Inéditos

IMUNIDADE versus IMUNONTOLOGIA


IMUNIDADE versus IMUNONTOLOGIA 

Imunidade: O entendimento tradicional da imunidade adaptativa baseada em linfócitos e anticorpos depende de um tripé que tem uma perna na medicina – a defesa anti-infecciosa (a imunidade específica); e duas pernas em conceitos-chave da biologia tradicional (no neo-Darwinismo): a adaptação e o determinismo genético.

tripé-imunologia

Figura 1. A imunidade e a imunontologia e seus tripés conceituais de sustentação.

imunontologia tem um pé na Biologia experimental – na fisiologia conservadora da atividade imunológica; um pé nas ciências cognitivas (a Biologia do Conhecer e da Linguagem, de Maturana); e um pé na análise da prática da ciência (a nova ontologia de Pickering). Ao lado da biologia da cognição acrescento ainda o simbolismo de um olhar humano para assinalar a presença inarredável do observador humano- usualmente omitida.

A atividade imunológica como um estranhamento

A defesa imunológica (a imunidade) pode ser reforçada pela vacinação. A vacinação promove uma formação mais rápida e mais intensa de anticorpos (respostas ditas secundárias) e isto sugere que o corpo “recorda” um evento passado, tem uma memória imunológica e responde com mais eficácia ao material estranho, As doenças infecciosas são entendidas como enfraquecimento da imunidade (formação inadequada de anticorpos (imunodeficiência). Outros defeitos da imunidade seriam respostas imunes exageradas a materiais inócuos (alergia) ou a componentes do próprio corpo (doenças autoimunes).

Inadvertidamente ou não, essas ideias sugerem uma analogia entre o sistema imune e o sistema nervoso, que é o sistema primariamente envolvido nas atividades cognitivas, mais particularmente ao sistema nervoso humano e ao cérebro humanos, ao apercebimento da  realidade e seus detalhes. Com base nesta analogia, é frequente apontar paralelos entre a atividade nervosa e a atividade imunológica.

Há um grave equívoco nesta comparação. O sistema nervoso acopla (combina, articula, harmoniza) a sua própria atividade (neuronal) com atividades internas muito complexas do sistema vivo; ao mesmo tempo, o sistema nervoso associa (combina, articula, harmoniza) sua atividade neuronal com atividades do organismo no meio em que ele opera, isto é, com sua conduta. É nesta segunda atividade – na conduta do organismo – que o sistema nervoso aparece como um sistema cognitivo.

Assim como o sistema nervoso, o sistema imune acopla (combina, articula, harmoniza) sua própria atividade (a atividade de linfócitos) com atividades internas muito complexas do sistema vivo. Mas o sistema imune não acopla (não combina, não articula, não harmoniza) a conduta do organismo com o meio (antigênico) em que o organismo opera. A atividade do sistema imune é exclusivamente interna ao sistema vivo; a atividade do sistema nervoso também é interna ao sistema vivo, mas ela se reflete na conduta do organismo.

Esta declaração contradiz diretamente a crença de que o sistema imune (os linfócitos, os anticorpos, etc.) atua na detecção e eliminação de materiais externos que invadem o corpo (antígenos). Usualmente, a atividade imunológica é entendida como um estranhamento, portanto, uma atividade cognitiva, ligada ao conhecer, que reconhece a invasão do corpo. Neste reconhecer estaria a semelhança entre a atividade do sistema imune com a atividade do sistema nervoso. Em nossa maneira de ver, o sistema imune não é um sistema cognitivo: o estranhamento que registramos é um resultado do que se passa e não o mecanismo gerador do que se passa.

reconhecimento de antígenos e a memória imunológica que explicaria a efetividade das vacinas anti-infecciosas, são metáforas didáticas usadas pela facilidade de sua compreensão, mas elas acarretam uma enorme confusão no entendimento da imunologia. O sistema imune não é um sistema cognitivo.

Primeira vertente
A Biologia do Conhecer e da Linguagem de Maturana

Na Biologia do Conhecer e da Linguagem o sistema nervoso não é  descrito como um sistema cognitivo. A necessidade (real) de combinar, articular, harmonizar as atividades (externas) do organismo no meio em que opera (a conduta do organismo) depende do corpo inteiro e não apenas do sistema nervoso. Maturana afirma que a mente não está na cabeça, mas sim, na conduta. Todos os fenômenos que podemos chamar de mentais são fenômenos relacionais, são fenômenos que se passam entre organismos ou entre o organismo e entidades não-vivas do meio e, portanto, não estão sediados em componentes do organismo, não estão em nenhuma região do cérebro. O cérebro humano é necessário para que a cognição ocorra, mas a cognição não está no cérebro; a mente não está na cabeça. A mente está no viver.

Em 1969, Maturana afirmou que: “Viver como um processo, é um processo cognitivo; e isso se aplica a todos os seres vivos, com ou sem um sistema nervoso”. Esta é uma frase espantosa e libertadora porque identifica a cognição com o viver e nos permite ver a atividade de todos os seres vivos, mesmo os menores, como atividades cognitivas. Uma bactéria sabe viver como uma bactéria e uma planta sabe viver como uma planta. Trata-se, portanto, de uma ruptura importante com o caminho usual e lida com o conhecer humano como um fenômeno biológico (a tese central de Maturana). O conhecer depende de interações de organismos inteiros no meio em que operam, e não apenas da atividade de componentes do organism, como o cérebro.

