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Goiaba, goiabeira…

Post de Pinge-Filho a propósito do V Simpósio Sul de Imunologia, Florianópolis  18-20 de Abril de 2012

no qual:  Após pré-cursos de Imunologia Básica para estudantes e interessados no dia 18/04 pela manhã, daremos início ao V SSI às 14 h com palestras do convidado internacional Juan Lafaiale e nacionais como Nelson Vaz, Edgar Marcelino, Leda Quercia, Mauro Teixeira, Silvia Boscardin e muito outros

Por falar no Dr. Nelson Vaz, me lembro que no dia 21 de setembro de 1993, ele autografou para mim o “Guia Incompleto de Imunobiologia (imunologia como se o organismo importasse)” escrito por  ele e pela Dra. Ana Maria C. de Faria. No apêndice I você encontra um metadiálogo em homenagem a Gregory Bateson, intitulado “Goiaba, goiabeira”… No V SSI certamente estaremos goiabando mais uma vez na doce presença do Nelson e dos nossos convidados, não deixe de participar!

 

” Goiaba, goiabeira…” No “Guia Incompleto de Imunologia”  (1993)

NM Vaz & AMC de Faria , Belo Horizonte, Coopmed.

 

Pai: Há muito tempo penso em lhe contar uma história chamada assim:”Goiaba, goiabeira”.

Filha: Seria melhor “Goiaba, goiabada”.

P: Não, esse título seria o avesso do que eu queria dizer. Eu queria dizer”goiaba” do verbo “goiabar”. E a goiabada em que você está pensando não é do verbo goiabar. Quer dizer, é, mas muito indiretamente.

F: Mas eu gosto muito de goiabada e nunca ouvi falar neste verbo “goiabar”. Foi você quem inventou?

P: Foi. Mas é um verbo muito necessário. A gente só deve inventar palavras quando elas forem muito necessárias, indispensáveis mesmo.

F: E como se conjuga esse verbo “goiabar”? Eu goiabo, tu goiabas…

P: Não, não, só goiabeiras goiabam. Pra goiabar, você tem que nascer goiabeira e depois usar à vontade duas coisas que o planeta tem (ou tinha) de sobra : luz e tempo. E uma chuvinha aqui, outra ali.

F: Luz e tempo? Pai pára de brincadeira.

P: Eu nunca fui tão sério. Você pode ver uma goiabeira goiabando. É só olhar pra ela. Um dia, eu olhei e vi.

F: E como é que ela fazia para goiabar?

P: Quer dizer, existia como uma goiabeira.

F: “Goiabar” é a mesma coisa que “ser uma goiabeira”?

P: É ser assim como uma goiabeira, do jeitinho dela.

F: Quer dizer que eu posso ser… quer dizer, fazer de conta que eu sou uma goiabeira e aí eu estaria “goiabando”?

P: Humm…vejamos. O que é que você faria?

F: Deixa ver. Eu balançaria com o vento, assim, e enfiaria minhas raízes na terra preta, assim, e ia sempre crescendo brotinhos bem verdinhos, assim, e dava uma sombra bem escura, mas, principalmente, eu dava muita goiaba: pros passarinhos e pras mosquinhas, pras crianças e pra Mamãe fazer goiabada. Não é assim?

P: É. Também é. Achei seu jeito de goiabar muito bonito. Mas me conte mais: como é que você pensou nisto?

F: Bem, eu pensei: a goiabeira existe pra dar sombra, pra ser verde, pra dar goiabas – pros passarinhos e mosquinhas e pra gente fazer goiabada …

P: Não, não é assim. A goiabeira apenas goiaba.

F: Não, Pai. Ela faz muito mais do que dar goiaba. Ela…

P: Eu não estou dizendo que ela dá goiabas. Estou dizendo que ela “goiaba”, do verbo goiabar.

F: Pai, você está brincando com as palavras de novo e você mesmo me disseque a gente não deve inventar palavras – a não ser que seja muito, muito, muito necessário – como é mesmo? – in-dis-pen-sá-vel!

P: Eu sei, eu sei. Agora é indispensável.

F: Por que, Pai?P: Porque a goiabeira não existe pra nada. Quando eu digo que ela dá goiabas, dá sombra, dá verde, eu estou confundindo o que a goiabeira faz com o que outras criaturas fazem dela ou com ela; estou confundindo o que ela faz com o que ela é.

F: E o que é ela, Pai?

P: Eu já lhe disse: uma goiabeira é uma máquina de goiabar.

F: Não, Pai. Você não disse isso! E se dissesse, eu ia ficar muito triste. Chamar uma goiabeira, tão verdinha, de máquina! Puxa, Pai, você…

P: Desculpe, não estou me referindo ás máquinas de vidro e metal. Escute, você já encontrou uma goiabeira completamente sozinha no mato?

F: Já. Uma vez no sítio da tia Inez, eu passei lá por trás, onde ninguém vai e achei uma goiabeira enorme, carregadinha e….

P: Já sei, você se encheu de goiaba

F. .Foi, comi à bessa, trouxe uma porção pra casa…e Mamãe fez goiabada. Você lembra?

P. É possível. Mas, me conte: como é que estava esta goiabeira que você encontrou no mato?

F: Ela estava assim perto do barranco…

P: O que é que ela estava fazendo?

F: Ora, Pai, o que é que uma goiabeira pode fazer? Ela fica lá, plantada, sei lá,balançando com o vento e esperando a chuva…

P: …e crescendo as raízes e dando novos brotos verdinhos …

F: …e dando goiaba! Tinha muita goiaba madura, grandona assim, amarelinha!

P: E tinha goiaba verde?

F: Tinha muita – mas essas eu não como porque dá dor de barriga.

P: Eu sei. E tinha goiaba no chão, podre, preta.

F. Pai, tinha sim, Mas estas a gente nem olha.

P: A gente não, mas tem muito bichinho que gosta: mosquinha, minhoca, passsarinho…mesmo a própria goiabeira, não é?

F: A própria goiabeira? Como é isso, Pai?

P: A goiabeira usa as goiabas que ela produz de novo, como uma espécie de adubo, pra crescer. Você não viu um monte de goiabas podres no chão e algumas já bem escuras e pretas…

F: … e cheia de bichinho de goiaba…

P: É, cheia de bichinho sim, mas uma boa parte daquelas goiabas não são os bichinhos que aproveitam: é a própria goiabeira.

F: Goiabeira come goiaba, Pai?

P: Não, não come. Mas aproveita de novo uma boa parte das goiabas que caem e não são aproveitadas por passarinhos e bichinhos e…

F: …minhocas.

P: É, minhocas.

F: É por isto que você diz que a goiabeira “goiaba”? “Goiabar” é isto? Quer dizer: aproveitar as goiabas que caem no chão?

P: Também é isso. Mas você mesmo disse que a goiabeira dá sombra e dá flores – você esqueceu das flores – dá goiaba…

F: Pai, você mesmo disse que não é assim!

P: Eu só disse que não devemos confundir o que a goiabeira faz, com o que ela é.