Inéditos

Mente e natureza em Bateson e Maturana

Mente e natureza
em Gregory Bateson e Humberto Maturana

Miriam Monteiro de Castro Graciano (1) e Nelson Monteiro Vaz

ICB-UFMG

 

 “Eu me rendo à crença de que meu conhecimento é uma
pequena parte de um conhecimento integrado mais amplo
que une firmemente toda a biosfera da criação.”

Gregory Bateson

                  Gregory Bateson e Humberto Maturana compõem um par de biólogos contemporâneos caracterizado, a nosso ver, por duas qualidades:

1) ambos se preocupam com os problemas mais gerais e importantes da biologia e com       relacioná-los às chamadas “ciências humanas” (ver Dell, 1985)[1] – sem, no entanto,          “biologizá-las”;

2) ambos são praticamente ignorados pela coletividade científica.

Neste ensaio, analisamos uma das principais obras de Bateson (Mind and Nature: A necessary Unity,1979) sob a ótica da Biologia do Conhecer, um corpo de conhecimentos originado de ideias de Humberto Maturana (Maturana, 1980;1988; 2002)

                  Bateson e a vida

Bateson busca compreender o que vem a ser a vida segundo uma biologia comparada. Ele tenta estabelecer “padrões que unem” (patterns which connect) um ser vivo a outro. A definição de um ser vivo se daria através de padrões de conexão observados na comparação entre partes de uma mesma criatura (braço / perna); na comparação de uma criatura a outra (perna humana / perna do cavalo), aliada a comparações entre comparações (comparar as relações entre homem / cavalo com relações entre caranguejo / lagosta), que seriam, respectivamente, conexões de 1ª, 2ª e 3ª ordem.

Na porção inicial de “Mind and Nature” (1980), Bateson abre um pacote e pergunta à uma turma de estudantes de Ciências Humanas (Liberal Arts): “O que nos faz dizer, ou reconhecer, que este caranguejo cozido foi um ser vivo?” Para despojá-los de preconceitos sobre o que são as “coisas vivas”, pede aos estudantes que imaginem ser habitantes de um outro planeta, ao qual o caranguejo acaba de chegar em um pedaço de meteoro; solicita que eles percebam no caranguejo e em si próprios as mesmas marcas, aquilo que os iguala e nos permite definí-los como seres vivos.

Bateson afirma que há um padrão que une um ser vivo a outro, e diz que o que a semelhança entre os seres vivos deriva de uma história evolutiva comum. Esta história seria o “padrão que une” um ser vivo a outro, aquuilo que nos classifica e define como seres vivos. Para ele, pensamos sempre em termos de estórias, e também, somos frutos de uma história. Em contraste com a Genesis bíblica, na qual “no início a terra era sem forma e vazia”, Bateson insiste em que somos frutos de uma sequência de aprendizados. Para ele, na biologia “nada vem do nada”.

A partir desta noção biológica, Bateson pergunta “Como é possível conhecer algo?”. Assim como a vida, o conhecimento também advém de uma história. Ele faz um paralelo entre a mente humana e uma mente universal, que seria a Natureza. Afirma que, assim como nós conhecemos através de histórias, as anêmonas ou as florestas também possuem uma inteligibilidade que é fruto de uma história. Um ouriço crescendo estaria contando a história de “Como crescer com simetria radial”.

Esta é uma das passagens mais importantes e difíceis de “Mind and Nature” (1980), pois Bateson não faz distinção entre mente e cérebro, e atribui simultaneamente o mental a um conhecimento humano e também a um conhecimento não-humano. Este problema deriva de uma falha em distinguir entre domínios de descrição diferentes, como Maturana insiste em fazer (Maturana, 1970,1983, 1988; Maturana and Varela,1980,1987; Maturana, 2002). Bateson atribui uma mente ao universo sem dissociar entre, por um lado, esta mente universal e, por outro, representações de um mundo em um cérebro. Isto é ambíguo, pois associa, por um lado, o “mental” a ações [2] provenientes de uma história; e, por outro lado, às representações cerebrais A mente designaria simultaneamente algo que é localizado em um ponto corpóreo e algo disperso em relações históricas.

