Gregory Bateson

Metálogo – “O que é um Instinto?”

Metálogo: “O que é um Instinto?”
Metalogue: What is an instinct? (1) Steps 38-58

Gregory Bateson

Filha: Papai, o que é um instinto?

Pai:   Um instinto, minha querida, é um princípio explicativo.

F:         Mas o que ele explica?

P:        Qualquer coisa – quase qualquer coisa mesmo. Qualquer coisa que você queira que ele     explique.

F:         Não seja tolo. Não explica a gravidade.

P:        Não. Mas isto é porque ninguém quer que um instinto explique a gravidade. Se eles                               quisessem, ele explicaria. Nós diríamos simplesmente que a Lua tem um instinto cuja força           varia inversamente com o quadrado da distância…

F:         Mas isto é tolice, Papai.

P:        Certamente. Mas foi você quem mencionou instinto, não eu.

F:         Está bem – mas então o que explica a gravidade?

P:        Nada, minha querida, porque a gravidade é um princípio explicativo.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Você quer dizer que não se pode usar um princípio explicativo para explicar um outro? Nunca?

P:        Hmm…quase nunca. Isto é o que Isaac Newton queria dizer quando disse: “hypotheses    non fingo”.

F:         E o que quer dizer isso, por favor?

P:        Bem, você sabe o que “hypotheses ” são. Qualquer afirmação que liga duas afirmações descritivas é uma hipótese. Se você disser que havia uma lua cheia em 1º de Fevereiro e outra em 1º de Março e então você ligar estas duas afirmações de qualquer maneira, a afirmação que fez esta ligação é uma hipótese.

F:         Sim, e eu sei o que é “non” , mas o que é “fingo “?

P:        Bem – “fingo ” é uma palavra latina para “fazer”, que forma o verbo “fictio” de onde vem a palavra “ficção”.

F:         Papai, você quer dizer que Sir Isaac Newton pensava que todas as hipóteses são apenas                    invenções, como histórias?

P:        Sim – precisamente isso.

F:         Mas ele não descobriu a gravidade? Com a maçã?

P:        Não, querida. Ele a inventou.

F:         Oh… Papai, quem inventou o instinto?

P:        Não sei. Provavelmente (alguém)na Bíblia.

F:         Mas se a idéia de gravidade liga duas afirmações descritivas, ela deve ser uma hipótese.

P:        Está correto.

F:         Então Newton “fingo” uma hipótese.

P:        Ah sim, ele fez. Ele era um grande cientista.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Papai, um princípio explicativo é a mesma coisa que uma hipótese?

P:        Quase, mas não exatamente. Veja, uma hipótese tenta explicar alguma coisa em particular, mas um   princípio   explicativo – como a gravidade ou o instinto – realmente não explica nada. É uma espécie de acordo convencional entre cientistas em parar de explicar as coisas num determinado ponto.

F:         Então o que Newton queria dizer? Se “a gravidade” não explica nada mas é somente em    espécie de ponto parágrafo no fim de uma linha de explicação, então, inventar a gravidade não foi o mesmo que inventar uma hipótese, e ele podia dizer que não “fingo” hipóteses.

P:        Está certo. Não existe explicação de um princípio explicativo. É como uma caixa preta.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Papai, o que é uma caixa preta?

P:        Uma “caixa preta” é um acordo convencional entre cientistas para parar de tentar explicar as coisas em um certo ponto. Eu acho que, usualmente, é um acordo temporário.

F:         Mas isso não parece uma caixa preta.

P:        Não – mas é como se chama. As coisas muitas vezes não se parecem com seus nomes.

F:         É verdade.

P:        É uma expressão que vem dos engenheiros. Quando eles desenham um diagrama de uma  máquina complicada, eles usam uma espécie de taquigrafia. Em vez de desenhar todos os detalhes eles põe uma caixa no lugar de um punhado de componentes e rotulam a caixa com aquilo que os componentes supostamente devem fazer.

F:         Então, uma “caixa preta” é um rótulo para o que um punhado de componentes       supostamente deve fazer…

P:        Correto. Mas não é uma explicação de como o punhado de componentes funciona.

F:         E a gravidade?

P:        É um rótulo para o que a gravidade supostamente deve fazer. Não é uma explicação de      como ela faz isso.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Papai, o que é um instinto?

P:        É um rótulo para o que uma determinada caixa preta supostamente deve fazer.

F:         Mas o que essa caixa preta, que é o instinto, supostamente deve fazer?

P:        Hm. Esta é uma pergunta muito difícil.

F:         Continue.

P:        Bem. Supostamente ele controla – controla parcialmente – o que um organismo faz.

F:         Plantas têm instintos?

P:        Não. Se um botânico usar a palavra “instinto” quando falar de plantas ele será acusado de zoomorfismo.

F:         E isso é ruim?

P:        Sim. É muito ruim para botânicos. Para um botânico ser culpado de zoomorfismo é tão         ruim quanto é para um zoólogo ser acusado de antropomorfismo. Muito ruim mesmo.

F:         Oh, compreendo.

