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Nelson Vaz
160616 – blog da SBI – junho – 2016

Change proposes constancy: What is the ongoing entity
of which we can say that it has assumed a new form?
Mary Catherine Bateson

No lusco-fusco do acordar, eu pensava na natureza das novidades. Pensava em “Nada de novo no front”, o título intrigante do famoso filme de Eric Maria Remarque (1930). Como pode haver nada de novo nas trincheiras de uma guerra encarniçada? Há um dilema cognitivo aqui, que a epígrafe de M.C. Bateson aponta: A mudança requer uma constância anterior. O dilema tem a ver com o conhecer, com as decisões. Esta pergunta está no título de um texto que Niels Jerne escreveu pouco antes de propor a teoria da rede idiotípica: “O que precede a seleção clonal?”[1]. O que existia antes? Se o viver decorre pelo reconhecimento do que é novo, onde colocar o que se repetia, o que é antigo? Como em um verso de Paulo Lemisnky, “Anti, anti, anti, anti…antigo” –parece imunologia idiotípica.

Para a maioria dos cientistas a imunologia é adaptativa e o conhecer é visto como “adaptar-se”, é ser guiado por uma nova interação, ser instruído a acolher o novo, incorporar o que não se esperava. Para Maturana, o novo pode ser “inesperado” e também “inesperável”, algo que se passa e razoavelmente não podemos encaixar a posteriori no que já sabíamos [2]. O primeiro capítulo do último livro de Andrew Pickering [3] se intitula “The Adaptive Brain” e tem exatamente este sentido: de que o cérebro é um órgão de adaptação. Isso é também o que pensa Fritjov Capra sobre o sistema imune, que ele chama de nosso segundo cérebro” [4] Mas, se a rotina do cérebro e do sistema imune fossem o reconhecimento de novidades, o que se passaria se não ocorresse mudança alguma? Qual a verdadeira rotina do reconhecedor de novidades? Adaptar-se ou conservar a adaptação? – estes são processo muito diferentes; um é eventual, o outro processual, contínuo.

Creio que podemos pensar em novidades sem omitir o antecedente, que é exatamente a operação de um sistema que tem uma constância que permite certas mudanças, e não outras; há regras responsáveis pela constância. Como disse Jorge Mpodozis, e nós colocamos como epígrafe em nosso livro: ”Como se conserva aquilo que se conserva naquilo que muda?” [5] Porque os seres vivos são fluxos contínuos de mudança; interrompa essa mudança e eles se desintegram. O que se conserva é uma maneira de mudar. Parece contraditório, mas um rio é uma forma de mudança que continua sendo o mesmo rio. Até que outra coisa acontece. É como nos versos de Luiz de Camões:

Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades

…………………………………….

E, afora este mudar-se cada dia

Outra mudança faz, de mor espanto,

que não se muda já como soía.

[1] Jerne, N. K. (1971). What precedes clonal selection ? Ciba Foundation Symposium, 1971 : Ontogeny of acquired immunity. Amsterdam, Elsevier: 1-15.

[2] Maturana, H. (2009). O inesperável. Em Habitar Humano: em seis ensaios de Biologia Cultural. São Paulo: 297-300.

[3] Pickering, A. (2010) “The Cybernetic Brain: Sketches of Another Future”, Chicago, University of Chicago Press.

[4] www.combusem.com/CAPRA4.HTM

[5] Mpodozis, J. (2011). Ontogênese. Onde está o organismo? Derivas e outras histórias na biologia e na Imunologia. N. Vaz, J. Mpodozis, J. F. Botelho and G. C. Ramos. Florianópolis, Editora-UFSC: 45-60.