Lado alado - 1997

Lado alado: Apresentação

Lado Alado – Apresentação por Ana Caetano (maio, 1997)

Abrir um livro é sempre um ato lúdico mas também uma aventura: nunca se sabe em que estado sai a alma ao final. Essa a dupla sensação que nos acompanha nas páginas à frente: uma mistura do espanto primitivo diante do relâmpago que a poesia foi capaz de congelar (“Na varanda/ meninos/ na geladeira/ pepinos”) com as duras sentenças condensadas num verso claramente modern (“Não se iluda/ o passado muda” ou “Tudo tem seu preço/ se me lembro/ se me esqueço”).

Se podemos, então, traçar as inevitáveis influências na poesia de Nelson, também é inescapável reconhecer-lhe a marca de um herdeiro desembaraçado do seu passado de leituras.

Na influência da poesia telúrica e corporal de Manoel de Barros, visível nos seus poemas mais pessoais e descritivos, interfere uma escrita bem informada do seu potencial gráfico e sonoro. Por outro lado, a preocupação com as dimensões visuais e sonoras da palavra (visível e audível inclusive no título) também aparece sempre atravessada por uma dicção brincalhona e irreverente de quem conheceu a tradição pós-oswaldiana da poesia marginal e gostou. Em todas as linhas, seu traço original: a singeleza de quem se encanta com o p róprio ato de escrever a vida sem arranha r o seu mistério.

Esse primeiro livro, assim, é uma mostra da boa poesia brasileira do final de século: culta mas fora dos rótulos, rigorosamente moderna mas escrita com a pena leve de quem mira o horizonte e levanta vôo.

Ana Caetano