-x-x-

F:         O que você quis dizer por “controla parcialmente”?             

P:        Bem, se um animal cai de um brranco sua queda é controlada pela gravidade. Mas se ele bamboleia o corpo durante a queda, isto pode ser devido ao instinto.

F:         Ao instinto de auto-preservação?

P:        Acho que sim.

F:         O que é esse “auto” da auto-preservação, Papai? Um cão sabe que tem uma identidade, um self?

P:        Eu não sei. Mas se o cachorro que tem um self, e bamboleia no sentido de preservar  esse self, então esse bamboleio é racional, não é instintivo.

F:         Oh. Então um “instinto de auto-preservação” é uma contradição.

P:        Bem, é algo no meio do caminho para o antropomorfismo.

F:         Oh. Isto é mau.

P:        Mas o cão poderia saber que tem um self e não saber que este self deve ser preservado.   Então, não bambolear seria racional. Assim, se o cão ainda bamboleia, isto seria instintivo. Mas

se ele aprendeu a bambolear, então o bamboleio não seria instintivo.

F:         Oh.

-x-x-

F:         O que não seria instintivo, Papai? A aprendizagem ou o bamboleio?

P:        Eu continuo tentando evitar esta pergunta. Veja, os instintos foram inventados antes  que alguém soubesse qualquer coisa sobre genética, e a maior parte da genética moderna foi descoberta antes que alguém soubesse qualquer coisa sobre teoria da comunicação. Então, é duplamente difícil traduzir “instinto” em termos e idéias modernas.

F:         Sim, continue, por favor.

P:        Bem, você sabe que nos cromossomas existem genes; e que os genes são algum tipo de
mensagem ligadas à maneira com que o organismo se desenvolve e se comporta.

F:         E, se desenvolver é diferente de se comportar, Papai? Qual é a diferença? E o que é
 aprendizagem? Aprender é “desenvolver-se” ou “comportar-se”?

P:        Não! Não! Não tão depressa! Vamos evitar estas perguntas colocando desenvolver-se / aprender / comportar-se tudo na mesma cesta. Um único espectro de fenômenos. Agora vamos ver como o instinto colabora para explicar este espectro de coisas.

F:         Mas é mesmo um espectro?

P:        Não – isto é só uma maneira frouxa de falar.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Mas não estará o instinto no lado “comportar-se” deste espectro? E não é verdade que toda a aprendizagem é determinada pelo ambiente e não pelos cromossomas?

P:        Vamos deixar uma coisa clara: não existe comportamento algum, nem anatomia alguma, nem aprendizagem alguma nos cromossomas em si mesmos.

F:         Os cromossomas não têm sua anatomia própria?

P:        Sim, é claro. E sua própria fisiologia. Mas a anatomia e a fisiologia dos genes e  cromossomas não são a anatomia e a fisiologia do animal inteiro.

F:         É claro que não.

P:        Mas elas são sobre a anatomia e a fisiologia do animal inteiro.

F:         Anatomia sobre anatomia?

P:        Sim, assim como as letras e palavras têm suas próprias formas e estas formas são partes de

palavras ou frases – que podem ser sobre qualquer coisa.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Papai, a anatomia dos genes e cromossomas é sobre a anatomia do animal inteiro? E a fisiologia dos genes e cromossomas é sobre a fisiologia do animal inteiro?

P:        Não, não. Não há razão alguma para supor que isto é assim. Não é assim. A anatomia e a      fisiologia não são separadas desta maneira.

F:         Papai, você vai colocar a anatomia e a fisiologia numa cesta só, como você fez com desenvolver se / aprender / comportar-se?

P:        Sim, certamente.

F:         Oh.

-x-x-

F:         A mesma cesta?

P:        Porque não? Eu acho que “desenvolver-se” está bem no meio desta cesta. No meiozinho                 certo.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Se os cromossomas e genes têm anatomia e fisiologia, eles devem desenvolver-se.

P:        É, isto é verdade.

F:         Você acha que o desenvolver-se deles tem a ver com o desenvolver-se do organismo inteiro.

P:        Eu não sei nem o que esta pergunta quer dizer.

F:         Eu explico. Ela significa que os cromossomas e genes estariam mudando e se desenvolvendo  enquanto o bebê está se desenvolvendo, e as mudanças nos cromossomas seriam sobre mudança no bebê. Controlando-as ou controlando-as parcialmente.

P:        Não. Eu acho que não.

F:         Oh.

 -x-x-

F:         Papai, cromossomas aprendem ?

P:        Eu não sei.

F:         Eles parecem mais ser caixas pretas.

P:        Sim, mas se cromossomas e genes podem aprender, então eles são caixas pretas muito  mais complicadas que do que a gente imagina hoje em dia. Os cientistas estão sempre  admitindo ou alimentando esperanças de que as coisas sejam simples, e então descobrindo que elas não são.

F:         Sim, Papai.

-x-x-

F:         Papai, isso é um instinto?

P:        O que?

F:         Admitir que as coisas são simples.

P:        Não. Claro que não. Os cientistas foram ensinados a fazer isto.

