Biográficos

Homenagem a Nelson Vaz – Ana Maria Caetano de Faria

Discurso de homenagem ao Prof. Nelson Vaz
por ocasião da concessão do título de Professor Emérito do ICB – UFMG
Profª Ana Maria Caetano de Faria (25/06/2012)

 

Boa tarde a todos,

Este não é um relato fiel e detalhado da trajetória do Prof. Nelson Vaz, mas simplesmente um depoimento de ex-aluna que o acompanhou ao longo da sua vida científica desde que ele chegou a UFMG.

Há exatamente 28 anos atrás, o Prof. Nelson Vaz chegava a Belo Horizonte e ao ICB da UFMG. Os Profs. Tomaz Aroldo da Mota Santos e Enio Vieira do Depto. de Bioquimica e Imunologia e o Prof. Celio Garcia do Depto. de Psicologia Social foram os principais responsáveis pelo convite e pela acomodação de Nelson nessa universidade e nesse instituto. Nelson trazia consigo a experiência e as estórias do grupo de Niterói, sendo que com ele vinha uma estudante, Luciene Lopes, a primeira estudante do recém fundado Laboratório de Imunobiologia. Ele também trazia uma tempestade de ideias novas e inovadoras que eram o resultado de uma trajetória muito particular como cientista.

Essa história foi marcada por dois momentos muito claros: a formação científica tradicional e uma incursão muito bem sucedida nela. E logo depois, uma reviravolta nesse caminho.

Nelson se formou em Medicina em Niterói. Segundo ele próprio em uma entrevista que nos concedeu no “SBI na rede” em 2007, ele se tornou médico por influência do pai, Vasco Vaz, que era também médico e entrou para a ciência pelas mãos do grande pesquisador Haity Mussatché, do Instituto Oswaldo Cruz (Manguinhos). Seu primeiro e grande interesse na ciência foi o fenômeno da anafilaxia que ele mesmo descreve como tendo sido “um soco na testa: como é que pode uma cobaia morrer em questão de minutos pela injeção de uma coisa que já havia sido injetada antes e não fazia efeito nenhum”.

Esse estudo o levou para a Imunologia e à primeira estadia fora do Brasil, no Department of Pathology da New York University onde esteve nos anos 70 juntamente com cientistas como Benard Levine, Zoltan Ovary e Baruj Benacerraf. Nelson foi um dos responsáveis pela descoberta dos genes Ir, suas relações com os genes do MHC e seus trabalhos da década de 70 com Levine foram os precursores da descoberta da apresentação de antígenos nos anos 80.

Em um segundo momento, no final dos anos 70, ele participou da re-descoberta do fenômeno da tolerância oral e seu trabalho de 1977 no tema é um clássico na história da tolerância oral. Nesse período, Nelson trabalhava no National Asthma Center em Denver sendo já um cientista de renome e membro de comitês de avaliação do NIH.

É nessa época que ele se encontra com Francisco Varela e, através dele, com as ideias de Humberto Maturana. Esse encontro marcou uma nova fase na sua carreira que segue, a partir daí, um percurso de aprofundamento teórico nos temas da Imunologia e da Biologia da Cognição.

Nessa época, Nelson e Varela escreveram juntos um trabalho seminal que explicitava, pela primeira vez, uma noção sistêmica da atividade imunológica expressa no título: Self and non-sense: an organism-centered approach to Immunology. É a fase do questionamento e da desmontagem sistemática do paradigma clássico no qual se estrutura todo o arcabouço teórico da Imunologia. Mais que isto, a decisão, decorrente desse questionamento da necessidade de construção de uma alternativa teórica (e experimental) que recolocasse a Imunologia, filha da Medicina, no campo mais vasto da Biologia.

Nelson esteve na Universidade de Brasília logo após sua fundação nos conturbados anos 60, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) em 1978 e, após a estadia em Denver, voltou ao Brasil para se tornar professor titular no Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense onde permaneceu até a vinda para Belo Horizonte em 1984.

Foi nesse momento inquieto e fascinante que eu o conheci, em 1984. Nelson chegava a Belo Horizonte e criava o Laboratório de Imunobiologia com esse propósito: estudar a fisiologia do sistema imune, resgatar fenômenos, como a tolerância oral, que traziam de volta ao campo de estudo dos linfócitos e suas atividades problemas da ordem do viver cotidiano, como a nutrição, os anticorpos naturais e o envelhecimento.

Como eu, Nelson atraiu um grupo de estudantes que constituiu a primeira turma do laboratório. Nenhum de nós foi estudar com ele simplesmente Imunologia. Ele mesmo, citando o pai, nos dizia sempre: cuidado com os que sabem somente Medicina, porque provavelmente nem Medicina eles sabem.

A proposta que ele nos fazia sempre foi mais ambiciosa e mais tentadora: nossa tarefa era ajudar a construir uma Imunologia nova.

