Daniel Nicholson

Dupré-Nicholson Manifesto em 2018 Biologia Processual

Nicholson, D.J. & Dupré, J. (eds.), (June 2018)

Everything Flows: Toward a Processual Philosopjy of Biology

Oxford: Oxford University Press

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Capítulo 1

Um Manifesto em favor de uma Filosofia Processual da Biologia

John Dupré e Daniel J. Nicholson

 

Resumo

Este capítulo argumenta que o progresso científico e filosófico de nossa compreensão do mundo vivo requer que abandonemos uma metafísica das coisas em favor de uma metafísica centrada nos processos. Identificamos três principais motivações empíricas para a adoção de uma ontologia de processoss na Biologia: reciclagem metabólica, ciclos de vida e interdependência ecológica. Mostramos como assumir uma postura processual na filosofia da biologia nos permite fundamentar as críticas existentes ao essencialismo, ao reducionismo e ao mecanicismo, todas elas tradicionalmente associadas à ontologia de substâncias. Ilustramos as consequências de adotar uma ontologia de processoss na Biologia, considerando algumas de suas implicações para a fisiologia, a genética, a evolução e a medicina. E tentamos localizar os capítulos subsequentes do livro em relação à posição que defendemos.

 

Palavras-chave: filosofia da biologia; ontologia de processoss; metafísica da ciência; organicismo; essencialismo; reducionismo; mecanismo; metabolismo; ciclos de vida; simbiose

 

Introdução

Este livro é um empreendimento na metafísica da ciência, a exploração das características mais básicas do mundo, implícitas ou pressupostas pela ciência. Um de seus principais objetivos é demonstrar a importância fundamental de tal investigação. Obter essa imagem bem genérica faz uma diferença real para saber se praticamos bem a ciência e entendemos adequadamente o que ela nos diz. A tese metafísica particular que motiva este livro é que o mundo — pelo menos na medida em que diz respeito aos seres vivos — não é, como os filósofos supunham, composto de partículas ou coisas substanciais, mas sim de processos. É totalmente dinâmico. Esta tese, acreditamos, tem profundas consequências.

 

Mais especificamente, propomos que o mundo vivo é uma hierarquia de processos, estabilizada e ativamente mantida em diferentes escalas de tempo. Podemos pensar nessa hierarquia em termos amplamente mereológicos[1]: moléculas, células, órgãos, organismos, populações etc. Embora os membros dessa hierarquia sejam geralmente considerados como coisas, afirmamos que eles são mais apropriadamente compreendidos como processos. Uma questão que surge para qualquer processo, como discutiremos mais detalhadamente abaixo, é aquilo que permite que ele persista. Os processos nessa hierarquia não apenas compõem um ao outro, mas também fornecem condições para a persistência de outros membros, tanto maiores quanto menores. Então, se tomarmos, por exemplo, um fígado, vemos que ele fornece condições propícias para a persistência do organismo do qual é um órgão, mas também para os hepatócitos que o compõem. Fora de um laboratório muito especializado, um hepatócito só pode persistir inserido em um fígado. E reciprocamente, para um fígado persistir, requer tanto um organismo no qual ele reside, quanto hepatócitos dos quais ele é composto. Um ponto chave é que essas dependências recíprocas não são meramente estruturais, mas também são baseadas em atividades. Um hepatócito sustenta um fígado e um fígado sustenta um organismo, fazendo coisas. Isso, em última análise, subjaz à nossa insistência em ver entidades aparentemente substanciais como células, órgãos e organismos como processos.

 

Esses processos — que tantas vezes foram vistos como coisas, ou substâncias – envolvem-se em processos mais familiares, como metabolismo, desenvolvimento e evolução; processos que, muitas vezes, fornecem explicações para a persistência de processos mais parecidos com coisas ou mais permanentes. Não é verdade que sabemos que coisas são necessárias para ocorrências processuais não controversas como metabolismo, desenvolvimento e evolução? Não deveríamos ser dualistas, endossando um mundo tanto de coisas quanto de processos pelos quais elas passam? Existem muitas respostas a essa linha de pensamento, mas a condição mínima para uma posição ser coerente com o tipo de ontologia de processos que endossamos é que os processos são, em algum sentido, mais fundamentais do que as coisas. O que isso significa, em termos muito gerais, é que a existência das coisas é condicional à existência de processos. Nossa visão preferencial desse tipo de ontologia, que elaboraremos mais adiante, é que as coisas devem ser vistas como abstrações de processos mais ou menos estáveis. Peter Simons, em seu ensaio neste volume, sugere que as coisas são “precipitadas” de processos.

 

Como alguém poderia argumentar a favor ou contra uma tese deste tipo? Uma resposta filosófica tradicional apela para o argumento ou para a razão pura. Talvez, como Kant pensou, existam verdades profundas sobre o mundo que devem ser admitidas para que seja possível obtermos conhecimento empírico sobre ele, pressupostos, portanto, da possibilidade da ciência. Ou talvez a forma como nossa linguagem funciona aponte para fatos que são mais profundos e mais universais do que as descobertas locais da ciência, fatos, portanto, fundamentais para quaisquer reivindicações empíricas específicas.

 

Sem querer negar o valor de tais estratégias filosóficas, nossa concepção da metafísica da ciência inclui a convicção de que tal projeto deve prosseguir em um diálogo com o que a ciência realmente nos diz sobre o mundo. Em comum com a maioria dos contribuintes para este volume, defendemos uma metafísica naturalista. Ou seja, pensamos que o exame das descobertas científicas nos aponta para imagens do mundo em um nível mais abstrato do que o alvo imediato da pesquisa científica. Acreditamos que, à medida que tais imagens se estabeleçam, elas podem, por sua vez, lançar uma nova luz, mesmo em questões bastante específicas dentro da ciência em que se baseiam. Para usar um termo que se tornou fora de moda em alguns setores filosóficos, a relação entre ciência e metafísica é dialética.

 

Comumente nos perguntam se uma filosofia processual da biologia deveria ser realmente um projeto ontológico e não, talvez mais modestamente, um projeto epistemológico. Não é suficiente afirmar que a ideia de processo fornece um instrumento conceitual mais efetivo para abordar a natureza? Vários autores nesta coleção defendem algo como essa posição. Mas, à luz da nossa abordagem naturalista da metafísica, não vemos uma grande diferença entre essa posição e a formulação mais metafísica que preferimos. Dado este naturalismo, a metafísica é geralmente estabelecida através de meios empíricos, e é, portanto, passível de responder à epistemologia. Conclusões científicas e metafísicas não diferem em espécie, ou nos tipos de argumentos que podem ser dados para eles, mas sim em generalidade e abstração. Se ocorrer que o processo é, de fato, o conceito certo para dar sentido à natureza, então isso é uma boa razão, como podemos esperar, para considerar a natureza como ontologicamente composta de processos.

 

Embora as conclusões metafísicas sejam mais abstratas e gerais do que normalmente são consideradas as descobertas científicas, elas não são indefinidamente verdadeiras. Os ensaios neste volume oferecem muitas razões para pensar que o mundo vivo é um mundo de processos e não um mundo de coisas, embora não tomemos isso para demonstrar conclusivamente que o mundo é universalmente um mundo de processos. Nós acreditamos, de fato, que existem razões convincentes para interpretar o mundo físico de maneira mais geral em termos de processos também, e se isso está certo, é difícil ver onde devemos esperar encontrar exceções para uma abordagem processualista universal. Mas o argumento deve ser feito em partes.

 

Prosseguimos da seguinte maneira. Começamos revisando o que consideramos ser os principais marcos na história da filosofia dos processos, e então consideramos algumas tentativas do início do século XX para desenvolver uma visão processual do mundo dos seres vivos, que acabaram por ter considerável relevância para o nosso projeto. Em seguida, delineamos nossa concepção particular de ontologia de processos, bem como nossa compreensão de quais são os processos e como eles se relacionam com as coisas, ou substâncias. Examinamos então algumas das principais descobertas empíricas da biologia que nos levaram a adotar o processualismo que defendemos, e ilustramos o valor de admitir uma postura processual em vários debates filosóficos proeminentes. Finalmente, discutimos várias consequências importantes de abraçar uma ontologia de processos em várias áreas da biologia. Concluímos fornecendo uma breve visão geral do restante dos ensaios deste volume.

 

  1. Antecedentes Históricos

A oposição entre coisas e processos como constituintes finais da realidade é, naturalmente, antiga, traçada comumente desde os pré-socráticos. Heráclito é o santo padroeiro da filosofia processual, pelo menos na tradição ocidental.[2] O lema grego panta rhei (ou seja, “tudo flui”) encapsula a doutrina heracliteana do fluxo universal. Heráclito não apenas enfatizou a difusão da mudança, mas também sinalizou a importância da mudança na explicação da estabilidade ao longo do tempo (Graham, 2015). A antítese dessa visão é o atomismo de Leucipo e Demócrito. Os átomos materiais indivisíveis e imutáveis desta tradição forneceram paradigmas para as substâncias tradicionais.

 

Parmênides foi outro dos primeiros defensores do substancialismo. Embora sua visão estática do mundo tenha se mostrado excessivamente extremada para a maioria dos filósofos subsequentes, sua convicção de que a permanência é mais fundamental e mais real do que a mudança se tornou um dos princípios centrais da metafísica ocidental. Foi entusiasticamente adotado por Platão em seu reino imutável de Formas ou Ideias eternas, e também por Aristóteles que, embora localizando essas Formas essenciais em entidades mundanas, permaneceu comprometido com seu caráter imutável. Substâncias aristotélicas, que são as entidades básicas de sua metafísica, são distinguidas como substâncias de tipos particulares por sua essência, e essa essência estabelece limites inacessíveis para os tipos de mudanças que uma substância individual pode sofrer. É difícil exagerar o quão influente essa visão essencialista tem sido. Muitos substancialistas até hoje seguem Aristóteles ao afirmar que para ser uma coisa é preciso ser uma coisa de certo tipo, e que o tipo ao qual uma coisa pertence determina as mudanças pelas quais ela pode sofrer e ainda ser o que é.

 

É interessante observar que o próprio pensamento de Aristóteles, em muitos aspectos, é mais adequado a uma perspectiva de processo do que a de seus seguidores, e isso certamente tem a ver com sua fascinação vitalícia pela Biologia. Aristóteles tomou os organismos como exemplos de sua concepção de substâncias e, consequentemente, os concebeu teleologicamente para reconhecer e unir os diferentes estágios do ciclo de desenvolvimento dos organismos. Mas, apesar de sua consciência da dinâmica distintiva dos seres vivos, Aristóteles ainda é melhor descrito como um ontologista de substâncias.[3] Historicamente falando, a metafísica aristotélica forneceu a base para a filosofia substancialista que foi desenvolvida pelos pensadores escolásticos durante o período medieval.

 

Embora a Revolução Científica seja frequentemente vista como uma revolta contra o aristotelismo, certamente ela não foi uma rejeição do substancialismo. Uma razão central para isso foi o renascimento do atomismo por Boyle, Newton e outros. Um átomo é uma coisa, ou substância, se é que é alguma coisa. Os átomos da ciência moderna primitiva eram eternos e permanentes em suas propriedades intrínsecas. As mudanças experimentadas em nosso mundo macroscópico foram atribuídas aos movimentos e rearranjos das relações entre os átomos subjacentes, que permaneceriam inalterados durante essas interações. É verdade que para Locke, talvez o principal expoente dessa filosofia, nossa falta de acesso ao mundo microscópico dos átomos levou-o a um ceticismo notório sobre os tipos de entidades que encontramos no nível macroscópico. Como resultado, ele não presumiu que espécies biológicas, como gatos ou cachorros, partilhassem de uma essência subjacente comum. No entanto, isso não contradiz sua filosofia substancialista; só restringia nossa capacidade de saber que tipo de substância, se é que alguma, eles exemplificavam.

 

Vários filósofos nos séculos subsequentes podem ser associados, até certo ponto, ao pensamento processual. Leibniz criticou a concepção de substância material de Descartes por sua falta de atividade, e é frequentemente considerado um metafísico do processo, embora estejamos inclinados a pensar que seu sistema de “mônadas” inerentemente ativas é muito idiossincrático para dar muito apoio à causa do processo, pelo menos como a entendemos. A metafísica do devir, de Hegel, em que a natureza se diferencia progressivamente por meio da operação de uma dialética que integra continuamente os opostos conflitantes em unidades sempre novas, fornece algo mais inequivocamente processual. De fato, tentativas de aplicar o materialismo dialético à Biologia — da Dialética da Natureza de Engels a “The Dialectical Biologist” (1985), de Richard Levins e Richard Lewontin — têm muitas semelhanças com o presente projeto. Os pragmatistas norte-americanos, especialmente James e Dewey, também merecem uma menção, ao formularem uma filosofia distintamente processual, a fim de chegar a um acordo com as implicações da teoria da evolução de Darwin, embora, devido ao seu pragmatismo, devido a uma perspectiva mais epistemológica do que ontológica. No entanto, a figura que veio a ser mais intimamente associada ao pensamento processual nos últimos tempos é inquestionavelmente Alfred North Whitehead, que articulou um sistema metafísico abrangente que concebeu o mundo como um todo unificado, dinâmico e interconectado.

 

Hoje em dia, a filosofia processual tornou-se quase sinónimo do trabalho de Whitehead. [4] Sem pretender desvalorizar a importância de Whitehead para o desenvolvimento do pensamento processual, para os propósitos do presente projeto desejamos nos distanciar da associação com a metafísica whiteheadiana. Uma razão para isso é que o tratado metafísico mais sistemático de Whitehead, “Process and Reality” (1929), é geralmente aceito como opaco e, às vezes, obscuro a ponto de aproximar-se do ininteligível. Seu sistema confere significados não convencionais a conceitos familiares (por exemplo, organismo, nexo, satisfação) e introduz um número de neologismos (por exemplo, preensão, concrescência, superjeto) e termos técnicos idiossincráticos (por exemplo, ocasião real, objetivo subjetivo, continuum extenso) que nós não consideramos particularmente úteis no desenvolvimento das ideias que nos interessam em relação aos sistemas vivos. Também discordamos de Whitehead em relação à sua insistência em conceber a realidade em termos atomísticos — uma característica de sua metafísica de processos à qual voltaremos mais tarde. Finalmente, e talvez mais importante, as fundações pan-psíquicas do sistema de Whitehead, para não mencionar seu caráter teológico, são difíceis de conciliar com a perspectiva naturalista que defendemos.

 

Pelas razões acima, descobrimos que Whitehead às vezes é tanto um risco para o pensamento processual — associá-lo com sua bagagem filosófica indesejável e prosa desconcertante — quanto um expoente valioso. De fato, suspeitamos que a filosofia processual não recebeu a atenção que merece em parte por causa de sua íntima associação com a obra de Whitehead.[5] Portanto, se por um lado estamos felizes em reconhecer o significado da metafísica whiteheadiana, o leitor não encontrará neste ensaio, ou em qualquer dos capítulos seguintes, discussões exegéticas da Categoria do Último, das oito Categorias da Existência, das vinte e sete Categorias da Explicação, ou das nove Obrigações Categoriais consagradas em “Process and Reality”. Considerando todas as coisas, estamos mais inclinados a nos arriscar a reinventar a roda do que a procurar os conceitos e teses que queremos no sistema metafísico de Whitehead.

 

  1. O Precedente Organicista

Surpreendentemente, talvez, descobrimos que Whitehead é mais útil para nós por meio de sua influência em um grupo importante de biólogos do início do século XX, do que pelo envolvimento direto com seu próprio trabalho. Os membros desse coletivo, conhecidos como organicistas, produziram um grande corpo de literatura na filosofia da biologia que antecede por várias décadas as publicações em geral que presumiram ter dado origem à disciplina moderna (Nicholson e Gawne, 2015). Curiosamente, o livro de Whitehead que exerceu a maior influência sobre os organicistas não foi “Process and Reality”, mas Science and the Modern World (1925). Esse trabalho anterior, escrito em prosa mais acessível e sem muito do aparato conceitual que caracteriza seus escritos metafísicos posteriores, apresentava uma história condensada das ideias científicas e argumentava que a visão mecanicista, reducionista e determinista da natureza que reinava suprema desde o século XVII, já não era defensável à luz dos desenvolvimentos revolucionários da física moderna.

