Inéditos

Especulações maquínicas (2017)

                Na imunologia clássica, a utilização de imunoglobulinas naturais como anticorpos específicos – isto é, a transfiguração (mangle) destas proteínas produzidas naturalmente como se fossem reagentes bioquímicos específicos – é uma atividade humana muito bem sucedida. O laboratório clínico emprega milhares de testes serológicos específicos que ajudam (ou decidem conclusivamente) o diagnóstico de condições médicas. Um sucesso semelhante é obtido na pesquisa básica em diferentes ramos da Biologia experimental – e.g., imunohistoquímica -, incluindo a própria imunologia experimental. Assim, as imunoglobulinas naturais são mesmo, descaradamente, anticorpos específicos, e esta já não é uma afirmação questionável.

                  No entanto, como componentes de organismos vertebrados vivos, onde são recolhidos para serem utilizados como reagentes bioquímicos específicos, as imunoglobulinas naturais carecem da direcionalidade intencional que é essencial na definição dos anticorpos específicos. O organismo não produz anticorpos. Os anticorpos são imunoglobulinas naturais transformadas em reagentes bioquímicos específicos por rótulos funcionais colados por imunologistas. Os verdadeiros produtores (inventores) de anticorpos específicos são imunologistas que atuam como observadores humanos intencionais entrosados com outros observadores humanos na linguagem humana.

A imunologia é uma gigantesca e bem-sucedida criação coletiva de observações médicas e biológicas originalmente dirigidas pela ideia equivocada de que o corpo é capaz de produzir reagentes bioquímicos específicos ad hoc em sua defesa para se livrar de materiais estranhos invasores. Não é isto o que o corpo faz. O corpo cria e mantém a si mesmo como um organismo vivo.