F:         Mas eu pensava que nenhum organismo pode ser ensinado a estar errado o tempo todo.

P:        Mocinha, você está sendo desrespeitosa e errada. Em primeiro lugar, os cientistas não estão errados todas a vezes que elas admitem que as coisas são simples. Muitas vezes eles estão certos, ou parcialmente certos, e ainda mais vezes eles acham que estão certos e dizem aos outros que estão certos. E isto é um reforço suficiente. E, de qualquer maneira, você está errada em dizer que nenhum organismo pode ser ensinado  a errar o tempo todo.

F:         Quando as pessoas dizem que algo é “instintivo” elas estão tentando tornar as coisas simples?

P:        Sim, estão.

F:         E elas estão erradas?

P:        Não sei. Depende do que elas querem dizer.

F:         Oh. E quando é que elas fazem isto?

P:        Sim, essa é uma forma melhor de fazer a pergunta. Elas fazem isso quando vêm uma criatura fazer alguma coisa, e estão certas de que, primeiro, a criatura não aprendeu  a fazer aquilo; segundo, que a criatura é muito estúpida para compreender porque ela deveria fazer aquilo.

F:         E as pessoas fazem isso em outras ocasiões também?

P:        Sim. Quando elas observam que todos os membros da espécie animal fazem as mesmas   coisas submetidos às mesmas circunstâncias; e quando elas vêm o animal repetindo as   mesmas ações mesmo quando as circunstâncias mudam e as ações não são mais bem sucedidas.

F:         Então existem 4 maneiras de saber que uma coisa é instintiva.

P:        Não. São 4 condições nas quais os cientistas falam de instinto.

F:         Mas e se uma das condições não está lá? Um instinto parece mais um hábito ou costume.

P:        Mas hábitos são aprendidos.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Os hábitos são sempre aprendidos duas vezes?

P:        O que você quer dizer com isso?

F:         Eu quero dizer – quando eu aprendo uns acordes novos no violão, primeiro eu os aprendo, ou encontro; e mais tarde, quando eu pratico, eu desenvolvo o hábito de tocá-los daquela maneira. E as vezes eu desenvolvo hábitos errados.

P:        Aprendendo a errar o tempo todo?

F:         Oh – está bem. Mas e aquele negócio de fazer as coisas duas vezes? Estas duas partes não existiriam se tocar violão fosse instintivo?

P:        Sim. Se as duas partes da aprendizagem estivessem faltando os cientistas poderiam dizer que tocar violão é instintivo.

F:         Mas e se apenas uma parte da aprendizagem estiver faltando?

P:        Então, logicamente, a parte que falta poderia ser explicada pelo “instinto”.

F:         Qualquer das duas partes poderia faltar?

P:        Eu não sei. Acho que ninguém sabe.

F:         Oh.

-x-x-

F:         As aves praticam seu canto?

P:        Sim. Algumas aves praticam seu canto.

F:         Acho que o instinto lhes dá a primeira parte do canto, mas elas têm que trabalhar a segunda parte.

P:        Talvez.

F:         A prática poderia ser instintiva?

P:        Eu suponho que sim. Mas não estou certo do que a palavra “instinto” está significando nessa conversa toda.

F:         Um instinto é um princípio explicativo, Papai, como você disse. …Mas há uma coisa que eu não entendo.

P:        Sim?

F:         Existe um grande pacote de instinto? Ou há muitos instintos?

P:        Sim, essa é uma boa pergunta, e os cientistas falaram muito sobre ela, fazendo listas de instintos separados, e depois misturando todos num bolo só.

F:         Mas qual é a resposta?

P:        Bem, não está muito claro. Mas uma coisa é certa: que os princípios explicativos não devem ser multiplicados sem necessidade.

F:         Como assim?

P:        É a idéia por trás do monoteísmo – a idéia de que um grande Deus é preferível à idéia de dois deuses menores.

F:         Deus é um princípio explicativo?

P:        Oh, sim – um muito grande. A gente não deve usar duas caixas pretas, ou dois instintos, para explicar o que uma caixa preta só explicaria…

F:     Se ela fosse suficientemente grande.

P:        Não. Isto quer dizer…

F:         Existem instintos grandes e instintos pequenos.

P:        Bem, na verdade os cientistas falam como se existissem. Mas eles usam outros nomes para os pequenos instintos – “reflexos”, “mecanismos inatos”, “padrões fixos de ação”, etc.

F:         Sei – como ter um Deus grande para explicar o Universo e um monte de pequenas entidades para explicar as pequenas coisas que acontecem.

P:        É, mais ou menos isso.

F:         Mas, Papai, como é que eles embolam as coisas para fazer os grandes instintos?

P:        Bem, eles não dizem que o cão tem um instinto que o faz bambolear quando ele cai do barrnco e outro que faz com que ele se afaste do fogo.

F:         Você quer dizer que todas essas coisas seriam explicadas pelo instinto de auto-preservação?

P:        Algo assim.

