Contos

Desconto

Desconto

Ferraz gostava desse momento mais do que qualquer outro. Deitado na cama, semi-desperto na quietude da madrugada, ouvindo o cantar dos galos, um cantar antigo, encantado, que lhe ensinara desde menino que o mundo era maior. Porque do lado de lá, onde cantava o penúltimo galo, ainda tinha um outro lado. Agora tinha a barbearia na praça, para onde ia a pé pela fresca da manhã. Hoje ia mais cedo para terminar a loção de babosa que usava para barbear seus melhores clientes. Usava ele mesmo essa loção; duas gotas na palma da mão lhe deixavam o rosto todo escorregadio e ele gostava de alisa-lo todo assim, molhado. Lembrava da cara toda besuntada pelo gosto forte de mulheres que amou. Mas isso foi há muito tempo atrás. Agora, Ferraz as olhava com carinho mas já não as via da mesma forma, nas as despia como antes.

Alguém chegou, cortou o cabelo, pediu o desconto e levou a presença. Lembrava bem como surgira essa história do desconto. Fora o capelão do regimento, veja você, que veio primeiro com aquela conversa enrolada, cheio de indiretas, e sinalizou com o dedo que ele se curvasse e lhe segredou ao ouvido, se ele podia arranjar um pouquinho de maconha. Assim mesmo, sem usar a gíria usual. Aquilo ali, no meio da barbearia cheia de gente, o arrepiou. Quase caiu de susto, mas depois sorriu e mostrou ao padre que entendia. Aquilo se resolveu facilmente e o capelão saiu todo lampeiro com sua presença.

O sobressalto aumentou quando o capelão voltou dias depois com a mesma história e acabaram combinando que ele não pediria aquilo assim; pediria “um desconto” – e logo a presença escorria discretamente para o bolso da farda. Para desolação de Ferraz, a notícia se espalhou pelo quartel e começou a chegar mais gente pedindo “um desconto”. Primeiro soldados, cabos e sargentos; depois militares de todas as patentes, até coronel; depois os civis; gente de todo o tipo, algumas de fino trato. Nenhum dos malandros conhecidos da cidade. Com o tempo, a coisa serenou e o assunto já não o amofinava.

Mas, nessa manhã chegaram os dois homens que ele nunca vira na cidade, o preto enorme e o branco com a camisa com flores coloridas que foi se sentando perto dele e logo dizendo que, com ele, era barba, cabelo e bigode, Mas que queria um desconto bem gordo em todos três. O preto riu. O coração de Ferraz pulou.