Blog da SBI

Espontâneo ou extemporâneo JUL-2011

Espontâneo ou extemporâneo?

Nelson Vaz

25 de julho de 2011

Nada é mais difícil de respeitar
do que aquilo que,
depois de ouvido,
nos parece óbvio

(H. Maturana).

Espontâneo ou extemporâneo?

Pode parecer extemporânea a preocupação com a espontaneidade do viver. No entanto, a característica fundamental dos seres vivos é que eles são entidades autônomas, entregues a si mesmas, que executam incessantes mudanças internas, mudanças que não podem ser interrompidas sem que o ser vivo se desintegre. A mudança é inerente ao viver. Mas, a despeito dressas mudanças, de uma contínua troca de matéria e energia com um meio, que é também cambiante, as mudanças são cíclicas, voltadas sobre si mesmas (“fechadas”) e, o ser vivo assim se conserva; como no ditado francês: “quantomais muda, mais permanece sendo a mesma coisa.”É esta circularidade que confere aos seres vivos sua auto-suficiência, sua auto-criação/manutenção. Em suma, enquanto vivem e mudam desta forma, os seres vivos estão vivos.

Como disse Archimedes de Castro, posso dizer que o organismo multicelular está vivo; que ele é composto por células que estão vivas; mas, não é adequado dizer, por exemplo, que o sistema nervoso, ou o sistema imune estão vivos. Como componentes de um organismo, estes sistemas participam do viver de um organismo multicelular, surgem com este organismo, mas não têm existência fora deste organismo

Nossas descrições do que se passa com os seres vivos deveriam ter como base este processo espontâneo de auto-criação/manutenção. Esta atitude, porém contrasta com a maneira atual de ver na Biologia, segundo a qual os diversos processos e mecanismos biológicos cumpem funções ou propósitos determinados. Neste modo de ver, pode parecer descabida a preocupação com processos espontâneos, sem função ou propósito. No entanto, este modo de ver se apóia no mais fundamental dos fenômenos biológicos: a espontaneidade do viver.

Espontaneidade na atividade imunológica

Assim sendo, é significativo encontrar na obra de Niels Jerne (1955) e também, na de David Talmage (1957; 1959), propostas sobre uma origem espontânea da atividade imunológica. Jerne e Talmage se notabilizaram nos anos 1950, por propor teorias ditas “seletivas” sobre a formação de anticorpos. Aparentemente, as teorias “seletivas” puseram um ponto final nas propostas de “moldagem” (teorias instrutivas) segundo as quais os anticorpos se formariam sobre moléculas de antígeno, usadas como moldes (Mazumdar, 1996). Estas teorias resgataram a imunologia de interesses bioquímicos (imunoquímica) e a trouxeram para uma arena mais biológica, relacionada à Teoria da Evolução e à Seleção Natural.

Mas, a ênfase no aspecto “seletivo” ocultou um outro aspecto das teorias de Jerne e de Talmage, que é exatamente a origem espontânea da atividade imunológica. Isto é particularmente importante por duas razões.

Em primeiro lugar, tanto Jerne quanto Talmage afirmam que eram motivados pela imensa variedade de imunoglobulins capazes de se ligar ao mesmo antígeno com diferentes graus de afinidade. Em Jerne, isto está presente desde sua tese de outoramento , intitulada: “Um estudo sobre a avidez dos anticorpos”, isto é, a energia de ligação dos anticorpos a seus ligantes específicos (Jerne, 1951). Ele estava impressionado com a imensa variedade de anticorpos que podiam se ligar ao mesmo antígeno, com afinidades diferentes: alguns anticorpos se ligavam fortemente, outros menos fortemente, outros ainda muito levemente. Além disso, ele detectava muitas “reações cruzadas” dos anticorpos com outros antígenos. Tudo isto sugeria que o corpo produzia uma imensa diversidade de globulinas que podem ser detectadas como anticorpos. Muitos anos depois, Jerne disse a seu biógrafo que as diferenças entre “anticorpos específicos” e as globulinas naturalmente produzidas pelo organismo: “…só existe na mente dos imunologistas” (Soderquist, 2003).

Quatro anos depois, na “Teoria da Seleção Natural da Produção dos Anticorpos”, Jerne expandiu esta idéia em um dos conceitos mais importantes da Imunologia. Ele afirmou que os anticorpos são imunoglobulinas naturais, produzidas espontaneamente pelo organismo antes do encontro com os antígenos com os quais elas eventualmente reagirão (Jerne, 1955). Esta idéia contra-intuitiva colidia com as teorias então vigentes sobre a produção dos anticorpos, que propunham que os anticorpos se formavam sobre moléculas do antígeno, usando-as como moldes – pois, de que outra maneira poderiam se formar anticorpos contra tão variadas estruturas? (Mazumdar, 1996). Mas, desta colisão, a teoria de Jerne saiu vencedora e as teorias de moldagem foram abandonadas (Silverstein, 2009).

Quase ao mesmo tempo, conclusões similares foram alcançadas por Talmage , em outra teoria sobre a formação dos anticorpos (Talmage, 1957). Talmage dizia que a especificidade dos anticorpos derivava de “…uma combinação especial de globulinas naturais selecionadas” (Talmage, 1959). Anos depois, Talmage escreveu: “Parecia haver um espectro tão amplo de avidez (afinidade de combinação) que o limite entre globulinas que eram ou não eram anticorpos era definido por uma decisão arbitrária” (ênfase adicionada); e também: “Provavelmente, não foi por coincidência que nós dois (referindo-se a Jerne), depois de estudar o fenômeno da avidez, nos convencemos de que os anticorpos são moléculas de globulinas selecionadas pelo antígeno.” (Talmage, 1995; p. 35).

Em segundo lugar, embora a teoria de Seleção Clonal (Burnet, 1957; 1959) seja vista como um aperfeiçoamento das teorias de Jerne e de Talmage – na verdade, uma fusão das duas teorias em um contexto “clonal” – a teoria Clonal omite exatamente a origem espontânea da atividade imunológica e representa, de certa forma, um retorno às idéias instrutivas do passado. Enquanto Jerne propunha uma origem esponâneade imunoglobulinas (anticorpos naturais) e Talmage afirmava que estas imunoglobulinas deveriam ter uma base celular, na teoria de Burnet, os linfócitos que dão origem aos “clones”, permanecem ociosos (inativos) até que sejam ativados por um antígeno correspondente. Para Jerne, e também para Talmage, o que gera a atividade imunológica é o próprio organismo, em sua espontaneidade criadora; para Burnet, é a chegada dos antígenos, como nas teorias de moldagem. Os antígenos, decerto, não ”moldam” os clones, mas os ativam, os tornam reais. E a espontaneidade presente nas teorias anteriores é saiu definitivamente de cena.

Em resumo, as teorias de Jerne e a de Talmage, embora ditas “seletivas” , não derivaram diretamente das “pressões seletivas” e da “seleção natural” que são essencias em uma descrição neo-Dawinista da Biologia, mas sim de uma atividade plural que tem origem espontânea no organismo. Na teoria de Seleção Clonal, por sua vez, as idéia “instrutivas”, segundo as quais o organismo obedece ao contato com antígenos, retornam pela porta os fundos, camufladas em um mecanismo “seletivo”.