F:         Mas se você botar todas essas ações juntas dentro de um instinto, não podemos evitar dizer que o cão utiliza a noção de “self”.

P:        É, talvez não.

F:         O que você diria sobre o instinto para a canção e o instinto para praticar a canção?

P:        Bem – dependeria do uso que a canção tem. Tanto a canção como sua prática poderiam estar dentro de um instinto territorial, ou de um instinto sexual.

F:         Eu não juntaria essas coisas.

P:        Não?

F:         E se o pássaro também praticasse catar sementes, ou uma outra coisa – a gente teria que multiplicar os instintos – como é mesmo que se diz?)- ….desnecessariamente.

P:        O que você quer dizer?

F:         Eu quero dizer que um instinto de arranjar-alimento para explicar a prática de catar sementes e um instinto territorial para explicar a prática da canção. Porque não ter um instinto só, um instinto para “praticar”? Isto economizaria uma caixa preta.

P:        Mas então você teria que abandonar a idéia de juntar sob um mesmo instinto ações com o mesmo propósito.

F:         Sim, porque se a prática existe com um propósito – isto é: se o pássaro tem um propósito – então a prática é racional e não instintiva. Você não disse algo assim?

P:        Sim, eu disse algo assim.

-x-x-

F:         Poderíamos abandonar a idéia de instinto?

P:        Como você explicaria as coisas então?

F:         Bem, eu olharia somente para coisas pequenas: quando se ouve um estampido, o cão dá                  

             um pulo; quando o chão lhe foge aos pés, ele bamboleia o corpo. Assim por diante.

P:        Você quer dizer – todos os duendes e nenhum Deus?

F:         É, alguma coisa assim.

P:        Bem, há cientistas que tentam falar assim, e está bastante na moda. Eles dizem que

isso é mais objetivo.

F:         E é?

P:        Oh, é sim.

F:         O que significa “objetivo”?

P:        Bem, significa que você olhar bastante para as coisas que você escolheu para olhar.

F:         Isto parece correto. Mas como é que as pessoas objetivas escolhem as coisas sobre as quais elas vão ser objetivas?

P:        Bem, elas escolhem as coisas sobre as quais é mais fácil ser objetivo.

F:         Você quer dizer fácil para estas pessoas?

P:        Sim.

F:         Mas como é que elas sabem que essas coisas são as coisas fáceis?

P:        Eu suponho que elas experimentam com muitas coisas e escolhem as mais fáceis.

F:         Então é uma escolha subjetiva?

P:        Oh, sim. Toda experiência é subjetiva.

F:         Mas é humana e subjetiva. Elas decidem que parte do comportamento animal elas querem encarar objetivamente consultando a experiência subjetiva humana. Você não disse que o antropomorfismo era uma coisa ruim?

P:        Sim, mas estas pessoas procuram não ser humanas.

F:         O que é que elas deixam de fora?

P:        Como assim?

F:         Eu quero dizer que a experiência subjetiva mostra a essas pessoas quais são as coisas       sobre as quais é fácil ser objetivo. Então, elas vão e estudam essas coisas. Mas quais   são as coisas que a experiência delas indica serem difíceis de serem tratadas objetivamente? En elas evitam essas coisas. Quais são essas coisas que elas evitam?

P:        Bem, você mencionou antes alguma coisa chamada “prática”. Esta, por exemplo, é uma coisa difícil de ser tratada objetivamente. E existem outras coisas que são difíceis do mesmo jeito. Brincar, por exemplo. E explorar. É difícil ser objetivo sobre se um rato  está realmente explorando ou se está realmente brincando. Então elas não investigam         coisas assim. E existe ainda o amor. E, é claro, o ódio.

F:         Eu entendo. São o tipo de coisas para as quais elas gostariam de inventar instintos  separados.

P:        É, estas coisas. E não se esqueça do humor.

F:         Papai, os animais são objetivos?

P:        Eu não sei – provavelmente não. Eu penso que eles não são subjetivos também. Eu não acho que eles são divididos desta maneira.

F:         Não é verdade que as pessoas têm uma dificuldade especial sobre as partes mais   animais de suas naturezas.

P:        Eu acho que sim. Pelo menos, Freud disse isso, e eu acho que ele estava correto.  Porque você pergunta isso?

F:         Porque, Papai, aquelas pobres pessoas, que tentam estudar os animais. E elas se   especializam nas coisas que elas podem estudar objetivamente. E elas só podem ser objetivas sobre aquelas coisas nas quais elas próprias são menos como os animais. Deve ser difícil para elas.

P:        Não, isto não é necessariamente assim. Ainda é possível para as pessoas serem objetivas sobre algumas coisas em sua natureza animal. Nem todo o comportamento animal está dentro do conjunto de coisas sobre as quais as pessoas não conseguem serobjetivas.

F:         Não?

-x-x-

F:         Quais são as diferenças realmente grandes entre pessoas e animais?

P:        Bem, o intelecto, a linguagem, o uso de ferramentas – coisas assim.

F:         E é fácil para as pessoas serem intelectualmente objetivas na linguagem e sobre o uso de ferramentas?

