Andrew Pickering

Desempenho sim, controle não (Resenha sobre Pickering, 2010)

(História da ciência)
Desempenho sim, controle não
Tara H. Abraham
Science 329: 759-760 (2010)

Resenha de:
The Cybernetic Brain: Sketches of Another Future

by Andrew Pickering
University of Chicago Press, Chicago, 2010. 536 pp.
$55,  £35.50. ISBN 9780226667898.

Histórias e críticas padronizadas traçam uma imagem da cibernética como uma ciência militar, seca e preocupada com o comando e o controle. A palavra cibernética deriva da palavra grega Kybernetes ( “governador” ou “timoneiro”), e até agora o caso paradigmático para a ciência do timoneiro tem se desenvolvido nos Estados Unidos, onde a cibernética surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial. Enquanto o cenário americano tem recebido muita atenção dos historiadores de ciência, o mesmo não pode ser dito da cibernética britânica. Concentrando-se na desenvolvimentos na Grã-Bretanha, o livro de Andrew Pickering “O Cérebro Cibernético: Esboços de Outro Futuro” abre novos horizontes para explorar a prática da cibernética e seu legado. Para Pickering (um sociólogo da ciência na Universidade de Exeter), a cibernética era antes de tudo uma ciência do cérebro. Como uma ciência versátil com conexões com a psiquiatria, o teatro, a música, a política e a contracultura, ela foi muito mais glamorosa e divertida do que os relatos anteriores sobre o campo nos fariam acreditar.

“O Cérebro Cibernético” está centrado mundo colorido, animado e às vezes estranho da cibernética britânica do final da década de 1940 até o presente. Pickering selecionou um elenco de quatro atores centrais: a “primeira geração” britânica de ciberneticistas com W. Ross Ashby (1903-1972) E W. Grey Walter (1910-1977) e a segundo geração com Stafford Beer (1926-2002) e Gordon Pask (1928-1996). O antropólogo Gregory Bateson (1904-1980) e o psiquiatra R. D. Laing (1927-1989), cada um dos quais desenvolveu uma “psiquiatria cibernética” durante As décadas de 1950 e 1960, recebem um grande apoio. O cérebro em si mesmo é um personagem central na história que Pickering nos conta. Ao contrário de muitos cientistas, esses ciberneticistas não viam o cérebro como um sistema de representação, mas sim como um órgão performático, e seu papel principal como um ator, era a adaptação.

Por exemplo, Walter e Ashby, eram ambos formados nas ciências cerebrais tradicionais, e construíram modelos eletromecânicos do cérebro que eram adaptativos. As tartarugas robóticas de Walter eram capazes de se mover e exibir comportamentos complexos pela detecção de alterações da luz ambiental e do movimento. Walter argumentava que ao estudar o comportamento destes dispositivos, seríamos capaz de aprender algo sobre como o cérebro humano funciona. O comportamento da máquina na prática não era previsível. Além disso, o comportamento era performático: a máquina realmente precisava estar em operação para que se pudesse descobrir do que ela era capaz de fazer. Como Walter, Ashby também compreendia o cérebro como adaptável, mas em um sentido diferente: em sua opinião, o segredo estava em encontrar e manter um equilíbrio mais do que estabelecer um “envolvimento espacial” com o meio ambiente. O homeostato de Ashby conectava fundamentalmente a adaptação à aprendizagem: a máquina se envolvia com seu ambiente, mas dependendo do que encontrava, ela reconfigurava seus circuitos até que encontrasse uma configuração que a colocasse em equilíbrio dinâmico com seus arredores.

Diretamente influenciado por Ashby, Beer estava preocupado com o que ele chamou de “sistemas excessivamente complexos”, como a economia, a empresa e o cérebro. Para Beer, esses tipos de sistemas estavam no “território da cibernética “- eles não eram completamente conhecíveis, nem previsíveis. Ele via uma fábrica como um organismo biológico, que deve ser equipado com um cérebro adaptável para permitir que ela sobreviva face às flutuações do mercado e de circunstâncias cambiáveis. Pask entrou no mundo da cibernética através do mundo das artes – particularmente do teatro e da música. Sua máquina Musicolour usava o som gerado por uma performance musical para gerar um show de luzes. O que fazia disso um processo aberto e “cibernético” era que os parâmetros do circuito não eram fixos: as regras pelas quais as frequências de som correspondiam a cores específicas de luz variavam continuamente. O artista humano e a máquina entravam em um processo recíproco constante de aprendizagem – nenhum dos dois estava no controle do desempenho.