Bateson se opõe à noção de uma realidade objetiva, e defende a ideia de que todo conhecimento provém de relações, e não de uma coisa em si. Para ele, a medida em que vivemos, e aprendemos, estamos em uma sequência de correções que dependem da natureza de cada contexto anterior. O que aprendo hoje depende do que aprendi ontem, e assim por diante. A mente, assim como a vida, tem possibilidades auto-corretivas que estão sempre em processos de ajustamento que seguem padrões de interações pré-estabelecidos. Assim sendo, tanto o prosseguimento da vida quanto do aprendizado implicariam em uma recursividade, que Bateson ilustra citando um personagem de Lewis Carol que diz: “Aquilo que eu lhe disser três vezes será verdade”.

Ele sugere que a ciência tem também uma recursividade e uma auto-regulação que definem seu processo evolutivo – sem entender “evolução” como uma trajetória rumo à verdade. Para ele, a ciência não caminha rumo à verdade, porque não existe uma verdade a ser desvelada, não existe um mundo objetivo nem, tampouco, a “coisa em si” kantiana.

Com base nestes argumentos, Bateson critica a atividade pedagógica, dando como exemplo o aprendizado de uma língua durante o período escolar. Na escola aprendemos que substantivos são nomes de coisas, pessoas ou lugares enquanto verbos são palavras de ação. Desse modo, nossos mestres nos ensinam:

“… em uma tenra idade que a maneira correta de se definir uma coisa é pelo que ela supostamente é em si mesma, e não através de sua relação com outras coisas.As crianças poderiam aprender que um substantivo é uma palavra que tem uma determinada relação com um predicado. Um verbo tem uma certa relação com um substantivo, seu sujeito, e assim por diante. A relação poderia ser usada como base para a definição, e qualquer criança poderia ver que existe alguma coisa errada com a frase “ir é um verbo”. Poderíamos ter aprendido alguma coisa sobre o padrão que une: que toda comunicação necessita de um contexto, que sem contexto não há significado, e que contextos fornecem significado porque existe uma classificação de contextos… ” [3]

Para Bateson, a realidade é contextual. Uma epistemologia cujo pressuposto básico for um mundo concreto e objetivo, independente do contexto no qual se insere, é uma falácia. Não obstante, nossas crianças são iniciadas durante sua formação mais básica com base em tal epistemologia e é também sobre tal erro que concebemos a ciência. A ciência é delineada e definida de maneira objetiva, está voltada à verificação e revisão de antigos pressupostos, e o instrumental por ela utilizado é inadequado – pelo menos às ciências biológicas – pois nem a lógica, nem a quantificação abarcam o que a vida é.

Bateson dá dois exemplos da ineficiência da lógica como modelo de análise dos problemas biológicos:

1) “O circuito de uma campainha é montado de tal maneira que “se o contato for feito, então o contato é interrompido”. Na lógica simbólica teríamos “se P, então não-P”, o que, obviamente, é um absurdo, uma contradição em termos lógicos. Isto ocorre porque a lógica tradicional não leva em consideração o fator tempo. Por esta mesma razão, ela é um péssimo modelo de análise de processos circulares”.[4]

Segundo Bateson, esta impotência da lógica para lidar com a circularidade explica sua ineficácia em compreender a própria inteligibilidade.

2) O paradoxo de Epimênides. “Epimênides foi um cretense que disse: “Cretenses sempre mentem”. Quando perguntamos, “Poderia Epimênides estar falando a verdade?”, a resposta é : “Se sim, então não, e, se não , então sim” . [5]

Bateson também critica a ênfase que a ciência confere à noção de “quantidade” enquanto instrumento de medição e análise. Qualquer quantificação é sempre aproximada, o que a torna ineficaz e inexata, embora transformada numa espécie de verdade universal. Ele ressalta que, ao contrário do que a cultura ocidental nos ensina, nem sempre mais é sinônimo de melhor – quanto mais dinheiro, (mais exportação ou mais comércio) melhor. Biologicamente falando, isto seria um desastre pois mais cálcio não é sempre melhor que menos cálcio. Na verdade, o que importa não é o quanto se tem de cálcio mas uma relação de quantidades entre cálcio, potássio, etc, no organismo. Já as relações entre quantidades, embora negligenciadas pela biologia, segundo Bateson, seriam padrões ou instrumentos válidos de análise.

