Contos

Meu santo, meu superior

Meu santo, meu Superior

Me mate, mas não me maltrate, meu Santo. Se eu tiver que morrer, me mate, mas não me maltrate, Superior, que a vida é bonita e boa prá quem sabe ver, não é meu Santo? Quem não sabe é mesmo que cego, que passa e não vê – não é assim, meu Superior? Estou aqui prá seu serviço. Todos me conhecem aqui, é só perguntar. Desde o Aventureiro, à praia do Sul, até aqui no Abrahão. Estou com sessenta e um anos, contados de direito, meu Santo, e nunca me meti numa briga, nunca quiz mal a ninguém. Esse é meu mundo, a Ilha Grande,, que eu conheço inteira, a pé e por mar. Toda trilha, toda ponta de pedra, que eu já viajei com lesteiro e com sudoeste, de canoa, de bote e de voadeira. Tá rindo, meu Superior; ri não, Superior, não me maltrate. Conheço tudo e todos aqui. Meu nome é Joaquim Cardoso dos Santos, mas todo mundo me conhece por Meu Santo, sabe, meu Superior. Quero bem a todos. Vivo aqui nesse mundo do Abrahão agora, mas sou do Aventureiro, do mar de fora; isso aqui é o mar de dentro. Prá lá é a terra firme, aquela é a Marambaia; aquilo lá brilhando, a gente pensa que é mar, mas é a restinga, branquinha. Por ali se vai até o Rio de Janeiro. Estive lá, com minha patroa, prá internar no Hospital de Ipanema. Andei pela Lagoa Rodrigo de Freitas, por cima da amurada, a volta toda dela. Mas a lagoa do Aventureiro é maior e criadeira, assim de parati, de tainha. Meu santo tá com essa viola. Sabe tocar? É? Que bom, meu Santo. Vou lhe apresentar mais tarde o Braz, ali no bar do Carlinhos, ou na Dona Irene, e a gente vai cantar Canoa quando a lua sair. Hein? Bote não, não bote que eu não bebo, meu Santo. Então, só um pouquinho, se é especial eu bebo um pouquinho prá não lhe desfeitear, meu Superior. Humm, mas que coisa boa. Essa o Braz vai gostar muito. Tem mais? Ah, que bom! Com uma cana dessas a gente vai reto que nem o tronco do Bacurubú. Bacurubú? É aquela árvore ali, sozinha, altaneira, árvore de fazer canoa. Sabe qual é a árvore que mais dá no mato? Sabe não? É pau torto, meu Santo, que pau reto que nem o Bacurubú todo mundo apanhou prá fazer canoa. Faço. Já fiz muita canoa. E cantei muita Canoa, também. Canoa de encher de peixe na lida do trabalho, corvineira dentro, vinte braças de fundo. Mas é um trabalho duro, me mate, mas não me maltrate, meu Superior.

Tá bem acompanhado, né Meu Santo? Que vida boa, mas não me maltrate, Superior. Aqui na Ilha é assim, Meu Santo, paisagem bonita prá todos os lados. Ah, que vida mais bonita. Prá onde se olha é esse prazer. O que? Meu santo fica se rindo com essa cara marota, tô olhando sua companhia não, meu Santo. Me dê um pouco dessa pinga boa, que eu já vou indo, Meu Superior. Vou lhe trazer um olhudo, um peixe bom, aparentado do xererete, trago limpo já apostado, é só fritar ou fazer ensopado com pirão, como meu Santo quiser. Quanto custa? Que é isso, meu Superior? Quer perder a amizade? E só porque lhe quero bem e mais à sua menina – tão bonita, não é, meu Santo? Que vida mais bonita. Prá onde se olha só se vê boniteza. Não se ria não, meu Superior. Olha aqui que paisagem mais bonita, não é mesmo? Tanta moça bonita vem aqui, tudo barraqueiro. No Carnaval, chegam trinta mil pessoas no Abrahão. Isso aqui fica uma boniteza! Teve bloco e calango e sanfoneiro vindo de Angra. Não tinha nenhum homem no mato, meu Santo. Homem no mato? É preso fugido, meu Superior. Tudo tranqüilo, tempo bom, um mundaréu de gente, aquela boniteza toda. Ah, me mate, mas não me maltrate.

Me diga, meu Santo: onça pintada pega criança? Não sabe não? Mas como é que onça pintada vai pegar criança? Ela fica ali no quadro onde foi pintada, não é, meu Santo, pega ninguém não.

Então, tá bom, né meu Superior? Lesteiro macio soprando, água verde parada, a barra serenou, não vai mais chover. Meu santo fica aqui com sua menina bonita – eita vida bonita – eu vou buscar o olhudo. Mais tarde, depois de Meu Santo comer o olhudo – de que é que Meu Santo tá se rindo? – depois, venho lhe buscar com sua menina e seu violão prá gente ir encontrar o Braz e a gente vai tocar uma Canoa na beirinha do mar quando a lua sair. O que? Uma saideira dessa pinga boa? Ah, Meu Santo, me mate, mas não me maltrate.

 

Canoa, minha Canoa,

Canoa, meu coração

do braço faço a gaiola

do peito faço azulão

 

Canoa, minha Canoa,

Canoa, minha morena,

prá te levar eu não posso

prá te deixar tenho pena