De acordo com Pickering, o que governava o desempenho prático desses ciberneticistas era compreensão totalmente diferente de como o mundo é. As ciências tradicionais, não-cibernéticas (aquelas que Pickering chama de ciências “modernas”), são infiltradas por um dualismo em que as pessoas são diferentes das coisas e os cientistas enfatizam a previsão e o cálculo. Os ciberneticistas rejeitaram ambos estes aspectos da modernidade: as pessoas e as coisas não são tão diferentes assim, e em vez da previsibilidade de causa e efeito, a realidade evolui com o tempo – ela emerge. Assim, Pickering argumenta que seus ciberneticistas seguem uma ontologia cibernética diferente – uma maneira diferente de entender que tipos de objetos povoam o mundo natural e como estes interagem uns com os outros. Para Pickering, essa ontologia cibernética adaptativa e performática pode ser comparado a um teatro ontológico, e isso está na raiz do que é tão fascinante sobre o trabalho em cibernética.

Da mesma forma, o livro deixa de colocar o conhecimento (o conhecer) como a chave para entender do que trata a ciência. Em vez disso, o segredo é a prática. Fazendo alusão a seu livro pioneiro, o inovador “The Mangle of Practice” (1), Pickering argumenta que a prática científica é caracterizada por um não-dualismo: por um entrelaçamento temporário de pessoas e coisas emergentes que ele chama chamado “mangling” (transfiguração) – uma dança de agências entre cientistas e o mundo natural. O que isso tem a ver com a cibernética britânica? Este “envolvimento performático ” que define a prática científica foi também o que definiu a cibernética britânica: os aparelhos (sistemas) sensíveis e reativos construídos por Ashby, Walter, Beer e Pask com os quais eles modelaram aspectos performáticos do cérebro.

“O Cérebro Cibernético” apresenta a cibernética como uma verdadeira ciência dos anos 1960. Isso ocorreu em parte devido à incompatibilidade da cibernética com as ciências modernas: socialmente, a cibernética era marginal, não tinha um lar institucional bem definido, e prosperou socialmente através de agrupamentos formais e informais. Pickering acha que esta base social instável foi crucial para a maneira como a cibernética se difundiu. Porque estava no limite do amadorismo, ela tinha uma ressonância cultural e uma popularidade mais fortes. Não só as práticas cibernéticas se espalharam por todos os tipos de áreas e disciplinas, tais como as técnicas de gerenciamento, a política e as artes. Houve também uma forte afinidade entre cibernética, a filosofia oriental e a espiritualidade. Por exemplo, a psiquiatria cibernética de Bateson e Laing estava em contraste com a psiquiatria tradicional dos anos 1950 e1960 – e era considerada como “anti-psiquiatria” por sua postura contra as intervenções violentas da prática dominante (como o eletrochoque e a lobotomia). Ambos, Bateson e Laing foram profundamente críticos da tradição psiquiátrica e suas estruturas hierárquicas, e a versão deles foi mais informada pela filosofia e pela religião orientais, o que também aconteceu como marcas dos movimentos contra-culturais que definiram estas décadas.

Por que devemos nos preocupar com a cibernética? Pickering vê algo de vital importância na cibernética britânica, e isso explica o subtítulo do seu livro. Simplificando, a prática cibernética pode ser vista como um modelo para a prática do futuro. Somos cada vez mais confrontados com problemas que requerem soluções diferentes – os “sistemas excessivamente complexos” com os quais as ciências modernas não sabem lidar. Existem sistemas que nos surpreendem, que caem fora do quadro do cálculo e da previsão. O aspecto da cibernética que é mais importante e atraente para Pickering é a admissão de uma ontologia da incognoscibilidade. Para ele, o termo expressa o que era novo e importante sobre o que os cibernéticistas britânicos estavam fazendo. Esta incognoscibilidade e a complexidade irredutível não são causa de desespero – de fato há maneiras pelas quais os cientistas podem lidar com tais sistemas de forma construtivas e criativas – e os ciberneticistas de Pickering nos mostram como. O autor vê a cibernética como fundamentalmente democrática: ela nos obriga a ter respeito um pelo outro, e afasta a postura antropomórfica que temos sobre a natureza como resultado do domínio das ciências modernas. Segundo alista do cientista politico James Scott (2) os projetos altamente modernistas (“high modernist”) que “visam a reconstrução racional de grandes porções do mundo material e social”, Pickering discute o lado negro da modernidade. Aqui ele inclui projetos que tiveram consequências muito desastrosas, como a reforma da agricultura com seus efeitos sobre a fome mundial e os efeitos da industrialização sobre o aquecimento global. Pickering vê como o maior mérito da ontologia cibernética combater tais projetos – e a atitude dos modernistas que os alimenta. Isto sugere que existe uma maneira diferente de agir. Existe um enorme valor nesta postura ontológica diferente, na qual o mundo não está aí para ser conquistado por nós.