Bateson lança uma crítica importante à ciência, dizendo que ela não pode provar, nem tampouco prever a verdade futura [6]. Para ele não basta um pouco mais de conhecimento, ou técnica, para prever, ou controlar, as variáveis irregulares; o que nos faltam não são detalhes a conhecer, mas um outro princípio, um outro pressuposto teórico. Muito do que vemos ou estudamos representam mais regras de nossas expectativas, que leis da natureza. Bateson admite a ciência como regida por emoções, e que não está livre de valores, e, neste ponto, se aproxima muito de Maturana (Maturana,1990).

Fica, então, implícita em seu livro a pergunta: “Há um mundo real, concreto e independente de nós?” Ao contrário de Maturana, Bateson não escapa da dicotomia sujeito/objeto, chegando mesmo a afirmar que: “toda experiência é subjetiva” e que “nossos cérebros fabricam as imagens que imaginamos perceber”.[7]

Que “o mapa não é o território, e o nome não é a coisa designada” [8] é de certa forma aceitável, por mais objetiva que seja nossa visão de mundo. Por outro lado, dizer que a realidade é subjetiva, não nos ajuda em nada. De acordo com a visão tradicional, tal afirmação (de subjetividade) inviabilizaria a ciência. Afirmar que toda experiência é subjetiva, e não fruto do direcionamento consensual de um observar, descaracteriza o universal sem o qual a ciência parece impossível.[9] Tradicionalmente, a ciência é sempre a ciência de uma universalidade, o singular não lhe diz respeito. O próprio Bateson parte do princípio de que há um “padrão que une”, ou seja de que há algo que é comum (universal) a todos os seres vivos, a partir do qual, toda uma teoria acerca do biologico poderá ser tecida.

Atrelado a este impasse, em um segundo plano, com a afirmação de uma realidade subjetiva, temos a pressuposição de objetos, ou de uma realidade objetiva ainda que inatingível, pois o sujeito só existe em contraposição aos objetos. É impossível desligar a noção de subjetividade da noção de objetividade. A subjetividade, como acusação, é uma acusação de falta de objrtividade.

Mas, mesmo que sem se livrar do fantasma da subjetividade / objetividade, Bateson aponta para algo que, em Maturana (1988,1990), será extremamente esclarecedor, ou seja que:

“As regras do universo que acreditamos conhecer estão profundamente enterradas em nossos processos de percepção”. (9)

Não obstante, é difícil fazer uma analogia entre as principais ideias de Bateson e Maturana. Como assinala Dell (1985), embora altamente compatíveis, os trabalhos destes dois biólogos têm pontos cruciais de divergência. Ainda que ambos se fundamentem na biologia, e partam da mesma pergunta (“O que é um ser vivo?”), suas teorias são distintas. Mas o próprio Bateson declarou, no final de sua vida, que “o centro estudos como os seus estava agora em Santiago do Chile com um homem chamado Maturana”(10).[10]

                  A definição de ser vivo em Bateson e Maturana

Bateson define o ser vivo em termos do “padrão que une”, algo que tem características “mentais”, e que mantém unida toda a biosfera. O mundo vivente é para ele “mental” e unido. Para Maturana, o que define um ser vivo é sua organização autopoiética, ou seja a definição da vida é dada pelo seu próprio operar. Este posicionamento de Maturana já é fruto de uma distinção entre domínios de descrições, que são: (a) o domínio das interações do ser vivo; e (b) o domínio de sua fisiologia (o domínio estrutural). Para Maturana, o objetivo fundamental da atividade científica é a proposta de mecanismos gerativos, mecanismos que geram os fenômenos que se pretende estudar. A ciência propõe explicações mecanicistas dos fenômenos observados, não diz respeito a nada transcendente, mas sim a nós mesmos enquanto seres constituídos no linguagear; ou seja, para Maturana, a ciência não diz respeito a uma realidade objetiva mas sim à configuração de realidade(s) no linguagear (Maturana 1988; Maturana e Varela, 1980, 1987).