P:        Sim, é verdade.

F:         Mas isso então quer dizer que nas pessoas existe todo um conjunto de idéias, e sei lá o que, que estão todas unidas umas às outras. E uma espécie de segunda criatura dentro  das pessoas, e esta segunda criatura deve ter uma maneira bem diferente de pensar  sobre tudo. Uma maneira objetiva.

P:        É, o caminho para a consciência e a objetividade é através da linguagem e das ferramentas.

F:         Mas o que acontece quando essa criatura olha para todas aquelas partes da pessoa sobre as quais é difícil ser objetivo? Ela apenas olha? Ou ela interfere?

P:        Interfere.

F:         E o que acontece?

P:        Essa é uma pergunta terrível.

F:         Continue. Se nós vamos estudar animais precisamos enfrentar essa pergunta.

P:        Bem, os poetas e artistas sabem a resposta melhor que os cientistas.Deixe-me ler um poema de W. Blake:

Thought chang’d the infinite to a serpent, that which pitieth

To a devouring flame; and man fled from its face and hid

In forests of night: then all the eternal forests were divided

Into earths rolling in circles of space, that like an ocean rush’d

And overwhelmed all except this finite wall of flesh.

Then was the serpent temple form’d, image of infinite

Shut up in finire revolutions; an man bacame an Angel,

Heaven a mighty circle turning, God a tyrant crow’d.

(In Europe a Prophecy, 1794)

F:         Eu não compreendo. Parece terrível. Mas o que quer dizer?

P:        Bem, não é uma afirmação objetiva, porque ela fala do efeito da objetividade – o que o poeta chama de pensamento (thought) – sobre a pessoa toda ou sobre o todo da vida. O pensamento deveria permanecer uma parte do todo mas, em vez disso, ele se espalha e interfere com o resto.

F:         Continue.

P:        Bem, ele reduz tudo a fatias.

F:         Eu não compreendo.

P:        Bem, o primeiro corte é entre a coisa objetiva e o resto. E ,então, dentro da criatura que é feita à imagem do intelecto, linguagem e ferramentas, é natural que o propósito evolua. As ferramentas existem com um propósito e qualquer coisa que atrapalhe um propósito é um empecilho. O mundo da criatura objetiva fica dividido em “coisas úteis” e “coisas que atrapalham”.

F:         Sim, entendi.

P:        Pois bem: quando a criatura aplica este corte ao mundo da pessoa inteira e as coisa “úteis” e as que “atrapalham” se tornam o Bem e o Mal, e o mundo é dividido entre Deus e a Serpente. E depois disso, mais e mais cortes se seguem porque o intelecto está sempre dividindo e classificando as coisas.

F:         Multiplicando princípios explicativos desnecessariamente.

P:        Isto.

F:         Então, inevitavelmente, quando a criatura objetiva olha para os animais, ela faz cortes e faz os animais parecerem serem humanos que tiveram suas almas invadidas por seus intelectos.

P:        Exatamente. É uma espécie de antropomorfismo não-humano.

F:         E é por isso que as pessoas objetivas estudam todos os duendes em vez das coisas grandes?

P:        Sim. Isto se chama psicologia do estímulo-resposta(S-R psychology).  É fácil ser objetivo sobre sexo mas não sobre amor.

-x-x-

F:         Papai, estivemos falando sobre dois jeitos de estudar animais – a maneira do grande instinto e a maneira estímulo-resposta, e nenhuma das duas parecia muito boa. O que vamos fazer?

P:        Não sei.

F:         Você não disse que a verdadeira estrada para a objetividade e a consciência é a linguagem e as ferramentas? Qual é o verdadeiro caminho para a outra metade?

P:        Freud disse que eram os sonhos.

F:         Oh.

-x-x-

F:         O que são os sonhos? Como eles são montados?

P:        Bem, os sonhos são peças e pedaços do material do qual somos feitos. O material não-objetivo.

F:         Mas como eles são montados?

P:        Olhe, nós não estaríamos nos afastando muito do estudo do comporta mento animal?

F:         Não sei. Mas acho que não. Parece que nós vamos ser antropomórficos de uma maneira ou de outra, o que quer que façamos. E é obviamente errado construir nosso antropomorfismo do lado da natureza humana que é mais diferente dos animais. Então, vamos tentar o outro lado. Você disse que os sonhos são o verdadeiro caminho para o outro lado. Então…

P:        Não fui eu quem disse. Freud disse. Isto, ou algo semelhante.

F:         Está bem. Mas como são montados os sonhos?

P:        Você quer dizer: como dois sonhos se relacionam um com o outro?

F:         Não. Porque, como você disse, eles são apenas peças e pedaços. O que eu quero dizer é: como um sonho é montado dentro dele mesmo?  Poderia o comportamento animal ser montado da mesma maneira?

P:        Eu não sei por ponde começar.

F:         Bem, os sonhos têm opostos?

P:     Oh, não! A velha idéia! Não. Os sonhos não prevêm o futuro. Os sonhos estão assim como que suspensos no tempo. Nos sonhos não há tempos verbais.