 

No lugar dessa visão obsoleta de mundo, Whitehead defendia uma filosofia da natureza que enfatizava o desenvolvimento, a organização e a interdependência de todas as coisas, e ele reconheceu que esses conceitos eram muito mais apropriados à Biologia do que à Física. A Biologia, observou Whitehead, historicamente dependia para seu desenvolvimento do sólido alicerce epistemológico da Física clássica, mas não podia mais se dar ao luxo de fazê-lo; ela teve que surgir como uma ciência unificada e autônoma, examinando cuidadosamente e reconstruindo seus fundamentos conceituais de acordo com suas próprias necessidades. Como ele colocou, “o progresso da biologia […] provavelmente foi cerceado pela suposição acrítica de meias verdades. Para não se degenerar em uma mistura de hipóteses ad hoc, a ciência deve se tornar filosófica e entrar em uma crítica completa de seus próprios fundamentos ”(Whitehead, 1925: 25). Os organicistas adotaram isso como um grito de guerra em sua causa para desenvolver uma nova filosofia da biologia que emanciparia sua ciência tanto do reducionismo físico-químico do mecanicismo quanto do holismo obscurantista do vitalismo para chegar a um acordo com o caráter dinâmico, sistêmico e intencional da vida.[6]

 

O notável fisiologista John Scott Haldane (pai de J. B. S. Haldane) foi o primeiro a usar o rótulo “organicismo” para descrever suas próprias opiniões. Olhando para trás em seus escritos, é fácil discernir um fio processual que passa através destes textos. Haldane considerava o organismo como um todo integrado e coordenado, exibindo uma “regulação delicada [que] é mantida, dia após dia, e ano após ano, apesar de todos os tipos de mudanças no ambiente externo, e apesar das mudanças metabólicas que ocorrem constantemente em todos os tecidos vivos” (Haldane 1917: 17). Ele observou que os organismos permanecem fisiologicamente constantes ao longo do tempo, embora, de uma perspectiva puramente física, sejam redemoinhos altamente dinâmicos da matéria. “Eles estão constantemente incorporando e desprezando material de muitos tipos, e sua ‘estrutura’ nada mais é que a aparência tomada por este fluxo de material através deles” (ibid., P. 90). Quando estudamos o mundo dos vivos, de acordo com Haldane, não estamos realmente lidando com coisas materiais, mas com processos estabilizados. Ele chegou mesmo a comentar que “a concepção de uma ‘coisa’, ou unidade material, é […] inútil na interpretação de fatos distintamente biológicos” (Haldane 1919: 125).

 

Outro organicista proeminente foi Edward Stuart Russell, que é provavelmente mais conhecido hoje por seu tratado histórico “Form and Function” (1916). Em seus trabalhos posteriores, mais filosóficos, Russell repetidamente enfatizou o caráter intencional dos organismos, que estão sempre se esforçando “ativamente em direção a um fim, seja de autodesenvolvimento, auto-manutenção ou a continuação da raça” (Russell 1924: 56). Subjacente a isso estava uma compreensão profundamente processual do organismo, que Russell descreveu como “essencialmente uma atividade em curso de passagem, mudando de uma forma para outra, sempre se desenvolvendo ou regredindo, mas nunca parado” (ibid.). Como a maioria dos outros organicistas, Russell criticou a concepção do organismo como uma máquina por negligenciar a dinâmica inerente à vida, afirmando que “o organismo não é, como uma máquina, uma construção estática, mas uma organização em constante mudança de atividades funcionais” ( Russell 1930: 169). Russell também chamou a atenção para o caráter temporal do organismo, que “em qualquer momento de sua história deve ser considerado apenas uma fase de um ciclo de vida”, insistindo que “é todo o ciclo que é a vida. do indivíduo ”(ibid .: 171). Como ele colocou em uma discussão subsequente, “é como uma progressão do ciclo de vida e não como uma organização estática que o ser vivo é finalmente concebido” (Russell, 1945: 186).

 

Joseph Henry Woodger foi mais um expoente do organicismo. Embora hoje ele seja em grande parte lembrado — e ridicularizado— por suas tentativas de formalizar teorias biológicas, Woodger publicou vários trabalhos filosóficos não formais nos quais articulou uma visão processual da vida (ver Nicholson e Gawne, 2014). Como Russell, ele sentiu que “há uma necessidade urgente de uma consideração das relações temporais” (Woodger, 1929a, p. 299), e ele foi talvez o primeiro filósofo da biologia a examinar a questão de maneira sistemática. A seguinte citação, extraída de seus Princípios Biológicos, oferece um sabor de suas discussões sobre o tópico:

 

“Um organismo, seja o que for, é um acontecimento – algo acontecendo. É temporalmente e espacialmente estendido. Tem partes temporais e espaciais. Seu cão de estimação hoje e seu cão de estimação ontem são duas partes temporais diferentes do mesmo cão, assim como sua cabeça e sua cauda são duas partes espaciais diferentes do mesmo cão. É em virtude do tipo particular de continuidade do cão ontem e do cão que hoje chamamos de “o mesmo”, e esse parece ser o sentido apropriado do termo. Mas não se pode dar por garantido que a parte temporal de hoje é a mesma que a de ontem do que se pode tomar como certo que uma parte espacial, por ex. a cabeça é a mesma que outra, a cauda. Sabemos, de fato, que eles não são iguais. Os organismos são temporalmente e espacialmente diferenciados.” (Woodger 1929a: 219)

 

Conrad Hal Waddington é provavelmente o mais conhecido dos organicistas hoje em dia, pois seu trabalho tem sido, durante algum tempo, uma inspiração para os filósofos da biologia, céticos quanto a vários aspectos da Síntese Moderna.[7] Waddington continuou sendo um processualista comprometido ao longo de sua carreira. (ver Waddington 1969). “As características fundamentais do organismo”, ele escreveu em “A estratégia dos genes”, “são propriedades estendidas no tempo” (Waddington 1957: 189). A Biologia não estuda coisas; ela estuda processos que ocorrem em vários cronogramas. De acordo com Waddington, para entender completamente um organismo é preciso considerar como ele é afetado por quatro tipos distintos de mudança temporal — estudados, por sua vez, por quatro diferentes ramos da biologia —, os quais estão ocorrendo simultaneamente e continuamente em vários ritmos:

 

“Um animal funciona de minuto a minuto ou de hora em hora, na alimentação, digestão, respiração, usando seus músculos, nervos, glândulas e assim por diante. Estes processos de funcionamento fisiológico podem ser repetidos dentro de períodos de tempo que são curtos em comparação com o tempo de vida de um animal individual. Mas existe um conjunto igualmente importante de processos, de ritmo mais lento, que requerem frações apreciáveis da história da vida e são repetidos apenas algumas vezes, se é que o são, durante um ciclo de vida; estes processos constituem o desenvolvimento biológico. Processos ainda de prazo mais longo são os da hereditariedade, que só podem ser realizados durante a passagem de pelo menos algumas gerações e que formam a província da Genética. E finalmente, nenhuma imagem completa de um animal pode ser dada sem levar em conta os processos ainda mais lentos da evolução, que se desdobram apenas no curso de muitas vidas.” (Waddington 1956: 3-4)

 

Mas não foram apenas os organicistas britânicos que desenvolveram uma compreensão processual da vida. Os organicistas vienenses Ludwig von Bertalanffy e Paul Alfred Weiss, por exemplo, também defenderam uma ontologia processual em seu pensamento sobre a Biologia. Bertalanffy (1952: 134) considerava o organismo como “a expressão de um processo eterno e ordenado” consistindo de “um fluxo contínuo de materiais componentes” (ibid .: 133) que fluem através dele e, ao mesmo tempo, o constituem. “O que é descrito na morfologia como forma orgânica”, argumentou Bertalanffy, “é na verdade um corte transversal momentâneo através de um padrão espaço-temporal” (ibid .: 134). Weiss foi igualmente meticuloso em seu processualismo, afirmando que os processos biológicos só podem ser compreendidos em termos de processos mais básicos, e não em termos de coisas mais básicas: “A vida é um processo dinâmico. Logicamente, os elementos de um processo podem ser apenas processos elementares, e não partículas elementares ou quaisquer outras unidades estáticas ”(Weiss 1962: 3). Uma das principais implicações que Weiss extraiu disso é que uma célula “nunca pode ser definida em termos de um inventário estático de compostos, por mais detalhados que sejam, mas apenas em termos de suas interações” (ibid.).

 

No geral, a ontologia do organicismo foi distintamente processual, e isso é em grande parte um reflexo da influência exercida por Whitehead, tanto em termos de seu diagnóstico oportuno do colapso do mecanicismo na Física quanto de suas excitantes implicações para a Biologia, e em termos de seu exame perspicaz do tempo, da dinâmica e da inteireza nos livros que escreveu antes de “Process and Reality” (isto é, Whitehead, 1919, 1920 e especialmente Whitehead, 1925).[8] Achamos bastante significativo que os organicistas pudessem desenvolver uma teoria perspectiva processual coerente na Biologia sem se aproveitarem do grande sistema metafísico que Whitehead apresentava nesse livro, amplamente considerado hoje como sua obra-prima. A esse respeito, talvez seja mais apropriado descrever o organicismo como uma filosofia da biologia que foi inspirada por Whitehead do que como uma filosofia genuinamente whiteheadiana da biologia.[9] Seja como for, o que é relevante para nossos propósitos atuais é que os organicistas mostraram a maneira pela qual alguém poderia articular uma descrição processual do mundo vivo que é naturalisticamente fundamentada e empiricamente informada. Nós consideramos os organicistas como espíritos afins e consideramos nosso projeto como sendo contínuo com a tradição anterior na filosofia da biologia à qual eles pertencem. Naturalmente, um grande progresso ocorreu na Biologia nas décadas desde que a tradição organicista entrou em declínio, assim, enquanto muitas de suas ideias centrais resistiram ao teste do tempo, sua reavaliação à luz desses desenvolvimentos mais recentes é muito defasada. Cerca de um terço dos capítulos deste volume apresenta discussões ou referências a autores organicistas.

 

  1. Processos e Coisas

Esse manifesto e o livro em geral defendem a tese de que o modo correto de entender os sistemas vivos em todos os níveis é como uma hierarquia de processos e não de coisas. Filosoficamente, esta é uma tese radical: como já vimos, uma ontologia das coisas, ou substâncias aristotélicas, dominou a filosofia ocidental desde os gregos. Como resultado, é geralmente admitido que a ontologia da substância fornece a articulação mais “natural” de nossas intuições de senso comum sobre o mundo.[10] Johanna Seibt, em sua contribuição para este volume e em outros lugares (eg Seibt 1996), refere-se a isso como o “mito da substância”. Esse viés generalizado em relação às coisas é refletido em nossa linguagem cotidiana, e tem um efeito direto sobre como a pesquisa científica é conduzida e como seus resultados são interpretados. Os artigos desta coletânea ilustram muitos dos problemas que surgem ao se tomar a primazia ontológica das coisas como um dado no contexto particular das ciências da vida. Embora nem todo colaborador deste livro seja um metafísico do processo totalmente inscrito, todos estão explorando tópicos que apontam de várias maneiras para as vantagens dessa posição alternativa.

 

Qual é a diferença entre uma coisa ou uma substância e um processo? Em grande parte, é claro, essa é a questão de que este livro, e em menor medida o presente ensaio, deve ajudar a responder. Um ponto de partida, no entanto, é o seguinte. Os processos são estendidos no tempo: eles têm partes temporais. Se as coisas têm partes temporais é um assunto em debate. Muitos filósofos sustentam que esse não é o caso. Como às vezes é expresso, uma coisa está totalmente presente em qualquer momento em que está presente. Muitas vezes, essa posição é combinada com o presentismo, a visão de que apenas o presente existe (Bourne, 2006). Ambas as teses são contestadas pelos quadridimensionais, que pensam nas coisas como “vermes do espaço-tempo”, estendendo-se através do tempo pelo tempo que existem (Sider 2001). Sob esse ponto de vista, apenas uma pequena parte de uma coisa temporalmente estendida está presente em qualquer instante. Não vamos dizer mais nada sobre esse debate aqui, a não ser para notar que o quadridimensionalismo já está a meio caminho de uma ontologia processual plena. Ambos povoam o mundo com entidades temporalmente estendidas com diversas partes temporais. Para ver onde essas posições ainda podem diferir, será necessário dar mais atenção ao que torna as partes temporais de uma entidade partes da mesma entidade, uma questão à qual voltaremos mais tarde, e que também será discutida nos capítulos subsequentes, especialmente aqueles na parte II do livro.

 

Igualmente central para o conceito de processo é a ideia de mudança. Um processo depende da mudança para sua ocorrência. Tradicionalmente, a mudança tem sido interpretada como algo que acontece com as coisas, ou substâncias, tipicamente concebidas como entidades integradas duráveis que não dependem das relações externas para sua existência. As coisas, nessa visão, são os sujeitos da mudança e os processos apenas rastreiam modificações nas propriedades das coisas ao longo do tempo, ou descrevem meios pelos quais as coisas interagem umas com as outras. Esse entendimento leva à suposição de que os processos sempre envolvem os feitos (as ações) das coisas. Processos, portanto, necessariamente pressupõem a existência prévia das coisas.

 

Um problema com essa visão é que muitos processos não pertencem, de fato, a assuntos específicos. A chuva, o vento, a eletricidade e a luz são exemplos comuns de processos sem sujeito, ou “sem dono”, que não são ações de coisas individuais. Também existem inúmeros processos sem sujeito no mundo dos seres vivos: osmose, fermentação, radiação adaptativa, etc. Como Johanna Seibt mostra em seu capítulo, a existência autônoma dos processos sem sujeito não é comprometida pelo fato deles não terem muitas características de particulares concretos, tais como limites determinados ou, para esse assunto, uma localização espácio-temporal única ou específica.

 

Um problema mais fundamental é que mesmo aqueles que parecem ser os sujeitos das atividades podem, eles próprios, ser interpretados como estágios temporais específicos de processos estáveis; eles não precisam ser entendidos como coisas. Embora muitos processos sejam definidos em termos de particularidades concretas a que estão submetidos, a noção de que apenas coisas ou objetos são qualificados para contar como particulares concretos nada mais é do que um preconceito. Muitos processos são indivíduos genuínos – são unidades concretas, contáveis e persistentes. Exemplos não biológicos incluem redemoinhos, chamas, tornados e raios laser. Na biologia, os processos são, como já mencionamos, dinamicamente estabilizados em escalas de tempo muito diferentes: uma questão de minutos para uma molécula de RNA mensageiro, alguns meses para um glóbulo vermelho, muitas décadas para um ser humano e até vários milênios para uma sequoia gigante. Essa estabilização pode tornar mais fácil confundi-los com coisas estáticas. Mas, mais importante, permite que eles desempenhem o papel tradicionalmente atribuído a coisas que passam por processos ontológicos de substância; a única condição é que os processos relevantes devem ser suficientemente estáveis na escala de tempo dos demais processos que eles, por sua vez, sofrem. Enzimas podem ser tratadas como coisas porque são estáveis na escala de tempo da catálise. Da mesma forma, os glóbulos brancos são estáveis na escala de tempo da fagocitose, os alvéolos são estáveis na escala de tempo da respiração, os animais são estáveis na escala de tempo da reprodução e assim por diante.

 

Acreditamos, então, que é um erro supor que os processos exigem coisas subjacentes ou substâncias. Essa crença comumente corresponde, sem surpresa, ao significado original do termo “substância”, que deriva da palavra latina substantia — literalmente, aquilo que está embaixo (que subjaz). Em oposição a essa visão, consideramos que a natureza é totalmente constituída por processos (all the way down).[11] Isso representa a reversão da posição substancialista descrita acima. Em vez de pensar nos processos como pertencentes às coisas, devemos pensar nas coisas como sendo derivadas de processos. Isso não significa que as coisas não existam, menos ainda que os “conceitos—coisa” (thing-concepts) não podem ser extremamente úteis ou esclarecedores. O que isso implica é que as coisas não podem ser consideradas como os blocos básicos de construção da realidade. O que identificamos como coisas não são mais que padrões transitórios de estabilidade no fluxo circundante, redemoinhos temporários no fluxo contínuo do processo.

 

O processualismo completo que defendemos considera a mudança, ou melhor a dinamicidade[12], como fundamental ou primitiva. Essa dinamicidade é estendida no tempo e, como o próprio tempo, é contínua. Portanto, é inapropriado considerá-la — ou qualquer um dos inúmeros processos que a constituem — como uma sequência de eventos particulares. Conceber processos como séries de episódios temporais discretos (separados) é negligenciar a própria dinâmica que a filosofia processual pretende enfatizar. Como observamos anteriormente, esta é uma das principais razões pelas quais não situamos nosso projeto na tradição whiteheadiana. Whitehead interpretou a realidade em termos atomísticos, como sendo, em última instância, compostos de unidades indivisíveis, que ele chamou de “ocasiões reais”, das quais todos os processos maiores são compostos. Em lugar de uma visão descontínua do mundo como uma agregação complexa de elementos últimos, preferimos considerá-lo como uma variedade de processos aninhados e inter-relacionados que coletivamente constituem um contínuo dinâmico. Essa compreensão da natureza nos obriga a repensar uma série de problemas tradicionais da filosofia, como a natureza da causalidade, que é o que Rani Lill Anjum e Stephen Mumford propuseram fazer em seu ensaio neste volume.