A tolerância oral se prestava particularmente a tal projeto porque ela se inscrevia ainda nos marcos da Imunologia tradicional (já que tratava da redução de uma resposta imune), mas também criava fissuras sérias nas certezas históricas dessa Imunologia. Afinal, se o sistema imune separa o “próprio” do “estranho” e nos defende reagindo de forma inflamatória ao estranho, como explicar a tolerância à nossa microbiota e aos antígenos da nossa dieta? Como reconciliar o reconhecimento inflamatório do estranho como parâmetro de funcionamento imunológico com essa confusão fisiológica e cotidiana tipicamente produzida pelos antígenos que povoam o nosso intestino, e que estão na fronteira nebulosa entre o que é estranho e o que é próprio?

Nossas referências teóricas, no campo da Imunologia, eram os trabalhos de Niels Jerne e Antonio Coutinho e seu grupo do Instituto Pasteur, em Paris.

Jerne propôs, em seu trabalho de 1974, que os anticorpos, muito além de sua reatividade a antígenos estranhos, reagiam uns com os outros através de determinantes idiotípicos e que essas reações formavam a base e a referência para a operação do sistema imune. Ele criava a ideia de redes idiotípicas, de conectividade entre os elementos do sistema imune e, portanto, pela primeira vez, a possibilidade de se falar de um verdadeiro sistema.

Na esteira dessas ideias, o grupo de Antonio Coutinho fornecia os componentes teóricos e os dados experimentais para a criação de uma Imunobiologia. Seu estudo das atividades naturais do sistema imune mostrava que animais isentos de germes e de antígenos possuíam atividade imunológica e que, portanto, a operação do sistema imune não se fundava no encontro eventual de anticorpos com antígenos, mas numa atividade intrínseca sistêmica e autônoma.

Foi exatamente para o Laboratorio de Antonio Coutinho no Instituto Pasteur que Nelson rumou em 1985 para um estágio sabático que estreitou os laços entre o laboratório de Imunobiologia e o grupo de Paris.

Estudar com o Nelson, seja tolerância oral, sejam outros inúmeros temas correlatos que ele nos propunha diariamente, sempre foi assim: abrir as portas de uma nova ciência que não se dispõe a encontrar respostas novas para perguntas antigas, mas a inaugurar uma nova fenomenologia, instalar novas perguntas.

O trabalho experimental e o dia-a-dia do nosso laboratório nunca foram convencionais. E isto se refletia no próprio visual do laboratório. Na época, tínhamos, por exemplo, vários aquários espalhados pelas bancadas (dos quais o Nelson cuidava pessoalmente). Em várias ocasiões nos perguntaram se nós trabalhávamos com imunologia de peixes. Não, eles eram somente para deleite e contemplação.

Quem conhece a sofisticação teórica e a habilidade extraordinária como professor do Nelson, não imagina que ele é também um exímio experimentalista. Nelson nos ensinou técnicas importantes na época (como ELISA e PFC), o trabalho de cruzamento de linhagens isogênicas de camundongos e a manipulação experimental desses animais. Sempre me surpreendeu, por exemplo, sua habilidade na sangria retro-orbital que ele era capaz de fazer com precisão de cirurgião mesmo depois de passar anos afastado da bancada.

Além disto, nossa vida no laboratório sempre incluiu as incursões teóricas não somente nas novas ideias da Imunologia, mas nos campos mais vastos da Biologia teórica e da Filosofia da ciência.

Uma parte fundamental das atividades do grupo nos anos 1980, por exemplo, era a participação no Grupo de Estudos de Cognição e Autonomia (GECA). O GECA foi criado pelo Nelson juntamente com os professores Célio Garcia (do Departamento de Psicologia Social da FAFICH) e Evandro Mirra (da Engenharia Mecânica). Posteriormente se juntaram a ele os profs. Ricardo Fenati e Paulo Marguti (do Depto. de Filosofia), Haj Ross e Cristina Magro (do Depto. de Linguística). Cristina trabalha com Nelson até hoje principalmente nas várias traduções que os dois fizeram do trabalho de Humberto Maturana.

O GECA foi uma tentativa, da nossa parte, de buscar em outros campos do conhecimento, os fundamentos para uma nova alternativa teórica que falasse dos organismos e do sistema imune como sistemas biológicos, complexos, autônomos. Daí o interesse do Nelson e do grupo na história da ciência, na teoria do caos, nos sistemas complexos e, principalmente, nas ideias do neurobiólogo Humberto Maturana, criador do conceito de autopoiese. A leitura de seus textos, principalmente na época, do livro A Árvore do Conhecimento, trouxe um elemento fundamental para a discussão biológica: a ideia do observador que, ao observar, interfere no fenômeno da sua observação, o questionamento da objetividade científica colocada entre parêntesis pelos aforismas – “tudo é dito por um observador” e “todo fazer é conhecer, todo conhecer é fazer”.

