TEXTOS DE NELSON VAZ

IMUNONTOLOGIA – TEXTO Nº2

IMUNONTOLOGIA

Imunologia: O entendimento tradicional da imunologia está firmemente baseado em um tripé que tem uma perna (defensiva) apoiada na medicina: a defesa anti-infecciosa (imunidade); e duas pernas apoiadas em noções fundamentais da biologia moderna: a adaptação e determinismo genético, que são conceitos-chave do neo-Darwinismo.

Figura 1. A imunologia tem um pé na Medicina (imunidade, defesa) e dois pés da Biologia neo-Darwinista: o papel central dos genes na atividade biiológica, e a adaptação. A imunontologia tem um pé na Biologia experimental (a fisiologia conservadora da atividade imunológica); um pé nas ciências cognitivas (a biologia do conhecer de Maturana); e um pé na análise da prática da ciência (a nova ontologia de Pickering). Junto à biologia da cognição acrescento ainda um olho (um olhar humano) para assinalar a presence inarredável do observador.

Figura 1. A imunologia tem um pé na Medicina (imunidade, defesa) e dois pés da Biologia neo-Darwinista: o papel central dos genes na atividade biiológica, e a adaptação. A imunontologia tem um pé na Biologia experimental (a fisiologia conservadora da atividade imunológica); um pé nas ciências cognitivas (a biologia do conhecer de Maturana); e um pé na análise da prática da ciência (a nova ontologia de Pickering). Junto à biologia da cognição acrescento ainda um olho (um olhar humano) para assinalar a presence inarredável do observador.

A imunontologia é proposta como uma alternativa ao entendimento da imunologia. Também está baseada em um tripé que tem uma perna (experimental) baseada na biologia, no trabalho do meu próprio laboratório e evidências compatíveis com o mesmo; e duas pernas em abordagens radicais à natureza do entendimento humano: a biologia da cognição e da linguagem, de Humberto Maturana e colaboradores; e a nova ontologia proposta por Andrew Pickering, uma análise da prática da ciência baseada no desempenho (performance) e não em descrições representacionais (mapeamentos da realidade) (Figura 1). Na imunontologia, acrescento ainda o simbolismo de um olhar para ressaltar a presença do observador, como prega Maturana. Por sua vez, a imunologia se apresenta como uma descrição da realidade objetiva.

Figura 1 – Tripés conceituais da imunologia e da imunontologia

A atividade imunológica como um estranhamento

A defesa imunológica pode ser reforçada pela vacinação. A vacinação promove uma formação mais rápida e mais intensa de anticorpos (respostas ditas secundárias). Isto sugere que o corpo “recorda” um evento passado, tem uma memória imunológica. As doenças infecciosas são entendidas como enfraquecimento da imunidade (formação inadequada de anticorpos; imunodeficiência). Outros defeitos da imunidade seriam respostas imunes exageradas a materiais inócuos (alergia) ou a componentes do próprio corpo (doenças autoimunes).

 

Inadvertidamente ou não, essas ideias se apoiam em uma compreensão tácita da natureza da cognição, que é a base de nosso entendimento do mundo em que vivemos. Este entendimento sugere uma analogia entre o sistema imune e o sistema nervoso, que é o sistema primariamente envolvido nas atividades cognitivas. A analogia se refere ao sistema nervoso humano e ao cérebro humano, ao apercebimento da nossa realidade e seus detalhes. Com base nesta analogia, os paralelos entre a atividade nervosa e imunológica são frequentes.

 

No entanto, há equívocos nesta comparação. O sistema nervoso deve acoplar (combinar, articular, harmonizar) a sua própria atividade (neuronal) com atividades muito complexas (internas) do corpo e, ao mesmo tempo, também associar (combinar, articular, harmonizar) a atividade neuronal com atividades do corpo no meio em que o corpo opera, isto é, à conduta do organismo. O sistema imune também deve acoplar (combinar, articular, harmonizar) sua própria atividade (linfócitos, anticorpos) com atividades muito complexas (internas) do corpo Mas sistema imune não tem a capacidade de acoplar (combinar, articular, harmonizar) o corpo com o meio (antigênico) em que o corpo opera. Ou seja, a atividade do sistema imune é exclusivamente interna ao organismo.