Isto é muito valioso para nós, que afirmamos que a atividade imunológica, como atividade do corpo, não é uma atividade cognitiva, não faz parte das relações do organismo com o meio em que opera (com antígenos externos ao corpo), mas sim, é uma atividade interna ao organismo, pertence à dinâmica estrutural do organismo e, apenas indiretamente, participa da criação de uma unidade ecológica dinâmica organismo / meio (Maturana & Davila, 2015)

Então, a primeira vertente na imunontologia é a difícil tarefa de sumarizar a proposta de Maturana e seus associados, especialmente Jorge Mpodozis, Claudia Cecchi e Francisco Varela. Faço isto com comentários e também pela tradução de vários de seus textos.

Segunda vertente
O Assimilar;  a fisiologia conservadora do sistema imune

Meu segundo  tema  é um sumário de nosso trabalho experimental de mais de meio século (1963 ao presente) sobre a atividade imunológica, que descrevo como o assimilar (de materiais imunogênicos) – a fisiologia conservadora do sistema imune. Não cheguei às difíceis perguntas teóricas  que discuto na imunontologia por ter uma preferência pessoal pela teoria: fui levado a elas pelo resultado de experimentos que eu não conseguia explicar pela teoria vigente nos quais eu percebia um significado mais geral. Este significado parece cair em pontos cegos conceituais da visão de imunologistas profissionais. Mas estes pontos-cegos estão ausentes na visão de não-especialistas e isto me possibilita descrever de forma compreensível coisas que são, inicialmente, inaceitáveis por imunologistas.

Chamo a fisiologia conservadora do sistema imune de “o assimilar”. Os antígenos, os materiais estranhos aos quais supostamente reagimos (estranhamos), são (geralmente) proteínas produzidas por outros organismos vivos, partes de sua composição. Em nossa vida cotidiana, entramos em contato com enormes quantidades dessas proteínas “estranhas” (antígenos) em nossa própria dieta – no alimento de cada dia. Também há grandes quantidades de proteínas “estranhas” (não produzidas pelo organismo) geradas pela microbiota nativa, a imensa coleção de micróbios que vive sobre as superfícies do nosso corpo, especialmente na mucosa intestinal, mas também na pele e outras mucosas. Estamos, enfim, constante e repetidamente banhados por “antígenos” que, embora “estranhos”, são também são familiares. Não “estranhamos” estes materiais e também não desenvolvemos uma memória, uma reatividade progressiva (secundária) a esses materiais “estranhos” da dieta e da microbiota nativa. Os linfócitos não guardam uma memória nem do que comemos, nem dos produtos antigênicos da nossa enorme microbiota nativa. Apesar disso, todo organismo tem muitos linfócitos e anticorpos que reagem com esses materiais, da dieta e da microbiota, mas estes linfócitos não se multiplicam em respostas imunes cada vez maiores a cada encontro com os mesmos.

O mesmo ocorre no contato de linfócitos e anticorpos com componentes do próprio organismo. Nas últimas quatro ou cinco décadas, tornou-se muito claro e inarredável o fato de que o organismo contém abundantes linfócitos ativados e anticorpos que reagem com seus próprios componentes. Os auto-anticorpos estão regularmente presentes em organismos sadios; sua presença não é sinônimo de doenças auto-imunes. Apenas raramente o corpo “estranha” seus próprios componentes e há outras maneiras de entender esta patologia, que não é um reconhecimento desviado, um estranhamento.

Terceira vertente
O inesperável

Nossa terceira vertente introduz  na imunologia a proposta de Andrew Pickering sobre a prática da ciência porque esta é uma outra maneira (além da Biologia do Conhecer e da Linguagem) de tornar evidente a participação do imunologista na criação da atividade imunológica. Em alguns de meus textos mais recentes descrevo mais extensamente este tema. A especificidade das observações realizadas por imunologistas é legítima, mas as moléculas (anticorpos) e as células (linfócitos) observadas nesta situação, não são, em si mesmas, específicas: específicas são as observações que elas possibilitam. Em nosso modo de ver, as observações imunológicas têm um carácter projetivo e materializam as intenções de imunologistas; as moléculas e células detectadas em testes específicos não têm esta direcionalidade quando surgem no organismo; todo imunologista “sabe” que o antígeno não participa da geração destas células e moléculas – e isto é do conhecimento consensual.

O trabalho de Andrew Pickering teve início na Física de partículas atômicas, e seu primeiro livro é sobre a “construção” de Quarks (Pickering, 1992), mas ele foi atraído pela sociologia do conhecimento científico (SSK. Sociology of Scientific Knowledge), um ramo da filosofia da ciência e alguns anos mais tarde púbicou um livro (The Mangle of Practice, 1995) que se tornou um clássico na filosofia da ciência que discute a prática da ciência. Pickering é editor de livros e autor de numerosos artigos e de um livro mais recente (The Cybernetic Brain, 2010) que defendem uma “nova ontologia” e o desenvolvimento de um “idioma performático”. Estas considerações são úteis a um outro modo de ver a atividade imunológica (do organismo) e a atividade dos imunologistas, como faço na imunontologia.

Bibliografia

Maturana, H. R. (1985). The Mind is not in the headJ.Social Biol.Struct., 8308-311.
Pickering, A. (1984). Constructing Quarks.A sociological History of particle physics. Chicago: University of Chicago Press.
Pickering, A. (1995). The Mangle of Practice. Time, Agency and Science. Chicago: The University of Chicago Press.
Pickering, A. (2010). The Cybernetic Brain: Sketches of Another Future (book). London: The University of Chicago press.