 

Os processos vêm em muitas formas, jeitos e tamanhos. A organização espaço-temporal de um processo e suas relações espaço-temporais e causais com outros processos determinam sua persistência e estabilidade, e são também aquilo que fundamenta suas propriedades e poderes causais. Como já observamos, os processos podem ser atividades dinâmicas “puras” ou podem ser indivíduos exibindo a maioria das características tipicamente atribuídas às coisas. Enquanto as coisas geralmente podem ser individualizadas por seus locais espaço-temporais—as coisas geralmente excluem outras coisas das regiões do espaço-tempo que ocupam — esse não é o caso típico dos processos. Muitos processos têm limites que se confundem ou são indeterminados, um recurso com implicações que exploraremos mais adiante. Os processos são individualizados não tanto por onde estão quanto pelo que eles fazem. Uma série de atividades constitui um processo individual quando elas estão causalmente interconectadas ou quando se unem de maneira coordenada para produzir um fim particular. Muitos dos processos encontrados no mundo vivo, além disso, exibem um grau de coesão que os destaca em seu ambiente e, assim, nos permite identificá-los como sistemas distintos e integrados — como entidades em si mesmas. Em seu capítulo, James DiFrisco considera até que ponto o critério de coesão, proposto inicialmente por John Collier (1988, 2004), pode fornecer um meio eficaz de individuação dos processos biológicos.

 

A transição que estamos propondo de uma ontologia de substância para uma ontologia do processo tem uma implicação epistemológica muito importante. Em qualquer investigação científica é necessário distinguir o que requer explicação do que constitui um fundo, tomado como certo. A posição substancialista ortodoxa da ciência moderna tipicamente considera esse pano de fundo como estável: se nada mudar, nada requer explicação. Isso ocorre porque o modo padrão de existência de uma coisa é a estase (stasis) e, consequentemente, a necessidade de explicação só surge quando ocorrem mudanças. Para um processo, entretanto, a mudança é a norma, e é sua relativa estabilidade que tem prioridade na ordem explicativa. Se o reino vivo é de fato processual, então devemos considerar que o explanandum central da biologia não é a mudança, mas a estabilidade, ou, para ser mais preciso, a estabilidade alcançada através de mudanças constantes. Tome a fisiologia como um exemplo ilustrativo. A fisiologia está preocupada em entender a multiplicidade de processos internos que permitem que um organismo permaneça vivo, mantendo sua organização dentro de uma faixa relativamente estreita de parâmetros. Está bem claro que, no contexto da investigação fisiológica (que abrange muitas áreas mais especializadas da biologia), a persistência de um organismo não é de modo algum uma suposição básica, mas sim é o próprio fenômeno que requer explicação. O mesmo pode ser dito de investigações na biologia do desenvolvimento ou na imunologia, e até (ou talvez especialmente) em medicina, como ilustrado pela discussão do câncer no capítulo de co-autoria de um de nós (Dupré) com Marta Bertolaso.

 

  1. Motivações Empíricas

Nesta seção, examinaremos alguns fatos científicos bem estabelecidos sobre a vida que revelam a inadequação da metafísica tradicional da substância para representar a realidade biológica e que nos obrigou a adotar uma postura processual em relação ao mundo vivo.

 

Embora este livro esteja primariamente preocupado com a biologia, achamos que não devemos prosseguir sem pelo menos mencionar que as ciências físicas, elas próprias, já fornecem motivações poderosas para endossar uma ontologia de processos. Nicholas Rescher (1996: 97) disse que a física moderna “coloca dinheiro na conta bancária do filósofo”, e é fácil perceber porquê. O advento da mecânica quântica na virada do século XX levou à desmaterialização da matéria física, já que os átomos não podiam mais ser interpretados como sistemas planetários rutherfordianos de objetos parecidos com partículas. Isso resultou no desaparecimento da ontologia corpuscular clássica da física newtoniana, que havia sido um dos pilares da metafísica da substância desde a Revolução Científica. O que até então tinha sido concebido como os últimos pedaços de matéria foi reconceitualizado como padrões estatísticos, ou ondas de estacionárias, em um mar de atividade de fundo.[13]

 

O desenvolvimento subsequente da teoria de campos quânticos, que foi articulada para reconciliar a mecânica quântica com a relatividade especial, deu ainda mais apoio à causa do processo. Os campos quânticos, que são organizações dinâmicas de energia distribuídas no espaço-tempo, parecem ter removido noções clássicas de partículas elementares do quadro ontológico. Embora os físicos contemporâneos ainda falem rotineiramente de “partículas”, eles não se referem mais a micro-entidades sólidas ou pequenos grânulos impenetráveis, mas a excitações quantificadas de campos específicos. Os campos quânticos, em outras palavras, são primários, e os vários tipos de partículas aos quais os físicos se referem são entidades derivadas, aparecendo apenas após a quantização. Assim, o que a física contemporânea parece estar nos dizendo — se entendermos as equações realisticamente – é que os constituintes ontológicos básicos do universo não são partículas elementares, entendidas como “coisas” minúsculas, mas campos estendidos no espaço-tempo. Embora não tenhamos certeza se os campos são processos ou coisas, eles parecem ser mais parecidos com os anteriores do que com os últimos.[14]

 

Se a Física nos direciona para a metafísica do processo, e há razões adicionais para pensar que a química é igualmente passível de um processo de interpretação ontológica (ver, por exemplo, o ensaio de Stein 2004 e Stephan Guttinger neste volume), seria surpreendente descobrir que a Biologia nos empurra na direção oposta, em direção a uma ontologia de substâncias. Como se vê, há boas razões independentes para abraçar a metafísica de processos também na Biologia, como veremos agora.

 

5.1. Reciclagem Metabólica

Uma das mais fortes motivações para adotar uma ontologia de processos na Biologia vem de um fato muito familiar sobre a vida, ou seja, que os organismos precisam comer para se manterem vivos. Podemos expressar isso em termos mais técnicos, usando o jargão da termodinâmica, afirmando que os organismos são sistemas abertos que precisam constantemente trocar energia e matéria com o ambiente para se manterem longe do equilíbrio. A persistência de um organismo depende de sua capacidade de manter continuamente um “estado estacionário” de baixa entropia, no qual há uma importação e exportação de materiais perfeitamente equilibradas. Quando esta troca cessa, o estado estacionário é irremediavelmente perdido e o organismo sucumbe ao equilíbrio, resultando em morte.

 

Por causa de suas características termodinâmicas particulares, os organismos se encontram na condição existencial de precisar agir para continuar a existir. Embora um carro não possa funcionar sem combustível, sua existência (isto é, sua integridade estrutural) não é comprometida quando ele é privado de combustível. Um organismo, ao contrário, está sempre agindo (ou trabalhando, no sentido termodinâmico), pois deve permanecer permanentemente deslocado do equilíbrio se quiser permanecer vivo. Você pode deixar sua máquina de escrever em um apartamento vazio e voltar uma década depois e começar a usá-la novamente. Mas se você acidentalmente deixar o seu hamster no apartamento, você não terá um hamster por muito tempo.

 

Essa atividade contínua, que é verdadeiramente indispensável para a vida, é conhecida na Biologia como o processo do metabolismo. O metabolismo abrange os meios pelos quais os organismos quebram os materiais que absorvem de seu ambiente, a fim de adquirir a energia de que precisam para reconstruir seus constituintes e manter-se em um estado estável, longe do equilíbrio termodinâmico. O metabolismo também inclui os processos pelos quais os organismos dissipam a energia e excretam os resíduos de material de volta ao seu ambiente, conformando-se assim à segunda lei da termodinâmica. Essa constante renovação metabólica ocorre em todos os níveis da organização biológica. Como indicamos no início deste ensaio, um organismo não é organizado como uma hierarquia de estruturas (como uma máquina é), mas, sim, como uma hierarquia de processos. Quanto mais baixamos a hierarquia biológica, mais rápido é o ritmo de trocas de material. A estabilidade de cada processo na hierarquia é assegurada em virtude da constante reciclagem metabólica dos componentes que ocorrem no nível inferior. Consequentemente, a estabilidade de um organismo multicelular como um todo deriva da contínua regeneração de seus tecidos, os quais são, eles próprios, mantidos pela incessante renovação de suas células, as quais, por sua vez, são estabilizadas pelo reabastecimento contínuo de seus constituintes moleculares.

 

O aparecimento de estase (stasis) na Biologia pode ser enganador em qualquer nível de organização. Formações subcelulares como o fuso mitótico ou o complexo de Golgi parecem estruturas bem definidas dentro de uma escala de tempo curta, mas quando as consideramos para intervalos temporais mais longos, torna-se evidente que são apenas manifestações fugazes de processos contínuos de troca material. Essas organelas, como muitas outras montagens moleculares na célula, não existem como microestruturas fixas, mas como padrões quase estacionários — parte fluida, parte consolidada —que persistem por um tempo antes de passar por transformações ou desaparecer por completo (Kirschner et al. 2000; Misteli 2001). Exatamente o mesmo é verdadeiro para as células que compõem um tecido, para os tecidos que constituem um órgão e para os órgãos que compõem um organismo. Qualquer célula dada, e qualquer tecido dado, instancia um estado estacionário dinâmico, apenas a forma da qual persiste, enquanto sua constituição material está sendo constantemente transformada por eventos metabólicos.

 

Em última análise, isso também se aplica a um organismo multicelular como um todo. Isto é mais difícil de apreciar porque a regeneração material da forma da maioria dos organismos macroscópicos é tão lenta que não é facilmente percebida pelo olho humano. Mas considere o seguinte experimento mental. Imagine uma forma de vida humanóide extra-terrestre cujo modo de reconhecimento visual foi baseado na enumeração dos componentes materiais que compõem fichas particulares de tipos gerais, em vez de na identificação dos tipos gerais que são instanciados por fichas particulares. Imagine ainda que este alienígena pousa na Terra em um local específico e encontra dois cães: um cão vivo e um cão robótico. O alienígena examina os dois cães, cataloga sua constituição material para identificação futura e volta para casa. Alguns anos depois, o alienígena retorna à Terra para o mesmo local e enfrenta os dois cães que encontrou em sua primeira viagem. Apesar de estar na presença dos mesmos dois cães, o aparelho cognitivo do alienígena significa que só é capaz de identificar o cão robótico e não o cão vivo. Do ponto de vista dos alienígenas, o cão vivo da primeira viagem desapareceu e um cão vivo completamente diferente tomou o seu lugar. O que este experimento de pensamento reconhecidamente fantasioso pretende ilustrar é que, se alguém foca na matéria em vez da forma e espera por um período de tempo suficientemente longo, a natureza semelhante a um fluxo dos organismos macroscópicos torna-se perfeitamente evidente. O fato de isso não ser facilmente perceptível para nós não o torna menos verdadeiro ou importante.

 

De uma perspectiva metabólica, é simplesmente uma questão de fato que em um organismo tudo flui. Claro, isso não quer dizer que tudo flua na mesma velocidade. No corpo humano, por exemplo, cada tipo de tecido tem seu próprio tempo de reciclagem, dependendo da carga de trabalho suportada por suas células. Para ilustrar: as células que revestem nosso estômago duram apenas cinco dias; as células da nossa epiderme são renovadas a cada duas semanas; nossos glóbulos vermelhos são repostos em quatro meses; nosso fígado como um todo é regenerado anualmente; e todo o nosso esqueleto é substituído a cada década (Wade 2005). Quando consideramos o tempo de reciclagem das moléculas em nosso corpo, a taxa de reposição é várias vezes maior. Por exemplo, a taxa de turnover de proteínas em um adulto é de aproximadamente oito por cento por dia, e virtualmente todas as moléculas de proteína em nosso corpo são substituídas ao longo de um ano (Haynie, 2008).[15] Isso não deveria surpreender. Uma célula persiste por muito mais tempo do que qualquer um dos seus constituintes moleculares, e o mesmo pode ser dito da vida útil de um tecido comparado com o de suas células componentes. Em geral, nenhuma das partes de um organismo é tão antiga quanto o próprio organismo. O que isso implica, no que diz respeito a você — o leitor — é que seu corpo físico é várias vezes mais jovem do que sua idade real.[16] Infelizmente, no entanto, rugas e cabelos grisalhos se renovam tão fielmente quanto a pele lisa e as tranças mais jovens.

 

Em geral, a realidade do metabolismo nos força a reconhecer que os organismos, apesar de sua aparente fixidez e solidez, não são coisas materiais, mas processos fluidos; são fluxos metabólicos de matéria e energia que exibem estabilidades dinâmicas em relação a escalas de tempo específicas. Como processos, e ao contrário de coisas ou substâncias, os organismos precisam passar por mudanças constantes para continuar sendo as entidades que são. O capítulo de um dos atuais co-autores (Nicholson) examina o caráter metabólico dos organismos e sua fundamentação na termodinâmica em maior profundidade, e explora algumas das implicações ontológicas da transição de uma concepção de máquina para uma concepção de fluxo do organismo. O capítulo de Denis Walsh também considera o aspecto metabólico da vida como um ponto de partida para argumentar que os organismos são agentes e não objetos e explorar as conseqüências dessa mudança ontológica para nossa compreensão da evolução. E o último capítulo do livro, por Anne Sophie Meincke, apela à natureza processual do metabolismo para lidar com o enigma da identidade pessoal.

 

5.2. Ciclos de vida

Outro fato igualmente incontroverso sobre a vida que similarmente nos compele a adotar uma perspectiva de processo é que todos os organismos passam por uma série característica de mudanças morfológicas e comportamentais ao longo de sua vida; eles não permanecem os mesmos a partir do momento em que surgem, mas sim se desenvolvem progressivamente ao longo do tempo, adquirindo certas propriedades e capacidades e perdendo outras ao longo do caminho. Isso é comumente chamado o processo de ontogenia, e a natureza, a ordem e o momento exatos das mudanças que ele compreende variam enormemente de uma espécie para outra.

 

Vamos pegar uma rã como exemplo. Ela começa sua vida como um ovo fertilizado, que se divide e se desenvolve em um embrião. Quando o ovo se abre, a rãzinha deixa o seu invólucro gelatinoso e se prende a uma erva flutuante ou a uma folha de grama. Em seguida, ele se torna um girino com um esqueleto cartilaginoso, brânquias para respiração (guelras externas primeiro, guelras internas depois) e uma cauda para nadar. Sua cauda continua crescendo e suas patas traseiras aparecem gradualmente, seguidas por suas patas dianteiras. Os pulmões do girino também começam a se desenvolver neste ponto para se preparar para sua vida em terra. Muitas outras mudanças morfológicas acontecem durante esse tempo: seu sistema nervoso se adapta à sua eventual vida terrestre, sua cabeça se torna mais distinta através do reposicionamento de seus olhos, seus ouvidos começam a se formar interna e externamente, sua mandíbula inferior cresce, e suas brânquias são gradualmente recobertas pela pele até que desaparecem. À medida que sua cauda encurta progressivamente, o girino aparece cada vez mais como um sapo, até emergir da água como um sapo. Eventualmente, como um sapo adulto, ele encontra um parceiro – se tiver sorte – e todo o processo começa de novo (veja a Figura 1).

 

Figura 1. Representação esquemática dos vários estágios do ciclo de vida de uma rã.

 

 

 

 

 

 

Este exemplo familiar mostra alguns dos problemas com a compreensão tradicional dos organismos como coisas ou substâncias. Ao considerar um organismo particular, há uma tendência geral de privilegiar ou priorizar o estágio adulto de seu ciclo de vida (por exemplo, no contexto de discussões taxonômicas), pois este é o período durante o qual o organismo mais se assemelha a uma coisa em virtude de sua relativa estabilidade. Mas não devemos esquecer que o organismo abrange todo o ciclo de vida; na verdade, é o próprio ciclo de vida que constitui o organismo. Estritamente falando, é incorreto falar de um ovo se transformando em uma rã, já que o ovo é realmente uma parte temporal da trajetória de desenvolvimento que é a rã. Organismos não podem ser separados de sua história. O que percebemos como um organismo (por exemplo, uma rã) em qualquer momento representa apenas uma seção transversal, ou fatia de tempo, no desdobramento do processo persistente do qual ele é uma instância. É importante perceber que essas fatias de tempo não refletem descontinuidades reais no processo do qual derivam. Embora uma rã adulta seja indubitavelmente muito diferente de um girino, a progressão desenvolvimental de girino para rã é suave e gradual; não há limite acentuado que os demarque. Sabendo o que sabemos sobre as rãs, simplesmente faz mais sentido pensar nelas como processos e não como coisas.