                  O determinismo estrutural

Para Bateson e para Maturana, a estrutura prévia de um ser vivo é o que determina sua estrutura subsequente. Em Bateson, temos o “padrão que une” como uma dança de partes que interagem restristas apenas secundariamente por vários tipos de limites físicos e pelos limites que o organismo impõe. Dito de outro modo, temos que “a estrutura da entrada deve de alguma maneira ser refletida como estrutura na saída”, e que “toda anatomia é uma transformação do material de mensagem que deve ser contextualmente formada”. [11]

Estas duas afirmações têm analogias nas duas premissas mais importantes da Biologia do Conhecer de Humberto Maturana:

  1. a) que sistemas vivos são sistemas determinados estruturalmente;
  2. b) e que estes sistemas (determinados estruturalmente) estão imersos em um meio ao qual se

acoplam (e conservam este acoplamento).

Maturana está nos apontando com isso que os sistemas vivos só fazem (só lhes ocorre) aquilo que lhes é permitido estruturalmente, ou seja, que é a plasticidade estrutural o que determina as mudanças que um ser vivo atravessa e não uma “obediência” ao meio (o externo) no qual ele se insere. Entretanto, os seres vivos estão acoplados estruturalmente a um meio , e nós, de nossa posição privilegiada de observadores, podemos ser levados a crer que o meio instruiu (ensinou) uma dada mudança no ser vivo. Porque observamos a concomitância de interações no meio e mudanças estruturais nos seres vivos, somos levados a crer que foram as interações que determinaram (especificaram) as mudanças estruturais. Isto se passa facilmente quando acreditamos que há uma realidade objetiva independente de nós. No entanto, quando passamos a incluir a nós mesmos, enquanto observadores, como parte integrante, constitutiva da realidade que conotamos, perceberemos que nosso observar é determinado por nossa estrutura biológica, e não por algo fora dela; que os objetos, cuja existência afirmamos, não existem de forma absoluta e independente de nosso observar; perceberemos que as mudanças estruturais que tomam parte no organismo ou no meio são mudanças determinadas pela estrutura do organismo ou do meio; que a sequência dessas mudanças é determinada pela sequência de interações e não por troca de informações; e consequentemente, para Maturana, a noção de informação (interações instrutivas) é, em qualquer sentido, desnecessária e geradora de equívocos.

Já Bateson, embora aponte nesta mesma direção, acaba por incorrer em um paradoxo ao admitir a possibilidade de interações instrutivas.

                  A noção de informação

Bateson adota a informação como um conceito básico em sua visão de mundo. De certa forma, ele descreve os sistemas vivos em termos de comunicação (compreendida como transmissão de informação), e concebe informação como “a diferença que faz diferença”.

Maturana, por sua vez, nos aconselha a abandonar completamente a noção de informação na discussão de problemas biológicos. Para ele, os seres vivos são sistemas circulares, auto-gerados, de organização fechada e estruturalmente determinados. Não existem interações instrutivas – i.e., a transmissão de informações nunca se dá.

                  Causalidade

Negando a utilização do conceito de informação na discussão de problemas biológicos, Maturana nega também o conceito de causalidade. Se vivemos em um mundo de unidades estruturalmente determinadas, as causas não passariam de comentários feitos por um observador acerca de uma ocasião histórica, delimitada na linguagem. Para Maturana, causa é sinônimo de informação, i.e., de interações instrutivas.

Bateson se aproxima a Maturana neste ponto, quando fala que ao chutar uma pedra podemos estar causando seu deslocamento, mas que esta visão newtoniana não pode ser aplicada a um cão, por exemplo: ” Quando eu chuto um cão ele reage com uma energia proveniente de seu metabolismo e não com a energia proveniente do meu pé.”

Maturana nos diz que, enquanto observadores, descrevemos aquilo que vemos como se envolvesse causalidade, e que, por isto, caracterizamos o mundo em que vivemos como causal Mas, para ele, o que denominamos causas são resultado de uma deriva natural.