 

Esta é uma declaração contradiz diretamente a crença de que o sistema imune (os anticorpos, etc.) atua exatamente na detecção e eliminação de materiais externos que invadem o corpo (antígenos). Usualmente, a atividade imunológica é entendida como um estranhamento, portanto, como uma atividade cognitiva, ligada ao conhecer, que reconhece a invasão do corpo, e nisto residiria sua semelhança com a atividade nervosa (neuronal). Em nossa maneira de ver o sistema imune não é um sistema cognitivo: o estranhamento que registramos é um resultado do que se passa e não o mecanismo que gera o que se passa.

 

O reconhececimento e antígenos e a memória imunológica que explica a efetividade das vacinas anti-infecciosas, são metáforas didáticas usadas pela facilidade de sua compreensão, mas elas acarretam uma enorme confusão no entendimento da imunologia. O sistema imune não é uma istama cognitivo.

 

Mais radical ainda – na verdade, extremamente radical – é a proposta de Maturana segundo a qual também o sistema nervoso não é e não deveria ser descrito como um sistema cognitivo. Que a necessidade (real) de combinar, articular, harmonizar as atividades (externas) do organismo no meio em que opera (a conduta do organismo) depende do corpo inteiro e não apenas do sistema nervoso.

 

Humberto Maturana, em sua Biologia do Conhecer, afirma que a mente não está na cabeça, mas sim, que a mente está no comportamento. Todos os fenômenos que podemos chamar de mentais são fenômenos relacionais entre organismos ou entre o organismo e o meio e, portanto, não estão sediados em componentes do organismo, não estão em nenhuma região do cérebro. O cérebro humano é necessário para que a cognição ocorra, mas a cognição não está no cérebro

 

Há quase meio século, Maturana afirmou que: “Viver como um processo, é um processo cognitivo; e isso se aplica a todos os sistemas vivos, com ou sem um sistema nervoso”. Esta é uma frase espantosa, libertadora porque nos faz identificar a cognição com o viver e nos permite as atividades todos os seres vivos, mesmo os menores, como atividades cognitivas. Então, uma bactéria sabe viver como uma bactéria e uma planta sabe viver como uma planta. Trata-se, portanto, de uma ruptura importante que abandona o caminho usual e lida com o conhecer humano como um fenômeno biológico[1] (a tese central de Maturana)

 

Isto é muito valioso para nós, que afirmamos que a atividade imunológica, como atividade do corpo, não é uma atividade cognitiva, não faz parte das relações do, organismo com o meio em que opera, mas sim pertence à dinâmica estrutural do organismo e, mais amplamente, da criação de uma unidade ecológica dinâmica organismo / meio (Maturana & Davila, 2015)

 

Então, meu primeiro esforço na imunontologia é a difícil tarefa x de sumarizar a proposta de Maturana e seus associados, especialmente Jorge Mpodozis e Francisco Varela. Faço isto com comentários e também pela tradução de muitos de seus textos. Traduzo ainda textos de Claudia Cecchi

 

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Meu segundo esforço consiste em sumarizar o meu trabalho experimental de mais de meio século (1963 ao presente) sobre a atividade imunológica, que descrevo como o assimilar (de materiais imunogênicos). Não cheguei às perguntas teóricas complicadas que discuto na imunontologia por preferência pessoal: fui levado a elas pelo resultado de experimentos que eu não conseguia explicar pela teoria vigente. Hoje acredito que estes fenômenos que ajudei a caracterizar na imunologia estão situados em pontos cegos conceituais da visão de imunologistas profissionais. Como estes pontos cegos não estão presentes na visão de não-especialistas, isto me possibilita descrever claramente coisas que são, inicialmente, inaceitáveis por imunologistas. Provavelmente, eu já deixei de ser um imunologista, mas ainda entendo o idioma imunológico.