F:         Mas se uma pessoa está com medo de alguma coisa que ela sabe quevai acontecer amanhã, ela pode sonhar com isto esta noite.

P:        Certamente. Ou sobre alguma coisa do passado. Ou sobre o passado e o presente. Mas o sonho não possui rótulos dizendo “sobre que” ele é. Ele apenas é.

F:         Você quer dizer que os sonhos não têm primeira página?

P:        Sim. São como velhas cartas ou manuscritos que perderam o início e o fim, e os historiadores têm que dar um palpite sobre quem as  escrever, e quando, e sobre o que eles são- olhando o que está dentro.

F:         Então nós vamos ter que ser objetivos também?

P:        Sim, de fato. Mas nós sabemos que temos de ter cuidado sobre isto. Temos que prestar atenção para não forçar os conceitos da criatura que lida com a linguagem e as ferramentas sobre o material dos sonhos.

F:         Como assim?

P:        Bem. Por exemplo: se os sonhos não têm tempos verbais e estão suspensos no tempo, então, seria forçar o tipo errado de objetividade dizer que um sonho faz “previsões” de alguma coisa. E igualment  errado dizer que ele é uma afirmação sobre o passado. Um sonho não é história.

F:         Somente propaganda?

P:        Como assim?

F:         Eu quero dizer – é como o tipo de histórias que os propagandistas usam, que eles dizem que são história, mas são simplesmente fábulas.

P:        Sim, sonhos são, em muitos aspectos, como mitos e fábulas. Mas não criados por um propagandista. Não planejados.

F:         E os sonhos sempre têm uma moral?

P:        Eu não sei se sempre. Mas muitas vezes, sim. Mas a moral não é explicitada no sonho. O psicoanalista tenta fazer o paciente achar a moral do sonho. Na verdade, o sonho inteiro é a moral.

F:         E o que ele significa?

P:        Eu não sei direito.

-x-x-

F:         Bem, os sonhos têm opostos? A moral do sonho é o oposto do que o sonho parece dizer?

P:        Oh, sim. Muitas vezes. Os sonhos muitas vezes têm um viés sarcástico ou irônico. Uma espécie de reductio ad absurdum .

F:         Por exemplo?

P:        Um amigo meu foi piloto de caça na segunda guerra mundial. Depois da guerra ele se formou em psicologia e teve que ser examinado na sua tese. Ele começou a se apavorar mas, na noite antes do exame, ele teve um pesadelo no qual ele sentiu de novo estar num avião que estava sendo abatido. No dia seguinte ele foi defender a tese sem medo.

F:         Porque?

P:        Porque seria tolice para um piloto de caça ficar com medo de um punhado de professores universitários que não podiam realmente abatê-lo.

F:         Como é que ele sabia disso? O sonho poderia estar dizendo a ele que os professores iriam realmente abatê-lo. Como é que ele percebeu a ironia do sonho?

P:        Hmm. A resposta é que ele não sabia. O sonho não tem um rótulo dizendo: sou um sonho irônico. E quando as pessoas estão sendo irónicas em conversas acordadas, muitas vezes elas não dizem que estão sendo irônicas.

F:         Não, é verdade. Eu sempre achei isto meio cruel.

P:        Sim, muitas vezes é.

-x-x-

F:         Papai, animais podem ser irônicos ou sarcásticos?

P:        Não, acho que não. Mas eu não estou certo de que estas são as palavras corretas. “Irônico” e “sarcástico” são palavras para análise do material da linguagem. E animais não têm linguagem. Talvez isto seja parte do tipo errado de objetividade.

F:         Está bem. Mas, então, animais lidam com opostos?

P:        Bem, sim. Na verdade, eles lidam. Mas não estou certo que é a mesma coisa.

F:         Continue. Como é que eles lidam com isso? E quando?

P:        Bem, você sabe quando um cachorrinho se deita de costas e expõe a barriga para um cachorro maior? Isto é como convidar o cachorro maior a atacar. Mas funciona da maneira oposta. Impede o cão maior de atacar.

F:         Sim. É um tipo de uso dos opostos. Mas eles sabem disso?

P:        Você quer saber se o cachorro grande sabe que o cachorrinho está dizendo o oposto do que ele significa? E se o cachorrinho sabe que esta é a maneira de parar o cachorro grande?

F:         Sim.

P:        Eu não sei. Algumas vezes penso que o cachorrinho sabe um pouco mais sobre isso que o cachorro grande. De qualquer forma, ele não dá nenhum sinal de que sabe disso. Obviamente ele não poderia fazer isso

F:         Então é como os sonhos. Não existem rótulos para dizer que o sonho está lidando com opostos.

P:        Está certo.

-x-x-

F:         Eu acho que estamos chegando a alguma coisa. Sonhos lidam com opostos, e animais lidam com opostos, e nenhum dos dois mostra rótulos avisando que estão lidando com opostos.

P:        Hmm.

F:         Porque os animais brigam?

P:        Oh, por muitas razões. Território, sexo, comida…

F:         Papai, você está falando como na teoria dos instintos. Eu pensei que nós concordávamos em não falar assim.