 

Agora, pode-se tentar manter o compromisso com a ontologia da substância argumentando que, apesar das transformações desenvolvimentais que os organismos sofrem, eles permanecem sendo a mesma coisa, ou substância, através de todo o processo. O problema com esta linha de argumentação é que é surpreendentemente difícil especificar o que permanece o mesmo ao longo do ciclo de vida de um organismo. Para nos referir ao nosso exemplo, quando consideramos um óvulo fertilizado, um embrião, um girino, uma rã jovem e uma rã adulta, não está claro quais propriedades todos eles compartilham além de serem estágios temporais do mesmo processo individual. De fato, pode não haver propriedades interessantes compartilhadas por todos os estágios.[17]

 

Antes de prosseguir, queremos enfatizar que a ideia de um ciclo de vida é mais ampla e mais abrangente do que o conceito de ontogenia. Organismos multicelulares submetidos à diferenciação embriológica não são as únicas entidades biológicas com ciclos de vida. As células também têm ciclos de vida, tipicamente envolvendo uma fase de crescimento que inclui replicação do DNA seguida por mitose e citoquinese. Assim, os mesmos problemas que discutimos no contexto de organismos multicelulares também se aplicam a células individuais. Mesmo os vírus têm ciclos de vida. De fato, uma ampla gama de dificuldades conceituais desaparece quando vemos os vírus como processos e não como coisas, como um de nós argumentou recentemente (Dupré e Guttinger 2016). Os vírus passam por uma sequência complexa de etapas como parte de seu ciclo de vida. Alguns desses estágios são altamente estáveis (por exemplo, o estágio do virion, que é o que a maioria das pessoas tem em mente quando pensa em vírus). Crucialmente, no entanto, a própria existência desses estados estáveis só pode ser explicada referindo-se ao seu papel no processo cíclico maior que é o vírus. Finalmente, devemos também mencionar que, assim como os ciclos de desenvolvimento não são os únicos tipos de ciclos de vida, os ciclos de vida não são os únicos tipos de ciclos pelos quais os sistemas vivos passam. O campo da cronobiologia investiga a ampla gama de fenômenos cíclicos exibidos pelos organismos, como os ritmos circadianos.

 

O fato de a maioria das entidades biológicas (não apenas os organismos) existe como ciclos de vida temporalmente estendidos e temporalmente diferenciados fornece fortes fundamentos para endossar uma visão processual do mundo vivo. A importância dos ciclos de vida para a ontologia biológica é examinada nos capítulos de James DiFrisco, Paul Griffiths e Karola Stotz e Flavia Fabris.

 

5.3. Interdependência Ecológica

Uma terceira motivação para assumir uma postura processual em biologia refere-se a duas características que são frequentemente tomadas como características definidoras de uma coisa ou substância: a primeira é que ela deve ter limites, mesmo que às vezes sejam vagos, mais ou menos determinados por ser o tipo de coisa que é; e a segunda é que ela deve exibir certa autonomia ou independência, que sua dependência de qualquer coisa externa a ela deve ser, no máximo, contingente. Nenhuma dessas características é fácil de conciliar com o fato bem conhecido de que os organismos não existem na natureza como entidades isoladas ou independentes, mas, sim, vivem em comunidades densamente interconectadas que fornecem muitas das condições de existência que permitem a sobrevivência de seus membros individuais. De fato, a ecologia nos diz que o ambiente em que cada organismo se encontra é parcialmente constituído pela complexa rede de interações recíprocas que mantém com outros organismos. Algumas dessas interações são tão íntimas e tão fundamentais para a sobrevivência do organismo que tem sido debatido com afinco se as entidades que interagem são absolutamente distintas, ou deveriam ser entendidas como constituindo uma única vida.

 

A natureza dessas interações varia amplamente: elas podem ser específicas ou genéricas, permanentes ou transitórias, obrigatórias ou facultativas. Podem ocorrer entre indivíduos pertencentes à mesma espécie ou podem envolver organismos de muitas espécies diferentes. Tradicionalmente, tem havido uma tendência a considerar as relações co-específicas como mais íntimas e significativas. Exemplos extremos são os coletivos altamente organizados formados por insetos eusociais, como formigas ou abelhas, que estão tão entrelaçados que são frequentemente descritos como “super-organismos”. No entanto, pesquisas recentes em várias áreas da biologia revelaram que as associações entre espécies, geralmente referidas como relações simbióticas, são igualmente senão mais fundamentais e também mais difundidas. De fato, está se tornando cada vez mais evidente que a simbiose é a regra e não a exceção no campo biológico (Margulis, 1998; Gilbert e Eppel, 2015).

 

Existem vários tipos de parcerias simbióticas. Alguns são mutualistas (isto é, benéficos para ambas as partes), como a relação entre as anêmonas do mar e o peixe-palhaço, em que as anêmonas protegem os peixes de predadores (que não toleram as picadas da anêmona) e os peixes defendem as anêmonas contra serem comidas). Outros são comensais (isto é, benéficos para uma parte e neutros para a outra), tais como plantas epifitíticas (por exemplo, musgos, orquídeas, samambaias, etc.), que crescem em árvores para aumentar a sua exposição à luz solar. E ainda outros são parasitas (ou seja, benéficos para uma parte, mas prejudiciais à outra), como os carrapatos, pulgas, piolhos e sanguessugas que se alimentam do sangue de animais de sangue quente. Mas a extensão da simbiose vai muito além das associações entre organismos multicelulares (Dupré e O’Malley, 2009). Cada organismo multicelular está envolvido em uma série de relações simbióticas dos três tipos acima mencionados com um grande número de microrganismos. Organismos grandes (‘macróbios’) são, na verdade, coletivos multiespécies, ou holobiontes, compostos de muitos tipos diferentes de simbiontes microbianos — bactérias, archaeas, vírus, protistas, fungos e metazoários microscópicos, como nematóides — que vivem em associações simbióticas com seus organismos hospedeiros eucarióticos macroscópicos. É importante ressaltar que esses simbiontes microbianos desempenham papéis cruciais na sobrevivência, reprodução e evolução de seus hospedeiros (Moran 2006; Gilbert et al. 2012). Mesmo os próprios micróbios não vivem de forma independente, preferindo viver em complexas organizações comunitárias, ou biofilmes, que muitas vezes consistem em várias espécies. Um exemplo conhecido é a placa dentária, na qual mais de seiscentos taxa microbianos distintos foram distinguidos (Marsh, 2006). Os biofilmes, assim como os organismos, têm ciclos de vida distintos (Ereshefsky e Pedroso 2013).

 

A interdependência ecológica, então, é um dos aspectos característicos do mundo vivo, e coloca grandes problemas para uma ontologia de coisas ou substâncias. Uma razão é que essa ontologia tipicamente considera as relações como externas às coisas. Uma coisa é considerada como sendo independente das relações em que ela entra. Uma pré-condição dessa independência é que ela tem limites relativamente claros que permitem sua individuação objetiva como uma entidade discreta. Além disso, as propriedades (muitas vezes tomadas como propriedades essenciais) que determinam seus limites e sua existência continuada são baseadas em características que estão inteiramente dentro desses limites. A interconexão da vida desafia todas essas suposições substancialistas. Os organismos persistem em virtude das redes intrincadas de relações que mantêm entre si, que em parte lhes conferem suas propriedades, capacidades e comportamentos distintivos. À luz da ecologia em geral e da simbiose em particular, os organismos precisam ser vistos como processos e não como coisas. Como processos, e em contraste com as coisas, os organismos são entidades fundamentalmente relacionais que afetam e são afetados por seu ambiente, dentro do qual estão firmemente embutidos, e que é ele próprio constituído por inúmeros outros processos.

 

Comunidades ecológicas ou consórcios como biofilmes, holobiontes e super-organismos não são coleções de coisas relativamente autônomas, mas redes profundamente entrelaçadas de processos interdependentes. Esse emaranhamento pode tornar extremamente difícil estabelecer inequivocamente os limites de um indivíduo biológico, ou mesmo determinar com quantos indivíduos estamos lidando em uma situação particular. É por isso que as relações ecológicas são melhor vistas como o entrelaçamento de processos. O mundo biológico nos apresenta um espectro contínuo de graus de entrelaçamento. Esse espectro varia de formas facultativas de mutualismo ou comensalidade entre organismos multicelulares a instâncias de endossimbiose totalmente obrigatórias, como as mitocôndrias encontradas em praticamente todas as células eucarióticas. Em geral, estamos confortáveis em afirmar que, no primeiro caso, estamos lidando com dois indivíduos, enquanto no segundo caso estamos lidando com um único indivíduo, já que tomamos a mitocôndria como sendo totalmente parte da célula que a contém. No entanto, para a maioria das outras formas de associação ecológica que se encontram entre esses dois extremos, é muito menos claro que possamos fazer tais estimativas definidas.

 

Quão íntima deve ser uma associação para que dois indivíduos contem como um único? E onde está a linha divisória entre esses dois tipos de associações? Pense, por exemplo, em Buchnera aphidicola, bactérias que vivem em células especializadas dentro de pulgões e sintetizam nutrientes que o pulgão não pode produzir. Estas bactérias reduziram muito os genomas, o que deixa claro que não poderiam sobreviver fora do pulgão. Isso significa que eles não podem ser vistos como indivíduos? Um dos méritos de uma ontologia de processos — comparada a uma das substâncias — é que ela possibilita incorporar a imprecisão naturalmente sugerida por tais casos. Parece que distinguir indivíduos distintos dentro do fluxo profundamente entrelaçado de processos vivos interdependentes é muitas vezes uma questão de decisão conceitual motivada por interesses teóricos ou práticos específicos. Examinaremos as implicações disso na próxima seção.

 

Embora os organicistas do início do século XX apelassem à reciclagem metabólica e aos ciclos de vida para motivar sua defesa de uma filosofia processual da Biologia (como pode ser apreciado a partir das citações que oferecemos anteriormente), eles realmente não consideraram a interdependência ecológica. Mas é interessante notar que o próprio Whitehead reconheceu seu significado.[18] Mais recentemente, Charles Birch e John Cobb usaram a interdependência ecológica como a base da marca particular da ontologia de processos (que eles chamam de “ontologia de eventos”) defendida em seu livro The Liberation of Life (1981). Na opinião deles, as relações, e não as propriedades intrínsecas, são as características distintivas das entidades de todos os tipos. O capítulo de Stephan Guttinger neste volume baseia-se no modelo ecológico de Birch e Cobb para desenvolver um relato processual de macromoléculas biológicas. Os capítulos de Thomas Pradeu e Frédéric Bouchard consideram o significado da simbiose para as discussões filosóficas da identidade biológica e da individualidade biológica, respectivamente. E Argyris Arnellos apresenta em seu capítulo um relato organizacional da vida baseado em processos que reconhecem e tentam integrar suas dimensões metabólicas e ecológicas.

 

  1. Benefícios Filosóficos

A ontologia de processos, como vimos, é muito mais sintonizada e concordante com a compreensão do mundo vivo fornecida pelas descobertas da Biologia contemporânea do que sua rival substancialista. Mas, além da questão crítica da correspondência empírica, a partir de uma perspectiva pragmática, a ontologia processual também mostra ser a posição mais atraente para se adotar em vários contextos diferentes. Uma de suas grandes virtudes, como veremos nesta seção, é que ela é capaz de fornecer uma justificativa metafísica convincente para várias críticas importantes que foram recentemente apresentadas na filosofia da biologia. Especificamente, a seguir, discutiremos como a ontologia processual serve para fundamentar as críticas ao essencialismo, ao reducionismo e ao mecanicismo.

 

6.1. Fundamentando Críticas ao Essentialismo

Em nossa opinião, a capacidade da ontologia de substância de responder a questões filosóficas centrais está profundamente ligada à sua dependência do essencialismo. Admitir que há alguma propriedade essencial de uma coisa de certo tipo responde a dois tipos de questões.[19] Primeiro, nos diz que tipo de coisa estamos preocupados e, então, de modo mais geral, nos permite abordar questões sobre a natureza da classificação. Se perguntarmos que tipos de coisas existem no mundo e como elas são distinguidas umas dos outras, podemos responder que as coisas são de tipos diferentes se e somente se elas tiverem propriedades essenciais diferentes. Em segundo lugar, permite-nos responder a perguntas sobre a persistência de coisas, tais como o que representa para a mesma coisa, ou substância, continuar a existir através do tempo. Essas perguntas serão familiares para aqueles que estão preocupados com o quebra-cabeça da identidade pessoal, que considera como é possível que alguém seja a mesma pessoa que era há décadas, apesar de passar por uma grande mudança. A resposta do essencialismo a essas perguntas é que uma coisa persiste apenas enquanto ela possui a propriedade essencial relevante.

 

No entanto, acontece que o essencialismo — pelo menos no que diz respeito ao mundo dos seres vivos – é insustentável, ou assim argumentou um de nós por muitos anos (Dupré 1993, 2002; ver também Hull, 1965; Sober, 1980). As perguntas a que o essencialismo pretende responder estão mal colocadas. A suposição de que existe algum tipo natural único ao qual um determinado organismo pertence é falsa (Dupré 2002; Ereshefsky 1992). Na prática científica atual, diferentes interesses teóricos (por exemplo, papel ecológico, história filogenética, etc.) ditam formas diferentes e multiplicadas de superposição de dividir entidades biológicas em tipos. Um pluralismo classificatório que decorre dessa observação tornou-se amplamente aceito entre os filósofos da biologia.[20] E o fracasso do essencialismo em relação à classificação é um dos fatores que torna a perspectiva do processo tão atraente. De fato, é possível ver o caráter processual das entidades biológicas como capazes de fornecer uma explicação profunda de por que uma multiplicidade de maneiras de classificar tais entidades é precisamente o que esperaríamos encontrar. O realismo promíscuo, como um de nós denominou este pluralismo de classificações (Dupré, 1993), encontra, assim, uma justificação metafísica na ontologia do processo (Dupré, 2017a).

 

Mas as implicações pluralistas da ontologia do processo não terminam aí. Além de explicar por que devemos ser pluralistas sobre classificação, também explica por que devemos ser pluralistas sobre a individuação. A biologia sugere não apenas que não existe uma maneira única de classificar as entidades vivas em espécies, mas que mesmo a divisão da realidade biológica em indivíduos distintos pode não ser uma questão completamente determinada e inequívoca. Como argumentamos em nossa discussão sobre a interdependência ecológica, a onipresença da simbiose pode complicar seriamente a tarefa de definir os limites de uma entidade biológica, bem como a de saber se determinadas entidades são indivíduos distintos ou partes de outra entidade. Tomemos, por exemplo, os trilhões de micróbios que compõem o microbioma humano e sem os quais o hospedeiro humano ficaria rapidamente doente e morreria. Essas bactérias são partes do organismo humano, ou são apenas um grande consórcio de outras entidades que cooperam com oorganismo? Para alguns propósitos práticos, por exemplo, ao descrever as condições para uma vida humana saudável, será natural tratar o todo como um sistema; para outros propósitos, por exemplo, ao traçar as várias linhagens evolucionárias às quais as várias células colaboradoras pertencem, pode ser mais natural tratá-las como diversas. Por que deveríamos supor que há uma única resposta inequívoca a essa questão, em vez de muitas outras, dependendo das questões que estamos interessados em abordar?

 

Em analogia ao realismo promíscuo que um de nós tem defendido há muito tempo, a tese de que existem várias maneiras de entalhar entidades biológicas em indivíduos distintos pode ser descrita como “individualismo promíscuo” (Dupré, 2012). O que queremos enfatizar aqui é que essa última tese, como a primeira, pode ser vista como uma implicação direta de uma ontologia que considera os processos como fundamentais. Para ilustrar isso, considere os processos tornados famosos por Heráclito: os rios. Um rio é parte de um processo amplamente distribuído de água fluindo para o mar, mas a divisão desse processo em partes distintas é uma questão de conveniência humana, e não de fato objetivo. O rio Missouri é o rio mais longo da América do Norte e muito mais longo do que o Mississipi Superior, mas nós denominamos o primeiro como afluente da combinação do último e do (ainda menor) Lower Mississippi. Isso é uma descoberta ou, por outro lado, um erro? É certamente óbvio que esta é uma convenção resultante de uma decisão passada contingente. Da mesma forma, na questão da classificação, as distinções entre rios, riachos, riachos, lagos, lagoas, e assim por diante, são formas rústicas e convenientes de dividir processos de fluxo de água; eles dificilmente refletem distinções nítidas e objetivas entre tipos naturais.

