Inéditos

Inefabilidade

161221 – Inefabilidade (Mpodozis-Cecchi)

Penso na afirmação de Mpodozis-Cecchi de que “não temos que explicar as mudanças” – as mudanças que ocorrem nos seres vivos – porque viver é uma maneira de mudar; e esta maneira de mudar envolve a conservação da organização autopoiética e da congruência com o meio. Então, esta mudança é uma conservação, a conservação de um modo de mudar. O que importa é explicar o rumo (rota, curso, trajeto) destas mudanças. É preciso entender por que estas mudanças seguem um determinado rumo; por que de um dado zigoto (ovo), surge (quase) sempre um dado (tipo taxonômico de) organismo adulto [1]. Quase inevitavelmente penso em encontrar uma explicação da estabilidade (a origem da forma, como no texto de Cecchi), portanto, de uma identidade . Mas o que permanece naquilo que muda (a colocação de Mpodozis) está no rumo das mudanças e depende tanto do ser vivo como do meio em que ele opera, depende da conservação (o verbo conservar implica a noção de tempo [2] ) ; da congruência ser vivo/nicho, daquilo que Maturana agora chama de unidade dinâmica ecológica organismo/meio. Lembro então da citação de William James (que nunca li diretamente, porque não a encontro) sobre a inefabilidade sendo um estado onde sabemos tudo o que não é  [3] (e, portanto, realizamos aquilo que o que não nos indica). Mas o que nos é permitido na manutenção de nossa constituição sistêmica (um conjunto de componentes que mantém a organização autopoiética) depende tanto de nossa história (o que já nos ocorreu) como da história do meio (o meio também vive as limitações do que não pode ser). Na realidade, o empecilho está na separação organismo/meio que insistimos em fazer na eterna busca de uma identidade, e esquecemos do eterno movimento de tudo (como prega o budismo).

Pense em uma formiga. Mesmo se assim desejássemos, nãopoderíamos levar uma formiga para casa como quem leva um cachorrinho perdido, porque ela inevitavelmente morreria fora da rede de relações aque a mantém e a leva, volta e meia, de volta ao formigueiro e à única alimentação de que ela dispõe. Então, vemos as formigas, mas temos que intuir a rede invisível de odores (feromônios) que elas seguem. Penso nesta rede sobre a toalha do café da manhã e o mundo se transforma.

Bibliografia

Mpodozis, J. (2011) FV-UFMG – aula 1 (transcrito)

Cecchi, C. (2009) Considerações sobre a forma dos seres viso (transcrito)

Blumberg, M. S. (2009). Freaks of Nature: What anomalies tells us about development and                 Evolution. Oxford: Oxford University Press.

Blumberg, M. S. (2009). Evolution shapes systems, not just genes.

Nature, 457, 785.

Coyne, J. A. (2009). Evolution’s challenge to genetics.

Nature, 457, 382-383. doi: doi:10.1038/457382a

[1] A resposta (ocidental) quase inevitável é o determinismo genético (ver texto de Cecchi-Mpodozis sobre a forma dos seres vivos para entender a refutação desta possibilidade). Decididamente, o rumo das mudanças depende do genoma, mas depende de várias outras coisas também; o rumo não é determinado (orientado, decidido) pelos genes. A biologia molecular criou técnicas que permitem a anulação (knock-out) de genes específicos e estas técnicas mostraram a ausência de efeitos fenotípicos frente à anulação de genes considerados indispensáveis ao ser vivo, como genes que codificam a mioglobina, ou a albumina do plasma. Os sers vivos são dotados de uma enorme plasticidade estrutural que lhes permitem sobreviver mesmo quando componentes considerados essenciais são suprimidos. (Uma extensão deste argumento está no livro de Mark Blumberg (2009) “Freaks of Nature” (ler também resenha de Jerry Coyne contrária à esta ideia e a resposta de Blumberg)

[2] O verbo conservar implica a noção de tempo, que é uma noção muito complexa.

[3] Inefabilidade – não lembro o nome de uma dada pessoa, ou coisa, mas sei tudo o que não é; a pessoa não se chama Francisco, nem Alexandre, nem…nehum outro que eu lembre agora; mas sei que sei este nome; apenas não lembro agora. Mas a inefabilidade é comumente discutida em um contexto religioso ligado à divindade, no sentido de “sabermos” o que é sagrado – sem podermos precisar exatamente o que é.