 

Chamo a atividade imunológica de “o assimilar”. Os antígenos, os materiais estranhos aos quais supostamente reagimos (estranhamos), são (geralmente) proteínas produzidas por outros organismos vivos, partes de sua composição. Em nossas vidas diárias normais, entramos em contato com enormes quantidades dessas proteínas “estranhas” (antígenos) em nossa própria dieta – no alimento de cada dia. Também há grandes quantidades de proteínas “estranhas” (não produzidas pelo organismo) geradas pela microbiota nativa que vive sobre as superfícies do nosso corpo, especialmente na mucosa intestinal, mas também na pele e outras mucosas. Estamos, enfim, constante e repetidamente banhados por “antígenos” que, embora “estranhos”, são também são familiares. Não “estranhamos” estes materiais.

 

Há aqui uma observação importante, que pode se tornar óbvia depois de percebida: o organismo não desenvolve uma memória, uma reatividade progressiva (secundária) a esses materiais “estranhos”. Os linfócitos não guardam uma memória nem do que comemos, nem dos produtos antigênicos da nossa maciça microbiota nativa. Apesar disso, todo organismo tem muitos linfócitos e anticorpos que reagem com esses materiais, da dieta e da microbiota, mas estes linfócitos não explodem em respostas imunes cada vez maiores a cada encontro com os mesmos.

 

O mesmo ocorre no contato de linfócitos e anticorpos com componentes do próprio organismo. Nas últimas quatro ou cinco décadas, tornou-se muito claro e inarredável o fato de que o organismo contém abundantes linfócitos ativados e anticorpos que reagem com seus próprios componentes. Os auto-anticorpos estão regularmente presentes em organismos saudáveis; sua presença não é sinônimo de doenças auto-imunes. Apenas raramente o corpo “estranha” seus próprios componentes e há outras maneiras de entender esta patologia, que não um reconhecimento desviado, um estranhamento.

 

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Meu terceiro esforço consiste em introduzir preliminarmente a proposta de Andrew Pikering sobre a prática da ciência porque esta é uma outra maneira de tornar evidente a participação do imunologista na criação da atividade imunológica. Em alguns de meus textos mais recentes descrevo mais extensamente a especificidade das observações realizadas por imunologistas e insisto em que as moléculas (anticorpos) e células (linfócitos) observadas nesta situação, não são, em si mesmas, específicas, como específicas são as observações que elas possibilitam.

Ou seja, as observações imunológicas têm um carácter projetivo e materializam as intenções de imunologistas; as moléculas e células detectadas em testes específicos não são originalmente geradas no organismo com esta direcionalidade; o antígeno não participa da geração destas células e moléculas – e isto é consensualmente aceito por imunologidtass.

 

O trabalho de Pickerin, físico por formação, tem início na Física de partículas atômicas, e seu primeiro livro é sobre a caracterização de Quarks (Pickering, 1992, mas ele é atraído pela sociologia do conhecimento científico (SSK. Scociology of Scientific Knowledge), um tamo da filosofia da ciênca e alguns anos mais tarde púbica um livro (The amnhgle of Practive, 1995) que se tornou um clássico na chamada “virada ontológica”. Pickerinfg é autor de numerosos artigos e de um livro mais recente (The Cybernetic Brain, 2010) que defendem uma “nob ontologia” e o desenvolvimento de um “idioma performático”. Julgo que estas considerações são úteis ao novo modo de ver a atividade imunológica (do organismo) e a atividade dos imunologistas, como faço na imunontologia.

[1] Mais precisamente, o conhecer como dependente de interações de organismos inteiros no meio em que operam, e não como a atividade de componentes do organism, como o cérebro.