 

Além das questões de classificação e individuação, a ontologia de substâncias tradicionalmente convoca o essencialismo para responder a questões relativas à persistência. As coisas persistem, continua o argumento, em virtude de possuírem continuamente certas propriedades essenciais que tornam essas coisas o que são e que permanecem inalteradas ao longo do tempo. O problema para a ontologia de substâncias sempre foi que é extraordinariamente difícil especificar quaisquer propriedades descritivas isentas de mudanças que caracterizem permanentemente a essência das coisas. De fato, todos os fatos empíricos que organizamos em apoio à causa do processo na seção anterior lançaram sérias dúvidas sobre a existência de propriedades essenciais. Em primeiro lugar, como consequência da reciclagem metabólica constante, um indivíduo biológico nunca é materialmente idêntico de um momento para o outro. Em segundo lugar, devido ao seu ciclo de vida, sofre grandes mudanças morfológicas à medida que progride através de suas diversas fases ontogênicas. E em terceiro lugar, como resultado de suas inter-relações ecológicas, as associações simbióticas que o compõem e mantêm mudam consideravelmente ao longo de sua existência.[21] Em geral, a ontologia de substâncias não é capaz de lidar com o problema da persistência porque os constituintes do mundo — do mundo biológico, pelo menos —, não é dotado de propriedades essenciais. A questão é: a ontologia do processo realmente se sai melhor? Uma das objeções clássicas a ontologia do processo é que ela é incapaz de explicar entidades persistentes, ou que continuam, que são as que ancoram nossa representação do mundo (cf. Strawson, 1953; Wiggins, 2016). Isto está correto? E se está, onde isso nos deixa?

 

Oferecemos aqui alguns pensamentos sobre a persistência de processos, que é um tema recorrente ao longo do livro (ver especialmente os ensaios de Peter Simons, James DiFrisco, Thomas Pradeu, Daniel Nicholson e Anne Sophie Meincke). Para começar, não pensamos que estamos lidando com um problema filosófico insolúvel, pois há uma ampla gama de processos físicos incontroversos aos quais aplicamos claramente e sem problemas critérios de identidade ao longo do tempo. Pense em furacões, riachos e vórtices. Um paradigma em algum lugar entre o primeiro e o último deles é a Mancha Vermelha em Júpiter – uma tempestade que persistiu por pelo menos pelo tempo que tivemos os instrumentos para observá-la, um período de séculos. O modo de persistência de um organismo é em muitos aspectos bastante semelhante ao da mancha vermelha. Assim como a Mancha Vermelha persiste, atraindo matéria e energia dos ventos violentos que a envolvem e moldam, assim um organismo persiste, assegurando de seu ambiente a matéria e a energia necessárias para manter sua organização longe do equilíbrio termodinâmico. A persistência da Mancha Vermelha não se baseia na mera persistência de quaisquer de suas propriedades ou constituintes individuais; é algo que a Mancha Vermelha faz — uma atividade contínua. Mesmo sua identidade como indivíduo não pode ser tomada como um dado; em vez disso, é uma tarefa que a Mancha Vermelha deve realizar constantemente. Por meio de sua atividade contínua, a Mancha Vermelha demarca-se do fluxo de seus arredores. Todas essas considerações, acreditamos, são igualmente aplicáveis aos organismos.

 

Então, o que faz os vários estágios temporais dos estágios temporais da Mancha Vermelha do mesmo processo? Consideramos que a resposta deve ser buscada em várias formas de conexão causal e continuidade entre as etapas relevantes. O momento do material que compõe a Mancha Vermelha em t1 explica seu momento em t2, e os ventos externos que ajudam a manter a estrutura da Mancha Vermelha em t1 continuam a fazê-lo em t2. De fato, um tipo semelhante de história poderia ser contado sobre os próprios ventos vizinhos. Suspeitamos que essa seja a forma geral de explicação necessária para explicar a persistência de um processo. Uma vantagem óbvia dessa maneira de explicar a persistência é que ela não impõe restrições quanto à quantidade de mudanças que podem ocorrer entre as propriedades de um processo em diferentes momentos no tempo.

 

No entanto, como ilustramos com o exemplo de um rio, a capacidade de rastrear processos individuais ao longo do tempo definitivamente é limitada. Os rios se dividem e se fundem, abrem-se em lagos ou deltas e assim por diante. O que conta como o mesmo rio é até certo ponto uma questão de convenção. No entanto, consideramos essa imprecisão inerente como uma força da perspectiva do processo e não como uma fraqueza. Precisamos chegar a um acordo com o fato de que muitos organismos — incluindo todos os organismos unicelulares — estão sujeitos a se dividir; aqueles que não se dividem, frequentemente se entrelaçam e se misturam como consequência de suas inter-relações ecológicas. A reprodução de um líquen, por exemplo, requer a reprodução independente de um fungo e uma bactéria ou alga fotossintética, e a subseqüente fusão dos vários descendentes com novos parceiros adequados (não necessariamente exatamente do mesmo tipo que seus pais) para formar novas líquens. Em termos mais gerais, como já enfatizamos, a quase universalidade da simbiose torna o delineamento de indivíduos biológicos em algum grau indeterminado. Dado tudo isso, certamente não devemos esperar que o rastreamento de entidades ao longo do tempo seja um assunto totalmente determinado. Isso pode nos parecer um problema, mas a verdade é que isso é um problema apenas se já admitimos que deve ser possível rastrear perfeitamente entidades através do tempo, em primeiro lugar, de acordo com a postura essencialista geralmente associada à ontologia de substâncias. Uma ontologia de processos, além de se conformar com o que a pesquisa biológica realmente nos diz sobre o mundo vivo, nos libera do fardo dessa expectativa.[22]

 

A ontologia de processos também nos ajuda a explicar os problemas com o reducionismo na Biologia. Um de nós tem argumentado há décadas contra as tentações do reducionismo, tentações que foram exacerbadas nos últimos tempos pelos sucessos da biologia molecular (Dupré 1993, 2010b; Powell e Dupré 2009). Apesar desses sucessos, tornou-se cada vez mais claro para muitos biólogos e filósofos que o reducionismo é, na melhor das hipóteses, uma abordagem severamente limitada à compreensão dos sistemas vivos. Embora muito progresso tenha sido feito na compreensão de todos (totalidades), como células, em termos de organelas, macromoléculas e outras conjuntos subcelulares, está surgindo um consenso de que a compreensão dessas entidades não pode ser totalmente realizada sem referência essencial aos sistemas dos quais elas são partes. (por exemplo, Boogerd et al. 2007; Noble 2012).

 

No contexto da ontologia das substâncias, no entanto, é difícil entender de onde vem o fracasso do reducionismo. O que poderia um todo ser além do conjunto de constituintes que o compõem e das relações físicas entre eles (isto é, localizações espaciais e forças de conexão)? Um argumento clássico deste tipo é devido a Kim (2005), que convenceu muitas pessoas de que é incoerente atribuir quaisquer comportamentos a um todo físico que não sejam, em última análise, consequências dedutivas dos comportamentos das partes que os compõem, ou causalmente epifenômenos impotentes. Essa conclusão é frequentemente expressa por meio da afirmação generalizada de que níveis mais altos devem, pelo menos, ser superado pelos níveis mais baixos. Se o estado do nível inferior for totalmente especificado, tudo no nível superior deverá ser totalmente determinado ao mesmo tempo. Qualquer outra possibilidade é muitas vezes considerada logicamente incoerente.

 

Tais considerações estão baseadas na hierarquia estrutural convencional da ontologia de substâncias, que vê o mundo em termos de níveis sucessivos de organização: partículas elementares, átomos, moléculas, células, organismos e assim por diante. Em cada nível dessa hierarquia, é possível, em princípio, determinar as propriedades intrínsecas das coisas relevantes. Das propriedades das coisas em um nível e das relações entre elas, podemos inferir as propriedades das coisas no nível superior. Assim, as propriedades de todas as coisas são consequências das propriedades de seus constituintes mais as relações entre seus constituintes, até o nível mais elementar (supondo que haja um). É difícil ver o que mais poderia contribuir para determinar as propriedades de uma coisa.

 

As coisas parecem bem diferentes quando vemos o mundo biológico como sendo organizado não como uma hierarquia estrutural das coisas, mas como uma hierarquia dinâmica de processos, estabilizada em diferentes escalas de tempo. Em nenhum nível da hierarquia biológica encontramos entidades com limites rígidos e um repertório fixo de propriedades. Em vez disso, tanto os organismos como suas partes são conglomerados primorosamente regulados de correntes aninhadas de matéria e energia. Os processos que compõem a hierarquia biológica não apenas compõem um ao outro, mas também fornecem muitas das condições que permitem a persistência de outros processos na hierarquia em níveis mais altos e mais baixos. Em outras palavras, as entidades visíveis e tangíveis em cada nível não são simplesmente dadas (como estão em uma hierarquia estrutural das coisas), mas são mantidas dinamicamente pela atividade contínua ocorrendo em níveis mais altos e mais baixos na mesma hierarquia.

 

Uma das conseqüências mais significativas da hierarquia processual do mundo vivo, portanto, é que torna impossível o sonho fisicalista do reducionismo absoluto. A teia complexa de dependências causais entre os vários níveis significa que não podemos especificar completamente a natureza de uma entidade meramente listando as propriedades de seus constituintes e suas relações espaciais. Isso também significa que não podemos escolher qualquer nível na hierarquia como ontologicamente ou causalmente primário. Considerando que uma ontologia de substâncias que pressupõe uma hierarquia estrutural das coisas só permite influências causais de baixo para cima (bottom-up), uma ontologia de processoss não tem dificuldade em reconhecer que influências causais podem fluir em direções diferentes (bottom-up e top-down). Uma vez que passamos de uma ontologia de substâncias para uma ontologia de processoss, não é mais incoerente ou misterioso afirmar que as propriedades das partes são parcialmente determinadas pelas propriedades do todo — uma afirmação, a propósito da qual biólogos (especialmente fisiologistas) e embriologistas) vêm se manifestando há séculos com base em suas investigações empíricas. Este ponto tem importantes ramificações filosóficas. A “causação descendente” (downward causation) que naturalmente resulta quando um processo em um nível da hierarquia é estabilizado a partir de um nível acima, muitas vezes parece metafisicamente grotesco para filósofos trabalhando tacita ou explicitamente dentro de uma ontologia de substâncias. Para um filósofo dos processos, por outro lado, tais noções não apresentam nenhum problema especial.

 

Em um mundo de processos, o reducionismo faz pouco sentido. Nós já antecipamos essa afirmação em nossa discussão sobre a interdependência ecológica. Processos são entidades inerentemente relacionais. Eles influenciam e são influenciados por seus arredores. Esses ambientes, por sua vez, são compostos de ainda mais outros processos. Abstraídos do ambiente, os processos não são nada; eles não têm existência independente. Basta pensar em ondas em um oceano ou em rajadas de vento em uma tempestade. Um processo tem as propriedades que ele exibe em grande parte por causa de suas relações com outros processos. Consequentemente, não pode ser totalmente explicado independentemente dessas relações. Uma condição necessária para o reducionismo é que deve ser possível tratar entidades independentemente umas das outras, considerando sua estrutura e constituição independentemente do contexto em que elas existem. Mas isso é precisamente o que uma ontologia de processos nega. Quando aceitamos que o mundo vivo é um mundo de processos, somos capazes de entender por que o reducionismo na biologia, apesar de seus incontáveis, embora limitados, sucessos em contextos locais e fixos, nunca pode ter sucesso completo como um empreendimento global explicativo, mesmo em princípio.

 

6.3. Fundamentando críticas ao mecanicismo

Desde a Revolução Científica, a ontologia de substâncias tem sido associada ao mecanicismo, a visão de que a natureza — e tudo nela — é uma máquina que opera de maneira regular e previsível e que pode ser totalmente explicada em termos mecânicos. O mecanicismo é, naturalmente, uma expressão natural do pensamento de substâncias, uma vez que as máquinas são instâncias de muitas das propriedades tradicionalmente atribuídas às substâncias; são entidades de matéria fixa com limites claramente definidos e que existem independentemente das atividades em que se envolvem e das relações que mantêm com outras entidades. Não surpreende, portanto, que o mecanicismo seja perfeitamente consistente tanto com o essencialismo quanto com o reducionismo; uma máquina é levada a pertencer a um tipo particular porque exibe certas propriedades imutáveis, e sua organização e operação podem ser completamente explicadas em termos de seus componentes e suas interações.

 

Embora a física tenha se emancipado da visão mecanicista do mundo na virada do século XX (o que em parte levou a Whitehead a adotar a metafísica do processo, como indicamos anteriormente), o mecanicismo nunca perdeu sua influência na Biologia; pelo contrário, cresceu muito depois do surgimento da biologia molecular. Hoje em dia não é incomum considerar os complexos de proteínas como máquinas moleculares engenhosamente projetadas, células como conjuntos intricados de circuitos que podem ser parcialmente reprojetados para funcionar de acordo com nossas necessidades, desenvolvimento como a execução computável de um programa genético determinístico ou os produtos de mudança evolucionária em analogia com artefatos otimamente projetados. No entanto, está se tornando cada vez mais evidente que todas essas visões são profundamente problemáticas, como ambos discutimos em trabalhos anteriores (Dupré 2008; Nicholson 2013, 2014).

 

Um aspecto muito atraente da perspectiva dos processos é que ela torna explícita a inadequação ontológica da concepção da máquina do organismo. Se os organismos são processos e não substâncias, concebê-los como máquinas leva inevitavelmente a uma compreensão distorcida dos mesmos. Olhando mais uma vez para as três motivações empíricas que discutimos para adotar uma ontologia de processos   — reciclagem metabólica, ciclos de vida e a interdependência ecológica —, é significativo que todas elas também forneçam razões para resistir à assimilação ontológica dos organismos às máquinas. Em primeiro lugar, a realidade da reciclagem metabólica significa que a própria estrutura de cada organismo, ao contrário de qualquer máquina, é total e continuamente reconstituída como resultado de sua operação. Em segundo lugar, o ciclo de vida que um organismo atravessa é diferente de tudo que uma máquina já experimentou. As máquinas não se desenvolvem nem se reproduzem; sua forma e configuração são fixadas em sua fabricação, ao contrário da dos organismos. E em terceiro lugar, como consequência da interdependência ecológica, nenhum organismo pode funcionar ou mesmo persistir independentemente da rede entrelaçada de inter-relações que mantém com outros organismos. Em contraste, a persistência ou a operação de máquinas não depende de sua capacidade de manter relações com outras máquinas. Seu micro-ondas não requer a presença de outros microondas para aquecer sua comida, muito menos para persistir em sua cozinha. Ao adotar a ontologia de processos, é muito menos provável que sejamos tentados pela concepção de máquina do organismo, que para muitos biólogos (e alguns filósofos) ainda constitui a compreensão ontológica padrão e muitas vezes tácita dos sistemas vivos.

 

Mas o pensamento de processos nos permite fazer ainda mais. Além de legitimar e encorajar o recurso às analogias de máquina no mundo vivo, o mecanicismo permeou a biologia moderna de uma maneira mais sutil, popularizando a visão de que os sistemas vivos podem ser explicados descrevendo os mecanismos causais que dizem estar operando dentro deles. A palavra “mecanismo” naturalmente deriva etimologicamente do conceito de máquina, mas hoje o termo se refere mais vagamente a um conjunto de componentes que causalmente interagem de maneira regular para produzir um fenômeno de interesse. A recente constatação de que os biólogos frequentemente invocam mecanismos em suas explicações dos fenômenos levou a uma explosão de interesse na filosofia da ciência, à medida que um número crescente de filósofos tentaram chegar a um acordo com a natureza e o escopo das chamadas explicações mecanicistas (por exemplo, Machamer et al., 2000; Glennan, 2002; Bechtel, 2006; Craver, 2007; Craver e Darden, 2013). Embora seja inegável que a elucidação de fenômenos biológicos em termos de mecanismos tenha provado ser uma estratégia científica enormemente produtiva, as explicações mecanicistas são inerentemente limitadas no que elas podem nos dizer sobre os sistemas vivos, ou assim afirmamos em publicações anteriores (Nicholson 2012; Dupré 2013). O valor da perspectiva dos processos nesse contexto é que isso nos ajuda a explicar esses limites.

 

A visão segundo a qual as explicações mecanicistas são, em princípio, capazes de fornecer uma compreensão completa dos sistemas vivos é problemática porque pressupõe uma ontologia em que as substâncias desempenham pelo menos o papel central.[23] O quadro ontológico que tipicamente motiva apelos a mecanismos é que os processos vivos derivam e, portanto, podem ser explicados pelo rearranjo sistemático das entidades pré-existentes que as compõem. Mas, do ponto de vista que estamos desenvolvendo, os componentes de um organismo, seja ele multicelular ou unicelular, são processos tanto quanto o próprio organismo. Os constituintes de um processo de nível superior não são suficientes para explicá-lo porque eles mesmos — ou, mais especificamente, sua estabilidade e atividade — não podem ser totalmente compreendidos sem referência a esse mesmo processo, bem como àqueles acima dele. O caráter meramente inventivo de explicações mecanicistas significa que sua implantação em um mundo de processos está inevitavelmente sujeita aos mesmos limites que as formas mais tradicionais de reducionismo.