Em 1993, Nelson organizou a publicação de um livro para estudantes de graduação com um resumo das inquietações e das reflexões desse período. O Guia Incompleto de Imunobiologia. O livro tem um prefácio do próprio Maturana que localiza com precisão dois momentos conectados dessa obra: uma parte inicial, da qual eu participei, em que se discute criticamente os conceitos tradicionais da Imunologia, seus fundamentos e as origens históricas das suas certezas e um segundo momento onde se propõe um novo olhar sobre os fenômenos biológicos baseado nas suas ideias.

O Guia foi o resultado de anotações de discussões e aulas, contando com o brinde do talento artístico do Nelson que desenhou todas as figuras no seu primeiro Macintosh. Ele foi editado pela Cooperativa Medica com a proposta de ser um guia incompleto como a própria ciência ou a vida. Várias pessoas nos sugeriram re-editá-lo ou atualizá-lo depois que a edição se esgotou. Mas Nelson costuma brincar que devíamos simplesmente mudar o título do livro para Guia Incompleto, desatualizado e esgotado de Imunobiologia.

Mesmo após a sua aposentadoria em 2004, Nelson ainda continuou orientando e ainda conta com um estudante no laboratório de Imunobiologia, Arquimedes Castro Junior. Principalmente, nos últimos anos, ele se dedicou a um trabalho de explicitação teórica maior das suas ideias que podem ser encontradas em um belissimo livro recentemente publicado pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina em colaboração com o biólogo chileno Jorge Mpodozis e os também biólogos brasileiros João Francisco Botelho e Gustavo Ramos. O livro se chama “Onde está o organismo – Derivas e outras histórias na Biologia e Imunologia” e é uma delicada tentativa de resgatar uma visão unificada do organismo em seu viver e de descrever a sua proposta de uma fisiologia conservadora para o sistema imune. Quem conhece o Nelson e seu talento para as novas tecnologias da comunicação, sabe que ele produz também uma profusão de textos que podem ser facilmente encontrados na internet e que alguns de nós tem o privilégio de recebe-los por e-mail quase que semanalmente.

Nelson, além das suas habilidades gráficas e musicais, também é um ótimo poeta tendo produzido um livro, “Lado Alado”, que é uma das joias publicadas na coleção Poesia Orbital em 1997. Ele participou também da Antologia de poemas “O outro lado da Ciência”, organizada por Leopoldo de Meis em 1999.

É claro que não vou enumerar os muitos estudantes e trabalhos que povoaram sua trajetória científica e a do Laboratório de Imunobiologia desde a sua fundação. Mas vale a pena dizer que todas as preocupações do nosso laboratório sempre gravitaram em torno dessa orientação fundamental: quais as regras de operação do sistema imune em situações fisiológicas tais como a nutrição e o envelhecimento.

Vários dos estudantes que o Nelson orientou hoje têm seu próprio laboratório, são professores da UFMG como Cláudia Rocha Carvalho e Valéria Ruiz (do Depto. de Morfologia), da Universidade Federal do Maranhão, como Rosane Guerra que também é diretora científica da FAPEMA, ou são pesquisadores de instituições fora do Brasil como Luciene Lopes (no King´s College em Londres), Gabriela Garcia (na empresa de biotecnologia Merrimack em Boston), Juscilene Menezes (no California Institute of Technology em San Diego), ou Daniel Mucida (na Rockefeller University em New York). Outros são profissionais da área médica como Bruno Verdolin, no Hospital das Clínicas da UFMG, Marco Heleno Melo em Atlanta e Maria José Rios no Washington Blood Center para citar apenas os estudantes mais antigos. Uma nova geração de pesquisadores já se formou e começa sua vida profissional em Universidades do estado como a Universidade de Montes Claros, a própria UFMG, a UFOP e a UNIVALE.

Em 2004, Rosane Guerra fez, durante homenagem da SBI ao Nelson, uma rosácea com as pessoas formadas diretamente por ele ou por seus ex-alunos. Essa rosácea certamente está muito maior hoje porque Nelson continua tendo esse efeito multiplicador, como diria o Prof. Moussatché.

Nós, seus ex-alunos, sempre nos orgulharemos em dizer que fomos formados por um grande mestre, que detém o vigor e volume que a palavra representa. À moda antiga, da época em que aprender ciência era uma atividade artesanal semelhante àquela dos artífices chineses que recebiam do mestre a inquietação e não a resposta, a centelha e não a solução. Nelson sempre insistiu que o ensino é impossível, mas o aprendizado é inevitável. Além de brilhante, Nelson é uma das pessoas mais cultas que conheci. Aprender com ele tem sido, assim, não somente inevitável, mas instigante e encantador.

Essa homenagem também mais que merecida, era inevitável.

Parabéns, professor!