Contos

Lucidez

Lucidez

A ficção tem que fazer sentido, a realidade não. Um problema na loucura é sua constante preocupação com a sanidade. Enquanto a sanidade se preocupa consigo mesma, a loucura se impõe o ônus da justificação. Um problema de coerência interna percebido por uma ótica paranóica, como se à loucura coubesse a justificação do extraordinário. Mas o extraordinário é o cotidiano, o trivial. A sanidade é apenas a forma convencional, momentânea de tolerar as incongruências. A consciência humana e a linguagem que ela inventou (ou é ao contrário?) são coisas frágeis perante o universo circundante. Deveríamos todos ter a humildade de reconhecer essa fragilidade e, talvez daí, acobertar, compreender os excessos dos que querem dizer o indizível. A lucidez é uma invenção da loucura.