 

Por que, então, as explicações mecanicistas se mostraram tão bem-sucedidas na Biologia quanto, sem dúvida, elas foram? Uma perspectiva dos processos nos permite responder a essa pergunta também. A razão pela qual as explicações mecanicistas fornecem entendimentos (insights) (na medida em que o fazem) é que os componentes dos mecanismos que estão sendo descritos são suficientemente estáveis na escala de tempo dos fenômenos sob investigação. Por exemplo, é possível explicar o fenômeno da contração muscular em termos mecanicistas, porque as entidades responsáveis por ela, ou seja, os filamentos de actina e miosina na fibra muscular, são suficientemente estáveis durante o intervalo temporal em que a contração ocorre para ser tratada como componentes “semelhantes a coisas” de um mecanismo. No entanto, isso não significa que os filamentos de actina e miosina realmente sejam componentes inerentemente estáveis dos músculos, pois se mudarmos nossa pergunta de pesquisa e indagarmos sobre o crescimento do tecido muscular durante o desenvolvimento — um fenômeno que ocorre em uma escala de tempo muito maior — não é mais possível discernir quaisquer fibras musculares específicas, e muito menos quaisquer filamentos de actina e miosina dentro dessas fibras, que persistam por toda a duração do desenvolvimento. Nesse contexto epistêmico, não podemos mais caracterizar os filamentos de actina e miosina como componentes semelhantes a um mecanismo, pois eles mesmos agora parecem ser entidades dinâmicas e transitórias. As descrições de mecanismo, portanto,são precisas somente nas escalas de tempo particulares dos fenômenos que eles são chamados a explicar.

 

Uma implicação chave que tomamos a seguir é que os mecanismos descritos nas explicações mecanicistas não devem ser tratados, de acordo com os pressupostos da antiga tradição mecanicista, como coisas reais que ontologicamente compõem os organismos (da maneira como poderiam ser supostos para constituir as máquinas). Em vez disso, mecanismos na biologia são mais apropriadamente compreendidos como dispositivos explicativos heurísticos — como cortes transversais espaço-temporais idealizadas de sistemas vivos que convenientemente abstraem a complexidade e a dinamicidade de seus arredores bióticos e abióticos, e selecionam apenas as relações causais que são consideradas mais relevante para controlar e manipular os fenômenos que estão sendo investigados (Nicholson 2012; Dupré 2013). Supor que os mecanismos são os blocos de construção ontológicos dos sistemas vivos é cometer o que Whitehead chamou de “A Falácia da Concretização Implacável” (Whitehead 1925: 52), que ocorre toda vez que confundimos nossos esquemas conceituais, modelos e analogias com a maneira pela qual as coisas realmente são. O que os biólogos descrevem como mecanismos (e seus componentes) são, na verdade, manifestações de padrões específicos de estabilidade de diferentes processos que se desdobram simultaneamente em sistemas vivos. A ontologia de processos nos permite entender os limites das explicações mecanicistas na biologia, ao mesmo tempo em que reconhece e contabiliza o alcance de sua eficácia.

 

  1. Consequências Biológicas

A mudança da ontologia de substâncias para a de ontologia de processos tem muitas consequências biológicas interessantes. Examinamos algumas delas no decorrer deste ensaio, e muitas outras são exploradas por outros autores no restante deste livro. Algumas dessas consequências estão longe de ser óbvias. Ann-Sophie Barwich, por exemplo, mostra em seu capítulo como uma perspectiva de processos na percepção resulta em uma compreensão muito mais contextual do olfato do que se supunha tradicionalmente. Além disso, nem todas as consequências discutidas nos capítulos deste livro são de caráter puramente teórico; alguns deles estão intimamente ligados a questões práticas. Por exemplo, Eric Bapteste e Gemma Anderson argumentam em seu capítulo que uma apreciação crescente do papel evolutivo dos processos biológicos requer novas maneiras de representá-los para fins analíticos.

 

Antes de concluir, desejamos discutir algumas consequências bastante significativas de adotar uma ontologia de processos em Biologia que não são abordadas diretamente nos capítulos subsequentes. Apresentamos essas reflexões para dar ao leitor um sentido mais amplo das implicações abrangentes do nosso projeto, bem como para oferecer um vislumbre do trabalho que ainda precisa ser feito. Abaixo, consideramos algumas consequências específicas para a fisiologia, genética, evolução e medicina.

 

7.1. Fisiologia

A fisiologia tem se preocupado tradicionalmente com o estudo da função. Essa ênfase na função, por sua vez, tendeu a direcionar a pesquisa fisiológica para a análise da estrutura. A razão para isto é que geralmente se admitiu, de acordo com a ontologia da substância, que as estruturas de alguma forma fundamentam as capacidades que constituem as funções. As estruturas são consideradas mais ou menos fixas e ontologicamente anteriores às funções associadas a elas. Esta compreensão substancialista permeia o debate filosófico de longa data sobre a função, onde, apesar de grandes divergências, a função de uma entidade — esteja ou não ligada à explicação de sua vantagem seletiva — é vista como uma contribuição dessa entidade para um sistema maior, e essa contribuição é possibilitada por suas propriedades estruturais. Uma consequência da perspectiva do processo na biologia é que ela questiona essa visão familiar e difundida.

 

As várias estruturas que um organismo exibe não são realmente fixas, mas são continuamente mantidas por um grande número de processos cuidadosamente regulados que lhes conferem relativa estabilidade. Essas estruturas não podem ser tomadas como certas em nossas explicações fisiológicas, pois elas mesmas devem ser explicadas pelas várias atividades funcionais que lhes permitem persistir através do tempo. Portanto, é incorreto assumir que as estruturas são anteriores às funções ou que as funções são determinadas pelas estruturas. A natureza processual dos organismos significa que mudanças em suas demandas funcionais tenderão a resultar em mudanças em como elas mantêm e regeneram suas respectivas estruturas. Na biologia, a relação entre estrutura e função não é linear e unidirecional, como é frequentemente suposto, mas sim circular e simétrica. Nenhum dos dois pode ser privilegiado em relação ao outro nem sequer ser compreendido sem apelar para o outro.

 

Essa percepção fundamental já era reconhecida pelos organicistas que trabalhavam para desenvolver uma biologia processual nas primeiras décadas do século XX. A maioria deles argumentou explicitamente que estrutura e função são características mutuamente interdependentes dos organismos. Como expressou elegantemente Haldane, “a estrutura e a relação funcional com o meio ambiente não podem ser separadas no estudo científico sério da vida, uma vez que a estrutura expressa a manutenção da função e a função expressa a manutenção da estrutura” (Haldane 1931: 22). Estruturas não são simplesmente dadas, mas refletem a estabilidade das atividades funcionais, que são mantidas por estruturas estáveis. Em última análise, não faz sentido separar estrutura e função, pois as duas representam formas diferentes e complementares de ver a realidade processual dos sistemas vivos: uma enfatizando a estabilidade e a outra enfatizando a dinamicidade. De acordo com Bertalanffy, “o velho contraste entre ‘estrutura’ e ‘função’ deve ser reduzido à velocidade relativa dos processos dentro do organismo. Estruturas são processos estendidos, lentos; funções são processos transitórios e rápidos ”(Bertalanffy 1941: 251).

 

Estamos inclinados a pensar em estrutura e função na biologia como formas alternativas de abstração do fluxo contínuo de processos subjacentes. As descrições estruturais abstraem a dimensão temporal, bem como selecionam limites espaciais não arbitrários, mas subdeterminados, para as entidades de interesse. As descrições funcionais trazem de volta a dimensão temporal, mas o fazem à custa de se concentrar em um conjunto altamente específico de propriedades das entidades em consideração. Provavelmente mais precisa ser dito sobre como as caracterizações estruturais e funcionais são abstraídas.[24] O ponto relevante, por enquanto, é que, embora as explicações lineares da função em termos de estrutura sirvam a propósitos valiosos na pesquisa biológica, precisamos ter em mente que elas fornecem perspectivas limitadas sobre os fenômenos biológicos. É sempre possível, parece-nos, e até mesmo necessário, tratar as estruturas biológicas tanto como explananda quanto como explanantia.

 

7.2. Genética

Adotar uma ontologia de processos na Biologia também tem um impacto sobre como pensamos sobre a herança. Acredita-se que a Genética tenha se originado das famosas experiências de Mendel com ervilhas, que diziam respeito a características dicotômicas que acabaram sendo explicadas em termos de fatores invisíveis subjacentes chamados genes. A consequente visão de que toda a informação hereditária transmitida dos pais para os descendentes reside em partículas materiais, ou genes, que se reproduzem durante a reprodução e desencadeiam a construção do desenvolvimento do novo indivíduo, mostrou-se notavelmente resiliente mesmo quando sua base empírica foi cada vez mais erodida. Esse entendimento se encaixa naturalmente com uma ontologia de substância, uma vez que considera o que é herdado como uma coleção de coisas (ou seja, genes), juntamente com suas propriedades definidoras, ou seja, as disposições para causar efeitos fenotípicos. Uma perspectiva de processo traz para o primeiro plano dois grandes problemas com esse quadro substancialista. O primeiro tem a ver com a suposta natureza atomística dos genes, e o segundo diz respeito à visão da reprodução como a transmissão de um conjunto de coisas, interpretado como uma espécie de passagem de bastões genéticos.

 

Quando os genes foram inicialmente imaginados como entidades discretas portadoras de informação fenotípica, seu status ontológico era inteiramente hipotético. Embora a realidade dessas entidades tenha sido progressivamente aceita, nenhum consenso foi alcançado sobre sua natureza até a famosa elucidação da estrutura do DNA em 1953. À medida que as implicações dessa descoberta se tornaram aparentes, surgiu a visão de que genes são trechos de DNA definidos por um sequência específica de nucleotídeos, as quatro estruturas químicas que se alternam na molécula de DNA e que, por sua vez, fornecem as informações necessárias para gerar uma proteína, concebida como a molécula funcional paradigmática. Os genes para todos os tipos de características fenotípicas – da cor da pele à preferência sexual – foram concebidos como sequências de nucleotídeos que têm o poder de causar ou alterar esses resultados de desenvolvimento.

 

Esta imagem tradicional tem, no entanto, sido amplamente rejeitada (ver, por exemplo, Keller 2000). O desenvolvimento da maioria das características é agora entendido como envolvendo características amplamente distribuídas em todo o genoma, bem como influências de muitos aspectos do ambiente externo. Isso levou a dúvidas crescentes sobre o significado ontológico dos genes como componentes distintos dos genomas, o que, por sua vez, levou a um foco mais direto no próprio genoma (Barnes e Dupré, 2008). O genoma, longe de ser a fonte fixa de informação de desenvolvimento, é agora cada vez mais visto como uma entidade completamente processual. A estabilidade da sequência nucleotídica, tão crucial para o seu funcionamento, depende de múltiplos processos de correcção e edição que reduzem drasticamente a taxa de erro da sua replicação. Além disso, o funcionamento do genoma envolve mudanças constantes em sua conformação física que permitem que partes apropriadas sejam mais ou menos acessíveis para a transcrição. Essas mudanças, por sua vez, são parcialmente controladas pela ligação e desprendimento de uma variedade de moléculas a pontos específicos do genoma, um processo denominado modificação epigenética do genoma. Os efeitos epigenéticos estão no final de uma cadeia causal que pode começar longe, por exemplo, com interação materna com um organismo infantil (Champagne et al. 2006). É importante ressaltar que tais processos causais permitem que fatores ambientais afetem o funcionamento do genoma.

 

Adotando uma visão mais ampla, o que essas atividades genômicas indicam é que, longe do controle unidirecional da célula pelo genoma que às vezes é imaginado, o genoma está em constante interação bidirecional com seu contexto celular e além do mesmo. A persistência de ambos, de fato, depende de suas inter-relações. Em resumo, onde uma vez víamos um genoma como um conjunto de unidades discretas ou coisas controlando mecanicamente seu ambiente mais amplo, agora vemos interações dinâmicas de uma entidade dinâmica complexa com seu ambiente ainda mais complexo.

 

A replicação genética é outro processo vital maduro para reconsideração de uma perspectiva de processo. Enquanto no contexto da ontologia da substância pode parecer natural conceber a replicação como simplesmente a cópia e produção de uma coisa com base na outra — algo semelhante a fazer uma fotocópia (cf. Dawkins 1982) — a geração de um processo por outro processo é um assunto bastante diferente. Como enfatizou James Griesemer (2000, 2005a, 2005b) em uma série de artigos, a reprodução biológica, diferentemente da fotocópia em que apenas uma re-produção de informação é requerida, envolve um grau de continuidade material entre o original e o descendente. De fato, na replicação do DNA, novas duplas hélices são parcialmente constituídas a partir do material das velhas duplas hélices. Tratar a replicação como cópia tem a consequência inadvertida de desviar a atenção do processo causal que a gera. O DNA não se auto-reproduz, como às vezes é reivindicado, mas é completamente dependente para sua replicação da participação de uma intrincada “maquinaria” molecular. Pensar em replicação e, por implicação, em reprodução, em analogia com a cópia, é abstrair a causalidade e a materialidade da conexão entre pai e filho, reduzindo-o a uma relação essencialmente informacional.

 

Embora os biólogos mecanicistas, convencidos da natureza mecanicista dos sistemas vivos, estejam à vontade comparando o papel da replicação na reprodução com a duplicação digital de sistemas de software, um biólogo comprometido com uma compreensão processual do mundo vivo, provavelmente, pode ser muito menos seduzido por tais analogias. Quando os pais são reconhecidos como processos metabólicos auto-perpetuáveis dos quais os filhos de alguma forma se ramificam, fica claro que a reprodução deve envolver a sobreposição de material entre os dois. Relatos de reprodução que não incluem este aspecto negligenciam uma de suas características essenciais. Modelos clássicos de genética de transmissão, a famosa separação entre o germe e o soma de Weismann e a noção mais contemporânea do programa genético permitiram aos geneticistas estudar a herança como meras relações entre as coisas, mas à custa de abstrair os processos reais de reprodução e desenvolvimento que geram essas relações. Embora tais modelos tenham provado ser heuristicamente úteis para a pesquisa científica, uma teoria adequada da herança deve incluir esses processos fundamentais.

 

No final, um processo de ontologia nos força a expandir nossa compreensão da própria herança. Reconhecer a sobreposição de material entre os pais e os descendentes na reprodução torna óbvio que o que é transmitido é muito mais do que apenas o DNA. O material (isto é, o citoplasma) contínuo que existe entre o progenitor e a descendência inclui muitos sistemas moleculares que podem ser herdados à parte do genoma, tais como estados estacionários macromoleculares e laços metabólicos auto-sustentados (ver Jablonka e Lamb 2005). Como esses sistemas de herança epigenética dependem tipicamente de difusão química e processos de transporte molecular, eles exibem graus de fidelidade muito menores do que o mecanismo de codificação de ácido nucléico característico da replicação genética. Mas isso não significa que eles não sejam capazes de afetar os resultados do desenvolvimento; eles são, e eles o fazem. Uma vez que adotamos um ponto de vista processual, a detecção de traços herdados epigeneticamente deixa de ser uma descoberta estranha e se torna algo que realmente esperamos encontrar.

 

7.3. Evolução

Embora seja evidente que a evolução é um processo, fica menos claro como devemos pensar sobre a natureza das entidades que participam desse processo. A postura substancialista tradicional tem sido considerá-las como coisas. A ontologia de processos, é claro, nos leva a entendê-los como processos. Se os organismos são ciclos de desenvolvimento, então devemos considerar esses ciclos de desenvolvimento, ao invés de fatias de tempo semelhantes a coisas que nós abstraímos deles, como as entidades reais que compõem o processo evolucionário. De fato, esta é a visão da evolução que os teóricos dos sistemas de desenvolvimento defendem há muitos anos, com o corolário vital de que a evolução pode ser impulsionada por mudanças em qualquer um dos fatores que contribuem para reproduzir o ciclo de desenvolvimento (ver Griffiths e Gray 1994 e o ensaio deste volume de Griffiths e Stotz).

