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Do estranhar ao entender

Do estranhar ao entender
Nelson Vaz
blog – dezembro-2014

O estranhar é uma fronteira do entender. O que é hoje familiar, já foi novidade e nem tudo que é novo é estranho. “O estranho é uma subcategoria do familiar” , uma ideia discutida por Sigmund Freud, em seu “Unheimlich”. A interação com algo “estranho” difere da contínua interação com as novidades que são familiares ao viver, mas, evidentemente, o tema principal é esta dinâmica de transação com a novidade, a mudança contínua que é característica do viver, das interações do ser vivo com o meio e também em seu próprio viver; há uma dinâmica interna de mudanças, há novidades internas.

Penso estas coisas nos breves momentos nos quais já não estou dormindo, mas ainda não acordei plenamente. Algumas, como poemas, se perdem rapidamente se não as reghistro; quase todas perdem o brilho nas tentativas de registro. Agora mesmo pensei em algo que já visitei repetidamente: pensei na “unreasonable efficiency of immmunology” – como traduzir isso? Em português não existe uma boa tradução para “unreasonable” – o termo não razoável, ou “ilógico” não têm o sentido adequado. Por sua vez, não existe o verbo estranhar em inglês, onde ele passa a ser “to find (something) odd”; achar algo diferente, estranho, inesperado, não usual.

O que pensei lembra um texto do matemático Eugene Wigner chamado “The unreasonable efficiency of mathematics in the natural sciences” [1], no qual Wigner se intriga com que a matemática, que é algo abstrato, fruto do pensar humano, sirva tão bem para explicar fenômenos naturais, como na Física; como no comentário de Bertrand Russel [2].

Quero contrastar o “estranhamento” entendido como o mecanismo da reatividade imunológica, ao eliminar materiais “estranhos” ao corpo (antígenos), com um “entendimento”, a atividade imunológica vista como um aspecto especial da incorporação ou assimilação ao corpo de materiais que antes não lhe pertenciam, como as proteínas da dieta e produtos da microbiota nativa. Tanto o termo latino: incorporar – in corpori – como o grego: assimilar – a + simile – se referem explicitamente ao corpo, coisa que o conceito de estranhamento trata como inesperado, não usual.

Mas, assim considerado, o entender trás consigo o conceito de fenômenos “mentais” e a tendência usual é atribuir a capacidade de entender o que se passa no viver a todos os seres vivos. Plantas se inclinam para a luz e amebas de vida livre (acanthoamebas) expostas a uma mistura de hemácias de carneiro e de cavalo, nitidamente preferem fagocitar hemácias de carneiro. É usual interpretar-se estas ações como volitivas, fruto de uma intencionalidade primitiva e elementar, mas, ainda assim, um aspecto básico do viver. Como se as plantas e mesmo a pequenina ameba, possuíssem uma pequenina “mente”, ainda que opaca e rudimentar, em uma explicação semântica – que busca significados – no que se passa.

Esta mesma explicação de natureza semântica é aplicada à atividade imunológica como um estranhamento, como se o corpo pudesse separar as moléculas (as estruturas) que lhe pertencem, de materiais invasores, nos quais se incluem os agentes supostamente responsáveis pelas doenças infecciosas, como vírus, micróbios e parasitas. Na terminologia imunológica isto é conhecido como discriminação próprio-estranho (self-nonself discrimination). Usualmente, este carácter semântico é admitido tacitamente, como se não requeresse explicações; pareceria natural que o corpo soubesse de si mesmo, de sua própria estrutura e composição.

Ocorre que, na imunologia do último meio século – a partir dos anos 1950-60 – este conceito foi virado ao avesso pois se imagina que a atividade imunológica esteja voltada exclusivamente para matérias que não pertencem ao corpo, sem considerar que esta separação seria um ato cognitivo, um aspecto do conhecer. Novamente a mesma referencia não explícita a uma “mente” opaca e rudimentar, que é atribuída a células e moléculas, que certamente não a possuem.

 Bibliografia

[1] by Eugene Wigner “The Unreasonable Effectiveness of Mathematics in the Natural Sciences,” in Communications in Pure and Applied Mathematics, vol. 13, No. I (February 1960). New York: John Wiley & Sons, Inc. Copyright © 1960 by John Wiley & Sons, Inc.

[2] “Mathematics, rightly viewed, possesses not only truth, but supreme beauty a beauty cold and austere, like that of sculpture, without appeal to any part of our weaker nature, without the gorgeous trappings of painting or music, yet sublimely pure, and capable of a stern perfection such as only the greatest art can show. The true spirit of delight, the exaltation, the sense of being more than Man, which is the touchstone of the highest excellence, is to be found in mathematics as surely as in poetry.” Bertrand Russel , in “Matehematics”