Contos

Ilha Grande

Ilha Grande

Sento na praia, abraço as pernas dobradas. Pouca gente passa pela areia em frente a casa de Yara, na ponta do Abrahão. Os que passam, todos me cumprimentam, me olham, me observam. Existo como um detalhe novo na paisagem da Ilha Grande. Também os vejo: velhos, crianças, o homem apanhando areia no carrinho de mão, a família que saiu no barco. E também os vejo por mais tempo do que na cidade, suas imagens permanecem. A velha com as crianças passou faz tempo e ainda vai ali, o graveto na mão. O motor do barco com a família ainda faz barulho lá longe na névoa fina da manhã. A praia está cheia de rastros, de coisas vivas, presentes. Os urubus terminaram com a cabeça da tartaruga grande que estava na arrebentação de ondinhas. Alguns ainda competem por pedaços menores e sem carne. Há rastros e tocas de siri entre as pegadas dos urubus, pegadas de gente, de cães de vários tamanhos. À volta dos coqueiros, há marcas circulares de pingos, o orvalho caído das pontas finas das folhas.

Insetos são as coisas vivas mais presentes à minha volta. Não adianta enxotar os borrachudos: para chupadores de sangue como eles, eu sou a única refeição por perto. Pago o preço de estar aqui imóvel e não ir cuidar da vida como todos os demais. Outros insetos vêem testar minha reação a uma picada ou ao simples pouso sobre a pele. A maioria se afasta definitivamente ao meu primeiro gesto.

Hoje a bruma melhorou, mas o continente ainda está encoberto. Mesmo o céu da Ilha está esbranquiçado. Difícil esquecer o trânsito da Avenida Brasil na viagem para cá. Sinto que a pressa da cidade chegou aqui comigo, mas sinto também que ela me deixa aos poucos, devagar. Mesmo minha pressa deve sair de mim devagar, a paz chega mansa, seriamente. Se eu deixasse, ela ficaria comigo para sempre. Oh, paz.