 

Temos que ter cuidado aqui, no entanto, com a gramática incomum da palavra “evoluir”. Embora os humanos evoluam, nenhum ser humano em particular evolui. O que evolui são populações. Mesmo o conceito de população não é muito apropriado, pois não tem extensão temporal. Populações são cortes transversais temporais de linhagens, então são realmente as linhagens que sofrem mudanças evolutivas. Dizer que os humanos evoluem é dizer que os seres humanos existentes em um estágio da linhagem humana diferem de algum modo sistemático daqueles existentes em um estágio anterior. As linhagens em evolução geralmente consideradas os temas centrais da mudança evolucionária são as entidades a que normalmente nos referimos como espécies.[25]

 

Um dos primeiros debates na moderna filosofia da biologia dizia respeito ao status metafísico das espécies. Como as espécies historicamente têm sido tratadas como conceitos classificatórios paradigmáticos, elas supostamente deveriam designar tipos. Mas então Michael Ghiselin (1974) e David Hull (1976, 1978) avançaram a tese de que espécies não são espécies, mas indivíduos. Embora a visão das espécies como indivíduos tenha se tornado amplamente aceita, ela continua a encontrar certa resistência, por ser intrigante e contra-intuitiva. Objeta-se, por exemplo, que, como os membros de uma espécie são discretos e relativamente independentes, não está claro como eles podem ser identificados como partes de um indivíduo. Outra queixa comum é que as espécies têm limites muito difusos, enquanto os indivíduos normalmente não. Curiosamente, uma vez que vemos as espécies não apenas como indivíduos, mas como processos individuais, somos capazes de abordar essas duas preocupações. Relações causais entre os estágios temporais de uma linhagem, e entre as partes espaciais desses estágios temporais, são responsáveis por provê-la com qualquer integridade que tenha como um processo individual. E o problema de limites vagos acaba por não ser um problema, pois os processos tendem a não ter limites claramente definidos (pense nos limites de uma tempestade, por exemplo). A expectativa de que os indivíduos devem ter limites claros é meramente um preconceito do pensamento material que simplesmente ignoramos quando assumimos um processo de ontologia.

 

Se as espécies ou as linhagens são processos individuais, como conseguem manter sua coerência e estabilidade ao longo do tempo? Parece que, assim como os organismos persistem, renovando as células que os compõem através da constante renovação metabólica, as linhagens persistem substituindo os organismos que as compõem através de ciclos contínuos de reprodução. Agora lembre-se de que a reprodução, entendida corretamente, compreende não apenas processos de herança (como replicação genética), mas também de desenvolvimento, e estes, por sua vez, atraem uma faixa altamente heterogênea de fatores causais (Oyama et al. 2001), o que significa que todos estes contribuem também para a estabilização de uma linhagem. Além disso, uma linhagem persiste em virtude das interações recíprocas que seus membros mantêm com seu ambiente. Os membros de uma linhagem não apenas se adaptam ao seu ambiente, mas também o modificam em consequência de suas atividades e de acordo com suas necessidades. Esse processo é conhecido como construção de nicho (Odling-Smee et al. 2003)[26]. Por último, mas não menos importante, a persistência de uma linhagem depende da seleção natural, entendida aqui não como uma causa de mudança, mas como uma força estabilizadora. A seleção estabilizadora leva à produção contínua de fenótipos muito similares em uma linhagem (a saber, os mais adaptativos), e isso ajuda a manter sua estabilidade por longos períodos de tempo.

 

É claro que, apesar dessas numerosas formas de estabilização, as linhagens mudam gradualmente, e isso resulta em sua evolução. Uma implicação chave da perspectiva do processo é que nos encoraja a abraçar uma compreensão muito mais pluralista da mudança evolutiva do que a assumida pelo neodarwinismo ortodoxo, que a considera quase exclusivamente em termos de seleção natural atuando em alelos diferentes em uma população. A seleção não pode ocorrer a menos que algum outro processo já tenha fornecido as variantes pertinentes, e a suposição da Síntese Moderna de que mutações genéticas aleatórias sozinhas podem desempenhar esse papel está cada vez mais sob ataque (Pigliucci e Muller 2010). As linhagens são sustentadas por uma ampla gama de processos, incluindo reprodução, construção de nicho e seleção estabilizadora, como já observamos, mas também por efeitos parentais, interações coespecíficas e associações simbióticas. É concebível que mudanças ou rupturas de qualquer uma dessas atividades estabilizadoras possam afetar a trajetória temporal de uma linhagem, e devemos, portanto, considerar incluí-las em nossas explicações sobre mudança evolutiva.

 

Oferecemos uma última sugestão, mais especulativa. Sistemas processuais, como organismos e células, respondem a seu ambiente de maneiras que conduzem à sua persistência. Um número crescente de teóricos sustenta que tais respostas não são apenas reações automáticas provocadas por estímulos ambientais, mas refletem ações intencionais em nome desses sistemas, motivadas por desafios e oportunidades emergentes no meio ambiente. Parece incontestável sugerir que a seleção natural deve favorecer organismos que façam o que for mais propício à sua sobrevivência do que aqueles que produzem respostas fixas a uma gama determinada de estímulos ambientais, embora tradicionalmente se suponha que o primeiro fosse algo alcançável apenas através de altos graus de inteligência. Em seu capítulo, Flavia Fabris mostra que Waddington pensava que tais estratégias adaptativas podem ser encontradas muito mais amplamente (uma visão que Waddington compartilhava com muitos de seus contemporâneos organicistas), e que tais respostas sistêmicas poderiam ser explicadas em termos do desdobramento adaptativo de variação genética. Talvez, como Denis Walsh sugere em seu capítulo provocativo, devêssemos ver a mudança evolutiva como resultante primariamente de tais capacidades de organismos como agentes e outros sistemas processuais.

 

7.4. Medicina

A perspectiva do processo também tem consequências interessantes para a medicina, especificamente para a forma como pensamos sobre o conceito de doença, como foi recentemente defendido por Pierre-Olivier Méthot e Samuel Alizon (2015).[27] A história do pensamento médico revela que o entendimento da doença oscilou para frente e para trás entre duas concepções opostas. De acordo com a chamada concepção “fisiológica”, as doenças resultam de distúrbios no equilíbrio funcional do corpo, e sua cura reflete a restauração harmoniosa desse equilíbrio. Em contraste, a assim chamada concepção “ontológica” vê as doenças como entidades estrangeiras que entram no corpo, e sua cura implica a expulsão dos intrusos. A concepção ontológica está alinhada com a ontologia da substância, pois considera as doenças como coisas particulares (ou propriedades das coisas) que são discretas e existem independentemente do corpo que elas infectam, enquanto a concepção fisiológica é mais compatível com a ontologia de processos, interrupções duradouras na malha cuidadosamente regulada dos processos interconectados que constituem o corpo.

 

Com o surgimento da microbiologia médica no final do século XIX, a concepção ontológica tornou-se a teoria dominante da doença, e assim permaneceu, mais ou menos, até os dias de hoje. A noção moderna de “patógeno” é claramente derivada dele, o que explica por que os patógenos têm sido considerados uma categoria discreta, distinta de outros micróbios por sua capacidade inerente de causar doenças em hospedeiros apropriados. Conceber o campo biológico em termos processuais nos leva a questionar a adequação de tal compreensão fortemente substancialista da etiologia da doença. Adotar uma postura processual hoje não significa retornar à antiga concepção fisiológica da doença. Mas sugere que a patogenicidade pode não ser uma propriedade intrínseca de um micróbio, mas, como argumentam Méthot e Alizon (2015), e sim uma propriedade contingente proporcionada pelo contexto ecológico particular em que o micróbio se encontra e pelo complexo e pela relação simbiótica sempre cambiante que mantém com o seu hospedeiro.

 

Surpreendentemente, esta é precisamente a visão que parece emergir da recente pesquisa microbiológica. A pergunta tradicional “Este micróbio é um patógeno?” Está gradualmente dando lugar à questão “sob quais condições ecológicas esse micróbio provavelmente se tornará um patógeno?”. Essa mudança está sendo parcialmente motivada pela descoberta de que os micróbios que se acredita estarem envolvidos em relações comensais ou mutualísticas com seu hospedeiro podem se tornar patogênicos (isto é, parasitas) como resultado de mudanças no ambiente hospedeiro (esse é o caso dos micróbios que compõem a microbiota normal do intestino humano, por exemplo). Por outro lado, micróbios que geralmente são patogênicos podem acabar protegendo seu hospedeiro contra parasitas mais virulentos. A própria virulência, que se refere ao grau de dano que pode ser infligido por um patógeno em seu hospedeiro, não é uma propriedade constante do patógeno; não se pode afirmar que seja uma propriedade do patógeno, mas sim o resultado de um tipo específico de interação do patógeno com seu hospedeiro.

 

Está ficando cada vez mais claro que não há nada sobre patógenos, no que diz respeito à sua estrutura, que fundamentalmente os diferenciam dos não-patógenos. Há também evidências crescentes de que infecções são frequentemente causadas por mais de um tipo de micróbio. Ver a patogenicidade como propriedade de um micróbio individual pode, portanto, ser enganador, uma vez que muitas vezes é uma propriedade coletiva que emerge das interações de vários tipos de micróbios com um hospedeiro. Além disso, é preciso ter em mente que os micróbios em si não são coisas imutáveis, mas estão em constante evolução – e os micróbios podem evoluir muito rapidamente! Às vezes, eles desenvolvem a capacidade de serem patógenos. De fato, uma infecção que é inicialmente inofensiva a um hospedeiro pode se tornar patogênica em infecções subsequentes.[28]

 

As considerações acima sugerem fortemente que não há critérios definidos pelos quais podemos classificar inequivocamente um micróbio em particular como um patógeno. Quanto mais pesquisas empíricas forem conduzidas, mais longe pareceremos ser capazes de fazer tais classificações, e por boas razões. As tentativas de classificar os micróbios dessa maneira são equivocadas, porque procuram atribuir uma propriedade ao micróbio que, na realidade, é uma função do hospedeiro, do micróbio e de suas interações. Atribuir a patogenicidade a um micróbio individual é cometer um ato indefensável de abstração, pois implica ignorar o complexo contexto processual que o torna possível. Um micróbio não é uma coisa ou uma substância, e a patogenicidade não é uma característica imutável que carrega consigo como uma essência; é antes um processo e, como tal, é de se esperar que suas características sejam consideradas transitórias, dependentes do contexto, historicamente contingentes e sempre sujeitas a mudanças ecológicas e evolutivas.[29]

 

 

 

  1. Conclusões

Este ensaio preocupou-se com uma série de questões relativas à metafísica da ciência. Esperamos que tenha mostrado que estas questões são de importância fundamental, que não podem ser evitadas por qualquer pessoa seriamente preocupada com a ciência, seja através de reflexão filosófica ou investigação empírica. Os cientistas, assim como os filósofos, estão inevitavelmente comprometidos com certas visões metafísicas, independentemente de estarem conscientes delas ou não. Esses pontos de vista, como Waddington reconheceu, “não são meros epifenômenos, mas têm uma influência definida e determinável na obra [que um cientista] produz” (Waddington 1969: 72). Acreditamos que ser explícito sobre a postura metafísica que alguém considera correta para a biologia é crucial se quisermos prevenir o que Whitehead descreveu como a “canalização do pensamento e da observação dentro de limites predeterminados, baseados em suposições metafísicas inadequadas assumidas dogmaticamente” (Whitehead 1933: 151). Nosso objetivo neste manifesto tem sido defender a tese metafísica de que um processo ontológico é a ontologia correta para o mundo vivo.

 

Estamos cientes de que as tentativas anteriores de defender a ontologia do processo foram muitas vezes recebidas com considerável ceticismo, quando não de franca hostilidade. Uma razão para isso, a nosso ver, é que os filósofos do processo frequentemente sentiram a necessidade de introduzir um novo léxico para chegar a um acordo com a natureza processual da existência. Whitehead, é claro, é o exemplo mais notório, e sua influência na filosofia moderna do processo, inclusive em como é percebida por aqueles que se opõem a ela, tem sido enorme. No entanto, como esperamos que este ensaio tenha demonstrado, não é necessário recorrer a neologismos ou recorrer a prosa obscura para justificar o processo. Afirmações de coisas, apesar de sua penetração, não precisam ser tomadas pelo seu valor nominal. Afinal, nossas convenções linguísticas nem sempre coincidem com nossas convicções ontológicas. É por isso que, por exemplo, continuamos a falar de “pôr do sol” e “nascer do sol”, mesmo séculos depois da Revolução Copernicana. É suficiente percebermos que a gramática inglesa, como a de outras línguas indo-européias, exibe um claro viés em relação às substâncias, o que pode muito bem estar enraizado, ao menos em parte, em nossas disposições cognitivas.

 

Além de qualquer viés inerente, supomos que a ampla prevalência da ontologia de substâncias também reflete o fato de que, em muitas circunstâncias, ela realiza o trabalho suficientemente bem. A relação entre a ontologia de substância e a ontologia de processos não é completamente diferente da relação entre a Física clássica e a Física moderna. Assim como a Física clássica fornece uma aproximação conveniente de entidades físicas de tamanho médio que se movem em velocidades relativamente lentas, mas não constitui uma descrição precisa da realidade física, também a ontologia de substância fornece uma caracterização útil de entidades biológicas, especialmente quando consideradas em intervalos temporais curtos, apesar de ser uma descrição fundamentalmente inapropriada do mundo vivo. Mas, embora pareça mais intuitivo considerar os organismos como coisas do que como processos, a situação rapidamente começa a se reverter quando começamos a dar a devida consideração ao tempo. Muitos dos métodos usados para estudar entidades vivas abstraem-se da dimensão temporal para facilitar sua investigação – basta pensar em técnicas anatômicas convencionais como ressecar, conservar, manchar, fixar e congelar. Pode ser que esses métodos tenham levado os biólogos a pensar em termos de substância, ou talvez esses métodos refletissem sua consciência da dificuldade de lidar adequadamente com o material dinâmico e, portanto, realçar sua apreciação da natureza processual da vida. No entanto, mesmo que este último seja o diagnóstico correto, parece-nos que o uso de tais técnicas ocultou as deficiências da teorização fundamentada na ontologia baseada em substâncias (essa afirmação é mais desenvolvida por Laura Nuño de la Rosa em seu capítulo).

 

Nosso argumento neste ensaio foi que a ontologia de processos é muito mais concordante com a compreensão do mundo vivo fornecida pela biologia contemporânea do que seu rival substancialista. Quanto mais aprendemos sobre a vida, mais necessária se torna uma perspectiva de processo. Esse é particularmente o caso com relação à crescente compreensão da onipresença da simbiose, que desafia diretamente as suposições substancialistas profundamente arraigadas sobre o mundo vivo. Assim, mesmo que seja menos intuitivo que o substancialismo, as descobertas empíricas da biologia estão inexoravelmente nos conduzindo ao processualismo. É interessante observar que a Física, que tem sido tradicionalmente considerada a ciência mais avançada, foi empurrada para a ontologia de processos há cerca de um século (como argumentaram Whitehead e outros) e agora biologia — se nós e os outros contribuidores para isso volume estão corretos — está seguindo o exemplo. Isso talvez seja uma indicação de que a mudança do substancialismo para o processualismo é apenas algo que todas as ciências passam enquanto se desenvolvem? Esta intrigante possibilidade foi recentemente sugerida por Mark Bickhard:

 

“Toda ciência progrediu além de uma concepção inicial de seus fenômenos em termos de substância para entender que eles são de fato fenômenos de processo. O fogo não é mais modelado em termos da substância flogístico, mas sim em termos do processo de combustão; o calor não mais em termos de calorias, mas em termos de processos cinéticos aleatórios; a vida não mais em termos de fluidos vitais, mas em termos de tipos especiais de processos de equilíbrio termodinâmico. E assim por diante.” (Bickhard 2009: 553)

 

Seja como for, o que é evidente é que uma ontologia de processos é mais consistente com os fatos da biologia do que uma ontologia de substâncias. A reciclagem metabólica, os ciclos de vida e a interdependência ecológica — para mencionar os três fenômenos que discutimos com mais detalhes — fornecem motivações empíricas convincentes para a adoção de uma ontologia de processos na biologia. Os filósofos, céticos quanto à nossa abordagem naturalista da metafísica, duvidarão de que qualquer quantidade de evidências empíricas possa estabelecer, ou mesmo ser relevante, para o debate entre substancialismo e processualismo. Para eles, podemos pelo menos oferecer nossos argumentos de que o processualismo pode lidar com mais eficácia do que o substancialismo com uma ampla gama de questões filosóficas, incluindo classificação, individuação, persistência, explicação e abstração. E para aqueles que compartilham do nosso desconforto com as doutrinas interconectadas do essencialismo, reducionismo e mecanicismo, o processualismo, como vimos, fornece recursos para fundamentar esse desconforto que não estão disponíveis para o substancialista. Se o valor de uma posição ontológica deve ser medido, pelo menos em parte, por sua capacidade de resolver problemas, então o processualismo pode obter apoio de sua aplicação tanto para a Biologia quanto para a Filosofia.

 

Finalmente, este ensaio ilustrou como uma postura processual serve como um guia heurístico inestimável em Biologia. Tem uma série de consequências interessantes e às vezes inesperadas para campos tão diversos como fisiologia, genética, evolução e medicina, onde nos força a questionar suposições profundamente enraizadas e revisar princípios teóricos básicos. O processualismo lança nova luz sobre problemas antigos e até nos encoraja a mudar nossas perguntas de pesquisa, e, portanto, tem o potencial de abrir novos caminhos de investigação empírica. Depois de ler o restante dos ensaios reunidos neste volume, esperamos que o leitor esteja convencido, pelo menos, da utilidade, e esperamos até mesmo da veracidade de uma filosofia processual da biologia.