P:        Está bem. Mas que tipo de resposta você quer que eu dê à pergunta: porque os animais brigam?

F:         Bem, eles lidam com opostos?

P:        Oh, sim. Muitas lutas conduzem a algum tipo de acordo de paz. E, certamente, brincar de brigar é, em parte, um meio de afirmar a amizade. O descobrir, ou redescobrir a amizade.

F:         Eu bem que pensava isso…

-x-x-

F:         Mas porque não há rótulos? É pela mesma razão em sonhos e nos animais?

P:        Eu não sei. Mas você sabe, os sonhos nem sempre lidam com opostos.

F:         Não, é claro, nem os animais.

P:        Então está bem.

F:         Vamos voltar a aquele sonho do seu amigo. O efeito total do sonho   foi como se alguém lhe houvesse dito: ” você em um avião de caça não é a mesma coisa que você defendendo sua tese.”

P:        Sim. Mas o sonho não explicitou isso. O sonho somente disse: “você está num avião de caça”. Deixou de fora o “não”, e deixou de fora a instrução de comparar o sonho com outra coisa e deixou de fora com que outra coisa ele devia ser comparado.

F:         Está bem. Vamos pegar o “não” primeiro. Existe algum “não” no comportamento animal?

P:        Como poderia haver?

F:         Quer dizer, poderia um animal dizer com suas ações: “eu não vou lhe morder”?

P:        Bem, em primeiro lugar, a Comunicação por ações não pode, de forma alguma, usar tempos verbais – eles só existem na linguagem.

F:         Você não disse que os sonhos não têm tempos verbais?

P:        Hmm…Sim, eu disse,

F:         Está bem. Mas e o “não” – pode o animal dizer: “eu não vou morder você”?

P:        Ainda há um tempo verbal nisso. Mas deixe para lá. Se o animal não está mordendo o outro, ele não está mordendo o outro. E isso é tudo.

F:         Mas ele podia não estar fazendo todos os tipos de coisas, dormindo, comendo, correndo, e por aí em diante. Como pode ele dizer: “morder é o que eu não estou fazendo”?

P:        Ele só pode fazer isso se “morder” foi de alguma forma mencionado.

F:         Você quer dizer que ele poderia dizer “Eu não estou mordendo você”  primeiro mostrando os dentes e, então, não mordendo?

P:        Sim. Alguma coisa assim.

F:         Mas e se considerarmos dois animais? Ambos mostram os dentes.

P:        Sim.

F:         Mas, me parece que eles poderiam se confundir e começar uma luta real.

P:        É. Existe sempre este perigo quando se está lidando com opostos e não diz, ou não pode dizer o que você está fazendo, especialmente quando você não sabe o que você está fazendo.

F:         Mas o animal saberia que está mostrando as presas no sentido de dizer;”eu não vou morder você.”

P:        Eu duvido que ele saiba. Certamente nenhum animal sabe sobre o outro. Quem sonha, não sabe , no início do sonho, como ele vai terminar.

F:         Então é uma espécie de experimento?

P:        É.

F:         Então, pode ser que eles briguem para saber se brigar era o que eles tinham que fazer.

P:        Sim, mas eu poria isso de uma forma menos cheia de propósito – diria que a briga mostra que tipo de relações eles têm, depois que ela acaba – não é uma coisa planejada.

F:         Então o “não” não está realmente lá quando os animais mostram suas presas?

P:        Eu acho que não. Ou muitas vezes não. Talvez velhos amigos possam se engajar em uma luta de brincadeira e saber desde o início o que estão fazendo.

-x-x-

F:         Está bem. Então o “não” está ausente do comportamento animal porque o “não” é uma parte da linguagem verbal, e não pode haver nenhum sinal de ação para “não”. E porque não existe “não”, a única maneira de concordar sobre uma negativa é agir por “redução ao absurdo”  (reductio ad absurdum) . Você tem que ensaiar uma batalha para mostrar            que não existe uma, e tem que ensaiar submissão para provar que o outro não vai devorar você.

P:        Sim.

F:         E os animais tiveram que resolver isto?

P:        Não. Porque é necessariamente verdade. E aquilo que é necessariamente verdadeiro governará você a despeito de você saber ou não que aquilo é necessariamente verdadeiro. Se você junta duas maçãs a  três maçãs, você obtém cinco maçãs – mesmo que você não saiba contar. É uma outra maneira de explicar as coisas.

F:         Oh.

-x-x-

F:         Mas porque os sonhos deixam o “não” de fora?

P:        Eu acho que realmente é por uma razão similar. Os sonhos são em grande parte feitos de imagens e sentimentos, e se você vai comunicar em imagens e sentimentos e coisas assim, você está novamente governado pelo fato de que não existe uma imagem para “não”.

F:         Mas você poderia sonhar com uma sinal de “PARE” com uma linha encima dele, representando “NÃO PARE”.