Para Bateson, a explicação causal seria uma explicação “do tipo dormitiva”. Ou seja, ela é uma explicação que, na verdade, não esclarece nada, é como dizer, por exemplo, ” que o ópio provoca o sono porque tem um princípio dormitivo.”

                  Explicações

Maturana define explicações como proposições apresentadas de modo a reformular uma experiência, e que são aceitas como tal por alguém em resposta à(s) pergunta(s) por ele mesmo elaborada(s). Se esta reformulação não é aceita por quem a ouve, ela não chega a constituir uma explicação. Diferentes critérios de validação definem diferentes domínios explicativos, como por exemplo os critérios que validam uma explicação científica.[12]

Para Maturana existem dois caminhos explicativos: o da objetividade-sem-parênteses, ou objetividade transcendental; deum mundo que nos transcende; e o da objetividade-entre-parênteses, ou objetividade constituída – por nosso obeservar. No primeiro caminho o observador aceita, de forma explícita ou implícita, a sua capacidade cognitiva como uma propriedade de seu ser, sem questionar sua origem biológica; é isto que nos possibilita admitir a existência de um mundo objetivo independente de nós. Este caminho explicativo, segundo Maturana, nos cega para a participação do observador na constituição da que aceitamos como explicação. Daí surgem a ideia do real, e de um acesso privilegiado a esta realidade objetiva. Por outro lado, isto inocenta o(s) observadore(s) das consequências de seus argumentos, uma vez que a validade dos mesmos não depende dele(s) e sim da realidade objetiva.

No segundo caminho explicativo, o observador aceita-se explicitamente como um sistema vivo cujas capacidades cognitivas são fenômenos biológicos alteráveis na medida que sua biologia se altera. Se ele pretende explicar sua atividade como observador, deve fazê-lo mostrando como elas surgem de sua biologia, durante sua realização como sistema vivo, e, com isso, aceitar sua incapacidade de distinguir ilusões de percepções. Neste caminho explicativo é impossível fazer qualquer afirmação objetiva, uma vez que a existência é constituida com o que o observador faz, e suas explicações são validadas ou não de acordo a critérios por ele mesmo estabelecidos; e que os objetos (o real) são trazidos à luz e distinguidos por ele em seu operar como distinções de distinções na linguagem.

Bateson, por outro lado, afirma que a explicação não nos fornece nada além do que uma descrição já nos forneceu; ela apenas ordena de forma lógica e/ou causal as partes de uma descrição. Esta definição de Bateson, nos conduz novamente a um paradoxo, pois ao mesmo tempo que ele exclui o modelo causal como um modelo de análise adequado aos fenômenos biológicos, ele define as explicações como “ordenação causal” de descrições, readimitindo, portanto, a causa como uma forma de se explicar a biosfera.

                  O mental em Bateson e Maturana

Para ambos, há uma inteligibilidade que pertence à biosfera e, é fruto de sua história evolutiva (Bateson), ou da deriva natural dos seres vivos (Maturana). Entretanto, destaca-se o fato de que, em Maturana, a mente não se localiza em nenhum ponto corpóreo ou extra-corpóreo, mas é fruto de coordenações de ações, quer dizer, nos termos de Bateson, é pura “relação”. Em Bateson, ao menos em nossa leitura, isto nunca ficou claro. Bateson não faz uma distinção entre domínios de descrição, o que, a nosso ver, gera paradoxos e confusões em sua obra, sem contudo diminuir-lhe a beleza e a importância.

                  A realidade

Para Bateson a realidade é subjetiva, ao passo que, para Maturana, a realidade é constituida no linguagear, que é um fenômeno relacional. A afirmação “Toda realidade é subjetiva”, além dos problemas apontados anteriormente, traz arraigada em si uma contradição que a invalida. Uma vez que ela se traduz em “Toda realidade é singular”, simultaneamente, temos a negação da possibilidade do universal em uma frase que é, em si mesma, a explicitação de uma universalidade – “Toda realidade é subjetiva”.

