René Dubos

Dubos, Pasteur e a fisiologia

Dubos, Pasteur e a fisiologia
Nelson Vaz

                  Somos todos influenciados poderosamente pelo que vivemos na juventude. Louis Pasteur permaneceu durante toda sua vida pensando em seu trabalho sobre a simetria e os cristais (ver Dubos, 1974). Minha modesta carreira teve início na Divisão de Fisiologia do Instituto Oswaldo Cruz, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, com Haity Moussatché, de maneira que, embora tenha me tornado um imunologista, de uma forma ou de outra, meu interesse sempre gravita em torno da fisiologia animal.

Em um texto muito interessante sobre a vida de Pasteur, René Dubos (1974) relata que Pasteur ganhou fama internacional aos 27 anos por seus estudos de cristalografia e sua descoberta do isomerismo ótico. Foi através do estudo da rotação ótica de ácidos orgânicos que ele foi levado a entender que a conversão de açúcar em ácido lático ou em etanol é causada por micróbios. Então, diz Dubos:

“Em seu primeiro trabalho biológico, na idade de 35 anos, ele formulou o que chamava de teoria dos germes da fermentação, ou seja, que cada tipo particular de fermentação é causado por um tipo específico de micróbio. Neste mesmo trabalho preliminar ele sugeriu, sem nenhuma evidência, que esta teoria poderia ser generalizada e, corajosamente, anunciou uma etiologia microbiana específica das doenças. Eventualmente, a doutrina da etiologia específica o conduziu à prática das vacinações.” (ênfase adicionada)

Em seu texto, Dubos enfatiza que durante toda sua vida Pasteur afirmou ser guiado pela “lógica inescapável dos cristais”, a rotação ótica e a fermentação e que foi levado eventualmente (ênfase no original) às doenças microbianas e à vacinação específica. Isto transparece nas dimensões relativas dadas à publicação intitulada “Teoria dos Germes e suas Aplicações à Medicina e Cirurgia” (Pasteur and Lister, 1996), a qual Pasteur descreve em 8 (oito) páginas, havendo antes dedicado, na mesma publicação, 93 (noventa e três) páginas à Teoria Fisiológica da Fermentação, que ele descreve com detalhes experimentais, incluindo os experimentos que refutam a teoria da geração espontânea da vida microbiana.

Mas, em seu título, o texto de Dubos menciona “a trilha menos batida”, uma referência ao famoso poema de Robert Frost (The Road not Taken[i]), para esclarecer que Pasteur dava menos ênfase à etiologia específica das doenças, que ao terreno (terrain) encontrado pelos germes no organismo. Porque “a despeito do sucesso formidável de seus métodos de controle puramente anti-microbianos, ele (Pasteur) tinha a impressão que o bem-estar fisiológico dos bichos-da-seda influenciava poderosamente sua resistência à infecção.” (p.704). Em um de seus textos desta época, Pasteur afirma:

“Se tivesse de iniciar novos estudos sobre a doença dos bichos-da seda, dirigiria meus esforços às condições ambientais que aumentam seu vigor e resistência… estou convencido de que seria possível descobrir técnicas para melhorar o estado fisiológico dos bichos-da-seda e então aumentar sua resistência a doença.”

Diz Dubos que em seu primeiríssimo texto preliminar sobre a fermentação lática, em 1857, Pasteur enfatizou que soluções de glicose expostas ao ar são convertidas em ácido lático, por bactérias, se a solução for ácida, mas em etanol, se a solução for alcalina. Ele raciocinou que micróbios eram abundantes no ar, mas que era a acidez ou alcalinidade da solução de glicose que determinava quais os micróbios a terem vantagem sobre os demais.

Dubos, enfim, afirma que Pasteur estava perfeitamente consciente de haver negligenciado a oportunidade de investigar os aspectos “ecológicos” das infecções. Mas afirma também que ele acertou em dirigir seu trabalho pra os aspectos específicos dos processos biológicos porque (adiciono ênfase): “esta era uma etapa indispensável no estudo de sistemas naturais.” E prossegue: “As ciências biológicas não poderiam ir longe sem o conhecimento preciso e a disciplina intelectual dada pelo conceito de especificidade.” Dubos afirma, porém, que é chegado o tempo de trilhar o lado menos tradicional, que levará a estudos fisiológicos e ecológicos.

Bibliografia

Pasteur, L. and Lister, J. (1996) Germ Theory ansd its Applications to Medicine & On the Antiseptic Principle of the Practice of Surgery,  Amherst, New York, Prometheus Books.

Dubos, R. (1974) Pasteur’s Dilemma-The Road Not Taken.
AMS-News 40 (9), 703-709.

090707

—————

[i] No poema, Robert Frost sugere que, ao escolher uma determinada trilha perdemos a oportunidade viver o que a outra trilha nos ofereceria.