P:        Sim, mas isto já é meio caminho para a linguagem. E a linha que corta o “PARE” não é a palavra “não”. É a mensagem “Não faça…”(dont’t) “Não faça…” pode ser comunicado numa linguagem de ações – se a outra pessoa faz um movimento para mencionar o que você quer proibir. Você pode mesmo sonhar em palavras, e a palavra “não” pode estar entre elas. Mas eu duvido que você possa sonhar um “não” que não seja sobre o sonho. Quer dizer: um “não” que signifique: “Este sonho não é para ser tomado ao pé da letra”. As vezes, no sono muito leve, agente sabe que está sonhando.

-x-x-

F:         Mas Papai, você ainda não respondeu como os sonhos são montados.

P:        Eu acho que realmente já respondi a essa pergunta. Mas deixe-me  tentar de novo. Um sonho é uma metáfora, ou um novelo de metáforas. Você sabe o que é uma metáfora?

F:         Sim. Se eu disser, você é como um porco, isto é um simile. Mas se  eu disser, você é um porco, isto é uma metáfora.

P:        Mais ou menos isso. Quando uma metáfora é rotulada como metáfora ela se transforme em um simile.

F:         E é esse rótulo que o sonho deixa de fora.

P:        Exatamente. Uma metáfora compara coisas sem explicitar a comparação. Ela toma o que é verdade de um grupo de coisas e as aplica a outra coisa. Quando nós dizemos que este país está apodrecendo nós estamos usando uma metáfora, sugerindo que algumas mudanças no país são como as mudanças que as bactérias promovem nas frutas. Mas nós não nos damos ao trabalho de mencionar as frutas nem as bactérias.

F:         E um sonho é algo assim?

P:        Não. É o contrário disso. O sonho mencionaria as frutas e possivelmente as bactérias mas não mencionaria o país. O sonho elabora as relações mas não identifica as coisas que são relacionadas.

F:         Papai, faça um sonho para mim?

P:        Você quer dizer, com essa receita? Não. Vamos pegar o poema que acabamos de ler (o de W.Blake) e transforma-lo em um sonho. Ele é feito do material dos sonhos, assim como ele é. Você só tem que substituir as palavras por imagens. E as palavras são bem vívidas. Mas o colar de metáforas ou imagens está preso, amarrado – e não seria assim em um sonho.

F:         O que você quer dizer por “preso”, “amarrado”?

P:        Amarrado pela primeira palavra;”Thought“. Esta palavra o autor está usando literalmente, e esta palavra que lhe dá o sentido de todo o  resto.

F:         E em um sonho?

P:        Esta palavra, também, como as outras, teria que ser metafórica. Mas então o poema inteiro ficaria muito mais difícil.

F:         Então, troque essa palavra.

P:        Que tal “Bárbara mudou o infinito…” e daí em diante.

F:         Mas porque? Quem é Bárbara?

P:        Bem, ela é bárbara, e ela é fêmea, e ela é o nome mnemônico de um sentimento silogista. Eu pensei que ela ficaria bem como um símbolo  monstruoso para “Thought”. Eu posso vê-la com um par de compassos espetando seu próprio cérebro para mudar seu universo.

F:         Pare com isso !

P:        Está bem. Mas você entende o que eu quero dizer quando digo que nos sonhos as metáforas não estão presas.

-x-x-

F:         E os animais: eles prendem suas metáforas?

P:        Não, eles não têm que fazer isso. Veja, quando um ave adulta se aproxima de outra ave adulta do sexo oposto fazendo ruídos como se fosse uma ave pequenina, ela está usando uma metáfora tirada da relaçãoentre pais e filhos. Mas ela não tem que “prender”, “amarrar”, a que relação ela está se referindo. É obviamente a relação entre ela e aoutra ave. Ambos estão presentes.

F:         Eu não penso assim. Não – nem os mamíferos. E eu acho que nem as aves pensam assim. Abelhas – talvez. E, é claro, as pessoas.

-x-x-

F:         Há uma coisa que eu não entendo.

P:        Sim?

F:         Nós achamos uma porção de coisas em comum entre o comportamentoanimal e os sonhos. Ambos lidam com opostos, ambos não têm tempos verbais, nenhum dos dois usam o “não”, e ambos trabalham com metáforas, e nenhum dos dois “prende” suas metáforas. Mas o que eu não entendo é – porque quando eles fazem essas coisas, isso faz sen-tido. E eles não precisam “prender” suas metáforas – mas eu não vejo porque os sonhos têm que ser assim também.

P:        Nem eu.

F:         E há outra coisa.

P:        Sim?

F:         Você falou que os cromossomas e os genes carregam mensagens sobre o desenvolvimento. Eles falam como animais e sonhos? Quer dizer: em metáforas e sem usar o “não”? Ou eles falam como nós?

P:        Eu não sei. Mas estou certo de que seu sistema de mensagens não contém nenhuma transformação simples da Teoria do Instinto.

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Tradução: Nelson Vaz, ICB, UFMG nvaz@ icb.ufmg.br

(1)  In “Steps to an Ecology of Mind” Ballantine Books, New York, 1972, pp 38-58.