René Dubos

Dubos e a infecção de feridas

Bactérias e o fechamento de feridas
Nelson Vaz

Aprendi muitas coisas nos textos de René Dubos , entre as quais  a diferença  entre bactérias (microorganismos, em geral) que vivem no solo (na terra) e bactérias que vivem sobre os organismos, como as que carregamos em nossos corpos, chamado comensais.  A “terra” (o solo) chega a conter 20-30 % de seu peso em corpos bacterianos, bactérias que são,  muito diferentes daquelas encontradas sobre a pele e as mucosas dos animais ou nas plantas.  Uma nota no The ScientistsDaily de hoje (25/06/2014)  intitulada “The Wound Microbiome” trata de análises genômicas de feridas de guerra em soldados norteamericanos
<http://www.the-scientist.com//?articles.view/articleNo/40330/title/The-Wound-Microbiome/>
(O artigo original é de Nichola Be et al. (2014) J Clin Microbiol (May 2014, doi:10.1128/JCM.00556-14)

Em metade das feridas, a análise do microbioma pelo microarray detectou bactérias, sendo a Acinetobacter baumannii mais frequentemente encontrada em feridas com problemas, mas, que – e aqui está a surpresa – as bactérias mais comumente encontradas em feridas que cicatrizavam bem eram bactérias intestinais. E uma segunda afirmação notável: A quantidade tital de bactérias na ferida não estava associada com a evolução da ferida, embora mudanças temnporais fossem obers vadas b no curso do tratamento ( “Total wound bioburden did not associate significantly with wound outcome, although temporal shifts were observed over the course of treatment.”)

Portanto, quanto a ferida foi contaminada com “terra”, por exemplo, não prevê como ou quão rápido o fechamento da ferida se dará. Ou seja, as bactérias “de fora” não indicam o que vai se passar com o corpo, enquanto que as bactérias que vivem sobre o corpo – como as bactérias intestinais – estão frequentemente associadas a um bom desenvolvimento, ao fechamento da ferida. Isto é completamente diferente do que usualmente pensaríamos sobre a contaminação de feridas, tanto na visão do público, quanto na visão educada pela medicina.

Os velhos textos de Dubos e seu encantamento com a microbiologia do solo me ajudaram muito a lidar com esta surpresa. Visualizar o ser humano como um “holobionte” como propõe Gilbert, Sapp e Tauber (2012) também ajuda a entender o que se passa, pois aquilo que se cura, se regenera, se reconstrói após um acontecimento traumático (uma ferida), não é o animal sozinho: é o animal com seu cortejo de microrganismos. Isto também me faz pensar no uso de antibióticos na prática médica atual. Uma amiga minha, com um pequeno cisto infectado na região genital, recebeu 5 antibióticos diferentes em consultas com 3 médicos diferentes no curso de 5 dias – que não resolveram sua situação, corrigida com uma pequena cirurgia.

Ver: GILBERT, S. F., SAPP, J. & TAUBER, A. I. 2012. A Symbiotic View of Life: We Have Never Been Individuals. Quarterly Review of Biology, 87, 326-341.

140625