Maturana rompe com esta problemática ao trazer à tona a questão do observador e de um observar que é fruto de um acoplamento estrutural. Consequentemente, descrever na linguagem uma observação não inaugura a possibilidade de qualquer comentário acerca do mundo. Ainda que haja uma multiplicidade de versões de realidade, há também a possibilidade de universalização desta(s) realidade(s) na linguagem, e da sua aceitação como tal segundo critérios explícitops de validação. É precisamente por vivermos na linguagem que podemos descrever um universo através da ciência, seja o universo biológico, físico, social ou psicanalítico.

Maturana coloca a objetividade entre parênteses, ao invés de antagonizar a realidade objetiva com multiversa de subjetividades.

                  O conhecer

Por fim, a questão do conhecimento que em Bateson pode ser sintetizada como a percepção de diferenças. Em Maturana, conhecimento é ação efetiva.

Para ambos, o conhecimento é intrínseco à vida e aos processos perceptivos, entretanto Bateson associa a percepção à captação e à construção de representações cerebrais, fazendo um nítido apelo a um conhecimento subjetivo face à questão da objetividade. Maturana atrela nossas percepções a um modo de vida, e desvia nosso olhar da dicotomia sujeito / objeto, diluindo-o nas “coordenações de coordenações condutuais” com as quais podemos configurar, na linguagem, objetos cognoscíveis e sujeitos cognoscentes.

 

Bibliografia

Bateson, G. (1979) Mind and Nature, A necessary Unity, New York, Ballantine Books:
Tradução: Mente e Natureza; A Unidade necessária. Francisco Alves, R.J.

Dell, P.F.(1985) Understanding Bateson and Maturana : Toward a Biological                                            Foundation for the Social Sciences. Journal of Marital and Family Therapy11 (1):1-20, Maturana, H. R. (1970) Neurophysiology of cognition, In P. Garvin,eds. Cognition: Multiple                                          Perspectives, New York, Spartan Books.

Maturana, H.R. (1983) Comment on Fedanzo,A.J.Jr. All things are full of gods, or information.                                               Journal of Social and Biological Structures 6 : 155-158.

Maturana, H.R.(1988) Reality : The search for objectivity or the quest for a compelling argument.
The Irish Journal of Psychology 9 (1) : 25-82.

Maturana, H.R. (1990) Emociones y Lenguaje en Educación y Política, Santiago,  Hachette-CED

Maturana, H. R. and Varela, F. J. (1980) Autopoiesis and Cognition: The Realization of the  Living, Dordrecht, Reidel

Maturana, H. R. and Varela, F. J. (1987) The Tree of Knowledge. Biological Basis of Human                                  Understanding, Boston., New Science Library

 

[1] miriam.graciano2@dsa.ufla.br

[2] No texto original, Bateson utiliza o termo “relações” e não literalmente”ações”.

[3] Em “Mente e Natureza. A Unidade necessária”. Francisco Alves, R.J. p.25

[4] Aqui, Bateson usa os termos: “a lógica é um modelo medíocre de causa e efeito” optei pela tradução: “modelo ineficiente de análise”, porque conceber a biologia no mundo de “causas e efeitos” nos desvia da circularidade e recursividade dos processos biológicos, uma vez que a ideia de “causa e efeito” é uma ideia de linearidade.

[5] Bateson (Op. Cit. p.126) demonstra que paradoxos deste tipo resultam de uma confusão de tipos lógicos, como entendido na “Teoria dos Tipos” de Russel-Whitehead. Neste particular, ele se aproxima do conceito de domínios de descrição usado por Maturana e Varela(ver Maturana e Varela, 1984).

[6] “Science never proves anything. Science sometimes improves hypothesis and sometimes disproves them. But proof would be another matter..” Bateson, Op Cit. p.33

[7] Bateson, Op. Cit. p.37

[8] Bateson utiliza estas metáforas para questionar a objetividdade

[9] Maturana, H.R. (1980) p.1-58 – dá um tratamento muito diferente a este problema, pelo qual evita a dicotomia objetividade/subjetividade, como veremos adiante.

[10] ver Dell, 1985; p.5

[11] Bateson, Op. Cit. p.25

[12] Maturana, Humberto R.(manuscript) Science and daily life: The ontology of scientific explanations. University of Chile, Institute of family therapy of Santiago