 

  1. Visão Geral das Contribuições

Embora já tenhamos aludido às dezessete outras contribuições para o volume ao longo deste ensaio, pode ser útil terminar dizendo algo sobre como o livro como um todo está organizado. Após essa extensa introdução, os capítulos deste volume são classificados em quatro grupos temáticos: “Metafísica”, “Organismos”, “Desenvolvimento e Evolução” e “Implicações e Aplicações”.

 

Os cinco capítulos da Parte II do livro tratam de questões metafísicas gerais relacionadas ao objetivo de desenvolver uma ontologia de processos para a biologia. Peter Simons argumenta que uma compreensão fundamentalmente processual do mundo vivo requer que reconceitualizemos as coisas que os biólogos estudam como “precipitados” secundários dos processos primários. Rani Lill Anjum e Stephen Mumford sugerem que a biologia é mais bem servida por uma teoria disposicionalista da causalidade do que pelos relatos mais tradicionais dos humeanos, dado que somente a primeira pode fazer justiça à dinamicidade, continuidade e sensibilidade ao contexto dos fenômenos biológicos. James DiFrisco tenta reforçar a defesa de uma ontologia do processo na Biologia, fornecendo relatos causais — e processuais adequados — de individuação e persistência em termos de coesão e genidentidade, respectivamente. Thomas Pradeu explora em mais detalhes a fertilidade do conceito de genidentidade em biologia, mostrando como isso nos leva a priorizar processos sobre as coisas. Finalmente, Johanna Seibt considera como um arcabouço ontológico sistemática de processos sem sujeito que ela desenvolveu ao longo de muitos anos, chamada Teoria Geral do Processo, pode ser usada para abordar questões de individualidade, composição e emergência na filosofia da biologia.

 

Os quatro capítulos da Parte III do livro referem-se ao conceito de organismo – o mais central das categorias biológicas – desde uma perspectiva processual. Daniel Nicholson pede uma mudança na forma como pensamos sobre o que são os organismos, substituindo a concepção convencional de máquina por uma concepção similar a um fluir que captura melhor sua natureza processual. Denis Walsh afirma que reconhecer o caráter único dos organismos como agentes processuais requer uma teoria sobre “agentes” para compreender como eles evoluem. Frédéric Bouchard sustenta que a individualidade evolutiva vem em graus, pois reflete vários níveis de integração funcional entre os processos que se cruzam. Finalmente, Argyris Arnellos propõe uma ontologia organizacional baseada em processos para a Biologia, a fim de explicar a integridade de organismos individuais e, ao mesmo tempo, explicar sua dimensão colaborativa.

 

Os quatro capítulos da Parte IV do livro adotam uma ontologia de processos nos contextos específicos do desenvolvimento e da evolução. Paul Griffiths e Karola Stotz mostram que a teoria dos sistemas de desenvolvimento está profundamente comprometida com uma visão processual da vida, e eles oferecem uma série de razões pelas quais os processos precisam ser tomados como fundamentais no desenvolvimento e na evolução. Flavia Fabris reavalia os conceitos centrais da teoria epigenética de Waddington, e ela sugere que a assimilação genética de caracteres adquiridos é melhor explicada em termos processuais. Laura Nuño de la Rosa analisa como novas tecnologias de microscopia, técnicas moleculares e computacionais para modelagem de processos biológicos contribuem para uma compreensão processual do desenvolvimento. Finalmente, Eric Bapteste e Gemma Anderson discutem como uma apreciação crescente do papel evolucionário da interseção entre os processos biológicos requer novas maneiras de representar esses processos para propósitos analíticos.

 

Por fim, os quatro capítulos da Parte V do livro exploram implicações e aplicações mais amplas de uma filosofia processual da biologia. Stephan Guttinger defende a compreensão processual de macromoléculas, baseando-se em ideias ecológicas para argumentar que apenas uma visão de processo pode elucidar seu caráter fundamentalmente relacional. Marta Bertolaso e John Dupré articulam uma perspectiva processual sobre o câncer e expressam sua surpresa por esta visão não ocorrer com mais frequência, com base no fato de que o câncer reflete uma falha no sistema regulatório altamente complexo que mantém um organismo multicelular ao longo do tempo. Ann-Sophie Barwich afirma que uma perspectiva de processo sobre a percepção – motivada por descobertas recentes na neurociência cognitiva – resulta em uma compreensão muito mais flexível e contextual do olfato do que se supõe tradicionalmente. Finalmente, Anne Sophie Meincke defende a afirmação de que o dilema da identidade pessoal pode ser superado pela concepção de pessoas como processos biológicos de ordem superior.

 

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[1] Nota: “mereologia” é a área da filosofia que estuda as relações entre “partes” e “todos”.

[2] Por razões de espaço e de especialização, nos restringimos aqui ao debate dentro da filosofia ocidental. Vale a pena notar, no entanto, que as visões de realidade centradas no processo são bastante proeminentes nas tradições filosóficas não ocidentais, por exemplo, no pensamento budista (ver, por exemplo, Carpenter 2014).

[3] Consequentemente, a implementação de suas idéias na teoria biológica moderna levanta vários problemas. Por exemplo, parece difícil ver como as essências postuladas por Aristóteles poderiam abranger tanto a plasticidade indefinida do desenvolvimento hoje reconhecida como característica dos organismos (West-Eberhard, 2003), quanto as mudanças que tipos de organismos sofrem no curso da evolução.

[4] Para ilustrar, a revista Process Studies define seu assunto “como se referindo principalmente, embora não exclusivamente, à filosofia de Alfred North Whitehead e seus associados intelectuais”. O jornal Australasian para o processo de pensamento recebeu o nome de um dos neologismos de Whitehead, o Concrescence. E a Sociedade Européia para o Pensamento do Processo declara em sua declaração de missão que “[a] sociedade se concentra no pensamento de Alfred North Whitehead em todos os seus aspectos”.

[5] Há exceções notáveis, no entanto. Tentativas recentes de separar a filosofia de processo da versão particular de Whitehead podem ser encontradas em “Metaphysics Process”, de Nicholas Rescher (1996) e em “Process Theories”, de Johanna Seibt (2003). A entrada da Stanford Encyclopedia of Philosophy sobre a “filosofia do processo” (Seibt 2012) também discute o tópico em termos gerais, e não no contexto específico da estrutura do próprio Whitehead.

[6] Muitos dos organicistas britânicos se reuniram no que veio a ser conhecido como Theoretical Biology Club, um grupo de pensadores biológicos interessados em abordagens interdisciplinares para o problema da organização que se reunia regularmente durante a década de 1930 (ver Abir-Am 1987; Peterson 2016).

[7] A Síntese Moderna é o termo dado ao arcabouço teórico geral da biologia evolucionária articulado em meados do século XX que combinou a seleção natural darwiniana com a genética mendeliana na forma de genética populacional, e que foi usada para reunir muitos aspectos da anatomia comparativa. sistemática, ecologia e paleontologia sob um conjunto comum de princípios explicativos.

[8] Russell, por exemplo, descreveu “Sciene and the Modern World” (1925) de Whitehead como “a mais valiosa contribuição filosófica dos últimos anos […] que é do maior interesse e importância para a biologia” (Russell 1930: 179). Waddington culpou o mesmo livro por sua decisão de abandonar a Geologia pela Biologia em meados da década de 1920 (Peterson 2011: 306). E Woodger descreveu seus próprios “Biological Peinciples”, que ele escreveu antes da publicação de “Process and Reality”, como uma “tentativa de ampliar as visões do Prof. Whitehead para a Biologia” (Woodger 1929b: 345).

[9] De fato, é importante distinguir os organicistas dos autores que buscaram desenvolver uma compreensão processual da Biologia com base na metafísica panpsiquista exposta em   “Process and Reality”. As primeiras tentativas de fazer isto incluem uma contribuição para a teoria do organismo vivo (Agar 1943) e “General Biology and Philosophy of the Organism” (Lillie 1945). Dois volumes editados apareceram mais recentemente com uma agenda similar, a saber, “Mind in Nature” (Cobb e Griffin 1977) e “Life and Process” (Vida e Processo) (Koutroufinis 2014).

[10] Naturalmente, percebemos que o conceito de substância se prestou a uma ampla gama de interpretações ao longo da história da filosofia, nem todas elas são mutuamente compatíveis. Consequentemente, reconhecemos que a ontologia da substância não é tanto uma doutrina única e distinta, mas sim um termo abrangente para uma coleção de posições filosóficas que compartilham um compromisso de priorizar ontologicamente as substâncias (embora possam ser interpretadas) sobre os processos.

[11] Se usássemos o conceito de substância em seu sentido original latino, diríamos que os processos, não as coisas, são as substâncias reais do mundo, os constituintes finais da realidade.

[12] A dinamicidade parece ser um conceito mais adequado para os nossos propósitos, dado que (simplesmente) a mudança pode acarretar conotações substanciais indesejáveis. Como indicamos acima, se a mudança é descrita como a alteração das propriedades de substâncias pré-existentes, então não é necessário concebê-la como uma categoria ontológica básica em si mesma.

[13] Curiosamente, os organicistas estavam bem conscientes da mudança na direção do processo que estava acontecendo contemporaneamente na física. Bertalanffy, por exemplo, comparou explicitamente as ontologias processuais da Física e da Biologia, declarando que “na Física moderna não há matéria no sentido de partículas rígidas e inertes, mas sim átomos são pontos de uma dinâmica ondulatória. Assim, na Biologia não existe uma forma orgânica rígida como portadora dos processos da vida; melhor que isso, há um fluxo de processos, manifestando-se em formas aparentemente persistentes ”(Bertalanffy, 1952: 139).

[14] O argumento que esboçamos aqui no sentido de que a física moderna motiva a metafísica do processo baseia-se em várias fontes, incluindo o clássico “Wholeness and the Implicate Order” (1980), de David Bohm, e a “Metafísica da Emergência”, de Richard Campbell (2015).

[15] Pode-se ser tentado a objetar que o DNA em nossas células constitui uma exceção, pois permanece inalterado. Mas o que permanece inalterado não são as próprias moléculas de DNA, mas sua sequência de ácido nucléico. As moléculas reais sofrem mudanças quando são replicadas durante a divisão celular e, de fato, a precisão extraordinária da replicação só é alcançada por um elaborado conjunto de processos de edição que respondem a imprecisões. Também vale a pena notar que mesmo a sequência de ácidos nucléicos não permanece exatamente a mesma, dado que erros de replicação ocorrem ocasionalmente, resultando em pequenas variações que podem ou não resultar em mudanças fenotípicas.

[16] Fisiologistas, e até mesmo membros do público em geral, há muito tempo estão conscientes desse fato desconcertante. Na edição de 1905 de seu romance The Irrational Knot, George Bernard Shaw escreveu: “No momento, é claro, não sou autor de The Irrational Knot. Os fisiologistas nos informam que a substância de nossos corpos (e consequentemente de nossas almas) é descartada e renovada a tal ponto que nenhuma parte de nós dura mais que oito anos: Eu não estou agora em nenhum átomo de mim a pessoa que escreveu The Irrational Knot em 1880. A última parte desse autor morreu em 1888; e dois de seus sucessores desde então se juntaram à maioria. Em quarto lugar de minha linha sucessória, não se pode esperar que eu tenha interesse muito vivo pelos romances de meu bisavô literário ”(Shaw, 1905, xvii).

[17] Novamente, podemos ser tentados a nomear a sequência de DNA para este papel. O problema é que os genomas são entidades altamente dinâmicas que estão sujeitas a muitos tipos de mudanças durante o desenvolvimento (Barnes e Dupré, 2008). Além disso, nem está claro que exista qualquer entidade única que se qualifique como o genoma de um organismo (Dupré, 2010a).

[18]Em Science and the Modern World, Whitehead ilustrou a interconectividade de sua visão de mundo com uma discussão ecológica da floresta tropical brasileira: “As árvores em uma floresta brasileira dependem da associação de várias espécies de organismos, cada um dos quais é mutuamente dependente das outras espécies. . Uma única árvore, por si só, depende de todas as probabilidades de mudanças levando a circunstâncias adversas. O vento a atrapalha; as variações de temperatura controlam sua folhagem; as chuvas desnudam seu solo; suas folhas são levadas embora e perdidas com o propósito de fertilização. Você pode obter espécimes individuais de árvores finas, seja em circunstâncias excepcionais, ou onde o cultivo humano tenha intervido. Mas, na natureza, o modo normal pelo qual as árvores florescem é por sua associação em uma floresta. Cada árvore pode perder algo de sua perfeição individual de crescimento, mas elas se ajudam mutuamente na preservação das condições de sobrevivência. O solo é preservado e sombreado; e os micróbios necessários para sua fertilidade não são queimados, nem congelados, nem lavados. Uma floresta é o triunfo da organização de espécies mutuamente dependentes ”(Whitehead 1925: 206). As observações de Whitehead parecem notavelmente prescientes, especialmente à luz das discussões recentes sobre a chamada “Wood Wide Web” (Giovannetti et al. 2006).

[19] Há relatos filosóficos que postulam essências individuais distintas (por exemplo, Kripke 1980), que poderiam responder à segunda das questões que discutimos aqui. Nós devemos ignorá-los para os presentes propósitos.

[20] Existem ainda alguns defensores do essencialismo (por exemplo, Devitt 2008), bem como filósofos que defendem o essencialismo em geral, sem muito interesse nos obstáculos práticos que ele enfrenta nas ciências da vida (por exemplo, Ellis, 2001). Pelo menos entre os filósofos interessados em biologia (uma categoria que inclui Devitt) eles pertencem a uma minoria separada.

[21] No caso humano que mencionamos anteriormente, por exemplo, os simbiontes que compõem o microbioma de um neonato são muito diferentes daqueles de um adulto.

[22] Strawson (1953) argumentou de forma convincente que não poderíamos ter noção de um mundo sem indivíduos persistentes que pudéssemos reidentificar em momentos diferentes. Note que nada do que dissemos contradiz este requisito. É justo que a seleção de indivíduos reidentificáveis seja menos objetivamente determinada do que supunha Strawson. Ou, então, nós reivindicamos isto.

[23] Nós não dizemos que eles pressupõem uma ontologia de substâncias “ao pé da letra” (tout court) porque, seguindo a declaração canônica de Machamer et al. (2000), alguns relatos filosóficos de mecanismos são explicitamente dualistas, endossando tanto “entidades” (ou seja, substâncias) e “atividades” (ou seja, processos). No entanto, processos em relatos mecanicistas tendem a desempenhar um papel semelhante ao das propriedades conforme o padrão na ontologia de substâncias.

[24] Parece – notamos de passagem – que distinguir mecanismos biológicos envolve abstrações de ambos os tipos.

[25] Novamente, isso não está certo, já que as espécies geralmente consistem em várias populações — elas são frequentemente descritas como “meta-populações” — que podem não estar conectadas de forma reprodutível ou não. Consequentemente, a unidade que realmente queremos como o locus da mudança evolutiva é aquela da qual a meta-população é um corte transversal, algo para o qual, até onde sabemos, não existe um termo padrão (a não ser, é claro, que usemos o termo “espécies”!). Para os propósitos atuais, podemos ignorar essa complicação.

[26] É importante não confundir a construção de nicho com o fenótipo estendido (Dawkins, 1982), pois implicam ontologias opostas. O primeiro pode ser visto como uma implicação da ontologia de processos, enquanto o segundo é indicativo de ontologia de substância. O fenótipo estendido estende as fronteiras das coisas (ou seja, organismos) além de seus corpos materiais e em seus ambientes, mas essas fronteiras permanecem totalmente determinadas pelas propriedades intrínsecas das próprias coisas. A construção de nicho, em contraste, sugere que os organismos e seus ambientes estão causalmente interligados e se constituem mutuamente um ao outro.

[27] Pierre-Olivier Méthot participou do workshop na Universidade de Exeter, onde muitos dos trabalhos coletados neste volume foram apresentados pela primeira vez, mas infelizmente não puderam contribuir com um capítulo. A discussão que se segue considera algumas das idéias que ele apresentou, muitas das quais são apresentadas no artigo acima mencionado.

[28] A rapidez potencialmente grande deste processo pode ser atribuída à transferência lateral dos chamados fatores de virulência, que são frequentemente empacotados como unidades genéticas móveis, tais como plasmídeos, que são transferíveis para outras células dentro do microbioma.

Outras implicações da ontologia de processos para a microbiologia evolutiva são exploradas em Bapteste e Dupré 2013