos famosos e os discute. Mais tarde adquiri um exemplar do livro, que não me canso de manusear, e também um segundo livro “Microbial Musings”, com uma coletânea mais diversificada e muito interessante de artigos. Encontrei também, via internet, os artigos científicos (ver Bibel, 1983) e a obra artística (pintura, multimidia) de Debra Bibel. Aqui, me refiro apenas a um de seus ensaios em “Microbial Musings” intitulado “Styles in Scientific Literature”, onde ela compara o estilo pseudo-bjetivo, a dominância da voz passiva e a eliminação deliberada de termos relacionados à emoção e de pronomes na primeira pessoa (especialmente da forma singular). O texto científico moderno é rigidamente separado em seções de materiais e métodos, resultados, discussão – “que muita vezes mistura, distorce ou falsifica a sequência real dos experimentos” (Bibel, 2000). E então, ela nos diz: “A literatura científica não foi sempre assim.”

E não foi mesmo! É uma pena que privemos nossos estudantes de ler os textos originais dos verdadeiros fundadores da ciência, que escreviam em uma linguagem pessoal e cheia de emoção. Na leitura daquele que pode mesmo ser considerado o primeiro texto de imunologia experimental já escrito:

Jenner, E. ,1978 “An inquiry into de causes and effects of the variolae vaccinae,

a disease discovered in some of the western countries of England, particularly

Gloucestershire, and know by the name of The Cow Pox”

– onde foi pulicado? Bem, o texto foi enviado e rejeitado (em primeira instância) pela Royal Society londrina. Nele há detalhes que os imunologistas modernos provavelmente ignoram mas continuam a representar enigmas formidáveis. Lá está dito, por exemplo, que a inoculação da Cow Pox (o vírus da vaccinia, como o conhecmeos hoje), protege contra a varíola (Small Pox), mas não protege contra a própria Cow Pox – detalhe que me passou desapercebido nas primeiras leituras e para o qual a Cláudia me alertou. Mas sempre achei esquisitíssima esta vacina, que além de ter sido a primeira, foi a mais efetiva e importante, levou à eliminação total de uma doença, e se tornou o paradigma das vacinações, fazendo leigos e imunologistas imaginarem que as vacinas, em geral, devem funcionar assim. Por que a Cow Pox protege contra a Small Pox, e não contra si própria, enquanto que na vacinação contra a poliomielite os três tipos virais devem ser incluídos, porque a imunização contra um deles não protege contra os outros dois? Eu tenho uma ideia que explica por que (a diversificação clonal que impede expansões oligoclonais, que são a fonte da imunopatologia), mas ando cansado de repetir isso por 30 anos.

Mas, voltando à Debra Bibel, e sua crítica aos estilos de literatura científica. Para ler imunologistas mais antigos não é preciso ir até Jenner: artigos da primeira metade do século 20 ainda são escritos de forma muito pessoal. E não percam a revisão formidável de Ohad Parnes sobre a imunologia da primeira metade do século 20 (“Trouble from within: allergy, autoimmunity, and pathology in the first half of the twentieth century”) na qual ele mostra por que a emergência da teoria de seleção clonal atrapalhou tudo e fez com que o estudo da inflamação fosse separado do estudo da imunologia, como está até hoje, um verdadeiro absurdo.

Bem, chega de confidências.

 

Bibel, D. J. (1983). “The discovery of the oral flora–a 300-year retrospective.”

JADA 107(4): 569-570

Bibel, D. J. (1988). Milestones in Immunology: A historical exploration.

Madison WI, Science Tech.

Bibel, D. J. (2000). Styles in scientific literature.

Microbial Musings. Belmont CA, Star Publishing Company: 127-130.

Parnes, O. (2003). “Trouble from within: allergy, autoimmunity, and pathology in the first half of the                  twentieth century.” Stud. Hist. Phil. Biol. & Biomed. Sci. 34: 425–454.